quarta-feira, outubro 30, 2013


high heel perception, lisboa, 2013

levas a carteira para o palco?


isto não é um documentário sobre uma banda, isto não é uma viagem à vida privada de uma banda, isto não é uma banda. agora somos todos national.
tom não é matt, não é o macho alfa, não é óbvio, muito menos previsível. este filme ultrapassa a banda, o rock, o matt, os irmãos dessner e os devendorf. são as perguntas inesperadas - levas a carteira para o palco? e o relógio? que drogas já usaste? -, os momentos incómodos - mete os óculos. tira-os. olha para aqui. diz isto e aquilo. -, os desabafos sentimentais - o meu irmão gosta mais de mim do que eu muitas vezes -, e é a realização-tentativa-erro-ou-então-não.
há pouca música e, contudo, há mais national do que é habitual num documentário sobre uma banda. há national, mas não há suficiente material sobre a banda. os national somos todos, diz o matt a pedido do tom. talvez sejamos, talvez não, mas isso interessa realmente?

sexta-feira, outubro 18, 2013

a chamada

não via a mãe há mais de dois anos. os dias haviam passado, as chamadas não atendidas acumulado e fazia já mais de seis meses que a sua mãe não pedia informações à vizinha da frente. ele gostava desse silêncio, dessa ausência, da confirmação do afastamento que sempre procurara. dois anos, dois anos passam rápido mas não apagam todos os outros. naquele dia, tal como hoje, chovia bastante. a cidade cheirava a terra e a casacos-de-armário, a pressa de chegar a casa para ver o jogo era geral e apenas ele estava distante disso tudo. preso, como tantas vezes antes, numa discussão que já conhecia o fim. não me faças isso, filho. eu dei tudo por ti. eu mato-me. sempre a mesma pressão, a mesma chantagem. a mesma brutal violência vinda de quem o abandonara aos dois anos. dois anos, dois anos passam a correr. o telemóvel tocou, era um desconhecido qualquer a comunicar que sua mãe morrera. deve ser engano, a minha mãe morreu há dois anos. obrigado e desculpe.

por estes dias


banksy & ny (link)

segunda-feira, outubro 14, 2013

terça-feira, outubro 01, 2013

Requiem pela Adega dos Lombinhos

Ao fim de quase 100 anos, chega ao fim uma das tasquinhas mais acarinhadas de Lisboa para dar lugar a um hotel de uma cadeia internacional. A Baixa pode estar a ficar mais bonita, mas se calhar está a deixar de ser a Baixa.

Com ou sem ovo?” Sempre que ouvimos esta pergunta sabemos que estamos no sítio certo. Porque só uma grande casa nos dá a oportunidade de engrandecer uma generosa dose de proteínas com mais proteínas. A acompanhar, Arroz e Batatas – a única dupla a que toda a gente chama de Guarnição.
A estes ingredientes soma-se ainda o pão (ou pãozinho) e o picante (picantezinho). Para pôr onde? Nos lombinhos. 
No número 52 da Rua dos Douradores, os diminutivos são mais do que uma questão de linguagem. 
A Adega é pequena, com apenas 14 lugares sentados. O vinho é servido em copos de três a sério, daqueles que se esvaziam num gole e meio. Aos lombos chama-se lombinhos porque vêm cortados muito finos e fritos na chapa. As batatas são batatinhas porque foram descascadas, cortadas e fritas à nossa frente – o “inho” que elas ganham antes de vir para a mesa é de car-inho. Se pedir uma cerveja sem especificar servem-lhe uma mini. No final chega a continha, com um valor inferior ao esperado. 
O que não é pequeno na Adega dos Lombinhos é a popularidade. Sempre entre o cheio e o muito cheio, das sete da manhã às oito da noite, horário cumprido todos os dias excepto ao domingo. 
O que é grande, agora, é a tristeza de saber que um dos restaurantes mais característicos da cidade vai fechar para sempre. Dia 31 de Outubro (ou antes) o senhor João vai perguntar pela última vez: “Com ou sem ovo?” Em 2017 a Adega dos Lombinhos faria 100 anos. 
A história dos restaurantes da Baixa faz-se de Galegos, Minhotos e Beirões que desceram à capital para trabalhar com um tio. Mais tarde abriram as suas casas de pasto, solares, parreirinhas, tascas ou adegas. Foi isso que fizeram os irmãos João e Eduardo Amorim, os dois homens por detrás desta adega que ostenta orgulhosa um calendário de parede com a mapa da Freguesia de Venade, Viana do Castelo. 
“Na minha terra riam-se se eu levasse os Lombinhos para lá”, conta Eduardo, o cozinheiro, “lá em cima toda a gente está habituada a carnes do tamanho da pedra da calçada”. 
A Adega propriamente dita é anterior aos irmãos. Está ali desde 1917 e mantém-se igual ao que era quando abriu para servir bebidas a marinheiros e empregados do comércio da zona, gente que acordava muito cedo ou se deitava muito tarde. A comida só começou a sair daquele metro quadrado de cozinha nos anos 20: lombinhos no pão para aconchegar o estômago antes do primeiro ou depois do último copo. 
A origem da receita dos lombinhos é um mistério. “Já cá estava quando eu cheguei”, conta Eduardo que com o irmão e a mulher tomam conta do restaurante há 36 anos. 
Nos tempos áureos, a Adega dos Lombinhos servia 500 carcaças por semana, outros tantos bolinhos de mel e um sem número de bebidas. Muito procurado era o Velhinho de 99 Anos, um vinho branco velho licoroso já extinto, mas muito popular na época. Um cartaz desse vinho é o grande – e talvez único – elemento decorativo desta adega forrada a mármores, garrafas de vinho Campelo e boiões de mostarda. 
Nas ruas perpendiculares à Rua do Ouro (Santa Justa, Assunção, S. Nicolau) a calçada à portuguesa está a ser substituída por pedra lioz. Ambas as pedras são de calcário, mas esta última é maior, mais prática, mais moderna. Três coisas que a Baixa quer ser. Três coisas que a Adega dos Lombinhos não é. 
Não é preciso dizer mais nada sobre o potencial metafórico desta empreitada pré-eleitoral. 
A amputação voluntária e silenciosa de todas as coisas boas da cidade faz lembrar a história do pavão que, para se tornar um pássaro mais atraente, deixou de conseguir voar. 
A Baixa de Lisboa, cada vez mais turístico-cêntrica, pode até estar a ficar mais atraente, mas está a deixar de ser aquilo que é. 
O cortejo fúnebre de símbolos desaparecidos já vai longo. As livrarias Sá da Costa e Barateira foram muito faladas, a alfaiataria Picadilly saiu de mansinho da Rua Garret e o Grémio Lisbonense há muito que já era (vai ser um hotel). 
A Limonada, o melhor vão de escada que esta cidade já conheceu, fechou em 2009. Naqueles dois metros quadrados da Rua Nova do Almada comiam-se as melhores sandes de leitão na companhia dos clientes frequentes do Tribunal da Boa Hora: criminosos, advogados ou uma mistura dos dois. À tarde, podia beber-se uma limonada com reformados dispostos a tudo para defender a inocência de Vale e Azevedo.
No seu lugar existe hoje um café com “conceito”. Um conceito, para quem não sabe, é aquela coisa que têm todas as coisas sem história e sem razão de ser. 
A história cria-se, é turbulenta, incontornável, orgânica; os conceitos inventam-se. Onde era a Limonada há agora uma coisa inventada de sumos e vitaminas. Acabou-se o empregado a dormir abraçado à máquina de café e as queijadas. Agora há shots de espargos, smoothies e detoxes de vitaminas. 
Mesmo em frente à Adega dos Lombinhos há uma loja espanhola de Donuts descrita como “tradicional pastelaria norte-americana”. Serve pizzas em baguette ao almoço. Ali perto, na Rua Condes de Monsanto, a extinta Merendinha deixou de servir salgados, sopas e leitão para passar a vender sushi, chao min, chop suey e leitão. 
A Adega dos Lombinhos, o senhor João, o senhor Eduardo, a mulher e um quarteirão inteiro vão ser despejados porque sim: porque a seguradora Tranquilidade, proprietária do imóvel, disse “sim” a uma proposta de um fundo de investimento imobiliário do qual a seguradora é a única subscritora. Com esse “sim”, desaparecem lojas, cafés, restaurantes, pessoas e a Associação Portuguesa de Barbearias, Cabeleireiros e Institutos de Beleza. No mesmo lugar vai nascer um hotel de quatro estrelas da cadeia Intercontinental, um dos 26 projetos licenciados para construção na Baixa de Lisboa. Em 2008, a Baixa tinha cinco hotéis. 
Os clientes, dos habituais aos esporádicos, espantam-se com desaparecimento da Adega. “Como é que se faz uma coisa destas a alguém?”, suspiram. “Obras profundas”, suspira de volta o senhor João, por esta hora cansado de repetir a mesma lengalenga. É essa a justificação para o despejo, obras profundas do prédio, um argumento facilitado pela nova lei das rendas. Os donos e empregados saem com uma pequena indemnização e sem direito a subsídio de desemprego.
Logo à saída da Adega dos Lombinhos há uma loja chamada Portuguese Stuff. Lá dentro há o mesmo que encontramos em dezenas de outras lojas de souvenirs, incluindo globos de neve com a Torre de Belém e o Padrão dos Descobrimentos. 
Em Lisboa não neva. Na montra da Portuguese Stuff a bandeira de Portugal está ao contrário. A calçada à portuguesa está a ser substituída por pedra lioz. E a Adega dos Lombinhos fecha a 31 de Outubro.

Luis Leal Miranda in Carrossel, 30.09.13

Volta



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