quinta-feira, março 28, 2013

o amanhã chega terça-feira



 A Better Tomorrow, Hungry People, Rabih Abou-Khalil 

Sócrates vai a jogo

© Zoran Lucić


Mesmo que alguns não gostem ou apenas tenham medo de o assumir, Sócrates foi um dos maiores nomes  da democracia. Pode ser culpado de muita coisa mas "só não comete erros quem não faz nada". Hoje, tal como no passado, tenho uma certeza: Sócrates marca uma época e o resto é conversa. Foi assim na Grécia antiga, no Brasil de 1980 e Portugal na última década.
A entrevista de hoje prova algumas coisas. E todas elas eram tão simples e previsíveis: Sócrates é dos políticos que melhor prepara os dossiers, ao contrário dos nossos jornalístas; Cavaco - o político que não é político e apenas faz rodagem de carros -, é um traste, um falso e é o principal culpado desta nossa triste "narrativa"; este governo foi muito além do memorando e não foi acaso, foi uma opção ideológica; há dois anos que não existe oposição em Portugal; e... Sócrates tem muitos defeitos e cometeu demasiados erros todavia, só é uma ameaça real para a direita, para a esquerda (e para todos os outros) porque é dos poucos políticos que ainda tem algumas qualidades. É triste mas é verdade. Um último elogio? É excelente a desmascarar os pseudo-democratas-que-ouvem-a-missa-ao-domingo-ou-a-qualquer-outro-dia-em-que-haja-um-liberal-na-tv mas que não aceitam as opiniões de esquerda, centro ou centro-esquerda. Sócrates voltou ao jogo e, sobretudo se não se candidatar a nada e jogar no espaço entre linhas, isso pode ser bem interessante e importante para o futuro, mas só o tempo o dirá.
Mesmo que alguns não gostem ou apenas tenham medo de o assumir, Sócrates foi um dos maiores nomes do futebol. Obrigado, Sócrates.

quarta-feira, março 27, 2013

vagabundo em notas alheias



Beirut, Vagabond

θέατρον

hoje é dia de teatro, de muito teatro, em muitos teatros, em muitas ruas, em muitas vidas. hoje é dia de teatro. é favor não confundir com o dia mundial do teatro porque o teatro não é um dia, o teatro merece ser mundial todos os dias.

da justiça


A editora portuguesa Planeta Tangerina foi eleita a melhor da Europa na literatura para a infância e juventude, recebendo um prémio atribuído na Feira do Livro Infantil de Bolonha, em Itália, foi anunciado terça-feira à noite. 
 in Público

terça-feira, março 26, 2013

muitas dúvidas? au contraire


O PCP considerou nesta terça-feira que a integração do ex-funcionário das secretas Jorge Silva Carvalho na Presidência do Conselho de Ministros levanta “muitas dúvidas” e é “insólita”, porque este trabalhou entretanto numa empresa privada e é alvo de um processo-crime.

Muitas dúvidas? Que maledicência! Esta nomeação é apenas mais um bom exemplo da realpolitik actual. Preocupante é se este senhor fosse comentar a actualidade na televisão, isso sim.

sábado, março 23, 2013

da minha infância

guardo a sombra daquelas árvores num recanto do meu passado escrito a lápis. a bola já não rola ao som dos risos das crianças, os velhos não desfiam mais histórias do antes de antes do ontem. não há passado nesta terra despida, já não há boulevard nesta versalhes de portugal. cortaram as árvores da minha infância e tenho culpa. devia ter escrito o meu passado a caneta de tinta permanente.

quinta-feira, março 21, 2013

just smile and wave, boys

O antigo primeiro-ministro, José Sócrates, que tem vivido em Paris, desde que deixou o Governo, deverá regressar em Abril a Portugal para participar como comentador num programa semanal da RTP, com a duração de 25 minutos, transmitido em horário nobre, a seguir ao telejornal da noite.

Não consigo deixar de imaginar estas duas situações: Passos Coelho a ler a notícia acima e a pensar «Boa! Saiu-me o euromilhões. Só é pena a história dos 20%»; e Seguro a engolir em seco e a tentar relembrar-se da máxima de Pascal, imortalizada recentemente por Jesus.


amanhã a rua será outra



Rua da Palma Blues, Mel Azul, Norberto Lobo

«Seara é pão, fogo é destruição.»

os provérbios portugueses são todo um mundo. a justiça em portugal é outro.

quarta-feira, março 20, 2013

«onde não há conselho fracassam os projetos»

a frase é atribuída ao rei salomão e encontra-se repetida um milhão de vezes em várias páginas de diferentes credos. imagino que também terá sido reenviada num powerpoint manhoso mais algumas. e, contudo, não serviu de nada, pois temos o pior - mas também o mais perigoso - conselho de administração da rtp na sua história. nuno santos é apenas mais um, e longe de mim tentar criar neste caso um mártir da liberdade, é apenas mais exemplo. e isso já é suficientemente aterrador.

terça-feira, março 19, 2013

eu youtubo

se este blog precisa de cenas-e-tal, se eu gosto de googlar palavras-chave inesperadas, então eu youtubo. sim, esta é a mais recente rubrica do nem vale a pena dizer mais nada, e resume-se ao resultado da pesquisa de palavras apanhadas aleatoriamente do meu dia-a-dia. ÉPICO!

Onde está a crise?



A crise da Europa está na juventude, dizem os mais velhos. A crise da juventude está na ausência de valores, dizem os mais tradicionalistas. A Europa está em crise, dizem os jovens. E os mais velhos. E os mais tradicionalistas. E a enumeração poderia assim continuar por páginas e páginas, por dias e dias, por opiniões e convicções. Sejamos realistas: todos criticam, poucos analisam.

«Casa onde não há pão, todos ralham e ninguém tem razão», eis um provérbio feito bem à medida da Europa actual. Vivemos uma crise da instituição, das estruturas políticas, dos jovens, dos menos jovens, dos que não têm pão (que são cada vez mais), dos que defendem o liberalismo, dos que defendem o proteccionismo, dos que acusam as juventudes partidárias, dos que acham que falta é política e que o primado maior será sempre o político, o herdeiro natural da pólis.

A pólis é uma palavra do passado, embora repetida à exaustão nos dias que correm, mostrando que a história é cíclica, e que há conceitos intemporais. Pese embora a actualidade do conceito, a génese das principais características que atribuímos e elogiamos na pólis encontram-se nas cidade-estado gregas e na forma como a participação dos cidadãos era a base da sua organização política. Transportámos para a contemporaneidade as concepções clássicas de cidadania, democracia, participação cívica, política de proximidade e vestimos-lhes novas roupagens. Criámos novas gestus políticos, como os orçamentos participativos, museus etnográficos ou associações para os diferentes direitos individuais e colectivos, porque somos homens de política. Porque a política está no nosso âmago. E porque a democracia, mesmo sabendo que é um lugar-comum, continua a ser a melhor das soluções.

Onde está Wally? Esqueçam o Wally! Hoje o que todos procuram é a origem da crise. Em todo o lado, a todo o momento. Ligo a TV, oiço a rádio, folheio os jornais, leio blogs, em todos eles as mesmas respostas: A crise da Europa é económica. Não, a crise da Europa é financeira. Não, a crise da Europa é política, pois a Democracia está doente. Esqueçam o Wally! E esqueçam A resposta, porque estamos há demasiado tempo a fazer as perguntas erradas.

A Europa tem futuro? Os jovens saberão escrever o amanhã? Qual a última letra da crise? Temos tanta coisa para perguntar e tão poucas respostas. Porém, temos algo que não possível roubar, prender no banco, nem pôr a pagar a 50 anos: Criatividade. Não que tenhamos mais hoje do que no passado, mas temos as ferramentas para transmitir as nossas ideias por toda a Europa à distância de um click. As instituições europeias repetem erros após erros, os jovens são afastados do futuro que merecem, e as democracias ocidentais vacilam às demagogias de direita, esquerda, e liberais-viciados-em-excel. Mas a Europa não está em crise, os jovens não estão em crise, a Democracia não está em crise. Enquanto tivermos a capacidade de discutir nas redes sociais, nos cafés, nos encontros em Bruxelas, nas manifestações que enchem tanto as ruas que até os agentes políticos de andar por casa contam as pessoas uma-a-uma para garantir que afinal não foi nada de especial, enquanto tudo isto acontecer nada está perdido.

E termino com uma alusão à mitologia, com uma justa e merecida referência à principal herança que nos une a todos, a Grécia. Tal como no passado, e qual Agenor, é hora de pegar no barco, rumar a Sul, e procurar a princesa Europa. A solução para os problemas europeus pode bem estar na Grécia, só temos de a valorizar e elevar.

nota: A imagem é uma representação grega da princesa Europa, não encontrei mais dados sobre a mesma.

domingo, março 17, 2013

Magic Position


imagem via ccb

Cólicença, cólicença. São estes lugares. Não? Ah, são estes. Vês, ainda nem começou.  Falta entrar tanta gente. Olha ali, que engraçado, são pessoas dentro de uma gaiola, não é? Estes Praga são mesmo loucos. E o ecrã lá atrás? Deve ser para ver o Lost. Sabes que A Tempestade é o Lost com uns diálogos mais marados. Não, não estão todos mortos, mas também têm um acidente e vão parar a uma ilha onde há forças e energias estranhas.

Não, A Tempestade não é o Lost. Nem mesmo a leitura e interpretação da última peça de Shakespeare pelos Praga procura aludir em momento algum à série da moda. Mais uma vez, tudo começa antes mesmo de começar, Joana Barrios interpela aleatoriamente o público.e André e. Teodósio, qual Deus omnisciente, partilha os pensamentos de cada um. Assim, todos nus, despidos em frente a estranhos. E se Joana não for Joana mas antes Miranda? E se André não for André mas antes Próspero?  Se «este barco for um laboratório de experimentação e ao fim de tantos anos estiver na altura de ir para o mainstream», onde começa então a ilusão?

Como encenar A Tempestade? Como reproduzir uma tempestade? Ideias, propostas, vídeo (link), acção. Vento, chuva, nevoeiro, Purcell, Xinobi e Moulinex. Eis a tempestade perfeita. E uma ilha perdida para o depois. Próspero recebe todos de braços abertos, conta com a ajuda da sua filha lunática, Miranda, e do seu escravo labrego, Caliban. É a ideologia do observador, a apologia do bizarro. Próspero vê tudo, pensa muito e age minuciosamente. Tudo é pormenor nesta peça, Próspero pensa em tudo, não, André pensa em tudo: onde Ariel era espírito do ar, aqui é técnico de som, luz, efeitos, càmara, acção. Ariel é personagem de Tempestade, de Pequena Sereia, e de uma lavagem que preserva as cores. Esta tempestade é uma viagem a um mundo de enganos e mentiras. As excentricidades continuam com a sensualidade fat fat fat da Kate Moss possivel, com o dueto ao piano do par romântico pai-e-filha,  com o crioulo do noivo inglês, com o Thriller de Cláudia Jardim. Não há normalidade nas palavras nem no gestos, é o total abandono do dicionário. «Há que injectar gramática», que esta ilha não é poesia e «isto não é uma metáfora».

O teatro Praga bombardeia-nos com imagens, palavras, cor, música, luz e muitas dúvidas  desde 1995. São muitos anos e muitas parábolas que não são metáforas. «Isto não é uma metáfora» mas podia e devia ser a representação realista de um barco que todos os dias se afunda um pouco.  Naquela gaiola inflexível  vemos o isolamento, o deles e o nosso. «Isto não é uma metáfora», repito.  A Tempestade pode não ser um jogo de aparências, porém,  é certo que os Praga descobriram há muito a sua Magic Position: It's you / Who puts me in the magic position, darling now / You put me in the magic position / To live, to learn, to love in the major key.  


vale-tudo vs vale tudo

dizem que o vale-tudo é uma das modalidades de luta mais violenta que existe. talvez, mas haverá sempre algo mais brutal: chipre 2013. aqui vale mesmo tudo. uma vergonha!

sexta-feira, março 15, 2013

Na volta de Mazgani

O truque de Mazgani é fazer da bipolaridade uma coisa boa. É cantar desamores e embalos melancólicos com voz forrada a areia, fumo por todo o caminho e quanto menos luz melhor. Como outros heróis da rouquidão elegante. Tom Waits, Nick Cave ou PJ Harvey, claro, gente que só faz bem a quem os ouve. Mas Mazgani tem vontade própria, não há aqui boleias fáceis nem encostos à sombra. Distant Gardens é a primeira visita que recebemos do novo álbum que aí vem, Common Ground (com a produção de John Parish) e já se sentou no sofá, copo na mão e tudo o resto a que tem direito:

 

via Tiago Pereira in Independanças

a outra tempestade

a poucas horas de assistir à tempestade do teatro praga, fico mais uma vez aterrorizado com a tempestade de números que todos os dias nos varrem os jornais. estes valores já não permitem desculpa alguma, eles são apenas o resultado da soma de incompetência, desconhecimento de micro e macroeconomia e, sobretudo, de uma ideologia financeira que se prova errada a cada tomada de decisão.  e esqueçam rapazes, já ninguém acredita que a culpa deste titanic estar descontrolado seja só da tempestade que a caravela apanhou há dois anos.

quinta-feira, março 14, 2013

There's No Other Way


 Sorry, Blur, mas há outro caminho. E, por vezes, a emenda é bem melhor do que o soneto.

O que é ser editor

Trabalhando em edição há mais de 13 anos – e conhecendo ou sendo amigo de uma muito significativa parte dos profissionais – sei que irei dizer aqui coisas que irão magoar algumas pessoas. No entanto – e não sendo uma questão pessoal –, este ponto merece alguma reflexão.

Ser editor é ter a capacidade extraordinária de fazer duas coisas: 
  • Criar um bom catálogo;
  • Criar bons livros.

Dito assim até parece simples, mas desenganem-se aqueles que julgam que assim é.

Criar um bom catálogo é ter a capacidade de associar vários elementos e conhecimentos. Ter uma perceção clara do que se quer publicar (com coerência, cumprindo as expectativas dos leitores e da imprensa), ter a capacidade de «encontrar» os livros certos, e publicá-los para um grupo alargado de leitores capaz de rentabilizar o negócio e fazê-lo prossegui-lo. 

Ser editor não é receber catálogos (ou sentar-se à mesa com o agente), escolher de uma lista limitadíssima de produtos genéricos que representam menos 0,5% do que foi publicado no mundo – valor extrapolado por mim −, comprando somente porque tem boas tendências de venda internacional, selos interessantes na capa (prémios, etc.), temas que andam a circular no programa Querida Júlia, e muitas editoras interessadas em comprar.

Ah, e porque leram e até acharam piada, o que para o gestor de marca ou o diretor comercial, ou de marketing, nem interessa por aí além.

Ser editor também não é publicar «maçãs» e, oh!, não deu, vamos agora tentar «peras», ou «quivis». Isso revela que não se sabe nada do se publica, que não se sabe ler, que se é só mais um «comercial» com óculos de massa e cotoveleiras que trabalha na fase anterior, procurando descobrir o próximo bestseller.

Quanto ao ponto a) estamos conversados. Em relação ao ponto b) a questão é ainda mais complexa...

Devo começar por diferenciar dois tipos de trabalho com os livros: trabalhar produtos estrangeiros, já construídos e finalizados para esses mercados, ou com produtos nacionais em bruto. Não desmerecendo o trabalho com livro estrangeiro, criar livros de raiz é bem mais complexo e entusiasmante, e revelador das verdadeiras capacidades do editor. 

Não quero com isso dizer que fazer livros estrangeiros seja trabalhar com produtos simples, não é só saber descongelar, meter no forno e dar-lhe uma boa apresentação – sim, por ora já viram que sou fascinado por cozinha −, pois é um trabalho complexo envolvendo a possível adaptação necessária, escolha e controlo da tradução e da revisão, bom layout de paginação e design e uma capa interessante – caso não se compre a original. As diferenças entre fazer isto bem ou mal são mais do que visíveis no nosso mercado. Mas recordemo-nos que a edição é uma indústria, e ser editor é trabalhar na primeira fase dessa indústria: a de investigação e desenvolvimento. Comprar maquetas e ajustá-las pode ser difícil e interessante, mas não é tão entusiasmante ou revelador das capacidades criativas de um editor. 

Editar é olhar para o mercado e pensar nos produtos. Saber como se constitui um livro e que ferramentas servem para quê de modo a criar e recriar o livro certo da forma ideal.

Em termos de trabalho com autores não é só ter a capacidade de dizer «gosto», «não gosto» ou «trabalha mais», é preciso saber especificar: que esta personagem tem este e aquele problema que pode ser resolvido desta e daquela forma; que este capítulo estraga o ritmo; para meter uma peripécia e aliviar a tensão; para abordar este tema ou um outro; de refletir sobre algumas questões; para cortar as frases e acelerar o ritmo; não usar terminologias que não funcionam; pedir para mudar o cenário; tirar adjetivos; eliminar «bengalas», etc. É ter a capacidade de ajudar os autores: fazer brainstorming de abordagens a temas, trazer exemplos de resolução de outros casos, arranjar material de consulta e informação adicional para estimular ideias, chatear os autores para que eles trabalhem.

Ser verdadeiramente editor é ter a capacidade de fazer mais. É ser-se um cozinheiro. Pensar nos livros antes de eles existirem, escolher cuidadosamente os ingredientes e saber juntá-los (quem escreve, o que escreve, como escreve, que abordagem ter, como organizar o livro, que extratextos necessita, quem os faz, como deve ser o design, a paginação, o formato, etc.). E isso é muito difícil. É preciso saber-se exatamente o que se quer, e como se quer para que o público goste e compre.

Podem dizer: e tempo, hein!? Pois, de facto falta muitas vezes o tempo, as competências e a formação, e até a leitura necessária ou a capacidade crítica, entre várias outras coisas.

Mas, ser editor não é ser revisor. Ser editor não é ser tradutor. Ser editor não é ser paginador. Para coordenar estas tarefas de produção um estagiário bem orientado faz milagres, enquanto se prepara para a fase seguinte, a de ser editor. Se perdermos menos tempo com tantos livros para queimar e tarefas que pouco valor acrescentam – «esta vírgula fica bem aqui?» −, talvez tenhamos tempo «a perder» para estas tarefas que são as únicas capazes de criar valor e livros que valham a pena e possam ser um sucesso. Como queremos ter sucesso com livros feitos em cima do joelho?

Ter produtos nossos, mais lógicos e pensados para o nosso mercado é essencial. Um apfelstrudel pode até ser um doce maravilhoso que meia dúzia de pessoas compram em Portugal, no Lidl, congelado, mas a quantidade de pessoas a comer pastéis de nata é bem maior em Portugal, e parece que lá por Belém até os turistas fazem fila. Afinal de contas, ninguém viria cá para comer um apfelstrudel.

Nuno Seabra Lopes in Edição Exclusiva

quarta-feira, março 13, 2013

lote 51 - estórias de vizinhos



Projecto desenvolvido por Augusto Pereira e Rita Almeida, no âmbito do Curso Livre de Ilustração da Faculdade de Belas Artes de Lisboa, sob orientação de João Catarino | 2013 via Rita Almeida

sábado, março 09, 2013

jubilee street


 nick cave & the bad seeds - push the sky away - damn! este álbum está tão bom.

roundabout


tate modern, 2013

a bola foi ao poste

não foi golo, muito menos autogolo, a bola foi apenas ao poste. é hora de festejar ou celebrar, aproveitar o momento e repensar. é, sem dúvida, momento de -ar, -er, -ir-, -or, dos verbos, do infinitivo, de tudo o que seja agir. a bola não passou a linha, nem a minha assinatura ficou sobre a linha, isso é certo, ponto final. é hora de mudar, de pensar noutros caminhos, de tentar outras coisas. gosto de escrever, de ler, de procurar e de conhecer. a bola não passou a linha, mas foi parar a outro campo, para já vou jogar uma brincadeira nova, depois logo se vê. a bola não passou a linha, todavia, mudou muita coisa. vamos a isto?

sexta-feira, março 08, 2013

fixe!

senta. senta. senta! não? apre! aí o meu... e se se seguisse o silêncio? assim, sibilantemente silencioso, este momento. ela não gostaria, tenho a certeza disso. é uma gaija do róqui e do mellow. na realidade, ela não era muito fofinha, queridinha e meiguinha, mas os tempos mudam. ou mudam as pessoas? é melhor parar com isto, ela não gosta muito de perguntas. (aqui que ninguém me lê, ela até gosta, das suas perguntas. e são tantas.) voltando à vaca fria, a conversa, não a moça, ela é fixe! ela adora ser fixe, assim de uma forma simples e certeira. ela é fixe e diz asneiras, o que é fixe. ela é a mãe do fixe, ah, pois é, ela vai ser mãe. o que é fixe, muito fixe. ela queria muito ser mãe. uma mãe fixe. e vai ser! só falta mesmo que o cão se sente. senta! e ele sentou. fixe!

p.s.: parabéns, di!

terça-feira, março 05, 2013

a história

a história de chávez acabou hoje. (link). 
a escrita da sua história começou há muito tempo e terá, como habitual nestes casos, duas leituras extremadas: a  glorificação e a demonização. a verdade estará algures a meio.
por fim, o futuro da venezuela e de grande parte da américa do sul só agora (re)começou. e, infelizmente, pode vir a ser uma história bem triste.

segunda-feira, março 04, 2013

«ainda bem que voltaste»

 

Simplesmente Maria, Grândola, 2013

O roubo do presente

Nunca uma situação se desenhou assim para o povo português: não ter futuro, não ter perspetivas de vida social, cultural, económica, e não ter passado porque nem as competências nem a experiência adquiridas contam já para construir uma vida. Se perdemos o tempo da formação e o da esperança foi porque fomos desapossados do nosso presente. Temos apenas, em nós e diante de nós, um buraco negro.
O «empobrecimento» significa não ter aonde construir um fio de vida, porque se nos tirou o solo do presente que sustenta a existência. O passado de nada serve e o futuro entupiu.
O poder destrói o presente individual e coletivo de duas maneiras: sobrecarregando o sujeito de trabalho, de tarefas inadiáveis, preenchendo totalmente o tempo diário com obrigações laborais; ou retirando-lhe todo o trabalho, a capacidade de iniciativa, a possibilidade de investir, empreender, criar. Esmagando-o com horários de trabalho sobre-humanos ou reduzindo a zero o seu trabalho.
O Governo utiliza as duas maneiras com a sua política de austeridade obsessiva: por exemplo, mata os professores com horas suplementares, imperativos burocráticos excessivos e incessantes: stresse, depressões, patologias border-/ine enchem os gabinetes dos psiquiatras que os acolhem. É o massacre dos professores. Em exemplo contrário, com os aumentos de impostos, do desemprego, das falências, a política do Governo rouba o presente de trabalho (e de vida) aos portugueses (sobretudo jovens).
O presente não é uma dimensão abstrata do tempo, mas o que permite a consistência do movimento no fluir da vida. O que permite o encontro e a intensificação das forças vivas do passado e do futuro - para que possam irradiar no presente em múltiplas direções. Tiraram-nos os meios desse encontro, desapossaram-nos do que torna possível a afirmação da nossa presença no presente do espaço público.
Atualmente, as pessoas escondem-se, exilam-se, desaparecem enquanto seres sociais. O empobrecimento sistemático da sociedade está a produzir uma estranha atomização da população: não é já o «cada um por si», porque nada existe no horizonte do «por si». A sociabilidade esboroa-se aceleradamente, as famílias dispersam-se, fecham-se em si, e para o português o «outro» deixou de povoar os seus sonhos - porque a textura de que são feitos os sonhos está a esfarrapar-se. Não há tempo (real e mental) para o convivio. A solidariedade efetiva não chega para retecer o laço social perdido. O Governo não só está a desmantelar o Estado social, como está a destruir a sociedade civil.
Um fenómeno, propriamente terrível, está a formar-se: enquanto o buraco negro do presente engole vidas e se quebram os laços que nos ligam às coisas e aos seres, estes continuam lá, os prédios, os carros, as instituições, a sociedade. Apenas as correntes de vida que a eles nos uniam se romperam. Não pertenço já a esse mundo que permanece, mas sem uma parte de mim. O português foi expulso do seu próprio espaço continuando, paradoxalmente, a ocupá-lo. Como um zombie: deixei de ter substância, vida, estou no limite das minhas forças - em vias de me transformar num ser espetral. Sou dois: o que cumpre as ordens automaticamente e o que busca ainda uma réstia de vida para os seus, para os filhos, para si.
Sem presente, os portugueses estão a tornar-se os fantasmas de si mesmos, à procura de reaver a pura vida biológica ameaçada, de que se ausentou toda a dimensão espiritual. É a maior humilhação, a fantomatização em massa do povo português. Este Governo transforma-nos em espantalhos, humilha-nos, paralisa-nos, desapropria-nos do nosso poder de ação. É este que devemos, antes de tudo, recuperar, se queremos conquistar a nossa potência própria e o nosso país.

José Gil in Visão

«Falar sem cuidar é atirar sem apontar.»

«He who puts out his hand to stop the wheel of history will have his fingers crushed.» Elementar, meu caro Walesa (link).

sexta-feira, março 01, 2013

fim-de-semana-a-sul


Mais uma ofensiva de Obama


Obama lidera ofensiva junto do Supremo para legalização do casamento gay
A Administração Obama, as grandes empresas, políticos republicanos e Clint Eastwood em pessoa: os apelos acumulam-se no Supremo Tribunal para pedir à mais alta instância judicial dos EUA a legalização do casamento entre pessoas do mesmo sexo, no final de Março. Os nove “sábios” que decidem sobre os grandes temas da sociedade americana reúnem-se nos dias 26 e 27 de Março para examinar a questão sensível do casamento gay, proibido a nível federal, mas legal em nove dos 50 estados norte-americanos e na capital, Washington. 

P.S.: Depois do Obamacare, eis mais um momento em que o presidente norte-americano pode (e vai) fazer a diferença. Felizmente as melhores ofensivas não são as militares.

O esquentador


Tenho a certeza - e é, provavelmente, das poucas coisas que posso garantir na vida -, de que o esquentador é um incompreendido. E não digo incompreensível, escrevo e repito: incompreendido. Assim, que nem um sujeito vivo. 
Primeiro, porque não compreendo a total ausência de referências nos antigos murais gregos, na mitologia romana, nas lendas celtas, nos contos dos Grimm e na letra do Grândola. 
Segundo, imagino perfeitamente a Sherazade a safar-se todo um dia e noite também - e não é nada pouco -, com a justificação: desculpa, perdi imenso tempo no banho, não conseguia acertar com a temperatura. Vamos ver e que está a dar no canal história?
Terceiro, tantas ligas protetoras no mundo e não há nenhuma que proteja o anão que vive dentro do esquentador? É que as condições de trabalho são infames quando comparadas com as dos anões do multibanco. Para começar o tamanho do aparelho é menor. Depois, ao contrário do mb onde há diversidade de funções: pagamentos de serviços, saldo, carregamento de telemóvel (dá para ficar com o número de catraias), o trabalho é mais repetitivo: aquece a água! Menos, menos, menos quente. Faz o tic tac tic tac da presença de fumos. 
Aliás, esta "proteção", esta "segurança", esta "defesa" é das coisas que mais me incomoda no banho, já que nunca chego a ter um normal. Estou eu ali a passar um bom bocado - sem excessos de açúcar ou ovos -, e zás: Água fria! E o anão a dar ao dedo naquele som ritmado que diz: olhós gaaaases! 
E é por isto que faço um apelo: caro anão, se me estás a ler peço-te que da próxima vez não desligues o esquentador. A sério, deixa os gases saírem e eu prometo que não vou todo nu fumar um cigarro ou fazer uma fogueira para a cozinha.