quarta-feira, maio 11, 2016

tesouro maldito

eram doze passos bem medidos para a direita do sobreiro mais velho do jardim. ou seriam onze? a pá era pesada mas maior era a dor de carregar aquele esqueleto gasto de uma má-vida-de-copos-e-salgados. afonso puxava cigarro atrás de cigarro na esperança de que o tempo que se leva a cavar uma cova sem fundo fosse menor do que a ânsia do galo cacarejar dai a duas horas. pouca-terra, pouca-terra, o comboio insistia em não furar e o tesouro não chegava. seriam onze passos? a noite estava fria e a humidade inundava o jardim, ao longe passos e risos. uma menina e um menino descobriam os prazeres da carne, enquanto afonso queria apenas os luxos da luxúria e do bem-bom. seria à esquerda? foi noutra vida, noutros tempos, noutras noites frias, com outros risos ao fundo. mão na coisa, coisa na mão, e um tesouro que se guardou para depois. "o meu tesouro será teu se souberes esperar." afonso esperou uma vida, enterrou família, amigos e sozinho ficou. hoje a noite está fria. seria do cipreste? "isso é árvore que transpira morte, afonso, foge disso!", seriam as palavras sensatas de irene. ele ficou e cavou, cavou, cavou. "cavou a sua própria sepultura.", escreveu o jovem polícia na manhã seguinte, enquanto gracejava com o colega: "este devia ser alentejano."

terça-feira, maio 03, 2016