quarta-feira, janeiro 30, 2013

por vezes

sinto que o tempo passa. rasga. que não controlo. pode ser da idade. daquela coisa de que falam os livros, os filmes, os velhos dos tascos. por vezes temo. vacilo. não tenho certezas. é este o caminho, o rumo, o trabalho que quero? chamam-lhe dúvidas, perguntas ou inquietações. não gosto. não quero. não aguento,  uma vida a três tempos. entre o passado, presente e futuro, só quero o botão pause.

segunda-feira, janeiro 28, 2013

Trinta por uma linha

Pedro anda sempre com um livro na mão. Pode não ler uma linha sequer, mas sabe-lhe bem essa companhia. Por vezes muda de livro. É também frequente que escolha outro livro sem ter lido uma linha do anterior. Pedro traz sempre um bloco consigo. Pode ter algo para escrever. Ou, simplesmente, apontar uma grande ideia. Ele acha que se perdem milhares de inovações e descobertas todos os dias. Só porque alguém não escreveu uma linha. Sim, as boas ideias são curtas. Como a sua vida. Mas ele não, não as perde pois anda sempre com um caderno. Pedro raramente tem uma caneta consigo. Lápis ainda menos. Contudo, ele não perde ideias. Elas não abundam. É capaz de ser melhor assim. Pedro dá-se com as pessoas certas. Deve ser um feliz acaso. Ele não acredita em sorte ou azar, e não prepara nada. Nem as companhias. Vive como um personagem de uma história por escrever. Pedro acha essa ideia fantástica. Devia escrevê-la. E não perdê-la. Pedro não tem caneta. Nem lápis. Não há mais Pedro nesta não história. Morra Pedro, morra BIC.

quarta-feira, janeiro 23, 2013

Piscinas


Nado à sapo, não sei nadar de outro modo. Saio pouco do lugar, fico a espanar a água e não tiro os óculos. Quero dizer, como ainda não tenho uns de mergulho, graduados, uso os meus óculos de sempre, para distinguir entre o que é a água da piscina e o que são os azulejos azuis muito enganadores. Claro, ficam todos a olhar para o balofo que nada mal, mesmo à sapo, e que vai de óculos de leitura. Não gosto nada. Redobro a coragem para estas coisas, não vou desistir de fazer umas piscinas, porque tenho os ossos todos a precisar e porque nadar espiritualiza-me a vidinha de uma ponta à outra.

No entanto, mesmo que muita gente não leia os meus livros, passar a palavra é como fogo ateado. Ao fim de umas quantas idas à piscina, já há quem me cumprimente de senhor doutor a senhor Hugo ou senhor escritor. Medem os meus calções justinhos, ficam a fazer contas à minha barriga, ao quanto sou ou não peludo, às minhas pernas consistentes. Enfim. Essas coisas em que se repara e não se comentam. Olham-me de cima abaixo, de perto a longe, da verdade à fantasia, para tirarem nabos do púcaro e ficarem regalados de cusca satisfação.

Em agosto retiraram as cortinas dos chuveiros individuais nos balneários das piscinas de Vila do Conde. Não foi boa ideia. Acredito que aconteça por causa dos putos, que são aos montes e correm a fazer confusão por todo o lado e alguns devem fazer asneiras e sei lá que mais. A verdade é que não há modo de, em agosto, se tomar ali um duche com privacidade. Percebi-o muito imediatamente. Escutei, numa voz falsamente baixinha, um miúdo dizer: ó pai, eu vi a pila do escritor. Parei de ensaboar a cabeça e olhei na direção da passagem, ali por onde os demais andam a entrar e a sair dos duches. Cinco segundos depois, vejo a carantona de um barbudo qualquer a espreitar. Era o pai do miúdo. E o miúdo, meio orgulhoso pela notícia, também apareceu mais atrás, a tiritar.

Que o miúdo se tenha espantado com ver um escritor nu, ainda posso entender, agora, que o pai tenha interesse em chegar ao café e discutir o assunto da minha nudez na piscina de agosto já é outra coisa. A partir daí, tomo duche de costas para quem passa. Já sei que não vai faltar quem diga ter visto o rabo do escritor.

Os miúdos nas piscinas não pensam. Ficam algaraviados. Atravessam-se à frente de qualquer cidadão, afundam-se à bruta em mergulhos de chapa, gritam histéricos, parecem matar e morrer. Há sempre alguém que explica que o lado onde são colocadas as linhas de boias são para natação contínua, e que a mais de metade da piscina livre é para brincadeiras, pinchos, assassinatos e suicídios. Pouco adianta. Em três minutos os miúdos já foram e já voltaram, porque fugir uns dos outros é urgente, e o mundo pode acabar nessa urgência que estará muito justa a consequência.

Uns senhores disseram-me que a nadar sou uma vergonha. Agradeci. Eram uns velhotes com a mania, devem ter sido desportistas em 1922. Numa disputa tolinha, começaram a fazer corridas para chegarem antes de mim. Depois de uma hora, comentaram que eu nadava de óculos porque ia lentinho e dava tempo para ler livros. Diziam isso e punham-se com aquelas coisas: só estamos a brincar, é uma brincadeira. E eu, meio afogado com muita água nas orelhas, que detesto, estava a achar que me iam dar os nervos.

Antes de irem embora, foram cumprimentar-me. Olhe, muito esforço e paciência. Você pode aprender, que até os bebés aprendem. Quando saí da água, a encolher a barriga e a caminhar rápido mas discreto para os balneários, uma senhora, que estava toda aeróbica aos saltos para aquecer, veio confessar-me que achava que a autarquia devia fazer uma piscina para pessoas assim: escritores e doutores, porque ela era doutora e, muitas vezes, sentia-se incomodada pelas pessoas sem cultura que por ali vão.

Normalmente, com uma conversa destas fico um bicho. Mas estava a encolher muito a barriga, não tinha ar suficiente nos pulmões, e os meus calções são muito destapados, aquilo não me pareceu boa maneira de me enfurecer. Sorri amarelo e fui embora. Nos balneários, ao fim de meia hora, ainda lá estavam os dois velhotes marretas, vestidinhos de engomados e a rirem de coisas tolas. Achei-os mais normais. Disse-lhes que ali, em pé como as pessoas e não às ondas como os peixes, queria ver se tinham treta. E disse-lhes que uma senhora exigia piscinas para escritores e doutores, só para se livrar de malcriadões como eles. Ficámos a rir. Até desencolhi a barriga. Queria lá saber.

Quando volto à piscina, penso nestas coisas. É costume nadar ainda pior para me rir. Tento não beber água. Já me explicaram que aquela conversa de o chichi se tornar uma mancha azul por causa do cloro é mentira. Toda a gente adulta sabe disso. E pensa-se que toda a gente adulta faz ali chichi e mais muita gente criança que, sem tempo e com as urgências, acaba por se descuidar. É tudo um circo e um certo perigo.

Valter Hugo Mãe in Visão

sexta-feira, janeiro 18, 2013

2013 - uma odisseia no cinema

a equação é fácil: se a bola está para o futebol como os filmes para o cinema então... temos dois novos blogs sobre cinema. e dos bons:

cinemaville (link)
uns quantos golpes (link)

agora é hora de ler, ver, reler e rever. é hora das coisas sérias, do humor, dos clássicos, dos modernos, dos filmes que saíram, dos que não saem e dos que nunca deviam ter saído. luzes, câmara, blog, acção!

O animalismo e os seus perigos


Vou, agora que o ambiente serenou um pouco, voltar ao caso do cão que matou a criança. Não para o discutir, mas para falar do que ele revela. O abaixo-assinado para impedir o abate do Zico não tem grande importância? Ele, propriamente dito, não a terá, por isso não merece que se perca mais tempo com o assunto. Mas o que ele revela é bastante importante. E fala-nos de uma civilização desnorteada.

Sou um relativista. Ou seja, reconheço que os valores pelos quais nos regemos são construções culturais e históricas. E sou capaz de tentar compreender e contextualizar, mesmo que não os aceite, valores bem diferentes porque foram construídos em contextos diferentes. Mas, como relativista, até relativizo o meu relativismo. E posso reconhecer que ele tem riscos importantes. O mais importante: desfoca de adquiridos morais que, não sendo universais, são resultado de uma tradição histórica. Não desfoca apenas da tradição conservadora que justifica a desigualdade e a crueldade entre humanos. Desfoca da tradição progressista. Desfoca até do iluminismo.

Nessa tradição, reconhecemos em todos os humanos direitos fundamentais. Esses direitos não dependem das qualidades ou defeitos de cada humano individualmente considerado. São iguais para Mahatma Gandhi e para Adolf Hitler, para Nelson Mandela e Anders Breivik. Porque se justificam na condição humana, partilhada pelos piores e pelos melhores, única forma de serem aplicáveis de forma não discricionária. De todos esses direitos, o mais importante é, seguramente, o direito à vida. Que se baseia neste postulado simples: nenhum humano tem o direito a tirar a vida a outro com a exceção de em conflito com essa interdição estar a proteção da vida de outro humano.

O direito à vida não é inato. Na realidade, como prezas potenciais, a natureza não dá a nenhum animal, nem mesmo os humanos, o direito de viver até ao limite das suas capacidades biológicas. Ele foi determinado pelos humanos para os humanos. E o que explica este adquirido civilizacional, que infelizmente está longe de ser universal, é a absoluta excecionalidade que atribuímos à vida humana. E isso resulta da nossa cultura humanista.

O homem atribuiu (foi ele que atribui) muito recentemente direitos aos animais. Na realidade, como escreveu Henrique Monteiro , tratam-se de deveres dos humanos para com os animais. Assim como tem deveres para com o Planeta. Mesmo em relação aos animais, eles são necessariamente diferenciados para animais sencientes e não sencientes, mamíferos e restantes, domésticos e selvagens, o cão ou o parasita que o incomoda. E, mesmo dentro das mesmas categorias, não tratamos da mesma forma um gato e uma vaca. Na realidade, se prestarmos atenção, esta estratificação baseia-se, não por acaso, na proximidade emocional ou biológica que o animal tem em relação a nós. Ou seja, continuamos a ser nós, para nós próprios, a medida de todas as coisas. Pelo contrário, não estratificamos os humanos nos seus direitos e deveres. Com uma única exceção: damos às nossas crias, que estão mais indefesas e ainda não receberam o legado moral para distinguirem o bem do mal, o justo do injusto, o certo do errado, muito mais direitos do que deveres.

Resumindo: os direitos dos animais não são uma antecâmara dos direitos dos humanos. Estão num outro patamar, porque assumimos que os próprios sujeitos desses direitos não nos são comparáveis. Apesar de, do meu ponto de vista, estarem errados nos principais pressupostos, mesmo autores mais empenhados, como Peter Singer, têm o cuidado de tentar não criar uma confusão absoluta entre conceitos incomparáveis.

Voltemos então aos defensores do Zico. O "animalismo" ou "anti-especismo" renega todas as base do humanismo, que assume a excecionalidade da condição humana, capaz de fazer uso da sua liberdade. E essas bases partem de um pressuposto: há, entre os humanos, um pacto de fraternidade. E esse pacto resulta da convicção de que partilhamos a mesma condição na terra. Ele é, por natureza, impossível de ser partilhado por espécies que não sejam, nem possam vir a ser, dotadas de consciência moral e ética. Ou seja, dotadas de uma extraordinária capacidade: a do uso consciente da liberdade.

Renegar a excecionalidade do homem é renegar todas as conquistas civilizacionais fundamentais. Quem pensa que, tal como antes se aceitava a escravatura, como resultado de uma desigualdade ontológica entre seres humanos, hoje aceita o "antropocentrismo", não podia estar mais enganado na causa e consequência das coisas. Foi por atribuirmos à vida de todos os seres humanos um estatuto absolutamente excepcional que a escravatura nos pareceu inaceitável. Exatamente porque se assumiu que o homem tem a potencialidade irrepetível de ser livre. Ao colocar as relações humanas no mesmo patamar que as relações com os animais a escravatura torna-se aceitável, porque desprezamos essa excecionalidade que a liberdade humana nos confere. Se eu sou dono de cães e de gatos, numa relação necessariamente desigual - e que só pode funcionar se for desigual -, porque raio não hei de ser dono de pessoas? Se eu mato animais para me alimentar, porque raio não hei de matar seres humanos para garantir a minha subsistência?

O que realmente me assusta é que este fenómeno essencialmente urbano de humanização dos animais (que só pode resultar de uma crescente distância em relação à natureza, que perdeu a consciência de que os humanos, como os restantes animais, vivem num meio que lhes é hostil), parecendo apenas uma mera excentricidade, ganhou dimensões que desconhecíamos. No caso do último abaixo-assinado, a que aderiram mais de 70 mil pessoas, vimos até políticos de tradição marxista a, por convicção ou mero sentido de oportunidade, assinar um documento que, sem o saber, é perigosíssimo do ponto de vista filosófico. E esta tentação de abarcar todas as causas pode bem levar as correntes políticas que têm no humanismo a sua principal origem a abandonarem as bases filosóficas fundamentais para os seus principais combates: que todos os homens devem ser iguais em direitos e deveres. Porque, caros amigos, os animais, e contra isso nada podemos fazer, nunca o serão. Falta-lhes a cultura e a história. Falta-lhes, para ironizar um pouco, a revolução francesa.

Daniel Oliveira in Expresso

terça-feira, janeiro 15, 2013

Fla rodóndu bira kuadrádu, kada um ku si tioriâ



«"Não haverá registos de imagem e som [durante os painéis]. A permanência dos jornalistas na sala é permitida. Não haverá [reprodução de] nada do que seja dito sem a expressa autorização dos citados", anunciou esta manhã Sofia Galvão na sua intervenção inicial. » in Público

Maioriâ sta tudu kontenti
Ku avontádi na dimokrasiâ


E quando a maioria já não está contente? Acaba-se a democracia? É isto o eterno retorno, certo?

segunda-feira, janeiro 14, 2013

Where Would I Be


Cake

«Where would I be
Without your arms around me?»

passe d'aimar?

quinta-feira, janeiro 10, 2013

e o tacuara vai para...

Os concorrentes aos prémios da Academia de Cinema foram divulgados nesta quinta-feira. Lincoln concorre a 12 estatuetas e A Vida de Pi é candidato em 11 categorias. Lideram uma lista em que ganham destaque outros candidatos. No topo dos mais nomeados estão ainda Guia para um final feliz, terceiro com oito nomeações, além de Os Miseráveis e Argo com sete cada um. Amour está entre os diversos filmes que contabilizam cinco possíveis prémios. Pode consultar nomes e caras dos nomeados nas principais categorias nesta página.


E apostas?

quarta-feira, janeiro 09, 2013

Onde fica a outra palavra?

Aperto. A sensação não é nova. Aliás,tende a regressar de uma forma cíclica. Aperto. E incompreensão. Há coisas que não fazem sentido. Na realidade nada faz sentido na realidade. É um aperto isto. De ser crescido. De ser diferente. De ser. De ser um aperto feito ser. Aperto. É um aperto que não passa com as minhas palavras, nem com as dos outros. Nem mesmo com as palavras que não o são ainda. Aperto. Das palavras. Das acusações. Das verdades e inverdades. Aperto. Porque nada faz sentido aqui. Aperto. Porque não há outra palavra para este aperto?

"do rock"



Tony Visconti, o produtor do novo álbum de David Bowie, que será lançado a 11 de Março, como foi amplamente noticiado na terça-feira, dia do 66º aniversário do cantor, admitiu que ficou um pouco surpreso com a escolha da canção Where are we now?, para single de avanço do álbum The Next Day. Razão? É uma “balada, lenta e muito bonita”, mas ao que parece existirão canções no álbum muito diferentes, numa linha mais rock. 

in Público

terça-feira, janeiro 08, 2013

Amanhã não é domingo

Está um frio dos diabos na rua. As duas velhotas da paragem encostam-se e perguntam-lhe se não se quer juntar a elas. Acena que não. Nem uma palavra. Baixa a cabeça e dá uma vista de olhos no telemóvel. Nada. E a bateria que já é pouca. Está um frio dos diabos. Mas ao menos não chove. Há vento. Duas e três rabanadas de vento,  daquelas que cortam o ar e não trazem calda de açúcar. Tem saudades do Natal, parece que foi numa outra vida. Na sua outra vida. Está um frio dos diabos. Nunca havia frio na casa dos avós. Era uma casa pobre, rude, honesta, tudo como o avô queria. Era um bom homem, o avô. Cordato e trabalhador. Um exemplo. Um filho do antigamente, daqueles tempos em que havia respeito. O avô gostava muito do respeito. O respeitinho é bonito, dizia. Era impossível não concordar. Não, não obrigado. Não preciso. Mesmo. Não tenho frio., repetiu após mais uma insistência. Mas tem. Está um frio dos diabos. E o autocarro que não vem. Está atrasado. Vê o telemóvel e nada. Nunca há nada. Nem mesmo bateria. Está um frio dos diabos. Está cada vez mais frio. Faz frio. E nunca mais é domingo. Nunca mais é domingo e pode visitar o avô. Tem saudades do avô. Não havia frio quando se agarrava ao avô. Não há mais avô, só frio. Está um frio dos diabos na rua.

quinta-feira, janeiro 03, 2013

votar no futuro

Deverão as crianças e os adolescentes ter direito a voto? 

Não se pense que esta ideia sai da minha cabeça, assim sem mais nem menos. Não vou ter veleidades de me apropriar de um debate que já tem uma longa história - se não no nosso país, pelo menos nos países nórdicos e, muito particularmente, nos forae de pediatria e de saúde infantil e juvenil. 
Quando se fala tanto em eleições, seja, as próximas autárquicas, sejam as eventualmente ainda mais próximas legislativas no caso de queda do Governo, é legítimo que se coloque a questão: será correcto que quase um terço da população portuguesa não tenha direito a voto, ou seja, não possa interferir na escolha dos vários governantes que, afinal, tomarão decisões que são determinantes para o seu presente e para o seu futuro? Será este preceito constitucional verdadeiramente democrático? E se não, quais as alternativas possíveis? Serão elas melhores e exequíveis? Se um dos argumentos mais esgrimidos é o de que “as próximas gerações pagarão a factura” ou que “os sacrifícios actuais são feitos em nome dos nossos filhos e netos”, não terão eles uma palavra a dizer sobre tudo isso, seja directamente, seja através dos seus legais representantes? 
A primeira questão será, então, ainda no domínio teórico, se será justo que as crianças e os adolescentes tenham o direito de voto. A idade de votar é um assunto tremendamente importante - relembro muito a propósito o número um do Expresso, em 1973, que escolheu para a primeira página uma discussão sobre a idade mínima para exercer esse direito, na altura ainda legalmente fixada nos 21 anos. 
A eleição dos cidadãos que nos representam nos diversos níveis políticos - autarquias, Assembleia da República, Parlamento Europeu, Presidência da República - tem como base a escolha de quem julgamos ir defender melhor os nossos direitos, proporcionar-nos um melhor presente e criar melhores bases para um futuro agradável e feliz. No fundo, em resumo, quem estará mais bem colocado para nos apoiar na luta por uma melhor qualidade de vida, que é afinal o que ambicionamos. Por outro lado, exige-se das crianças e dos adolescentes um grande empenhamento nessa mesma luta - cada vez mais se atribuem responsabilidades e deveres, se exigem atitudes, se dá autonomia e direitos, e se recomendam comportamentos aos cidadãos destes grupos etários que ultrapassam, em seriedade, rigor e importância presente e futura, o mero exercício do direito de voto, afinal renovável e corrigível periodicamente. 
Aos mesmos adolescentes se reconhece (se obriga !), aos 15 anos, a capacidade de escolha profissional e que tipo de curso a prosseguir, e a partir dos 16 reconhece-se o direito a constituir família ou se modifica a moldura penal. Acresce que o grupo etário das crianças e dos adolescentes é em Portugal, paralelamente talvez com o dos idosos, o mais desprotegido em termos sociais e económicos... só que os idosos têm sido (felizmente! E ainda é pouco) alvo de medidas mais frequentes (muitas vezes, exactamente, por razões eleitoralistas). 
Parece-me assim que não seria uma ideia totalmente abstrusa atribuir, de uma forma ou de outra, o direito de voto à população de quase três milhões de habitantes que permanece fora do sistema eleitoral, embora tenha necessidades sociais, económicas, educativas, de saúde, etc. Diga-se ainda que o ministério que tem a maior fatia do orçamento é o da Educação e que a educação se dirige quase exclusivamente à população infantil e juvenil que, afinal, não tem quaisquer direitos - seja individualmente, seja através de interposta pessoa, como os pais -, de se expressar sobre quem, de entre os diversos partidos, está mais bem colocado para gerir de forma eficiente esse dinheiro todo.  

Que soluções, então? 
A segunda parte da questão reside em como aplicar, na prática, o conceito de que os cidadãos são iguais perante a lei. 

Baixar a idade de voto? 
Uma das hipóteses poderá ser baixar a idade de voto para, por exemplo, os 15 anos, idade em que quase todos os adolescentes serão já capazes de tomar decisões informadas sobre o seu futuro, pelo menos de um modo igual ou superior ao de muitos outros grupos etários. Além de que, se se deseja a participação dos jovens como cidadãos, não há motivo para lhes negar um dos direitos que melhor expressam essa participação. Enfim, esta hipótese deixaria de fora ainda muita gente mas seria um começo. E um começo mais do que justo e necessário 

Votarem todos? 
Faço ideia dos arrepios que as máquinas partidárias teriam, só de pensar na hipótese de terem que inflectir toda a sua campanha no sentido de captar os votos dos bebés e dos teenagers. Quanto mais não fosse, pelo divertido da questão, valia a pena tentar. Mas, falando a sério, e dado que uma criança de dois ou de seis anos não poderá fazer esse tipo de escolhas, pelo menos deveriam os seus legais representantes poder fazê-las. Os pais, nesse sistema - amplamente defendido pelos pediatras e outros profissionais (até políticos) suecos, noruegueses e finlandeses -, teriam o direito de votar pelos seus filhos (abaixo por exemplo dos 15 anos), podendo assim escolher, para além de quem melhor os representa, a eles pais, os que melhor representam os filhos... que, recordemos, não são bichos, são tão cidadãos como um adulto de 40 anos ou um velho de 95, se calhar com mais necessidades e com mais problemas e dificuldades em lhes fazer face (mais dependentes do Estado, portanto). 
Mesmo correndo o risco de os leitores pensarem que ensandeci, quero reafirmar que estas propostas não se tratam de brincadeiras, pelo contrário, têm sido analisadas com rigor por muita gente, por essa Europa fora... gente que não está interessada no poder pelo poder, mas sim na promoção da saúde e do bem-estar das crianças e dos adolescentes, nomeadamente através da implementação e do alargamento dos seus direitos. É natural que os partidos reajam negativamente a estas questões (espinhosas e que obrigam a um debate muito sério) e não lhes dêem qualquer crédito. O sistema de troca e partilha de poder é bastante avesso a mudanças que possam ameaçar aquilo a que se chama “alternância” mas que não passa de uma “joga-joga de continuidade”. No nosso país, onde a primeira reacção a ideias novas é de um certo desdém, este problema nunca foi levantado de uma maneira consistente, que eu saiba, por nenhum jornalista em qualquer debate com os líderes partidários. E mesmo que não tivessem daí surgido hipóteses de solução, teria sido pelo menos curioso ver o tipo de reacção e de resposta de cada um. 
Mais cedo ou mais tarde o problema do (não) direito de voto dos "menores de 18" constará da "agenda do dia". O problema é que a política é dominada por uma geração que, de forma geral, já não tem filhos pequenos e ainda não tem netos... e que muitas vezes só se serve dos mais novos para “colar cartazes”, distribuir autocolantes e panfletos, aplicar beijinhos na testa ou fazer chinfrim na propaganda, olhando-os, no entanto, com a ternura paternalista de quem "gosta muito das criancinhas" ou o desprezo que se pode ter pela geração a que rotulam de "rasca", “perdida” ou “sacrificada”. E as juventudes partidárias, afinal as que deveriam ter já levantado esta questão há muito tempo, estão já encarreiradas para serem os sucessores dos mais velhos, estando assim muito pouco interessadas em defender os que, ainda por cima, lhes poderiam fazer sombra. 
 No dia das próximas eleições, quando os leitores assistirem aos resultados eleitorais na televisão, na rádio ou nos jornais, lembrem-se por uns segundos de como seria se as crianças e os adolescentes pudessem votar - eles directamente ou através dos seus legais representantes, os pais... talvez fosse um bom contributo para a tal mudança na forma de fazer política, de que tanto se fala mas pela qual tão pouco se faz.

Mário Cordeiro in Público

primavera 2013

metade disto. metade disto. metade disto e já era genial... sobretudo se for a metade que eu conheço.

quarta-feira, janeiro 02, 2013

começar o ano

feliz com o felicidário (link)

© Afonso Cruz