domingo, janeiro 25, 2015

portugal não é a grécia

hoje como no passado. não somos os gregos que passaram dificuldades nos últimos dois, três, quatro, cinco anos. já ninguém se lembra dos gregos que morrem à fome nas ruas porque temos mil e outros problemas "estrangeiros" que nos entram pela casa adentro mas só até à casa dos segredos. não somos os gregos porque votamos sempre nos mesmos, naqueles que um dia são contra a compra de dívida, noutro já não se lembram de nada, naqueles que não acham que haja falta de médicos e depois contratam às dezenas. não somos a grécia. não somos o syriza! não somos mas deviamos ter o nosso syriza. a festa que o bloco faz é rídicula, a apropriação que o pcp faz idem, até o ps se junta à festa. não temos syriza porque ninguém quer dizer o que não se deve dizer. é preciso provocar, exigir, mudar. levamos demasiados anos de um liberalismo bacoco, de uma farsa para alemão ver. falamos em controlo da dívida, em produtividade, em mil-e-um-chavões e nada muda. é preciso mudar, mesmo que mude pouco. é preciso melhorar, e muito. o syriza ganhou e a extrema-esquerda assusta a europa mais do que nunca. quem diria que um pequeno partido, de um pequeno país pudesse assustar tanto? contudo, esta vitória traz em si uma enorme responsabilidade, a de ser uma real alternativa, a de não falhar, é que a extrema direita está já ali ao virar da esquina. portugal não é a grécia, então quando será?

you and i

sexta-feira, janeiro 09, 2015

Não somos todos Charlie

"Muitas pessoas perdem o humor, meramente, por perceberem que você não perdeu o seu." 
Frank Moore Colby


Confesso-me um pouco admirado com a quantidade de Charlies que há neste país e que eu desconhecia. Na sequência do miserável ataque contra a sede do jornal satírico Charlie Hebdo, foram vários os jornais e jornalistas que apareceram a empunhar cartazes com a frase - Nós Somos Charlie Hebdo. Subitamente, só faltou ver o Jornal da Madeira ser também Charlie.

Não me levem a mal, ou levem, mas vou ser Charlie: por favor, jornalistas portugueses a dizer que são o Charlie quando nem coisos (tomates) têm para não fazer favores ao Governo etc., tenham dó. Não, não são todos Charlie. Pelo contrário, há meia dúzia que são e ainda bem que há. Agora não se façam passar por eles. Hoje somos todos Charlie Hebdo, mas amanhã voltamos ao que éramos. Aos jornais, televisões, etc., que aparecem a dizer-se Charlie, pergunto: quantas semanas durava o Charlie Hebdo em Portugal antes de ser cancelado por causa de chatices com a Igreja, Angola ou o Governo? Força, Charlie. Quantos jornais portugueses teriam coragem ou vontade de publicar os "cartoons" do Charlie? Espero que estes jornais que se dizem Charlie, durante a semana toda publiquem os "cartoons" na capa.


Ligo a televisão e vejo a Assembleia da República que não deixou falar os "capitães de Abril" e que está tão chocada com esta falta de respeito pelo direito de expressão. Julgava que, para a presidente da Assembleia da República, "os carrascos" eram os que faziam barulho nas bancadas para o povo. O mesmo Telmo que está na Assembleia da República chocado, estaria a pedir para acabar com aquele "cartoon" que ofende católicos. Já assisti a isso e não foi assim há tanto tempo. "Embora fazer um referendo sobre co-adopção de casais homo" - porque respeitamos muito a liberdade dos outros. Uma Europa que vive um discurso de honestos do Norte contra preguiçosos do Sul está de boca aberta com extremistas. Somos todos Charlie. É só grandes defensores da liberdade de expressão e dos direitos individuais e das conquistas da democracia, no mesmo local onde se apoia que a Merkel possa fazer chantagem eleitoral sobre os gregos.


Vivemos num país em que o Presidente da República, como representante de todos os portugueses, não vai ao enterro de um escritor (Nobel) porque não gosta dele, ou que não dá os parabéns a outro que canta fado porque não canta o que ele gosta, e que deve estar a deitar cá para fora um comunicado sobre a importância de aceitar a liberdade de expressão e a diferença.


Não, não somos todos Charlie. Eu, felizmente, nem sei desenhar.


João Quadros in Negócios Online

quarta-feira, janeiro 07, 2015

"Je suis Charlie!"


"Nous sommes… », não, é apenas “je suis”. Não somos todos iguais, não interpretamos da mesma maneira este crime/massacre/vingança/azar/estava-se mesmo a ver quando se dá liberdade aqueles monstros. Todos partilham os vídeos, as ilustrações, as fotos, os nomes, mas são muitos os que, embora genuinamente sensibilizados, amanhã desviarão as suas atenções para o próximo evento mediático, seja a cólera, um tufão, ou a humidade na cela 44. Mais do que isso, irão interpretar este acontecimento como mais um momento “eu nem acho isso mas se calhar os árabes são todos iguais”. Não somos todos iguais, repito. Os muçulmanos não são todos árabes, os árabes não são todos extremistas religiosos, são inúmeras as variáves. E podemos subsituir estes conceitos por judeus, ciganos, pretos, ah, como é lindo o mundo da matemática. Infelizmente, as relações humanas e políticas não são uma equação com as respostas certa na última página. Integrar, segregar, apoiar, dividir, religião, ateismo, onde está a melhor resposta para cada problema, onde está a última página? Não somos todos iguais, não interpretamos da mesma forma o que aconteceu hoje, aliás muitos dos jornalistas que hoje são Charlie, passam a vida a escrever o que lhes ditam, muitas das pessoas que elogiam e se sentem um pouco mais Charlie são os primeiros a desprezar e segregar o próximo. “Je suis Charlie”, não porque sou como aqueles jornalistas mas porque gostaria de ser como eles.