terça-feira, dezembro 23, 2014

quarta-feira, dezembro 10, 2014

do dicionário

ou das pessoas que miacoutizam "vodrasta". obrigado, Julieta!

segunda-feira, dezembro 01, 2014

“preparo-me para entreabrir os olhos e
deixar escorrer a convulsão oleosa das lágrimas
e das coisas tristes”

al berto

domingo, novembro 30, 2014

XXX

o que é a verdade? onde começou tudo? mãe, volta tudo a ti? o que é real? mortes e vida, sonho, imaginação, loucura, o caos e o sossego. mãe? sou filha, quero a minha filha, a que não nasceu, a que não tivemos, onde estás tu, carlos? pedro, és tu? tornei-me a minha mãe ou sempre fui ela? existe uma filha? estou louca, estou confusa, perdida, não é macau, não é o jardim do cipreste, não é carlos, pedro, maria ou mãe. quem sou eu? ao longe toca rachmaninoff e escorre uma lágrima no espelho.

sábado, novembro 29, 2014

saudades

tenho a tua ausência como uma parte indissociável de mim. quero-te.

XXIX

carlos, quero ter uma criança contigo. sei que sempre disse o contrário mas contigo faz sentido. ensinaste-me tanto, fizeste-me acreditar que podia ser diferente, que contigo tudo é melhor e mais bonito. quero ser romântica, quero ser paixão, quero ser mãe. quero-te a meu lado, por favor. a noite irá a meio e o céu está mais negro que nunca quando chegares e leres esta carta mas peço-te apenas uma coisa, acorda-me, dá-me um beijo e garante-me que vamos tentar. sempre tua, amor.

sexta-feira, novembro 28, 2014

XXVIII

vejo-te no meu espelho, estás igual a mim, mãe, tenho as tuas rugas rasgadas na minha face, os olhos cavados da morte emprestada, um sorriso murcho dos beijos que fui perdendo, vejo-me no espelho, mãe, e não nos reconheço. onde começo, onde acabas, onde estou, quem sou?

quinta-feira, novembro 27, 2014

XXVII

o primeiro natal. as fatias a dourar a mesa da sala, o bacalhau de todos, a árvore pintada de presentes, o terno colo da avó, os pais apaixonados, este natal marcado na minha cabeça. era pequena, feliz e não encontrei mais a porta daquela sala. o natal volta sempre, a minha meninice é que foi um presente oferecido a uma outra vida. o primeiro natal foi o último e “o que foi não volta a ser” uma estúpida canção que toca no autorádio. desligo tudo.

quarta-feira, novembro 26, 2014

XXVI

3330, um triste toque polifónico, e as palavras que insistiam em não vir, sempre chegaram na volta do correio. maria! tu, do outro lado do mundo, e eu aqui. não te tive mais, não tiveste mais o carlos. não fomos mais a inocência da juventude, as promessas que achámos que eram sangue eterno a escorrer pelos nossos dedos. maria! tu, do outro lado do mundo, e eu aqui, já sozinha, como sempre me encontrei nos livros que me oferecias. maria, explica-me! um frasco que virou vazio, um corpo que caiu desamparado e tu tão longe do meu último abraço. fiquei sem adeus, sem amor, sem nada. o carlos foi um empréstimo demasiado caro para conseguir pagar. maria, a tua mãe contou-me que vocês não se deixaram de ver e eu compreendo. compreendo tudo, só não percebo onde ficou o nosso até já.

terça-feira, novembro 25, 2014

XXV

"welcome to macau international airport! the next bus to portas do cerco leaves in 20 minutes. please..." toca o telemóvel, não é um número português, começa em 00353, termina em 5. estou? quem fala? silêncio. estou? estou? "sou eu!" eu, quem? "a razão para finalmente teres vindo a macau, para teres arriscado, para pela primeira vez na vida não teres feito o previsível, para não seres a tua mãezinha." quem fala? quem fala? "sou eu, o teu pai." pai?

segunda-feira, novembro 24, 2014

à janela

volto à janela as vezes que forem precisas. abro e fecho. escancaro-me sem receio.
volto à janela as vezes que forem precisas. espreito e não vejo. não vejo, não. onde está o relógio de cuco que te trará a mim.
volto à janela as vezes que forem precisas. até se tornar apenas mecânico este gesto de viver sem ti.
volto à janela as vezes que forem precisas. até me tornar a janela em si. sem amor. sem ti.

XXIV

pedro! não me olhes assim, não me chames assim, não me toques assim. não sabes quem eu sou, não sabes o que já vivi, não sabes o que sou para lá desta pessoa-bata. não, pedro. não vou beber mais um café, não vou falar contigo até de manhã ou até perderes as forças. não quero estar do teu lado até ao fim. não, pedro, não me posso apaixonar mais esta vez. não quero um calendário em que sei bem qual será a última página. deixa-me, pedro. não me olhes assim, não me chames assim, não me toques assim. não me beijes! amo-te, pedro. vou amar-te para sempre.

domingo, novembro 23, 2014

XXIII

carlos tem os olhos claros, tem um riso contagiante e já leu todos os grandes livros. carlos gosta do jazz em agosto, dos ciclos de cinema da cinemateca e vai a paris ver as últimas exposições. carlos é doce, meigo e tenho a certeza que nunca conheci um homem assim. carlos seria o homem ideal para ti, se eu não gostasse dele desde a primeira vez que o vi. desculpa, maria. eu amo o carlos. desculpas?

sábado, novembro 22, 2014

XXII

são tão bonitos estes cemitérios. acabo por me sentir numa reconfortante paz nestes verdes jardins rasgados por pálidas lápides. volto aqui, regularmente. foi carlos, foi maria, foi pedro e agora a minha mãe. e este jardim que me traz o silêncio que não encontro em mais nenhum lado. morreste e deixas, aqui, a ausência total. ninguém te quer, mãe. eu, a velhota do 3b e um senhor que estava aqui de passagem. deve ser triste morrer assim. não quero ser assim, tenho medo de ser assim. não te quero mãe. morreste só e esquecida da vida. deixas-me cá sozinha, num verde campo e presa ao passado que não quis comprar. odeio-te, mãe. odeio-te porque nem a praia me aquece neste dia.

sexta-feira, novembro 21, 2014

XXI

não sei de ti há semanas. não falo com a minha mãe há dias. estou fechada nestes livros de lombada larga, desaparecida nos laboratórios etéreos, enganada pelo futuro-hoje que me prometeram. tu. e a minha mãe. tenho saudades tuas. preciso de falar contigo. custa-me esta ausência. eu percebo que não queiras falar comigo, eu até percebo. mas dói. perdoa-me, maria.

quinta-feira, novembro 20, 2014

XX

"boa tarde! temos o seu contacto como sendo próxima de carlos magalhães..." sim, sou a sua mulher. aconteceu alguma  coisa? "isto nunca é fácil mas... o seu marido teve um acidente e está em estado muito grave. consegue vir rapidamente para o hospital universitário, por favor." acidente? como assim? ele saiu de casa nem há duas horas. tem a certeza que está a falar do meu marido? não pode ser! não o carlos. quando? como?

quarta-feira, novembro 19, 2014

XIX

o primeiro beijo não tem magia, desculpa mas não tem magia. não gostei. aliás, nem gosto nada dele. só o beijei porque tinha de experimentar, de ver o que é isso das borboletas-que-voam-na-barriga, mas, para mim, tudo não passou de um casulo sem ponta. não gostei, não foi especial, não quero namorar. só o faço porque gostas do carlos. percebes, maria, só por ti. beijo é coisa de gente crescida e eu só quero os meus livros.

terça-feira, novembro 18, 2014

um outro divórcio perene

eu até gostava de ter força para berrar. gritar, tal e qual como me pedes a meio do sexo duro que fazemos durar, as injustiças da minha vida. não consigo. falta-me calor, daquele interior. não sou corrente nem nascente. sou um calmo lago que não fascina ninguém, nem no dia mais quente deste verão.
não há ondas. não há garra. guardo eternamente no baú as palavras fortes que nunca lhes direi. assumo que não sou o que queres. mas admito que um dia talvez tudo possa mudar. até lá?
dormes cá em casa se quiseres, se não deixa as chaves com o puto. é esta a minha última oferta.

pica do sete

XVIII

desculpa não ter dito nada antes mas tenho andado a mil. a mãe também não disse nada por isso pensei que não fosse urgente. se soubesse como têm sido os meus dias lá no hospital e no laboratório, ando a morrer. "também eu, filha, também eu. estou para morrer." isso estamos todos, um dia. "eu estou a morrer, filha. eu estou a morrer. vou perder a memória, os movimentos, tudo. vou morrer esquecida do que é a vida. e preciso de ti, quero-te a meu lado nesses meses finais. dizem que devo ter um ano disto mas nem seis meses de cabeça. ajuda-me!" não sei o que te diga. não sei. não podemos estar quatro anos sem falar, sem estar juntas e agora pedires-me assim ajuda. não te tive quando o carlos morreu, não te tive quando o pedro morreu. nunca estiveste lá. não me podes pedir isto, mãe. não sei. não quero. não me olhes assim, mãe.

segunda-feira, novembro 17, 2014

cume




Paus: Makoto Yagyu, Hélio Morais, Joaquim Albergaria, Fabio Jevelim Feat. Solid Movement Productions
Directed by SUPERGROUP (CHERYL and Volkov Commanders)
Produced at Galeria Zé dos Bois

tu e todos.

precisamos todos. procuramos todos.
agarro-me ao peito e levanto a cabeça procurando ajuda. a rua está deserta. o autocarro já fez a curva. já nem o oiço.
sinto o vento suave de final de noite a roçar-me na pele e acho mesmo que ainda oiço o refrão das últimas músicas da discoteca a ecoar na minha cabeça. se estivesses aqui diria que era o álcool. se estivesses aqui não haveria álcool, dir-te-ia eu enquanto te beijaria apaixonadamente.
nunca percebi como aquilo aconteceu. a minha mulher garante que ainda não ultrapassei. é provável. não é fácil. o nó não sai. 
vivo assim, com um nó de gravata tatuado no inspira-expira.

XVII

vou para ciências, tu para humanidades mas prometes que nunca vamos deixar de ser amigas, ok? queres fazer uma promessa de sangue? vi num filme e parece-me suficientemente poderoso para não acabar. vamos ser as melhores amigas da história e nada, nem ninguém, nos vai separar. nem a minha mãe nem os homens, nem nada, ouviste? só as duas. para sempre.

domingo, novembro 16, 2014

XVI

"bate-me!" tu páras, olhas para mim, apertas-me contra ti, encostas a tua boca ao meu ouvido e dizes: "não te compreendo mais. quem és tu? que passado te trouxe aqui? onde andaste tu afinal? que mentiras vivemos nós nestes últimos meses? vejo os teus castanhos olhos que se esvaziaram, a tua boca que esqueceu o sorriso infantil com que me acordavas todas as manhãs, os teus cabelos revoltos, as tuas olheiras desesperadas e pergunto-me porque parece que nos casámos há uma vida. as tuas palavras parecem roubadas de um livro rosa, os teus beijos uma farsa romântica e sinto-me que vivo numa casa de novela tão vazia quanto as nove horas da noite da minha avó. quem és tu? não aguento mais isto. desculpa mas preciso de pensar, de mudar, de voltar a sentir." saltas da cama, vestes a primeira roupa que está em cima da cadeira, pegas numa mochila preta, atiras umas roupas lá para dentro. deixas um beijo no ar, uma palavra murmurada e uma porta fecha-se. é um até já, não é?

sábado, novembro 15, 2014

na sua cabeça

a campainha tocava alternadamente ao telefone. eram assim as rotinas dela. procurava-o apanhar em falso. ouvir um suspiro no entretanto. mas ele era forte. era mesmo capaz de passar horas assim escondido de si, bem encolhido no sofá da sala comprado uns meses antes. creio mesmo que ele nem respirava. ausentava-se assim de tudo e de todos. ela nunca percebera o porquê. ainda bem, pensava ele, era o último recanto do mundo que lhe restava. a lógica da sua cabeça.

é hoje. dispara.

só queria ir dormir. doía-lhe o corpo e perdera a paciência para uma casa vazia. nem cão, nem gato. nem mesmo o cacto que não paga imposto de vida. nada era vivo em volta dele.
eram mesmo assim os dias que o envelheciam.
um computador comprado à pressa - o negócio da mais recente promoção no correio -, e uma tv que em stand-by lhe trazia mais luz às suas longas horas que as fotos duma família que vinha de oferta com as molduras.
merda! que os ovos já queimaram. sempre assim. ovos podres e dias longos, uma vida de carnaval sem nunca chegar ao enterro. um sofá vincado com o seu rabo gordo, e nem uma puta velha para o satisfazer.
careca sofre, gostaria ele de dizer se aos ouvidos atentos do outro lado. mas até deus tinha outros planos combinados para esse dia.
é hoje. dispara., ouviu dizer. e disparou a medo.

o inverso é onde começam e acabam as palavras.

XV

um quatro e um cinco que desta vez não são os felizes nove. são quarenta e cinco anos. um bolo de alfarroba, duas velas e três colegas do trabalho que não tinham nada combinado. mais um ano que passa, devagar, devagarinho, como se tivesse sempre algo planeado para o meu amanhã. quarenta e cinco anos e recebo o silêncio e a ausência como presentes embrulhados num "tenho muito trabalho, é só isso", quarenta e cinco anos e sou velha. onde ficaste tu, maria?

sexta-feira, novembro 14, 2014

é a rua da emenda

XIV

a culpa não pode ser minha, não pode. não fui eu que perdi o meu pai, não fui eu que estraguei a relação, não fui eu que pedi para nascer. não te quero ouvir mais, mãe. deixa-me, deixa-me, como o meu pai te deixou naquela manhã de primavera tardia. não te vou ouvir mais, não te quero ver mais. adeus.

quinta-feira, novembro 13, 2014

XIII

o pedro está mal, está muito pior. já mal anda, custa-lhe  respirar e começou a perder o sentido de humor. hoje enviei-lhe uma flor-de-palhaço vermelha, igual à que me deu há apenas dois meses, e, contudo, os seus olhos não brilharam. o pedro está cinzento, é um fantasma daquele que aprendi a amar em tão pouco tempo. sei que não vou mais ouvir os seus passos nos corredores e que ele será mais um fantasma na minha vida. o pedro está a morrer e deixa-me cá sozinha. o pedro está morto e eu também.

quarta-feira, novembro 12, 2014

XII

"filha, podes falar? preciso mesmo de falar contigo." "agora não, vou entrar para uma conferência, mas é urgente?" claro que é prioritário, tudo o que a envolve é importante, tudo menos todos. "não filha, deixa estar, liga-me depois, só peço isso." saí do colóquio, fomos todos jantar, beber um copo, até dancei um pouco. não lhe liguei, nem no dia seguinte. se ela quer falar que volte a ligar.

terça-feira, novembro 11, 2014

XI

"tens de sair um pouco, viver a vida. não podes ficar presa a isto o resto dos teus dias. a tua mãe morreu há mais de seis meses, está na hora. vai ao estrangeiro, faz um cruzeiro, conhece alguém, bebe uns copos. faz algo, porra. a tua vida é apenas laboratório, casa, hospital, casa, casa, casa, laboratório, casa, hospital, casa. vive a vida, pá. esquece a tua mãe de uma vez por todas. estás a ouvir-me?"

segunda-feira, novembro 10, 2014

casanova variations


nos cinemas a partir de 4 de dezembro.
 #somostodosextras

X

"posso ir brincar com a maria, mãe? posso ir brincar com a maria, mãe? posso ir brincar com a maria, mãe?", três vezes e nada. nem uma resposta. és silêncio. bato à porta da biblioteca e tu estás com o olhar perdido no céu azul. não me ouves, nunca me ouves. "posso ir brincar com a maria, mãe?" não te viras e disses apenas "fizeste os trabalhos todos? vai fazer mais, se queres ser a melhor, não há espaço para brincadeiras. e agora deixa-me trabalhar." os teus olhos cheios de céu, os meus cheios de mar. são assim os meus dias, longe de maria, das crianças e da infância. sou uma velha antes de tempo, sinto-me presa aos teus sonhos, mãe. e eu que não sei onde fica o meu céu ao fim do dia

domingo, novembro 09, 2014

IX

ela garantiu-me que um dia iriamos voltar à nossa terra. sempre lhe disse que sim mas isso não fazia qualquer sentido para mim. aquela cidade nunca me chamou, não queria viver o seu cheiro, as suas cores, muito menos as suas palavras. néons, apostas, prostitutas e desconhecidos, isso não podia ser a minha terra. tinha inveja do alentejo profundo do rui, do minho verde da sara, do ribatejo bêbedo do carlos. portugal era meu e, contudo, a minha mãe falava-me de uma cidade distante que era mais minha que os meus longos cabelos pretos. ela morreu antes de voltarmos à cidade prometida e hoje fiz finalmente a pergunta: "tem voos directos para macau?"

sábado, novembro 08, 2014

VIII

passos, serão passos a esta hora? os corredores estão completamente vazios e só se ouvem os sons das máquinas que prendem uma e outra pessoa à vida. e uns passos, juro que oiço passos. deixo o computador, as folhas dos apontamentos e o telemóvel que não toca em cima da mesa. passo pela jovem enfermeira que dormita e atravesso o corredor da ala b. as luzes trémulas e um cheiro a morte ao virar da esquina. ao fundo, bem ao fundo, uma sombra. "quem está aí?", murmuro. aproximo-me passo a passo e já só ouço os meus passos. "quem está aí?" e os meus passos. "sou eu, dra. sou apenas eu". da sombra destacam-se uns olhos azuis, um cabelo desgranhado e um andar cambaleante. ele olha-me nos olhos e eu perco as palavras. atiro um "volte para a sua cama, pedro." mas sei que tudo isto está errado, que estou perdida. que quero perder-me naqueles olhos azuis e deitar-me com ele. eu, ele, a minha vida, a sua morte.

sexta-feira, novembro 07, 2014

VII

são seis da manhã, a plataforma está deserta, o café abre daqui a pouco e o comboio que não chega. duas mochilas, dois sacos e dois livros. a vida é assim feita aos pares, mesmo quando nos falta um. não houve despedidas, nem mesmo um "força, vai correr tudo bem, vemo-nos no natal." aquele silêncio musicado, como sempre. estavas no escritório e eu apenas me despedi da casa, olhei pela janela para o cipreste lá de fora, engoli em seco, bebi um último copo de água gelada e saí. espero não voltar mais a esta casa, é este o meu sonho. 

quinta-feira, novembro 06, 2014

VI

um beijo, um toque na mão, um olhar trocado. os dias enchem-se de fórmulas, de tubos de ensaio, de batas brancas e de palavras poucas. não há vida nestes dias, não há nada. a casa espera-me vazia. e não tenho ninguém do outro lado da linha. os livros aqui, o disco novo na sala e onde é que ele está? preciso do teu beijo, da tua mão, dos teus olhos. agora.

maria & luiz

um cartão, dois teatros. (link) o que queres mais?

quarta-feira, novembro 05, 2014

joão

V

fomos uma só até ao fim. não te esqueças, mãe. os teus berros, as tuas raivas, a tua dor. não te esqueças de mim. do meu cabelo revolto, molhado da chuva que caia pelo cipreste do nosso jardim. não me esqueço da fixação que tinhas com a opinião dos outros. não me esqueço da luta constante para ter um minuto de silêncio em casa. os russos, sempre os russos a tocar na biblioteca. noite inteira. as noites brancas que não te apagavam os olhos. eu não dormia, mãe. eu fechada sobre mim mesma e tu esquecida de mim. não me esqueço, mãe. um curso tirado a pedido, um dia para o mundo ver. "uma investigadora de renome internacional, ainda vai ser nobel", dizias à senhora rosa da frutaria. não queria, mãe. nem quando caiste no esquecimento, eu me esqueci disto. não me esqueças agora, mãe. não te esqueças de tudo. não me esqueço da última nota, do derradeiro suspiro. não me esqueças, mãe.

terça-feira, novembro 04, 2014

IV

a sala está vazia. os melómanos são cada vez menos, os fãs com t-shirt da moda, pulseiras de várias cores e iphones 6 são cada vez mais. a música uma constante para todos, o silêncio uma ilha esquecida. há barulho, há solidão, silêncio e música. aqui e ali um caos organizado. rachmaninoff e uma sala vazia. é fim de dia, não me conheço. eu, sozinha.

segunda-feira, novembro 03, 2014

estás aqui, estás no estoril


short story


london, 2013

dia um

ele pintava melhor quando chovia. e quando estava frio e o vento arrastava os guarda-chuvas reformados. era um apaixonado pelo inverno, pela solidão que aquela noite às cinco da tarde lhe dava. acordava tarde, quase não via a luz, nem ouvia os gritos das crianças pela manhã. aquecia as cores num quadro grande e atacava as sombras em todos os pormenores que só ele via. ele pintava melhor quando chovia. era um filho do inverno, nascido no dia de todos os santos, abandonado na igreja da terra, um ano depois. era esse o seu terramoto inultrapassável. não havia futuro no seu traço e ele só queria fechar os olhos daqueles que pintava. não há alma na minha pintura e ainda bem, confessava àqueles que se queixavam que só queriam um quadro colorido para pendurar no escritório. lá fora chovia, muito, era um outono triste e ele sorria. uma janela aberta, uma corrente de ar, um lamparina que não devia estar ali. acabou assim, num dia de chuva. uma triste história sem alma, como as que pintava. 

III


- não há vacina, nem se pode falar em cura, o que apresentamos hoje são, apenas e só, uns primeiros resultados promissores e animadores.
- dra., mas estamos a falar de testes que apoiados pelas grandes farmacêuticas podem resultar em avanços significativos?
- exactamente! estamos sempre a falar da necessidade de apoio financeiro e, sobretudo, de ajudas às equipas de investigação. agradeço mais uma vez a presença de todos mas a conferência está terminada.

domingo, novembro 02, 2014

II

a porta fecha com estrondo. a mãe ficou lá atrás aos berros, na entrada um vizinho que fuma enquanto o seu cão marca o jardim das crianças. o velho resmunga algo sobre o portão da quinta. nem olho. meto os auscultadores, baixo a cabeça, acelero o passo, rua acima e uma mensagem apenas: café daqui a cinco minutos, maria?

sábado, novembro 01, 2014

I

agarra-lhe a mão, sussurra algo, esconde a cabeça entre o peito e o braço esquerdo. confundem-se as duas respirações, unem-se as duas vidas. é assim, há muito tempo que é assim. são uma só.

domingo, agosto 10, 2014

simples

o cabelo molhado, as costas suadas, as pernas que fraquejam. é dura a subida e, contudo, doi menos que a ausência de duas noites lá longe. lisboa, bairro em que vivo e duro. são longas as noites sem ti e maior ainda o tempo que me falta até ser tempo para estar aí. a nossa cama é quase. ganha corpo, e vive aqui nestas palavras. é simples. e real. e agora?

sexta-feira, agosto 08, 2014

quem és tu, de novo?

andamos nisto há demasiado tempo e sinto que já não há mais horas no relógio que me deste. aquele tic-tac outrora familiar é agora barulho infernal que insiste em arrasar o silêncio desta nossa casa. vejo as tuas roupas a um canto, a cama que não se desfez mais, e faltam-me as marcas dos teus pés, pequenos e subtis, no chão. dois discos por abrir, dois presentes que vieram foram do tempo, são metáforas que não quero ter comigo. esta casa não foi feita para ser de um, não tem mais vista a janela rasgada no verde jardim, não tem mais sol o fim-de-dia. perdemos o outro algures no caminho, somos bichos humanizados sem dedos acusatórios. não existe culpa. não te tenho aqui, não te vejo aqui, não há verbo que escreva este momento. ligo o rádio de colecção e o oiço as palavras de outro: quem és tu, de novo?

terça-feira, julho 01, 2014

do fado



Carlos do Carmo e Camané, "Por Morrer Uma Andorinha" in Fado é Amor, 2013.

Carlos do Carmo é o primeiro português a conquistar um Grammy A Latin Recording Academy anunciou hoje ter agraciado o cantor de "Um Homem na Cidade" com o Prémio à Excelência Musical - "Lifetime Achievement" no original em inglês -, uma distinção única que pretende celebrar a carreira de um artista.

nota: tive o privilégio de trabalhar e privar de perto com este enorme artista. é um homem como poucos, pelo que este prémio é de uma justiça inquestionável. ganha o carlos, o fado e portugal.

sexta-feira, junho 06, 2014

para um verão que não chega

deste ano

as palavras andam menos presentes, os presentes são mais música, e o presente é mais imagem. este blog não desaparece, mesmo que pareça que se desvanece. os dias são assim, todos muito parecidos e, contudo, mudam tanto. este blog leva o tempo de uma vida, teve um motivo, mudou as razões, e terá outros objectivos. "é assim a vida!", diz a vizinha. e com este blog não será diferente. sabe-me bem voltar a esta casa, mesmo que seja raramente. hoje é dia de festa e tinha de passar aqui, mesmo que seja para uma visita-de-médico.

sábado, maio 10, 2014

A IDENTIDADE PORTUGUESA NA PINTURA E NA ESCULTURA

O Português que só é Português, não é Português.
Fernando Pessoa

Os sinais plásticos estão a expandir-se no globo terrestre mais rapidamente do que os de qualquer outro sistema de comunicação e de expressão.

O tempo e o lugar são, pois, dois dos aferidores fundamentais para identificar a arte portuguesa. Qual? A que foi realizada por portugueses, onde quer que eles se encontrem? A que foi realizada em Portugal, ainda que por estrangeiros? E quando? Nos séculos passados? Na actualidade?

Estas perguntas são um provisório aviso prévio quanto à necessidade metodológica de dividir o assunto em estudo e facilitar a sua exposição por escrito. É porém importante perceber que elas são indiscerníveis, hoje como ontem, para melhor intuirmos a realidade da vida artística portuguesa, com a sua subtileza, o seu lirismo e a consequente dificuldade de divulgação internacional.

Experimentemos começar por evocar algum facto antigo, que seja consensualmente considerado como representativo de alto nível estético atingido em Portugal.

Observando as obras góticas e renascentistas, verificamos que foram numerosas as contribuições de artistas estrangeiros que vieram instalar-se no país e aqui fizeram escola. A elite cultural e política assimilou-os. De tal modo que, sobre algumas das obras mais apreciadas, ainda hoje se hesita em declará-las produto de mão portuguesa ou de estrangeira.

Claro que, nesta hesitação, não incidem apenas motivos de ordem estética. Os parcos conhecimentos sobre o local de nascimento de alguns dos melhores autores, juntamente com a deficiente acuidade visual daqueles que se apoderaram das obras e, dum modo geral, os desleixos com que o património foi sendo tratado têm dificultado a instauração de uma durée cultural em que amadurecessem as intuições interpretativas. Algumas destas foram penetrantes, mas cedo abandonadas, devido à preguiça mental, à indisciplina do pensamento e ao desinteresse por tudo o que desviasse as obras de arte da sua mera função de objectos de luxo. Desse modo, perde-se a mensagem civilizacional que em cada obra de arte é resposta a outra ou outras obras de arte. Actualmente, com o aperfeiçoamento do pensamento visual, percebe-se melhor que todas elas se esclarecem mutuamente.

Uma obra isolada pode ser reconhecida como artística. Mas, sendo certo que ela provoca inesgotáveis interpretações, de diversos níveis conceptuais e diferentes abordagens da sensibilidade, deverá aceitar-se que a melhor resposta é outra obra de arte. E aqueles usufruidores que beneficiam do prazer experimentado com outras obras de arte estão geralmente mais aptos, ou seja, mais disponíveis, para a apreciação dessa obra isolada, a menos que essa experiência tenha sido pervertida na sua transcrição para códigos judicativos incompetentes, derivados da insensibilidade, e da falta de sinceridade de quem apenas quer adaptar-se ao discurso dominante, mesmo sabendo que perante determinada obra de arte ele parece inadequado.

Nesta última circunstância, está viciada a problemática da identidade, quer no âmbito individual quer no colectivo. Tal circunstância é porém frequente, e tornou-se mais dramática na actualidade.

Se por identidade designarmos os preconceitos dominantes, então verificaremos que eles se pronunciaram quase sempre contra as inovações artísticas, onde quer que seja. Não apenas em Portugal, portanto.

Por outro lado, se observarmos algumas constantes expressivas que estiveram presentes nas mais diversificadas inovações que, cada uma a seu modo, se tornaram triunfantes na prática da própria elite dos criadores, colheremos outros dados que formarão uma experiência estética capaz de detectar, no puro exercício da sensibilidade, as qualidades que, sem claque nem demagogia, constituem a actividade instauradora de uma nova visão, aquela que melhor serve o desejo de alcançar os horizontes mais vastos e o melhor futuro.

Por definição, o inovador está mais ocupado com o futuro do que com o passado. Ele é o projecto de si mesmo e da sua obra. Mas não há arte em potência. Existe apenas aquela que se realizou.

Também a criação não pode partir do zero. Como qualquer linguagem, a arte parte de uma linguagem, aperfeiçoa-a, inventa-a. Fora da arte, não há mesmo sistema de comunicação e de expressão onde melhor se possa assistir à transformação das “linguagens”.

Foi por deficiência dos discursos descritivos da arte que os contemporâneos das inovações mais decisivas no domínio artístico falaram em roturas. Na realidade, essas “roturas” trouxeram muitas vezes um grande esclarecimento acerca das obras anteriores. Por assim dizer, a obra inovadora reinventa a sua própria genealogia. Assim, participa de um modo próprio na definição dos elementos historiográficos, e estes são constituintes insubstituíveis do entendimento da identidade colectiva, chame-se ela povo, nação ou sociedade.

Devemos portanto estar sobretudo atentos ao que podemos designar por história interna da arte. E não devemos desperdiçar o que a arte de hoje nos ensina sobre essa história, pois é ela que mobiliza o maior número das nossas capacidades psíquicas, manifestando-as livremente ou aplicadamente, exprimindo-as ou calando-as, harmonizando-as ou sofrendo as suas tensões… A contemplação estética é uma contemplação activa.

Trata-se de uma historiografia feita do presente para o passado, pois não temos melhor ponto de partida, nem mais honesto, nem mais vivo. Pensa-se que ao historiador interessa apenas o passado e ao crítico o presente. Também se admite que, sendo ambos possuidores de grande número de conhecimentos, o primeiro é um erudito enquanto o segundo é sobretudo um homem de cultura; ou seja, o historiador seria o possuidor de ideias mortas e desinteressadas, enquanto o crítico estaria mais empenhado na acção e as suas ideias seriam vivas. Tal distinção pode ser tendencial, mas nunca é absoluta.

Convém ao crítico utilizar o consenso a que possam ter chegado os historiadores quanto à definição de algum facto, enquanto acontecimento histórico com as suas consequências nas estruturas sociais. Mas não pode renegar os dados que a sua actividade descobre e que ele sabe terem sido constituintes activos dos acontecimentos históricos. Ao tentar estabelecer um critério de valor à globalidade das realizações artísticas do seu tempo, o crítico passa a adoptar atitudes que não se distinguem das dos historiadores.

Ora, o crítico beneficia do facto de estar perto dos criadores, o que faz com que sinta e saiba sempre mais do que aquilo que pode reduzir a escrito.

As perguntas formuladas no início deste texto previnem-nos quanto à necessidade de delimitar o campo em que decidirmos responder à questão da identidade da arte portuguesa. Mas logo a evocação de um facto do passado aponta para a manutenção das perguntas na sua globalidade (e poderiam ser introduzidas mais algumas), ao arrepio da metodologia cartesiana que aconselha a dividir as questões em parcelas mais simples.

Não tentaremos uma resposta à questão, caracterizando a portugalidade apenas através de negatividades (desleixo quanto ao património, falta de recolha de testemunhos epocais, desprezo pela teoria, etc.), mantendo apenas a falta de durée cultural, por ser um conceito mais global. A durée não é definível nem intuída, sem a ligarmos à vida. Recusa-se à análise. A sua maior ou menor interferência na sucessão de factos culturais revela força ou fraqueza, um voluntarismo complexo ou uma indolência desistente? Talvez de um modo ou de outro, sem recorte nítido. Mas trata-se de um querer maleável, adaptável, onde a indolência é apenas adiamento. Entretanto, sonha-se, para que não se perca o essencial dos desejos e dos projectos.

Na realidade, os observadores do políptico atribuído a Nuno Gonçalves são unânimes em reconhecer o espírito voluntarioso de todos os sessenta retratados. O historiador francês René Huyghe afirmou que “na arte de Nuno Gonçalves e da sua escola, há, além do contributo do seu génio, a realização de uma nova etapa da alma ocidental que parte à conquista de si própria (…), pela primeira vez o homem moderno define-se antes de mais como indivíduo: o homem moderno nasceu (…), foi Portugal quem o expressou desde meados do século XV e formulou com um enorme poder de caracterização uma onda de sensível inquietude que, durante séculos e séculos, não será possível ultrapassar”.

Ainda actualmente não estamos seguros quanto a afirmar quem são os retratados e quem é o próprio autor desta pintura. Quanto ao seu mérito estético, não restam porém dúvidas, e ele faz-nos sentir a força de carácter dos retratados.

Note-se: num retrato colectivo, que mostra as diversas classes sociais da época, revelou-se a afirmação de individualismo e a sua força interior. Todavia, há também nesta pintura o início da expressão simultânea do espírito voluntarioso e de uma “onda de sensível inquietude”.

Esta onda culminou no século dezanove com «O Desterrado» (1872) de Soares dos Reis, escultura que o poeta Teixeira de Pascoais (1877-1952) considerava a máxima expressão plástica da saudade. Curiosamente, vemos agora uma figura individual a significar um sentimento colectivo. Como? Elevando-a poeticamente ao nível do mito.

Para Pascoais, a saudade era a característica essencial do povo português. Neste ponto, deve porém afirmar-se que não é importante supor qualquer particularidade portuguesa, exclusiva e intransmissível; pelo contrário, é importante compreender esteticamente a analogia entre O Desterrado e a saudade segundo Pascoais, mais intensa e filosoficamente consistente do que a de Bernardim, Camões ou Garrett. Na poesia, Pascoais foi mais profundo do que na sua filosofia, e muito mais do que nos seus panfletos como o intitulado Arte de Ser Português. Na poesia de Pascoais, a saudade consiste numa total entrega à reminiscência iluminante, como a da filosofia de Platão em busca de arquétipos, ou da verdadeira realidade para além das aparências imediatas e ilusórias, tendendo para a compreensão universal do destino dos homens e, portanto, de todos os povos.

Pode tomar-se esta característica como componente do messianismo que atraiu o espírito de alguns dos melhores escritores do século XIX. Lembro apenas Dostoievski e Tolstoi. Os nacionalismos políticos contemporâneos do Romantismo, são, nestes casos, humanizados: para além das definições de factos históricos a partir da economia, da força guerreira, do contrato diplomático, da luta de classes sociais, procurou-se avivar o que melhor designaríamos por durée.

Os excessos cruéis da exploração dos homens pelos homens, foram denunciados logo no início da era industrial pelo inglês Charles Dickens e este influenciou Dostoievski na sua luta contra as situações humilhantes. Em Portugal, o apelo ao sentimentalismo feito por Camilo prolongou-se em certo Pascoais e serviu de patamar para o seu visionarismo, a sua ânsia de compreensão afectiva da humanidade.

Em poucas palavras: no nosso tempo, o artista está mais perto daqueles que sofrem com a História do que daqueles que proclamam fazê-la, como disse Albert Camus no seu Discurso da Suécia, ao receber o Prémio Nobel. As crianças de Dickens, os humilhados de Dostoievski, os miseráveis de Hugo … o desterrado de Herculano, Soares dos Reis e Pascoais. Integrado numa durée cultural, ainda que meramente esboçada e frágil, o mito evocado por Soares dos Reis adquiriu mais presença como identificador do colectivo português do que as numerosas representações oficiais das personalidades reais geralmente consideradas “históricas”.

Que importa que o escultor tenha concebido em Itália essa escultura? E que aí tenha olhado para a arte de Canova e de outros?

Em Itália, Soares dos Reis apurou a sua técnica e elevou a sua sensibilidade aos mais altos níveis estilísticos. Como outros artistas portugueses – Amadeo é outro bom exemplo – fez as suas sínteses, sendo possível encontrar na sua pintura lições do neoclassicismo, do realismo e do naturalismo. O tema é romântico, inspirado na poesia (não na historiografia) de Herculano.

Soares dos Reis não quis aproveitar a oportunidade de vender a escultura em Itália. Trouxe-a para Portugal, onde a concluiu e onde sofreu ataques e difamações da parte de invejosos e dos pseudo-lúcidos cépticos, que sempre consideraram impossível haver génio criador português, ou em Portugal.

Almada Negreiros inseriu-se na linhagem deste comportamento, ao declarar, em 1926, não conceber o artista fora da sua pátria –  “A Arte não vive sem a Pátria do artista, aprendi eu isto para sempre no estrangeiro”. Viveu em Paris e em Espanha. As suas pinturas murais realizadas nas gares marítimas, durante os anos quarenta, representam a relação do povo português com o mar. Primeiro, de modo mítico, ilustrando o poema popular Nau Catrineta. Depois, num estilo neo-cubista, o embarque dos emigrantes e cenas da vida ribeirinha. Esta junção da temática popular com o formulário modernista é precursora do que veio a designar-se por pós-modernismo, pois este movimento interessou-se pelas sínteses transvanguardistas e pelos valores regionalistas.

Antes de Almada, Amadeo tinha realizado as suas sínteses - “Eu não sigo escola alguma. As escolas morreram. Nós, os novos, só procuramos agora a originalidade. Sou impressionista, cubista, futurista, abstraccionista? De tudo um pouco.” - afirma em 1916. Não se tratava porém de negar os ismos, mas de encontrar neles o que lhe fosse necessário para construir sínteses pessoais. Amadeo não acreditava no intelecto, mas apenas no temperamento. Foi a multifacetada experiência adquirida em Paris através da prática que depois lhe permitiu descobrir, com novos olhos, as tradições portuguesas, quer sejam as eruditas quer sejam as populares.

O mesmo aconteceu depois com Botelho, Smith, Vieira da Silva, Dacosta,  Bertholo e muitos outros, em Paris; com Eloy e Costa Pinheiro, na Alemanha; com Paula Rego e Bartolomeu, em Londres… A maneira como reflectem a portugalidade nas suas pinturas não foi ultrapassada por aqueles que permaneceram no país de origem. Neste aspecto, reparamos que a sua melhor expressividade é subtil e lírica, facto este que torna difícil o seu reconhecimento nos grandes centros cosmopolitas. É aí, porém, que uma melhor relação entre o intelecto e a sensibilidade fixa os sinais do tempo.



Conceitos-chave – Tempo; Espaço; Regionalismo; Cosmopolitismo; Mito; História; Sentimento; Intelecto; Lirismo; Subtileza.


Rui-Mário Gonçalves (1934-2014) in revista digital Projecto10


sexta-feira, abril 11, 2014

xadrez de sexta

és como um bispo na vida de um cavalo, és roque pequeno em salto grande. esquece a diagonal, não há meio termo aqui. é assim o jogo que pensámos para ti. há erros, há sempre erros. podes até adiar o xeque-mate. até quando? falta-te jogo, dizem. não és deste tabuleiro, não entendes as peças, muito menos as jogadas. podes falar num passado em que tudo era preto e branco, ou mesmo lembrar aquele tabuleiro de madeira do teu pai, todavia não serve de nada. jogas damas?, perguntam. sabes que não, que há mais, que queres mais. mas não há espaço para lá das 64 óbvias. abre na lateral, cria algo. não sabes, não consegues. dá empate?

quinta-feira, março 27, 2014

dezassete minutos

é o regresso à viagem de sempre e, porém, o trajecto não parece mais o mesmo. são quinze páginas lidas na diagonal, duas de esboços de apontamentos, um telefonema para a família, uma discussão política, uma troca de lugares-comuns-sobre-futebol-à-segunda-de-manhã, uma dezena de trocas de olhares que nunca dão em nada. são dezassete minutos. se hoje estes dezassete minutos contassem para alguma coisa. as paragens são as mesmas mas eu já não sou estes dezassete minutos. fiquei algures num apeadeiro desconhecido, com outras pessoas, outras histórias por contar. estes dezassete minutos eram tão meus,  conhecia-os, sabia-os na ponta do tic tac, reconhecia as travagens do comboio, a velhota dos sacos da reboleira, a criança de galochas amarelas que saía sempre à última na amadora, o pica, era o pica, que adormecia depois de benfica. dezassete minutos concentrados em mil histórias e olhares cansados. foram dezassete minutos de regresso ao passado, assim, nem rápido nem lento, só pouca-terra, pouca-terra.

terça-feira, março 25, 2014

em linha


variação sobre uma cidade

nova iorque é tudo o que eu esperava. aliás, este bar é a nova iorque que sempre vivi nos olhos de outros e nas tuas palavras. uma cerveja fresca, uma cortina de fumo e três velhos senhores do jazz. um homem de olhar cinzento e chapéu descaído atira-me uma pergunta e mal respondo. da europa, sim, de férias, por umas semanas. baixo a cabeça. a minha perna mexe ao ritmo do contratempo do contrabaixo e sorrio. na mesa junto à porta, um casal troca carinhos e promessas que todos sabemos que nunca serão cumpridas. nenhum relação que nasça no jazz pode ter futuro. foi assim comigo, será assim com todos. conheci-o numa noite de fumo assim, contudo, eram apenas duas vozes nessa sala. piano e um sopro. não me lembro, ou não me quero lembrar. quero esquecer, sim, quero esquecer. falámos a noite toda, dos meus planos, dos teus planos, dos vinis de jarrett, evans e davis, daqueles solos de bateria do moço novo. vimos o concerto dele na gulbenkian poucos meses depois e tudo parecia bem. a tua mulher já era ex-, o meu pai já era e eu tornara-me um pouco mais indiferente, mais fria. é mais simples assim, dizias. as pessoas complicam tudo e não há melhor do que os silêncios  e a razão. tens razão, amor, dizia-te. foram anos, muitos anos, a viver a vida a dois, sem outros. só música, álcool, e sexo. prometeste que iríamos a nova iorque viver uma noite das nossas num bar destes. não iria falhar, não podia falhar. vivi a vida à espera disto. eu estou aqui, agora, e tu?

quinta-feira, março 13, 2014

don't look behind you

uma manhã

falta-me a tua voz rouca pela manhã, o cheiro a perfume de homem e o beijo de adeus-até-mais-logo. e sobra-me um puxar de lençóis até cima, um enroscar no canto da cama, um esconder debaixo de três, quatro ou cinco almofadas. está  ai o novo dia, o seguinte, o próximo, o amanhã que insiste em aparecer para almoçar. lá fora, os pássaros chilreiam canções de amor, cá dentro, a rádio descreve a guerra próxima. e eu, sozinha e só, sem as tuas mãos quentes, sem os teus truques, sem os teus silêncios. falta-me uma música, um livro, uma peça, um filme, algo que explique o que é isto. como, quando, onde, porquê? deixei a jornalista à porta desta relação e agora não encontro o caminho de volta. agora não te encontro. agora não te tenho aqui. agora, só não queria que fosse agora. 

segunda-feira, março 03, 2014

la vie devant soi



«La première chose que je peux vous dire c'est qu'on habitait au sixième à pied et que pour Madame Rosa, avec tous ces kilos qu'elle portait sur elle et seulement deux jambes, c'était une vraie source de vie quotidienne, avec tous les soucis et les peines.»

Romain Gary


Mário Coluna, o primeiro homem


O último livro, e inacabado, de Albert Camus chama-se O Primeiro Homem. É um romance autobiográfico. Um casal de colonos europeus, pobres, muito pobres, por um caminho agreste da Argélia. A mulher está grávida e o pastor árabe que os acompanha diz: "Tu vais ter um filho. Que ele seja belo." Camus, que não era crente, descreve o seu próprio nascimento como uma cena natalícia, em homenagem à mãe que era iletrada e religiosa. Nós somos sempre o primeiro homem, a esperança da redenção. Na década em que Camus morreu (com o manuscrito inacabado de O Primeiro Homem espalhado na mala do carro enfaixado numa árvore, 4 de janeiro de 1960), dois homens que representavam as duas superpotências rivais, o soviético Yuri Gagarine ("a Terra é azul", 1961) e o americano Neil Armstrong ("um pequeno passo para um homem, um salto gigantesco para a Humanidade", 1968) contaram o mesmo sonho. O primeiro homem, a visão, o salto. Nem sempre essas coisas se passam grandiosas como as acima descritas, nem sempre recebem o Nobel da Literatura ou ficam marcadas como marcos históricos. E, no entanto, movem--nos. Eu tive a sorte de amar desesperadamente a minha terra e por isso estar atento aos sinais anunciadores. Naquele década, houve muitos domingos e quartas-feiras europeias em que vi jogadores de um jogo simples e quem mandava neles era naturalmente o chefe. Ele não era branco, como eram sempre, até então, os que mandavam. Mário Coluna, primeiro homem.

Ferreira Fernandes in DN


quarta-feira, fevereiro 05, 2014

Erros de palmatória

Leio algures uma lista dos erros mais frequentes em língua portuguesa falada e escrita. Percebo rapidamente tratar-se de uma coisa produzida no Brasil e, como tal, nem tudo bate certo com o que acontece aqui na terrinha (para usar uma palavra que os brasileiros empregam quando se referem a Portugal). No entanto, há erros que são os mesmos cá e lá e descubro com alegria que o rol de asneiras não omite a expressão «Há x anos atrás» (havia de ser à frente?) que ouço amiúde aos apresentadores de televisão e a muita outra gente mais informada que, ainda assim, não lhe consegue fugir. Outra que apreciei ver, porque me está sempre a aparecer nos originais que me chegam de potenciais escritores, é «prefiro ir do que ficar» em lugar de «prefiro ir a ficar», sendo que este «preferir» também aparece vulgarmente na redundante expressão «antes prefiro» quando o prefixo «-pre» já significa antes. «Uma grama» é outra que me leva aos arames na prosa que leio, se, evidentemente, se referir a medida de peso, e não a relva brasileira. Mas há mais, como a sistemática confusão entre «onde» e «aonde», a insistência em usar a terceira pessoa do plural do verbo «haver» em frases como «começa(m) a haver sinais de…» (do piorio) ou desconhecer a diferença entre «ter a haver» e «ter a ver» (na verdade, «ter que ver» é a melhor opção neste último caso). Enfim, escreve-se e fala-se bastante mal português e, mesmo não fazendo parte da lista que referi no início, gostaria de acrescentar que se tornou moda dizer «De todo» em vez «De modo nenhum» (mas é um erro escusado, já que «de todo» quer dizer «totalmente») e empregar erradamente o verbo «chamar» com a preposição «de» («chamou-o de parvo» em lugar de «chamou-lhe parvo»), sendo que este último está seguramente entre os que mais vezes apanho em autores que querem publicar o que escrevem.

Maria do Rosário Pedreira in Horas Extraordinárias

oito anos

parece que o blog fez oito anos no passado mês de janeiro, e nem lhe fiz uma festa de aniversário à maneira. qualquer dia entra na adolescência, começa a lançar posts mordazes, a querer sair à noite e depois quero ver.

quinta-feira, janeiro 23, 2014

é uma noite negra

sabes que algo vai mal na humanidade quando na mesma noite encontras o calvin & hobbes no correio da manhã e um guia explica a uns estrangeiros que o poeta "é" chiado porque fazia schiiiiu naquela praça. 

quinta-feira, janeiro 09, 2014

tens razão

tens razão, tu sabes que tens razão. e, por isso, eu fico em silêncio, talvez procurando apalavrar uma ideia-nova ou silenciar um receio-velho. tens razão. há atenuantes, explicações, motivos e razões, mas tu tens razão. somos quem somos e custa tanto mudar. acredita que quero. todos queremos, acho. palmilho os supermercados à procura da poção mágica e nada. a mezinha não está em nenhum dos corredores coloridos e aromatizados. poderia ligar a tv, encontrar um psicólogo da farinha amparo e empreender. ser o que os outros dizem que são. mas não consigo. eu quero, acredita. mas não é fácil mudar. começo amanhã, ok?

casa roubada


Barré by Escif via complex.com

segunda-feira, janeiro 06, 2014

eusébio é portugal

são lágrimas de um povo, são lágrimas a molhar as quinas, são lágrimas do quase. quase que ganhámos, foi quase-quase-quase. é tudo inglório, é tudo efémero, tudo é apenas e só o som da bruááá da bola que não entra. hoje é 1966. a história de portugal está escrita nesse ano, uma história de quase.
portugal é eusébio, portugal é um quase. melhor marcador no mundial, campeão europeu pelo benfica, onze vezes campeão de portugal, melhor marcador cá, lá e em todo o lado onde haja uma baliza. mas falta algo, não é consensual. em portugal ninguém é consensual. 
portugal é eusébio, portugal é uma derrota. perdemos mil finais, choramos, culpamos todos, os comunas (menos aquele vizinho simpático), os pretos (excepto o eusébio, que até era boa pessoa), os ingleses (mas adoro londres), os gregos (nós não somos a grécia, ok?) e todos os restantes.
eusébio é portugal. eusébio é a história de um país que já foi campeão em tanta coisa mas lá, lá fora é que é. só respeitamos os nossos depois de morrerem, dizem. depois da morte vai ser diferente. faremos mil  posts de elogios, mostraremos o autógrafo roubado naquele restaurante lá do bairro e contaremos as histórias que o nosso pai contava, assim como se fossem nossas. talvez, mas também é verdade que "é vergonhoso que se dê tanta atenção a um homem destes" e "ele é uma referência mais benfiquista do que portuguesa" (ainda bem), ou mesmo "o povo só se interessa é por futebol." 
eusébio é portugal, portugal é eusébio, mas já chega. repito: em portugal ninguém é consensual. saramago, amália e, brevemente, o manoel de olivera só hoje se tornaram unânimes. hoje são muitos que acham vergonhosa a atenção que eusébio tem recebido, as falhas de soares ou o facto de algo-ou-outra-coisa. é que não há paciência para um dia inteiro de vídeos, entrevistas e tudo-o-mais-que-dê-para-mostrar-algo-inútil-sobre-o-senhor-silva-ferreira. portugal é isto mesmo, a culpa da tv só dar eusébio é de todos, menos de quem não descobriu que a televisão tem um botão para desligar.

domingo, janeiro 05, 2014