domingo, novembro 30, 2014

XXX

o que é a verdade? onde começou tudo? mãe, volta tudo a ti? o que é real? mortes e vida, sonho, imaginação, loucura, o caos e o sossego. mãe? sou filha, quero a minha filha, a que não nasceu, a que não tivemos, onde estás tu, carlos? pedro, és tu? tornei-me a minha mãe ou sempre fui ela? existe uma filha? estou louca, estou confusa, perdida, não é macau, não é o jardim do cipreste, não é carlos, pedro, maria ou mãe. quem sou eu? ao longe toca rachmaninoff e escorre uma lágrima no espelho.

sábado, novembro 29, 2014

saudades

tenho a tua ausência como uma parte indissociável de mim. quero-te.

XXIX

carlos, quero ter uma criança contigo. sei que sempre disse o contrário mas contigo faz sentido. ensinaste-me tanto, fizeste-me acreditar que podia ser diferente, que contigo tudo é melhor e mais bonito. quero ser romântica, quero ser paixão, quero ser mãe. quero-te a meu lado, por favor. a noite irá a meio e o céu está mais negro que nunca quando chegares e leres esta carta mas peço-te apenas uma coisa, acorda-me, dá-me um beijo e garante-me que vamos tentar. sempre tua, amor.

sexta-feira, novembro 28, 2014

XXVIII

vejo-te no meu espelho, estás igual a mim, mãe, tenho as tuas rugas rasgadas na minha face, os olhos cavados da morte emprestada, um sorriso murcho dos beijos que fui perdendo, vejo-me no espelho, mãe, e não nos reconheço. onde começo, onde acabas, onde estou, quem sou?

quinta-feira, novembro 27, 2014

XXVII

o primeiro natal. as fatias a dourar a mesa da sala, o bacalhau de todos, a árvore pintada de presentes, o terno colo da avó, os pais apaixonados, este natal marcado na minha cabeça. era pequena, feliz e não encontrei mais a porta daquela sala. o natal volta sempre, a minha meninice é que foi um presente oferecido a uma outra vida. o primeiro natal foi o último e “o que foi não volta a ser” uma estúpida canção que toca no autorádio. desligo tudo.

quarta-feira, novembro 26, 2014

XXVI

3330, um triste toque polifónico, e as palavras que insistiam em não vir, sempre chegaram na volta do correio. maria! tu, do outro lado do mundo, e eu aqui. não te tive mais, não tiveste mais o carlos. não fomos mais a inocência da juventude, as promessas que achámos que eram sangue eterno a escorrer pelos nossos dedos. maria! tu, do outro lado do mundo, e eu aqui, já sozinha, como sempre me encontrei nos livros que me oferecias. maria, explica-me! um frasco que virou vazio, um corpo que caiu desamparado e tu tão longe do meu último abraço. fiquei sem adeus, sem amor, sem nada. o carlos foi um empréstimo demasiado caro para conseguir pagar. maria, a tua mãe contou-me que vocês não se deixaram de ver e eu compreendo. compreendo tudo, só não percebo onde ficou o nosso até já.

terça-feira, novembro 25, 2014

XXV

"welcome to macau international airport! the next bus to portas do cerco leaves in 20 minutes. please..." toca o telemóvel, não é um número português, começa em 00353, termina em 5. estou? quem fala? silêncio. estou? estou? "sou eu!" eu, quem? "a razão para finalmente teres vindo a macau, para teres arriscado, para pela primeira vez na vida não teres feito o previsível, para não seres a tua mãezinha." quem fala? quem fala? "sou eu, o teu pai." pai?

segunda-feira, novembro 24, 2014

à janela

volto à janela as vezes que forem precisas. abro e fecho. escancaro-me sem receio.
volto à janela as vezes que forem precisas. espreito e não vejo. não vejo, não. onde está o relógio de cuco que te trará a mim.
volto à janela as vezes que forem precisas. até se tornar apenas mecânico este gesto de viver sem ti.
volto à janela as vezes que forem precisas. até me tornar a janela em si. sem amor. sem ti.

XXIV

pedro! não me olhes assim, não me chames assim, não me toques assim. não sabes quem eu sou, não sabes o que já vivi, não sabes o que sou para lá desta pessoa-bata. não, pedro. não vou beber mais um café, não vou falar contigo até de manhã ou até perderes as forças. não quero estar do teu lado até ao fim. não, pedro, não me posso apaixonar mais esta vez. não quero um calendário em que sei bem qual será a última página. deixa-me, pedro. não me olhes assim, não me chames assim, não me toques assim. não me beijes! amo-te, pedro. vou amar-te para sempre.

domingo, novembro 23, 2014

XXIII

carlos tem os olhos claros, tem um riso contagiante e já leu todos os grandes livros. carlos gosta do jazz em agosto, dos ciclos de cinema da cinemateca e vai a paris ver as últimas exposições. carlos é doce, meigo e tenho a certeza que nunca conheci um homem assim. carlos seria o homem ideal para ti, se eu não gostasse dele desde a primeira vez que o vi. desculpa, maria. eu amo o carlos. desculpas?

sábado, novembro 22, 2014

XXII

são tão bonitos estes cemitérios. acabo por me sentir numa reconfortante paz nestes verdes jardins rasgados por pálidas lápides. volto aqui, regularmente. foi carlos, foi maria, foi pedro e agora a minha mãe. e este jardim que me traz o silêncio que não encontro em mais nenhum lado. morreste e deixas, aqui, a ausência total. ninguém te quer, mãe. eu, a velhota do 3b e um senhor que estava aqui de passagem. deve ser triste morrer assim. não quero ser assim, tenho medo de ser assim. não te quero mãe. morreste só e esquecida da vida. deixas-me cá sozinha, num verde campo e presa ao passado que não quis comprar. odeio-te, mãe. odeio-te porque nem a praia me aquece neste dia.

sexta-feira, novembro 21, 2014

XXI

não sei de ti há semanas. não falo com a minha mãe há dias. estou fechada nestes livros de lombada larga, desaparecida nos laboratórios etéreos, enganada pelo futuro-hoje que me prometeram. tu. e a minha mãe. tenho saudades tuas. preciso de falar contigo. custa-me esta ausência. eu percebo que não queiras falar comigo, eu até percebo. mas dói. perdoa-me, maria.

quinta-feira, novembro 20, 2014

XX

"boa tarde! temos o seu contacto como sendo próxima de carlos magalhães..." sim, sou a sua mulher. aconteceu alguma  coisa? "isto nunca é fácil mas... o seu marido teve um acidente e está em estado muito grave. consegue vir rapidamente para o hospital universitário, por favor." acidente? como assim? ele saiu de casa nem há duas horas. tem a certeza que está a falar do meu marido? não pode ser! não o carlos. quando? como?

quarta-feira, novembro 19, 2014

XIX

o primeiro beijo não tem magia, desculpa mas não tem magia. não gostei. aliás, nem gosto nada dele. só o beijei porque tinha de experimentar, de ver o que é isso das borboletas-que-voam-na-barriga, mas, para mim, tudo não passou de um casulo sem ponta. não gostei, não foi especial, não quero namorar. só o faço porque gostas do carlos. percebes, maria, só por ti. beijo é coisa de gente crescida e eu só quero os meus livros.

terça-feira, novembro 18, 2014

um outro divórcio perene

eu até gostava de ter força para berrar. gritar, tal e qual como me pedes a meio do sexo duro que fazemos durar, as injustiças da minha vida. não consigo. falta-me calor, daquele interior. não sou corrente nem nascente. sou um calmo lago que não fascina ninguém, nem no dia mais quente deste verão.
não há ondas. não há garra. guardo eternamente no baú as palavras fortes que nunca lhes direi. assumo que não sou o que queres. mas admito que um dia talvez tudo possa mudar. até lá?
dormes cá em casa se quiseres, se não deixa as chaves com o puto. é esta a minha última oferta.

pica do sete

XVIII

desculpa não ter dito nada antes mas tenho andado a mil. a mãe também não disse nada por isso pensei que não fosse urgente. se soubesse como têm sido os meus dias lá no hospital e no laboratório, ando a morrer. "também eu, filha, também eu. estou para morrer." isso estamos todos, um dia. "eu estou a morrer, filha. eu estou a morrer. vou perder a memória, os movimentos, tudo. vou morrer esquecida do que é a vida. e preciso de ti, quero-te a meu lado nesses meses finais. dizem que devo ter um ano disto mas nem seis meses de cabeça. ajuda-me!" não sei o que te diga. não sei. não podemos estar quatro anos sem falar, sem estar juntas e agora pedires-me assim ajuda. não te tive quando o carlos morreu, não te tive quando o pedro morreu. nunca estiveste lá. não me podes pedir isto, mãe. não sei. não quero. não me olhes assim, mãe.

segunda-feira, novembro 17, 2014

cume




Paus: Makoto Yagyu, Hélio Morais, Joaquim Albergaria, Fabio Jevelim Feat. Solid Movement Productions
Directed by SUPERGROUP (CHERYL and Volkov Commanders)
Produced at Galeria Zé dos Bois

tu e todos.

precisamos todos. procuramos todos.
agarro-me ao peito e levanto a cabeça procurando ajuda. a rua está deserta. o autocarro já fez a curva. já nem o oiço.
sinto o vento suave de final de noite a roçar-me na pele e acho mesmo que ainda oiço o refrão das últimas músicas da discoteca a ecoar na minha cabeça. se estivesses aqui diria que era o álcool. se estivesses aqui não haveria álcool, dir-te-ia eu enquanto te beijaria apaixonadamente.
nunca percebi como aquilo aconteceu. a minha mulher garante que ainda não ultrapassei. é provável. não é fácil. o nó não sai. 
vivo assim, com um nó de gravata tatuado no inspira-expira.

XVII

vou para ciências, tu para humanidades mas prometes que nunca vamos deixar de ser amigas, ok? queres fazer uma promessa de sangue? vi num filme e parece-me suficientemente poderoso para não acabar. vamos ser as melhores amigas da história e nada, nem ninguém, nos vai separar. nem a minha mãe nem os homens, nem nada, ouviste? só as duas. para sempre.

domingo, novembro 16, 2014

XVI

"bate-me!" tu páras, olhas para mim, apertas-me contra ti, encostas a tua boca ao meu ouvido e dizes: "não te compreendo mais. quem és tu? que passado te trouxe aqui? onde andaste tu afinal? que mentiras vivemos nós nestes últimos meses? vejo os teus castanhos olhos que se esvaziaram, a tua boca que esqueceu o sorriso infantil com que me acordavas todas as manhãs, os teus cabelos revoltos, as tuas olheiras desesperadas e pergunto-me porque parece que nos casámos há uma vida. as tuas palavras parecem roubadas de um livro rosa, os teus beijos uma farsa romântica e sinto-me que vivo numa casa de novela tão vazia quanto as nove horas da noite da minha avó. quem és tu? não aguento mais isto. desculpa mas preciso de pensar, de mudar, de voltar a sentir." saltas da cama, vestes a primeira roupa que está em cima da cadeira, pegas numa mochila preta, atiras umas roupas lá para dentro. deixas um beijo no ar, uma palavra murmurada e uma porta fecha-se. é um até já, não é?

sábado, novembro 15, 2014

na sua cabeça

a campainha tocava alternadamente ao telefone. eram assim as rotinas dela. procurava-o apanhar em falso. ouvir um suspiro no entretanto. mas ele era forte. era mesmo capaz de passar horas assim escondido de si, bem encolhido no sofá da sala comprado uns meses antes. creio mesmo que ele nem respirava. ausentava-se assim de tudo e de todos. ela nunca percebera o porquê. ainda bem, pensava ele, era o último recanto do mundo que lhe restava. a lógica da sua cabeça.

é hoje. dispara.

só queria ir dormir. doía-lhe o corpo e perdera a paciência para uma casa vazia. nem cão, nem gato. nem mesmo o cacto que não paga imposto de vida. nada era vivo em volta dele.
eram mesmo assim os dias que o envelheciam.
um computador comprado à pressa - o negócio da mais recente promoção no correio -, e uma tv que em stand-by lhe trazia mais luz às suas longas horas que as fotos duma família que vinha de oferta com as molduras.
merda! que os ovos já queimaram. sempre assim. ovos podres e dias longos, uma vida de carnaval sem nunca chegar ao enterro. um sofá vincado com o seu rabo gordo, e nem uma puta velha para o satisfazer.
careca sofre, gostaria ele de dizer se aos ouvidos atentos do outro lado. mas até deus tinha outros planos combinados para esse dia.
é hoje. dispara., ouviu dizer. e disparou a medo.

o inverso é onde começam e acabam as palavras.

XV

um quatro e um cinco que desta vez não são os felizes nove. são quarenta e cinco anos. um bolo de alfarroba, duas velas e três colegas do trabalho que não tinham nada combinado. mais um ano que passa, devagar, devagarinho, como se tivesse sempre algo planeado para o meu amanhã. quarenta e cinco anos e recebo o silêncio e a ausência como presentes embrulhados num "tenho muito trabalho, é só isso", quarenta e cinco anos e sou velha. onde ficaste tu, maria?

sexta-feira, novembro 14, 2014

é a rua da emenda

XIV

a culpa não pode ser minha, não pode. não fui eu que perdi o meu pai, não fui eu que estraguei a relação, não fui eu que pedi para nascer. não te quero ouvir mais, mãe. deixa-me, deixa-me, como o meu pai te deixou naquela manhã de primavera tardia. não te vou ouvir mais, não te quero ver mais. adeus.

quinta-feira, novembro 13, 2014

XIII

o pedro está mal, está muito pior. já mal anda, custa-lhe  respirar e começou a perder o sentido de humor. hoje enviei-lhe uma flor-de-palhaço vermelha, igual à que me deu há apenas dois meses, e, contudo, os seus olhos não brilharam. o pedro está cinzento, é um fantasma daquele que aprendi a amar em tão pouco tempo. sei que não vou mais ouvir os seus passos nos corredores e que ele será mais um fantasma na minha vida. o pedro está a morrer e deixa-me cá sozinha. o pedro está morto e eu também.

quarta-feira, novembro 12, 2014

XII

"filha, podes falar? preciso mesmo de falar contigo." "agora não, vou entrar para uma conferência, mas é urgente?" claro que é prioritário, tudo o que a envolve é importante, tudo menos todos. "não filha, deixa estar, liga-me depois, só peço isso." saí do colóquio, fomos todos jantar, beber um copo, até dancei um pouco. não lhe liguei, nem no dia seguinte. se ela quer falar que volte a ligar.

terça-feira, novembro 11, 2014

XI

"tens de sair um pouco, viver a vida. não podes ficar presa a isto o resto dos teus dias. a tua mãe morreu há mais de seis meses, está na hora. vai ao estrangeiro, faz um cruzeiro, conhece alguém, bebe uns copos. faz algo, porra. a tua vida é apenas laboratório, casa, hospital, casa, casa, casa, laboratório, casa, hospital, casa. vive a vida, pá. esquece a tua mãe de uma vez por todas. estás a ouvir-me?"

segunda-feira, novembro 10, 2014

casanova variations


nos cinemas a partir de 4 de dezembro.
 #somostodosextras

X

"posso ir brincar com a maria, mãe? posso ir brincar com a maria, mãe? posso ir brincar com a maria, mãe?", três vezes e nada. nem uma resposta. és silêncio. bato à porta da biblioteca e tu estás com o olhar perdido no céu azul. não me ouves, nunca me ouves. "posso ir brincar com a maria, mãe?" não te viras e disses apenas "fizeste os trabalhos todos? vai fazer mais, se queres ser a melhor, não há espaço para brincadeiras. e agora deixa-me trabalhar." os teus olhos cheios de céu, os meus cheios de mar. são assim os meus dias, longe de maria, das crianças e da infância. sou uma velha antes de tempo, sinto-me presa aos teus sonhos, mãe. e eu que não sei onde fica o meu céu ao fim do dia

domingo, novembro 09, 2014

IX

ela garantiu-me que um dia iriamos voltar à nossa terra. sempre lhe disse que sim mas isso não fazia qualquer sentido para mim. aquela cidade nunca me chamou, não queria viver o seu cheiro, as suas cores, muito menos as suas palavras. néons, apostas, prostitutas e desconhecidos, isso não podia ser a minha terra. tinha inveja do alentejo profundo do rui, do minho verde da sara, do ribatejo bêbedo do carlos. portugal era meu e, contudo, a minha mãe falava-me de uma cidade distante que era mais minha que os meus longos cabelos pretos. ela morreu antes de voltarmos à cidade prometida e hoje fiz finalmente a pergunta: "tem voos directos para macau?"

sábado, novembro 08, 2014

VIII

passos, serão passos a esta hora? os corredores estão completamente vazios e só se ouvem os sons das máquinas que prendem uma e outra pessoa à vida. e uns passos, juro que oiço passos. deixo o computador, as folhas dos apontamentos e o telemóvel que não toca em cima da mesa. passo pela jovem enfermeira que dormita e atravesso o corredor da ala b. as luzes trémulas e um cheiro a morte ao virar da esquina. ao fundo, bem ao fundo, uma sombra. "quem está aí?", murmuro. aproximo-me passo a passo e já só ouço os meus passos. "quem está aí?" e os meus passos. "sou eu, dra. sou apenas eu". da sombra destacam-se uns olhos azuis, um cabelo desgranhado e um andar cambaleante. ele olha-me nos olhos e eu perco as palavras. atiro um "volte para a sua cama, pedro." mas sei que tudo isto está errado, que estou perdida. que quero perder-me naqueles olhos azuis e deitar-me com ele. eu, ele, a minha vida, a sua morte.

sexta-feira, novembro 07, 2014

VII

são seis da manhã, a plataforma está deserta, o café abre daqui a pouco e o comboio que não chega. duas mochilas, dois sacos e dois livros. a vida é assim feita aos pares, mesmo quando nos falta um. não houve despedidas, nem mesmo um "força, vai correr tudo bem, vemo-nos no natal." aquele silêncio musicado, como sempre. estavas no escritório e eu apenas me despedi da casa, olhei pela janela para o cipreste lá de fora, engoli em seco, bebi um último copo de água gelada e saí. espero não voltar mais a esta casa, é este o meu sonho. 

quinta-feira, novembro 06, 2014

VI

um beijo, um toque na mão, um olhar trocado. os dias enchem-se de fórmulas, de tubos de ensaio, de batas brancas e de palavras poucas. não há vida nestes dias, não há nada. a casa espera-me vazia. e não tenho ninguém do outro lado da linha. os livros aqui, o disco novo na sala e onde é que ele está? preciso do teu beijo, da tua mão, dos teus olhos. agora.

maria & luiz

um cartão, dois teatros. (link) o que queres mais?

quarta-feira, novembro 05, 2014

joão

V

fomos uma só até ao fim. não te esqueças, mãe. os teus berros, as tuas raivas, a tua dor. não te esqueças de mim. do meu cabelo revolto, molhado da chuva que caia pelo cipreste do nosso jardim. não me esqueço da fixação que tinhas com a opinião dos outros. não me esqueço da luta constante para ter um minuto de silêncio em casa. os russos, sempre os russos a tocar na biblioteca. noite inteira. as noites brancas que não te apagavam os olhos. eu não dormia, mãe. eu fechada sobre mim mesma e tu esquecida de mim. não me esqueço, mãe. um curso tirado a pedido, um dia para o mundo ver. "uma investigadora de renome internacional, ainda vai ser nobel", dizias à senhora rosa da frutaria. não queria, mãe. nem quando caiste no esquecimento, eu me esqueci disto. não me esqueças agora, mãe. não te esqueças de tudo. não me esqueço da última nota, do derradeiro suspiro. não me esqueças, mãe.

terça-feira, novembro 04, 2014

IV

a sala está vazia. os melómanos são cada vez menos, os fãs com t-shirt da moda, pulseiras de várias cores e iphones 6 são cada vez mais. a música uma constante para todos, o silêncio uma ilha esquecida. há barulho, há solidão, silêncio e música. aqui e ali um caos organizado. rachmaninoff e uma sala vazia. é fim de dia, não me conheço. eu, sozinha.

segunda-feira, novembro 03, 2014

estás aqui, estás no estoril


short story


london, 2013

dia um

ele pintava melhor quando chovia. e quando estava frio e o vento arrastava os guarda-chuvas reformados. era um apaixonado pelo inverno, pela solidão que aquela noite às cinco da tarde lhe dava. acordava tarde, quase não via a luz, nem ouvia os gritos das crianças pela manhã. aquecia as cores num quadro grande e atacava as sombras em todos os pormenores que só ele via. ele pintava melhor quando chovia. era um filho do inverno, nascido no dia de todos os santos, abandonado na igreja da terra, um ano depois. era esse o seu terramoto inultrapassável. não havia futuro no seu traço e ele só queria fechar os olhos daqueles que pintava. não há alma na minha pintura e ainda bem, confessava àqueles que se queixavam que só queriam um quadro colorido para pendurar no escritório. lá fora chovia, muito, era um outono triste e ele sorria. uma janela aberta, uma corrente de ar, um lamparina que não devia estar ali. acabou assim, num dia de chuva. uma triste história sem alma, como as que pintava. 

III


- não há vacina, nem se pode falar em cura, o que apresentamos hoje são, apenas e só, uns primeiros resultados promissores e animadores.
- dra., mas estamos a falar de testes que apoiados pelas grandes farmacêuticas podem resultar em avanços significativos?
- exactamente! estamos sempre a falar da necessidade de apoio financeiro e, sobretudo, de ajudas às equipas de investigação. agradeço mais uma vez a presença de todos mas a conferência está terminada.

domingo, novembro 02, 2014

II

a porta fecha com estrondo. a mãe ficou lá atrás aos berros, na entrada um vizinho que fuma enquanto o seu cão marca o jardim das crianças. o velho resmunga algo sobre o portão da quinta. nem olho. meto os auscultadores, baixo a cabeça, acelero o passo, rua acima e uma mensagem apenas: café daqui a cinco minutos, maria?

sábado, novembro 01, 2014

I

agarra-lhe a mão, sussurra algo, esconde a cabeça entre o peito e o braço esquerdo. confundem-se as duas respirações, unem-se as duas vidas. é assim, há muito tempo que é assim. são uma só.