terça-feira, março 31, 2015

a sete chaves

cabelos grisalhos, uma voz rouca de quem fumou mais do que a vida permite,  olheiras marcadas, quarenta e cinco anos mal contados, rugas que rasgam um sorriso que desapareceu algures entre um casamento destruído, uma empresa falida e o filho que não voltou. quanta dor pode uma pessoa aguentar? quantas lágrimas pode uma mulher conter? quantos berros pode uma discussão ter até ao primeiro silêncio? guilhermina não se lembra da última vez que se sentiu alguém no meio de tanta gente. vozes sussurradas, passos ligeiros, risos nocturnos, perfumes intensos, casais ocasionais e uma casa que nunca está vaga. o seu quarto é o último, o mais longe, aquele onde a porta não abre nunca e todos perguntam. guilhermina já não vê o fundo. de nada. de tudo. a sua casa não é mais a sua casa, perdeu o marido, morreu o filho e a sua casa não é mais a sua casa. a sua vida já não é para ser vivida, apenas escondida, e ela fecha-se a sete chaves, bem fechada, tal como a porta do seu quarto.

lion babe - em casa e fora de casa

quinta-feira, março 26, 2015

seu jorge - em casa e fora de casa

um café com borra

estou farto dos velhos do café da esquina. é a conversa sobre a máquina de tabaco que não é arranjada, a garantia que noutros tempos é que era, a certeza de que o vinho está cada vez pior e a culpa tem de ser do governo. falam do sr. saraiva que não aparece vai para quatro dias mas ninguém o procura. acusam a sra. lurdes de estar sempre com os humores e dever uma semana de cafés mas ninguém a confronta. insultam o sr. mendonça, o bêbedo de serviço, mas nunca lhe ouviram um lamento. os tempos passam lentamente no café da esquina, é assim em todos, mas custa mais no meu. peço um café e faço dele uma tarde sem fim. veio com borra, uma chatice, um inferno, e, pior que tudo, ainda falta tanto tempo para o final do dia.

quinta-feira, março 12, 2015

zero 7 - em casa e fora de casa

do terceiro frente

gertrudes não se lembra de quando foi a última vez que o telefone tocou. hoje tocou três vezes e depois veio o silêncio. a casa voltou ao vazio, à paz, ao sossego de que tanto gosta. ela ainda ouve os passos distantes de quem já lá não vive e sente o carinho de rodrigo nas fotos que a observam. gertrudes está velha, não esperava chegar a esta idade, já nem se lembra bem da sua idade, de quando faz anos, de há quanto tempo é que deixou de existir. toca o telefone, outra vez. sete passos arrastados, o levantar do braço e um "bom dia, boa tarde, depende se já almoçou." "maria?" "sim, sou. quem fala? és tu rodrigo?" "sim, sou. preciso de ti, onde estás?" "em casa, nunca sai daqui, estou aqui à tua espera." "ainda bem, maria. não saias então, vou passar aí, preciso de ti, mas só abras quando ouvires a minha voz, as coisas não estão nada bonitas e não quero correr riscos." "que se passa rodrigo? no que te meteste? foi por isso que desapareceste? não me podes fazer isso, o meu coração não aguenta!" "não interessa, agora não interessa. e prepara as chaves do carro, podemos precisar, ok?" "carro? que carro?" "não te estou a ouvir, maria. está muito gente aqui à volta, já ai passo, cuidado, está bem? não te estou mesmo a ouvir." "que carro, rodrigo? rodrigo? rodrigo? és mesmo tu?" silêncio. os pensamentos asfixiam-lhe o coração, o peito, ou será a respiração? gertrudes enconsta-se no cadeirão de rodrigo. seria ele? doi-lhe o peito, ou será o coração? rodrigo, o rodrigo afinal está vivo, e até parece mais novo. rodrigo, o único amor. vivo! gertrudes fecha os olhos e pensa no último beijo de rodrigo. a campainha toca, toca, toca, ninguém atende, só silêncio. o carteiro rodrigo vira costas preocupado, será que aconteceu alguma coisa à velhota do terceiro frente?