quarta-feira, novembro 25, 2015

pedro, o feliz

pedro era um miúdo normal. tinha mil amigos e sabia bem qual era o preferido, o segundo, terceiro, quarto, tudo bem definido e contabilizado, mesmo até ao fim, até chegar ao gordo da rua da avó, que era divertido apesar de ser gordo. "os gordos são sempre assim", dizia a avó antes de acrescentar "menos a badocha da dona laura, da praça, que rouba sempre na fruta". pedro era feliz, andava nos escuteiros, tinha boas notas, recebera uma fantástica bola de couro. esta era mesmo redonda! o jaime tinha medo dela e deixava sempre entrar se pedro rematasse à figura. lia livros com ladrões e bandidos, que os policias eram uma seca e histórias de príncipes e donzelas eram conversa da prima francesa. pedro sorria, sorria muito e ria, ria sobretudo quando o avô contava aquelas histórias assustadoras da mina. ele esticava aqueles braços enormes, abria umas mãos sem fim e agarrava-o. as histórias do avô acabavam sempre assim, um abraço que ia daqui até ao fundo da mina, ao fim do mundo, daqui até ao país com nome estranho onde os pais estavam, onde eles se esconderam por causa de umas coisas da política. "talvez um dia eles voltem, pedro, e ai vamos todos juntos ver o elefante ao zoo. e ele vai tocar a sineta só para ti, prometo." a felicidade na ponta de uma tromba parece piada de banda desenhada mas os miúdos são assim simples e pedro era assim. feliz.

terça-feira, novembro 24, 2015

ter paus na boca

casa de pó

a velhice encheu-me a casa de pó e de silêncios. os teus olhos azuis são o mar que nos espreita todas as manhãs, são a última recordação de uma vida que está longe. tão longe como as palavras de amor que já não trocamos. houve carinho, claro, eu amava-te mas era amor pelo conforto que uma vida em comum nos dá. pó, há pó por todo o lado. uma teia de aranha, aqui e ali, um soalho que range e pratos riscados à espera de mais um almoço frio. vais e vens da vila e eu por aqui fico. fico presa a uma cadeira que não roda, apenas me prende. o céu é azul e acaba ali onde o mar se perde. dizes que já lá fomos, que foi o nossa primeira viagem depois do casamento, não sei, não acredito, duvido mesmo. os tempos eram outros, havia respeito. eu era nova, ingénua e ansiosa pelo casamento que estava escrito nos romances de cordel, eras um cavalheiro, eu uma princesa, e a nossa história só acabaria quando as palavras emudecessem. silêncio. a nossa casa é um silêncio feito de barulhos velhos e eu desgosto. onde estão os teus olhos azuis? não devias ter regressado já da tua volta? fecho os olhos, estou cansada, exausta, oiço o vento lá fora, o mar a bater nas rochas, um carro ao longe, uma ave a grasnar e tudo me ensurdece. tenho saudades do teu silêncio. não sei viver com as tuas palavras, não sei viver sem o teu silêncio. que dia é mesmo hoje?