terça-feira, dezembro 31, 2013

quando o último se confunde com o primeiro

 "o primeiro dia", sérgio godinho

treze não é azar

um ano de d. quixote, de livros, livros e mais livros. de ciências sociais, de gestão e, sobretudo, das mesmas pessoas.
londres é londres, bristol é ainda mais do que isso. passeios no frio,  paredes pintadas, taggadas e desenhadas, amigos antigos e ruas novas.
o regresso e a surpresa, um golpe inesperado e uma mudança. há sempre tempo para a mudança. mas, ao menos, que seja eu a escolher.
a universal, a música, o som, as palavras e as pessoas, novas pessoas.
ensaios, fotografias, filmagens e concertos. o processo criativo aqui ao lado.
mais um ano, mais uma festa. e o verão tão perto.
julho dos dias que seguem noite dentro.
o cinema aqui ao lado, o cinema a dormir ao meu lado.
a reentré com música portuguesa, com música do meu passado.
e o cinema volta à cidade, mesmo que seja a outra.
paris sera toujours paris, os national serão sempre os national, os crepes, o couscous e os croissants serão sempre paris.
doze é benfica, tatuagem e festa.

e temos o treze que foi de mudança, não foi azar, foi uma sorte. venha o catorze.

quarta-feira, dezembro 11, 2013

nadir

nadir afonso (1920-2013)


GARE DE AUSTERLITZ, ACRÍLICO SOBRE TELA, 96X134CM


quinta-feira, dezembro 05, 2013

mandela


a liberdade não ficou presa na cela 466/64 (link). a história agradece! 

terça-feira, dezembro 03, 2013

O bom e o mau socialista

O bom socialista é aquele que em diferentes circunstâncias diz as coisas sensatas que a direita gosta de ouvir: que é preciso rever a Constituição, fazer um pacto de regime, negociar um consenso com o Governo sobre as medidas de austeridade.
O bom socialista defende que “ o arco da governabilidade” se restringe à direita e ao PS.
O bom socialista revela abertura para um eventual governo de coligação com os partidos da direita, ou só com o CDS, ou uma reedição do “bloco central”.
O bom socialista é sensível, atento e moderno quanto à necessidade de imprescindíveis cortes e mudanças na Saúde, na Educação e na Segurança Social, tendo em vista diminuir o peso do Estado e dar lugar aos privados com apoio público.
O bom socialista aceita as “reformas” que tendem a transformar em assistencialismo a garantia de direitos sociais pelo Estado.
O bom socialista colabora em medidas que desvalorizam o trabalho em nome de um pretenso aumento da competitividade.
O bom socialista dá prioridade à estabilidade financeira em prejuízo do desenvolvimento económico e da coesão social.
O bom socialista aceita o aumento das desigualdades como consequência inevitável da globalização e considera que não há alternativa.
O bom socialista pensa que a divisão entre esquerda e direita não passa de um arcaísmo.
O bom socialista tem um vocabulário cuidado e evita palavras inconvenientes, não diz roubo, diz cortes, não diz desemprego, diz requalificação, não diz empobrecimento, diz ajustamento. E também não lhe ocorre falar em esquerda ou em socialismo, para além de se coibir, por uma questão de educação, de usar a palavra direita.
O bom socialista respeita a duração dos mandatos, haja o que houver, pois acha que a estabilidade política é um fim em si mesmo, ainda que à custa de instabilidade e crise em todos os sectores.
Obviamente o bom socialista não critica o senhor Presidente da República, nem a troika, nem os mercados, nem as instituições europeias, nem a bondade das políticas da senhora Merkel, mesmo que elas levem o país à ruina.
O bom socialista procura dizer frases que o ponham com setas para cima nos jornais ditos de referência. E acredita que o estatuto de bom político só lhe pode ser conferido pela direita.
O bom socialista não pode sequer ouvir falar de convergência com os partidos à esquerda do PS.
O bom socialista acha que o dr. Mário Soares é o maior político português, mas não devia ir para a Aula Magna promover iniciativas tendentes à convergência e mobilização dos descontentes com a política do governo.

O mau socialista teima em defender a Constituição, o Tribunal Constitucional e coisas tão arcaicas com o Serviço Nacional de Saúde, a Escola Pública, a Segurança Social, os direitos laborais, o direito à cultura, a igualdade de oportunidades.
O mau socialista persiste em dizer a palavra socialismo, repete constantemente a palavra esquerda, opõe-se a governo de coligação dentro do “arco da governabilidade” e recusa-se a fazer do PS o terceiro partido da direita.
O mau socialista acha que os direitos sociais são inseparáveis dos direitos políticos e que não há estabilidade política sem estabilidade e coesão social.
O mau socialista entende que nenhum órgão de soberania deve andar com outro ao colo e que o papel essencial do Presidente da República é ser o garante do regular funcionamento das instituições e o Presidente de todos os portugueses.
O mau socialista defende que a confiança dos eleitores é mais importante que a confiança dos mercados e que estes não podem sobrepor-se nem à democracia nem ao Estado.
O mau socialista vê a Europa como um projecto de paz e de prosperidade entre Estados soberanos e iguais e não como uma submissão dos mais frágeis ao mais forte.
O mau socialista tem a indiscrição de querer saber perante quem é que a troika responde e quem avalia as suas políticas. E pensa que neste momento o processo democrático e institucional da construção europeia está interrompido.
O mau socialista acredita que ser europeu não é dissolver a Pátria.
O mau socialista continua a considerar que a razão histórica de ser do socialismo é a emancipação politica, social, económica e cultural dos trabalhadores e de todos os desfavorecidos e oprimidos.
O mau socialista dá razão ao Papa Francisco quando este denuncia que o actual poder económico está a transformar-se numa nova tirania.
O mau socialista é politicamente incorrecto e sustenta que há sempre alternativas.
Eu, pecador, me confesso: sou um mau socialista.

Manuel Alegre in Público, 03.XII.13

sexta-feira, novembro 08, 2013

a cabeça

leva a cabeça entre as pernas, pesa-lhe muito. não é só o cansaço de sexta, até porque amanhã ainda é dia e há tanto para fazer, é bem mais do que isso. não gosta da conversa de café, que também é de comboio, fila ou elevador. não gosta dos transportes silenciosos, das crianças ruidosas e dos velhos mesmo velhos. sim, aqueles que lhe apontam o amanhã. e amanhã ainda só é sábado. não gosta de ter uma casa sozinha à sua espera, nem dos telefonemas da ex-mulher para saber se está tudo bem. claro que não, sua vaca da merda. tu vives com um engenheiro qualquer e eu sobrevivo com as paredes pintadas das tuas recordações. não gosta de odiar a vida que leva. menos ainda da vida que lhe levaram. está só. dói-lhe a cabeça. é do cansaço, ou de um tumor, prevê o fórum brasileiro que leu essa tarde. leva a cabeça entre as pernas, pesa-lhezw, sentdie-se esvtramho. a cabegça, a restupiraçião.

quinta-feira, novembro 07, 2013

hoje é camus


"Aujourd'hui, maman est morte. Ou peut-être hier, je ne sais pas. J'ai reçu un télégramme de l'asile: «Mère décédée. Enterrement demain. Sentiments distingués.» Cela ne veut rien dire. C'était peut-être hier."

L’étranger, Albert Camus (1913-1960)

quarta-feira, outubro 30, 2013


high heel perception, lisboa, 2013

levas a carteira para o palco?


isto não é um documentário sobre uma banda, isto não é uma viagem à vida privada de uma banda, isto não é uma banda. agora somos todos national.
tom não é matt, não é o macho alfa, não é óbvio, muito menos previsível. este filme ultrapassa a banda, o rock, o matt, os irmãos dessner e os devendorf. são as perguntas inesperadas - levas a carteira para o palco? e o relógio? que drogas já usaste? -, os momentos incómodos - mete os óculos. tira-os. olha para aqui. diz isto e aquilo. -, os desabafos sentimentais - o meu irmão gosta mais de mim do que eu muitas vezes -, e é a realização-tentativa-erro-ou-então-não.
há pouca música e, contudo, há mais national do que é habitual num documentário sobre uma banda. há national, mas não há suficiente material sobre a banda. os national somos todos, diz o matt a pedido do tom. talvez sejamos, talvez não, mas isso interessa realmente?

sexta-feira, outubro 18, 2013

a chamada

não via a mãe há mais de dois anos. os dias haviam passado, as chamadas não atendidas acumulado e fazia já mais de seis meses que a sua mãe não pedia informações à vizinha da frente. ele gostava desse silêncio, dessa ausência, da confirmação do afastamento que sempre procurara. dois anos, dois anos passam rápido mas não apagam todos os outros. naquele dia, tal como hoje, chovia bastante. a cidade cheirava a terra e a casacos-de-armário, a pressa de chegar a casa para ver o jogo era geral e apenas ele estava distante disso tudo. preso, como tantas vezes antes, numa discussão que já conhecia o fim. não me faças isso, filho. eu dei tudo por ti. eu mato-me. sempre a mesma pressão, a mesma chantagem. a mesma brutal violência vinda de quem o abandonara aos dois anos. dois anos, dois anos passam a correr. o telemóvel tocou, era um desconhecido qualquer a comunicar que sua mãe morrera. deve ser engano, a minha mãe morreu há dois anos. obrigado e desculpe.

por estes dias


banksy & ny (link)

segunda-feira, outubro 14, 2013

terça-feira, outubro 01, 2013

Requiem pela Adega dos Lombinhos

Ao fim de quase 100 anos, chega ao fim uma das tasquinhas mais acarinhadas de Lisboa para dar lugar a um hotel de uma cadeia internacional. A Baixa pode estar a ficar mais bonita, mas se calhar está a deixar de ser a Baixa.

Com ou sem ovo?” Sempre que ouvimos esta pergunta sabemos que estamos no sítio certo. Porque só uma grande casa nos dá a oportunidade de engrandecer uma generosa dose de proteínas com mais proteínas. A acompanhar, Arroz e Batatas – a única dupla a que toda a gente chama de Guarnição.
A estes ingredientes soma-se ainda o pão (ou pãozinho) e o picante (picantezinho). Para pôr onde? Nos lombinhos. 
No número 52 da Rua dos Douradores, os diminutivos são mais do que uma questão de linguagem. 
A Adega é pequena, com apenas 14 lugares sentados. O vinho é servido em copos de três a sério, daqueles que se esvaziam num gole e meio. Aos lombos chama-se lombinhos porque vêm cortados muito finos e fritos na chapa. As batatas são batatinhas porque foram descascadas, cortadas e fritas à nossa frente – o “inho” que elas ganham antes de vir para a mesa é de car-inho. Se pedir uma cerveja sem especificar servem-lhe uma mini. No final chega a continha, com um valor inferior ao esperado. 
O que não é pequeno na Adega dos Lombinhos é a popularidade. Sempre entre o cheio e o muito cheio, das sete da manhã às oito da noite, horário cumprido todos os dias excepto ao domingo. 
O que é grande, agora, é a tristeza de saber que um dos restaurantes mais característicos da cidade vai fechar para sempre. Dia 31 de Outubro (ou antes) o senhor João vai perguntar pela última vez: “Com ou sem ovo?” Em 2017 a Adega dos Lombinhos faria 100 anos. 
A história dos restaurantes da Baixa faz-se de Galegos, Minhotos e Beirões que desceram à capital para trabalhar com um tio. Mais tarde abriram as suas casas de pasto, solares, parreirinhas, tascas ou adegas. Foi isso que fizeram os irmãos João e Eduardo Amorim, os dois homens por detrás desta adega que ostenta orgulhosa um calendário de parede com a mapa da Freguesia de Venade, Viana do Castelo. 
“Na minha terra riam-se se eu levasse os Lombinhos para lá”, conta Eduardo, o cozinheiro, “lá em cima toda a gente está habituada a carnes do tamanho da pedra da calçada”. 
A Adega propriamente dita é anterior aos irmãos. Está ali desde 1917 e mantém-se igual ao que era quando abriu para servir bebidas a marinheiros e empregados do comércio da zona, gente que acordava muito cedo ou se deitava muito tarde. A comida só começou a sair daquele metro quadrado de cozinha nos anos 20: lombinhos no pão para aconchegar o estômago antes do primeiro ou depois do último copo. 
A origem da receita dos lombinhos é um mistério. “Já cá estava quando eu cheguei”, conta Eduardo que com o irmão e a mulher tomam conta do restaurante há 36 anos. 
Nos tempos áureos, a Adega dos Lombinhos servia 500 carcaças por semana, outros tantos bolinhos de mel e um sem número de bebidas. Muito procurado era o Velhinho de 99 Anos, um vinho branco velho licoroso já extinto, mas muito popular na época. Um cartaz desse vinho é o grande – e talvez único – elemento decorativo desta adega forrada a mármores, garrafas de vinho Campelo e boiões de mostarda. 
Nas ruas perpendiculares à Rua do Ouro (Santa Justa, Assunção, S. Nicolau) a calçada à portuguesa está a ser substituída por pedra lioz. Ambas as pedras são de calcário, mas esta última é maior, mais prática, mais moderna. Três coisas que a Baixa quer ser. Três coisas que a Adega dos Lombinhos não é. 
Não é preciso dizer mais nada sobre o potencial metafórico desta empreitada pré-eleitoral. 
A amputação voluntária e silenciosa de todas as coisas boas da cidade faz lembrar a história do pavão que, para se tornar um pássaro mais atraente, deixou de conseguir voar. 
A Baixa de Lisboa, cada vez mais turístico-cêntrica, pode até estar a ficar mais atraente, mas está a deixar de ser aquilo que é. 
O cortejo fúnebre de símbolos desaparecidos já vai longo. As livrarias Sá da Costa e Barateira foram muito faladas, a alfaiataria Picadilly saiu de mansinho da Rua Garret e o Grémio Lisbonense há muito que já era (vai ser um hotel). 
A Limonada, o melhor vão de escada que esta cidade já conheceu, fechou em 2009. Naqueles dois metros quadrados da Rua Nova do Almada comiam-se as melhores sandes de leitão na companhia dos clientes frequentes do Tribunal da Boa Hora: criminosos, advogados ou uma mistura dos dois. À tarde, podia beber-se uma limonada com reformados dispostos a tudo para defender a inocência de Vale e Azevedo.
No seu lugar existe hoje um café com “conceito”. Um conceito, para quem não sabe, é aquela coisa que têm todas as coisas sem história e sem razão de ser. 
A história cria-se, é turbulenta, incontornável, orgânica; os conceitos inventam-se. Onde era a Limonada há agora uma coisa inventada de sumos e vitaminas. Acabou-se o empregado a dormir abraçado à máquina de café e as queijadas. Agora há shots de espargos, smoothies e detoxes de vitaminas. 
Mesmo em frente à Adega dos Lombinhos há uma loja espanhola de Donuts descrita como “tradicional pastelaria norte-americana”. Serve pizzas em baguette ao almoço. Ali perto, na Rua Condes de Monsanto, a extinta Merendinha deixou de servir salgados, sopas e leitão para passar a vender sushi, chao min, chop suey e leitão. 
A Adega dos Lombinhos, o senhor João, o senhor Eduardo, a mulher e um quarteirão inteiro vão ser despejados porque sim: porque a seguradora Tranquilidade, proprietária do imóvel, disse “sim” a uma proposta de um fundo de investimento imobiliário do qual a seguradora é a única subscritora. Com esse “sim”, desaparecem lojas, cafés, restaurantes, pessoas e a Associação Portuguesa de Barbearias, Cabeleireiros e Institutos de Beleza. No mesmo lugar vai nascer um hotel de quatro estrelas da cadeia Intercontinental, um dos 26 projetos licenciados para construção na Baixa de Lisboa. Em 2008, a Baixa tinha cinco hotéis. 
Os clientes, dos habituais aos esporádicos, espantam-se com desaparecimento da Adega. “Como é que se faz uma coisa destas a alguém?”, suspiram. “Obras profundas”, suspira de volta o senhor João, por esta hora cansado de repetir a mesma lengalenga. É essa a justificação para o despejo, obras profundas do prédio, um argumento facilitado pela nova lei das rendas. Os donos e empregados saem com uma pequena indemnização e sem direito a subsídio de desemprego.
Logo à saída da Adega dos Lombinhos há uma loja chamada Portuguese Stuff. Lá dentro há o mesmo que encontramos em dezenas de outras lojas de souvenirs, incluindo globos de neve com a Torre de Belém e o Padrão dos Descobrimentos. 
Em Lisboa não neva. Na montra da Portuguese Stuff a bandeira de Portugal está ao contrário. A calçada à portuguesa está a ser substituída por pedra lioz. E a Adega dos Lombinhos fecha a 31 de Outubro.

Luis Leal Miranda in Carrossel, 30.09.13

Volta



Realizado por Bruno Ferreira
Direcção de fotografia por Vítor Rebelo
Editado por Sérgio Pedro
Produção por Márcia Meireles e Nuno Ferreira

Turbo Lento - 2013 © ℗ Linda Martini under exclusive licence to Universal Music Portugal

segunda-feira, setembro 23, 2013

hoje

(...)
Criam a origem pela origem, num corpo duplo e uno,
transformam-se subindo morrendo em verde orgia,
inertes renascem de onda em onda radiantes,
reconhecem-se no vento que os expande e os dissolve,
o mundo é uma brecha um esplendor um redemoinho.

António Ramos Rosa (1924-2013)

sexta-feira, setembro 20, 2013

nome comum

são uma das melhores surpresas no panorama nacional, são imagens feitas onomatopeias, são tradições musicadas. o 'cuco' chegou e há muito espaço para ele voar, porque os nome comum não são um lugar comum. 



concerto de apresentação do álbum, no dia 26 de setembro, no teatro do bairro.

cannon fodder

o nosso presente é resultado de tantos passados, de tantas influências, de tantos preconceitos. somos história, cultura, política, economia, sociedade, afectos, razão, somos tudo isto. e somos mais, somos carne de canhão. somos um teste-feito-à-medida-dos-senhores-engenheiros-que-acham-que-sabem-tudo do futuro. gostaria - será que gostaria mesmo? -, que a nossa experiência de vida fosse apenas sobre o nosso próprio futuro. gostaria de pensar apenas e só na minha vida, nos meus receios, nas minhas inseguranças, nas surpresas que o trabalho me traz, no prazer que o amor me dá. gostaria. e, contudo, está difícil. vivemos tempos de pouca-vergonha, de nenhuma-vergonha, de o-que-é-isso-da-vergonha? no momento em que portugal e a europa mais precisam de referências, encontramos o maior vazio das suas histórias. é triste e perigoso mas a política atingiu mínimos olímpicos e só me apetece mandá-los fodder. 

blue portobello road


london '13

música & miúdas

a internet continua a ser um poço - sem fundo à vista - de informação inesperada e inútil. o que não quer dizer que não seja divertida:

"What Your Taste In Music Says About You On A Date"  
(...) 
David Bowie: You’re selective, but slutty. 
The Arcade Fire: You spend the first third of relationship in a romantic frenzy and the last two trying to justify it. 
The Pixies: Relax. You’re cool. 
(...)

quinta-feira, setembro 19, 2013

a vida e uma canção


é cinema, vida e música. só que nem todos somos actores, heróis ou a música harmoniosa que nos embala. infelizmente, somos pouco mais do que uma transparência quando deviamos ser heróis.


Carta aberta a uns pedaços de merda

Olá, amiguinhos do FMI. Eu sou o ratinho branco. Desculpem estar a incomodar-vos agora que vocês estão com stress pós-traumático por terem lixado isto tudo. Concluíram vocês, depois do leite derramado: "A austeridade pode ser autodestrutiva." E: "O que fizemos foi contraproducente." Quem sou eu para desmentir, eu que, no fundo, só fiquei com o canto dos lábios caídos, sem esperança? O que é isso comparado com a vossa dor?! Eu só estiquei o pernil ou apanhei três tipos de cancro, mas é para isso que servimos nos laboratório: somos baratos e dóceis. Já vocês não têm esses estados de alma (ficar sem emprego, que mau gosto...), vocês são deuses com fatos de alpaca e gravata vermelha como esses três novos que acabam de desembarcar para nos analisar os reflexos. "Corre, ratinho branco!", e eu corro. Vocês cortam-me as patas: "Corre, ratinho branco!", e eu não corro. E vocês apontam nos vossos canhenhos sábios: "Os ratos sem pernas ficam surdos." Como vocês são sábios! E humildes. Fizeram-nos uma experiência que falhou e fazem um relatório: olha, falhou. Que lição de profissionalismo, deixam-nos na merda e assumem. Assumir quer dizer "vamos mudar-lhes as doses", não é? E, amanhã, se falhar, outro relatório: olha, falhou. O vosso destino, amiguinhos do FMI, eu compreendo. Vocês são aves de arribação, falham aqui, partem para ali. Entendo menos o dos vossos kapos locais: em falhando e ficando, porque continuam seguros no laboratório?

Ferreira Fernandes in DN, 19.09.13

quinta-feira, setembro 05, 2013

quarta-feira, setembro 04, 2013

questionário breve

é tudo uma questão de expectativas, dizia-lhe a avó. ela sempre fora assim, com os pés bem assentes na terra aguentando um segundo marido abominável. 
é tudo uma questão de memória, ou da falta dela, garantia-lhe o irmão. é simples, é só esquecer que os dias são cada vez mais longos e difíceis.
é tudo uma questão de perfeição, afirmava o pai. ou és perfeito, ou apenas o procuras ser e aí o consciente não perdoa. serás um fracassado, filho.
é tudo uma questão de tempo, sussurrava-lhe a mãe. é ignorar a urgência de viver, o não ter tempo para aprender. é aprender a viver, filho. 
é tudo uma questão de relativo-absoluto-sintético-analítico, só faltava alguém dizer. 
o que lhe doeu mais foi descobrir que a sua vida foi um desolador inquérito de verão e nem quando a virou ao contrario encontrou respostas. 

terça-feira, agosto 27, 2013

da ausência

um mês é muito tempo. um mês são demasiados silêncios caiados, palavras cortadas e vazios condenados. são muitos nadas, perigosamente cheios. dizem que todos os silêncios têm uma justificação e este, que até rima, não é excepção. venham então as letras e as músicas cantadas que o outono é já amanhã.

terça-feira, julho 23, 2013

distância

qual a distância de segurança? em que ponto se sente o choque? onde começa a fusão? ontem os corpos tocaram-se, hoje a matéria comprime-se, a dor invade-nos demoradamente. esquece  as imagens cinematográficas, as onomatopeias literárias, as previsões da tua mãe sobre a chegada deste dia no nosso calendário. é hora dos amigos se reunirem no café de sempre e, após um silêncio que rasga os olhares fraternos, engolirem em seco a cerveja que não veio para a mesa. qual a distância de segurança entre o abraço que demos e o que quero voltar a dar? em que ponto se sente o choque de te poder perder? onde começa a fusão entre medo, dor e esperança? não tenho respostas, vasco, mas estou aqui e acredito.

segunda-feira, julho 22, 2013

more than a sin city

«Portugal tornou-se um paraíso mundial de comportamentos desviantes e perversos.»
JCN (quem mais?) in DN

quinta-feira, julho 18, 2013

o homem certo no lugar certo

«Cavaco, o primeiro presidente a pisar a Selvagem Pequena, a pegar num calca-mar e a anilhar uma cagarra.» 

obs.: ou a prova de que o sr. silva é um homem talhado para fazer história.

terça-feira, julho 16, 2013

o eremita silva

Cavaco Silva irá embarcar quinta-feira no navio oceanográfico "Gago Coutinho", passando depois a noite na Selvagem Grande. 
Na sexta-feira de manhã regressará a Lisboa. Antecipada em um dia, a visita do Presidente da Republica ao extremo sul do Pais coincide com a discussão e votação da moção de censura ao governo apresentada por "os Verdes" na Assembleia da Republica e com os contactos entre partidos com vista a um acordo para o "compromisso de salvação nacional".

nota: é que isto das grandes cidades é uma confusão, então em dia de jogos ou de discussões na assembleia, upa, upa.

da outra vida

certo, errado, um pouco, mais ou menos. risca, sublinha, não apagues. lê, revê, coça os olhos e pergunta-te: o quê? vira a página, volta atrás, salta e passa. vai de zero a doze, vai de zero a vinte. positiva, negativa, à rasquinha. abre e fecha a loja, procura a próxima, e já nem sei do que se fala. deixa-te disso, agora não, que só voltamos em setembro.

sábado, julho 06, 2013

lost in translation

silêncio. minto, há um frenesim no frigorifico, um barulho constante, uma luz por acender. silêncio. onde estão as tuas perguntas? as minhas perguntas? as nossas respostas? silêncio, a palavra que não fica ali, entre o carinho e a atenção. devias estar aqui, sabes? ser um pré-, um pós- e um in between. onde estás tu? onde estamos? longe. e isso não faz sentido. quero os nossos silêncios. simples como antes. sem ataques, sem histórias. quero o ontem feito 11:59 pm.

sexta-feira, julho 05, 2013

Regresso das Prostitutas



Já se esquecera a que sabia o sémen
de um estranho. E agora, que voltava
sem querer às ruas vermelhas, quase se
arrependia de ter apagado tão depressa
o nojo e a indecência nos caracóis de

um menino que haveria de ser sempre
só dela. E como lhe parecia igualmente
viscoso e escorregadio o dinheiro que no
fim lhe entregavam dobrado e à pressa –
tão diferente do cartão limpinho com que

as senhoras lhe tinham pago vestidos ao
balcão, na loja que agora dava pena, assim
entaipada. Ai, se o menino soubesse que

era ainda nele e nas suas brincadeiras que
pensava quando agachada ali, diante de um
estranho, abria a boca e fechava os olhos.
Maria do Rosário Pedreira
Abril de 2013 in Carrossel

quinta-feira, julho 04, 2013

"eu quase casei com o psd"



ou então "quando houver um primeiro ministro centrista, tu vais ser seduzível". isto da ironia é mesmo uma coisa divertida, não é?

quarta-feira, julho 03, 2013

"o seguro morreu de velho"

ó maria, é que já nem ando a dormir a sesta sossegado, é melhor evitar (link) confusões (link).

p.s.: então o que é que o seguro tem a ver com isto? nada, ele nunca tem.

dos sinais de perigo


O ministro-adjunto e do Desenvolvimento Regional, Miguel Poiares Maduro, cancelou, nesta quarta-feira, as reuniões diárias com os jornalistas até a situação política estar esclarecida.

terça-feira, julho 02, 2013

Where can I find a taxi stand?

Agência Funerária Pedro Lomba, Lda.

O ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros, Paulo Portas, apresentou hoje o seu pedido de demissão ao primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho.

nota: yo no creo en pedro lomba pero que...

segunda-feira, julho 01, 2013

dos dias que correm


 Linda Martini, Ratos

vitória de pirro?


hoje saiu o sr. fanático do excel e conheceremos nos próximos dias o próximo tarado (paulo macedo?) com o relógio ajustado por bruxelas. em termos simbólicos é apenas e só uma das mudanças mais aguardadas dos últimos dois anos. porém, o que mais me preocupa é que o mais provável é que seja uma mera vitória de pirro e as alterações nas politicas económicas e fiscais ocorram de forma tão residual que nem sejam sentidas. há que acreditar que enquanto «houver estrada pra andar a gente vai continuar».

adenda: maria luís albuquerque? really? infelizmente, tive razão. uma vitória de pirro, uma vitória da pouca vergonha.

sexta-feira, junho 21, 2013

a mudança e as coisas que não mudam


“o poder politico tem o monopólio da violência” e, sobretudo, é lhe permitido que a utilize. esta ideia é ciclicamente repetida e tem, como é natural, fundo de verdade porque monopólio não é exclusividade.
paralelamente, as manifestações são potenciais momentos de violência - por desespero, cansaço, por tudo ou por nada -  mas isso resulta quase sempre em efeitos contraproducentes para as causas defendidas.
os relatos em primeira mão que me têm chegado do brasil são um misto de “estamos a viver um momento histórico”, “a policia está a malhar de forma impiedosa”, “juntos somos mais fortes”, “onde está a policia?”, “os partidos são os únicos culpados disto tudo”.
é esta última afirmação que mais me preocupa, o problema não deve ser atribuído à democracia (e aos partidos, claro) mas antes à concretização da mesma. questionar a democracia pode ser a longo prazo tão perigoso como as acções dos políticos selvagens que povoam assembleias, governos, juventudes partidárias, etc.
a história tem provado de forma cíclica que os regimes mais autoritários vivem exactamente de ambientes (insatisfação democrática, disparidade económica e desigualdade social, descrédito da classe politica, etc.)  como os que se vivem no brasil, turquia, síria, egipto, portugal, frança, and so on.
e perante este cenário, que me parece sempre negro e sem solução, qual é o caminho? quero continuar a acreditar que “um outro mundo é possível” mas também não tenho dúvidas de que mudar é difícil. 
penso no meu próprio exemplo, nos últimos dois anos “procurei” respostas no manifesto para uma esquerda livre e no youth in crisis,  e vejo agora que o erro é sempre o mesmo. procuro (ou procuramos todos?) uma resposta global, a resposta. se possível que ela seja rápida, indolor e imediata, todavia, a vida (e a política não é excepção) dá trabalho. muito trabalho! só que, (in)felizmente, o benfica joga duas vezes por semana, há concertos para ouvir, filmes para ver, livros para ler, copos para beber com amigos, próximos e até desconhecidos. há tanta coisa para fazer e viver. não será melhor começarmos por ter dias maiores? 24 horas é tão 200 mil a.c.

e regresso às perguntas iniciais: como mudar o inevitável? onde está a mudança necessária (e desejada) e como evitar o que nunca muda? 

terça-feira, junho 18, 2013

As pedras que voam entre o ontem e o amanhã

Continuo a não ter a certeza de que as manifestações (e posteriores confrontos) na Turquia e no Brasil sejam resultado de uma súbita consciência político-social dos intervenientes e, sobretudo, que o amanhã seja melhor do que o ontem. Infelizmente, as posições defendidas nestes casos ficam quase sempre mal vistas na restante opinião pública e os resultados são por norma contraproducentes. Espero mesmo que desta vez seja diferente nos dois casos mas...

terça-feira, junho 11, 2013

alegoria da caverna 2013

a escuridão, o breu,  a ignorância . a luz apaga-se (link), a informação desaparece (link), e o mundo fica um pouco mais distante de quem iluminou primeiro a caverna. 
a luz, o choque, a humanidade. a mulher sai da passerelle, foge dos estereótipos e confronta (link) os retrógrados. são estes pequenos gestos que me garantem que ainda há luz ao fundo da caverna, mas até quando?

segunda-feira, junho 10, 2013

homeless

14

são 14 corpos órfãos de sorte. são estas ruas que me levam a casa plenas de velhos perdidos, de alcoólicos abandonados e panos velhos. é uma cidade negra que me acorda à noite, noite após noite. é a outra lisboa. é a cidade que me cala a voz, me seca os risos e me prova que as luzes da festa são apenas um delírio colectivo que não faz sentido algum. gosto da minha cidade, gosto muito, mas quero uma outra lisboa. hoje, a pobreza entrou em casa e deita-se a meu lado.

segunda-feira, junho 03, 2013

A vida no parque nunca foi tão perfeita

«Há uma regra de ouro nos festivais: quando se aproxima a hora do concerto que queremos mesmo ver – e não mais um daqueles “deixa ver estes tipos, pode ser que toquem aquela” – é preciso deixar de beber cerveja e procurar uma casa de banho. Na altura certa, nada nos pode desviar as atenções. Nem nada nem ninguém. Muito menos os amigos que dizem, “estamos cá atrás do lado esquerdo. Elas não são muito altas, não vêem bem”. Pois, entendo, mas esse problema não é meu. O meu problema é que estou há dez anos à espera disto. Melhor, estou à espera desde sempre. Nunca vi os Blur como a graça da pop os concebeu (com Graham Coxon na guitarra, coisa que não aconteceu no Coliseu dos Recreios em 2003) e esta oportunidade, a 1 de Junho, no Primavera Sound 2013, Parque da Cidade, Porto, pode muito bem ser a última. Por isso não me incomodem. Se isso acontecer, não vai ser bom para ninguém. E não levem nada disto a mal, que estar nervoso antes de um concerto é bom sinal.»

Tiago Pereira 

[o artigo continua em Carrossel, um projecto novo que é bom para cacete]

quinta-feira, maio 30, 2013

Outra carta a Elisa

Leva os gatos. Leva os teus gatos, o Zacarias e o Preto. Não os deixes cá, não me deixes os teus gatos nem as tuas memórias. Nem mesmo aquele cheiro a verão que inundava o corredor de onde nascia a tua casa. Havia sardinhas, caracóis e nêsperas, era uma casa de família e provérbios. Pobre mas honesta, sempre aberta, sempre feliz, ou não fosse Graça. Leva os teus gatos, tia. Que não quero mais passos-entre-passos naquele corredor. Hoje peço apenas silêncio, um sol de fim de tarde e os teus olhos azuis feitos gatos a errar.

terça-feira, maio 28, 2013

Gambozinos


GAMBOZINOS from O SOM E A FÚRIA on Vimeo.

Gambozinos do realizador português João Nicolau ganhou o Prix Illy para melhor curta-metragem na Quinzena dos Realizadores, uma das muitas iniciativas paralelas ao festival de Cannes que ontem à noite anunciou o seu palmarés. 

camõrecer

O vencedor do prémio literário mais importante da criação literária da língua portuguesa é o escritor moçambicano autor de livros como Raiz de Orvalho, Terra Sonâmbula e A Confissão da Leoa . É o segundo autor de Moçambique a ser distinguido, depois de José Craveirinha em 1991. O júri justificou a distinção de Mia Couto tendo em conta a “vasta obra ficcional caracterizada pela inovação estilística e a profunda humanidade”, segundo disse à agência Lusa José Carlos Vasconcelos, um dos jurados. in Público

Há prémios que são justos, galardões que são merecidos, condecorações que são previsíveis. E depois há este: um dos mais justos, merecidos e previsíveis de sempre. Hoje somos todos português, hoje somos todos Mia Couto.

domingo, maio 26, 2013

tens o cavaco que mereces

somos todos estereótipos: eu, tu e o cavaco. não gostas assim tanto de futebol mas vês o jogo de outros, não lês notícias sobre o teu clube mas conheces a página três do jornal o benfica, não queres este presidente mas conheces e discutes tudo. tudo o que não é teu. hoje jogou o benfica, hoje tive um dos melhores dias de bola da minha vida de futebol. foi bom, foi divertido, foi sincero. não troco estes momentos por nada, e, contudo, descubro que não estive só. não falo dos amigos que estiveram ao meu lado na viagem, no transporte dos grelhados, da cerveja ou do estender do pic-nic-descartável, falo apenas dos outros. dos outros, dos que não estiveram lá, dos que não jogaram, nem estavam por nenhuma das equipas. hoje foi um dia lindo, um dia único, um dia especial, porque, felizmente, sei aproveitar estes momentos ao máximo. eu, a mariana, e os meus amigos (mesmo os que estão lá longe). hoje estou feliz. hoje perdi, fiquei lixado, muito,confesso, mas não sou um cavaco. não entro em palhaçadas, não gozo com a tristeza alheia nem digo que não me importo com o outro mas sorrio, rio e não gozo com a derrota alheia. todos têm o cavaco que merecem, sim, o cavaco. portugal é um país de cavacos, vivemos uma terra onde ninguém dá cavaco a ninguém e, todavia, todos olham para o terraço do vizinho. tenho pena. muita. gostava mesmo de viver num sítio onde cada um só pensasse no melhor para si, mas não. hoje sei que tens o cavaco que mereces. pois, então, fica com o cavaco que mereces e eu com o meu dia. obrigado, taça!

sexta-feira, maio 24, 2013

já é domingo de taça?

está uma manhã quente e as pessoas andam pela estação de comboio feitas formigas profissionais. não é lugar comum nem imagem pré-desenhada pelas palavras sábias do meu avô. é domingo de taça, isso sente-se nos sorrisos das crianças, dos novos, dos  velhos e de todos os que não jogam à bola com estas definições. há festa em todo o lado e tenho certeza de que a minha mãe guardou dois sacos de alegria e entusiasmo entre a carne, o gelo e as batatas. palha,  como sempre se comia em casa dos avós. é domingo de taça e o comboio vai cheio, o vermelho varreu as carruagens e o mar, paralelo, lembra-me que o verão está aí. é domingo de taça e não vejo a hora de me rodear de amigos e dizer: que belo bigode, pá!

sábado, maio 18, 2013

sexta-feira, maio 17, 2013

da instabilidade

é uma ausência não forçada, não planeada, não real. é o trabalho que sai borda fora, as noites que seguem dia adentro, as jogatanas que terminam em silêncios. não há derrotas pessoais nem colectivas, não há mais sonhos nem pesadelos. a vida é um lugar comum, onde o que tem de ser é. e tem muita força. é instável esta ausência. é perigosa esta intermitência. e depois há o tempo que insiste em passar, mesmo quando não tenho tempo. são figuras que desaparecem, políticos que não respeitam a pólis, bolas que não entram, músicas que não tocam, e pessoas que não compreendem os tempos que vivemos. hoje estou por aqui, amanhã não sei.

aprovado!

Parlamento aprova co-adopção por casais homossexuais.

quarta-feira, maio 08, 2013

Sir Football

(imagem com autoria não identificada)

É oficial. Alex Ferguson deixa o cargo de treinador do Manchester United, após 26 anos a comandar a equipa inglesa. O anúncio foi feito nesta quarta-feira no site oficial do Manchester United. Ferguson, de 71 anos, conquistou 38 títulos ao serviço do clube inglês, incluindo 13 campeonatos de Inglaterra e duas Ligas dos Campeões. in Público

O jogo da bola faz-se destas figuras, o futebol faz-se de outras. A bola é emoção, loucura, vinho (muito no caso de Alex), paixão e saber; o futebol é outra coisa, envolve mind games, tecnologia, interesses, saber (again). E depois temos Alex Ferguson, a mescla destes dois mundos, destas duas posturas, de ontem e do amanhã. Sim, o amanhã não acabou hoje.


sexta-feira, maio 03, 2013

30 dias tem um mês


ou 31. ou mesmo um pouco mais nalguns casos simbólicos. (re)começou tudo há um mês. há pouco mais do que 30 dias, pouco mais do que um mês. o vinil continua a rodar, o cd a tocar, a música não pára. ontem fez um mês, ontem o benfica ganhou, ontem houve festa. ontem continuou para hoje, a festa e o trabalho. não haverá amsterdão para mim - trabalho a quanto obrigas -, mas não fico triste, há música, há trabalho, há trabalho com música. e recomeça já hoje.


terça-feira, abril 30, 2013

tendências 2012/13


já é oficial! assumi a tendência 2012/13. só me falta mesmo o final feliz.

sexta-feira, abril 26, 2013

quando a história entra em campo

O futebol esteve longe de ser um veículo de propaganda do Estado Novo, que até atrasou o desenvolvimento da modalidade. Eusébio só não saiu de Portugal mais cedo porque tinha de ir à tropa. E não houve um clube do regime, embora o Sporting tenha sido o emblema que teve mais figuras ligadas ao poder. Estas são algumas das ideias defendidas pelo historiador Ricardo Serrado, no livro O Estado Novo e o Futebol, recentemente publicado.

PÚBLICO: No seu livro contesta a ideia de que o Estado Novo se ancorou nos três efes: fado, futebol e Fátima. Porque diz isso?
Quando parti para a minha tese, que serve de base a este livro, ia com a ideia comum de que o futebol tinha sido intensamente politizado e instrumentalizado neste período. Desde que me lembro, ouço dizer que Portugal era futebol, fado e Fátima. Para grande surpresa minha, apercebi-me que as coisas não eram de todo assim. O futebol não foi instrumentalizado, da forma como se diz. Nem há provas, documentos ou indícios de que o futebol tenha sido politizado durante o Estado Novo. E apresento neste livro vários argumentos que suportam esta ideia, como o facto de o futebol não ter sido profissionalizado mais cedo. E podia tê-lo sido, porque logo desde a década de 1920 ganhou uma importância social muito grande, mas o Estado Novo, ainda nos princípios da década de 1940, proíbe o seu profissionalismo.

Porquê?
Porque a ideia que o Estado Novo tinha do futebol, e do desporto em geral, era que deveria ser amador, ao serviço da nação, da educação física, para o cultivo do corpo. O desporto de espectáculo, de massas, era amplamente condenável para o Estado novo. E apresento vários documentos dessa intervenção, no sentido de impedir que o desporto fosse um espectáculo, um entretenimento ou uma profissão.

Apesar desse travão do Estado Novo, o futebol continuou a ser a grande modalidade. Podemos dizer que o Estado Novo não foi nesse capítulo muito bem sucedido?
O ciclismo foi a modalidade rainha no final do século XIX e início do século XX, mas a partir de 1910, sobretudo em Lisboa e depois no Porto, o futebol ganha grande pujança. A partir da década de 1920, o futebol tem já um modus operandi e características que hoje em dia identificamos como fenómenos de massas: a agressividade dos adeptos, a contestação à arbitragem e os campos cheios de gente. Antes do Estado Novo surgir, já o futebol era o desporto-rei.

O Estado Novo tentou mais controlar o fenómeno do futebol do que aproveitar-se dele para a sua propaganda?
O Estado Novo definiu uma política desportiva concreta, que era consonante com o resto da sua política. Sendo um regime autoritário à imagem do seu líder (reservado, que não ia em convulsões), e não tanto regime de massas como o fascismo italiano e o nazismo, o Estado Novo adapta o modelo fascista à realidade portuguesa e às ideias do seu líder. E no desporto segue essa linha. O desporto devia servir para educar, civilizar, desenvolver os valores defendidos pelo Estado Novo, que era completamente contra as massas e a profissionalização de qualquer modalidade.

O nazismo usou os Jogos Olímpicos de Berlim 1936 e o fascismo italiano o Mundial de futebol de 1934. Não detectou nenhuma pulsão do Estado Novo para aproveitar por exemplo das conquistas europeias do Benfica na década de 1960 e dos bons resultados da selecção no Mundial 1966?
Existe algum aproveitamento, mais como consequência. As coisas aconteciam. O Estado Novo não as potenciava, mas colava-se a elas.

Um pouco como acontece actualmente…
Sim. Quando o Benfica foi campeão europeu e a selecção ficou em terceiro lugar em 1966, a ideia era que não era o Benfica ou a selecção, mas sim o país. Aí o Estado Novo faz algum aproveitamento, mas é algo natural e espontâneo num governo que quer chamar a si alguns desses feitos. Não considero que seja um aproveitamento planeado. Foi algo que aconteceu e espontaneamente aproveitou para promover o país.

Quer dizer que isso não é muito diferente do que acontece actualmente quando um clube português conquista um troféu internacional?
Exactamente. Quando o FC Porto é campeão nacional, vai à Câmara do Porto [desde que Rui Rio tomou posse, essa tradição mudou]. E o Benfica à Câmara de Lisboa. Até tenho ideia de que o futebol é hoje mais instrumentalizado, também de uma forma espontânea, do que no período do Estado Novo. Basta ver o Euro 2004 e a aposta do Estado no futebol, para o potenciar e para retirar dividendos com a sua promoção. O Estado Novo nunca apostou no futebol, antes pelo contrário. Na década de 1920, o futebol estava em desenvolvimento. Esteve nos Jogos Olímpicos de 1928 e tinha alguns jogadores de relevância internacional, como o Jorge Silva, Pepe, Augusto Silva e Vítor Silva. Já na década de 1930 e 1940 o futebol entra em período muito negativo, sofre goleadas e nota-se que a selecção poderia ter algum talento individual, mas a conjuntura não potenciava.

Porquê?
Em 1942, o Estado Novo criou a Direcção-Geral de Educação Física, Desportos e Saúde Escolar (DGEFDSE), que é o organismo que vai tutelar todo o desporto nacional e o futebol ficou ali condensado e preso. E em 1943, lança as leis bases do desporto e diz que o profissionalismo é proibido. Foi preciso esperar até 1960 para alguma equipa portuguesa fazer algo relevante no panorama internacional. Penso que isso se deve em grande medida ao travão imposto pelo Estado Novo, ao aprisionamento do futebol, que já movia largas somas de dinheiro. O Estado Novo nunca quis potenciar o futebol.

Uma das ideias do seu livro é que Salazar não gostava de futebol. Mas não houve outras figuras do regime a tentar instrumentalizar o futebol?
O facto de Salazar não gostar de futebol não impedia que outros gostassem, como era o caso de Américo Tomás, Craveiro Lopes, Henrique Tenreiro, Cancella Abreu. Claro que havia agentes do Estado Novo que gostavam de futebol, mas sobre Salazar não há indícios de que tivesse clube. Aliás, poucas vezes se manifesta sobre desporto. Fá-lo para anunciar o Estádio Nacional, quando o Benfica foi campeão europeu em 1961 e no Mundial de 1966, mas é um homem à parte do fenómeno desportivo. Aliás, quando ele recebe o Benfica em 1961, vê-se que é um homem que não está muito à vontade com a gíria do futebol e nem sequer seguiu a carreira da equipa. Disse qualquer coisa como: ‘então foi muito difícil resolver o vosso problema de futebol?’

Mas terá ficado impressionado com o impacto social das vitórias do Benfica de 1961 e 1962?
Sim, porque esse impacto social é algo sem precedentes no país. Foi uma manifestação da portugalidade e penso que o Estado Novo deixou as pessoas expandirem-se, embora não tenha valorizado em demasia essas conquistas. Aliás, em 1966, quando o Eusébio tem o seu grande Mundial e a consagração internacional, o Diário da Manhã, que era o órgão oficial do Estado Novo, escreveu nas páginas centrais que o melhor jogador do mundo não era o Eusébio mas sim o Pelé.

Outras das ideias comuns é que Salazar impediu Eusébio de sair o país. Algo que também contesta no seu livro…
Sim. Com todo o respeito pelo Eusébio, que foi um dos melhores jogadores de sempre, nunca encontrei nenhum indício que leve a pensar que Eusébio tenha sido “nacionalizado” ou impedido de sair do Benfica por ser um símbolo ou herói nacional. O que aconteceu, e o próprio Eusébio o diz numa entrevista em 1995, foi que em 1962-63, ele teve um pré-acordo com a Juventus e acabou por não sair por intervenção do Estado Novo, mas porque tinha de ir para tropa. À luz do Estado Novo, era impensável dispensar fosse quem fosse de ir à tropa. O que costumo dizer é que não foi o Eusébio-jogador que foi impedido de sair, mas sim o Eusébio-militar ou cidadão. Ainda para mais, em 1966, o Inter de Milão quis contratar Eusébio, que chegou mesmo a escolher casa, e só não foi porque a federação italiana fechou as portas a estrangeiros, por causa de ter feito um mau Mundial e de querer potenciar os jogadores nacionais. Ainda para mais, o professor Manuel Sérgio confidenciou-me que o director da DGEFDSE era seu amigo pessoal e que se houvesse uma “nacionalização” de Eusébio ele teria sabido. Trata-se de um mito. Eusébio foi impedido de sair, mas apenas por razões militares.

Também defende que o Estado Novo não interveio de forma pensada nos clubes.
Não há nenhum clube do regime, primeiro porque o mentor do regime não tem clube, ao contrário de Franco [em Espanha], que se diz que era do Real Madrid. Salazar não esteve nas inaugurações dos estádios dos principais clubes. Depois, o clube que mais ganhou durante a segunda metade do Estado Novo foi o Benfica, que era o clube que tinha mais oposicionistas ao regime e que, na sua direcção, teve menos pessoas ligadas ao mesmo. O clube que teve mais personalidades ligadas ao regime foi o Sporting, onde contabilizei cerca de 12 ou 13 dirigentes com ligações ao poder.

Terá a ver com a génese mais elitista do Sporting?
Penso que sim. Talvez pela posição social mais elevada esses dirigentes estivessem mais próximos do poder. Mas não estou a dizer que o Sporting era o clube do regime ou que foi o mais favorecido. Durante a primeira metade do Estado Novo, o Sporting é o mais ganhador, mas na segunda metade é o Benfica.

O Belenenses também tinha algumas figuras ligadas ao regime e foi campeão em 1946. Houve algum traço de clube do regime?
Não. O Belenenses entrou em decadência nos anos 1960, talvez por causa de ter construído um estádio com um esforço financeiro muito grande. O estádio do Restelo custou mais do que o da Luz. Em 1975, o estádio foi mesmo hipotecado e Américo Tomás até teve de intervir, mas nunca encontrei traço de clube de regime.

Pelo contrário, na confrontação com o governo foi o Benfica quem mais se aproximou desse papel, nomeadamente por causa do hino censurado a Félix Bermudes (Avante Benfica)…
Sim. O Benfica foi o clube que teve mais oposicionistas declarados.

E teve mesmo um presidente comunista…
Sim, o que é inédito. Manuel da Conceição Afonso é o único caso conhecido de um comunista a presidir a um clube durante o Estado Novo. Naquela altura, todos os dirigentes de instituições tinham de assinar uma declaração a dizer que não eram comunistas. No caso do desporto, era uma declaração que vinha da DGEFDSE. E até li num livro que Manuel Afonso se terá recusado a assinar essa declaração. O próprio Félix Bermudes, que fez o hino Avante Benfica [que o Estado Novo censurou, dando origem ao actual Ser Benfiquista], fez parte das listas da oposição nas eleições de 1949. Norton de Matos acaba depois por desistir e Félix Bermudes ficou chateado. Estamos a falar de oposicionistas activos.

Essas simpatias ou antipatias pelo regime traduziam-se apenas em actos simbólicos?
A inauguração do Estádio de Alvalade foi a 10 de Junho, data escolhida pelo presidente Góis Mota, que foi um homem forte do Estado Novo, tal como outro presidente do Sporting Cazal Ribeiro. A escolha do 10 de Junho teve algum simbolismo, por ser uma data importante para o regime.

Tal como o facto de a inauguração do Estádio das Antas ter sido feita a 28 de Maio de 1952 [aniversário da revolução que instaurou o regime do Estado Novo]…
Também. Na altura, o presidente do FC Porto [Urgel Horta] era deputado à Assembleia Nacional. E o ministro das Obras Públicas tinha dado alguma ajuda e a direcção do FC Porto achou por bem inaugurar numa data importante para o regime.

Mas essas conotações limitavam-se aos dirigentes?
Sim, embora os dirigentes fossem o espelho da respectiva massa associativa.

Vislumbrou alguma tentativa de essas figuras próximas do regime tentarem chamar os adeptos para o seu lado político?
Respondo com um sim, embora não um sim muito claro. O autor da letra [Paulino Gomes Júnior] “Ser Benfiquista” era um salazarista e chegou a ser director do jornal do Benfica. Os textos dele mostravam alguma propaganda salazarista, não algo que viesse de instâncias superiores, mas sim como tradução do que era a visão dele. Mas onde isso é mais clarividente é no jornal do Sporting. Não é por acaso que na inauguração do Estádio de Alvalade, a 10 de Junho [de 1956], expressões como império, raça ou génio lusitano são usadas. São palavras gratas ao regime e que denotam uma clara colagem ao Estado Novo, que é espontânea, porque essas pessoas eram salazaristas e não o procuravam esconder.

A interracialidade no futebol português foi usada pelo regime para passar uma mensagem positiva para o exterior, de um Portugal colonial harmonioso?
Quando Portugal foi à fase final do Mundial de 1966 essa mensagem passou. Foi uma oportunidade muito boa para transmitir uma harmonia entre a metrópole e as colónias, numa altura em que os impérios coloniais europeus se desmoronavam.

Olhando para o futebol em Portugal hoje, acredita que este desporto tem um papel mais central na sociedade do que aquele que teve durante o Estado Novo?
O futebol alcançou um patamar social importante logo nos anos de 1920 e não era muito diferente daquilo que é hoje. Já movimentava muita gente e até tinha patrocinadores que procuravam aproveitar a popularidade deste desporto. Havia pequenos empresários a investir dinheiro no futebol, que já tinha uma organização relativamente complexa. Com o final do Estado Novo o futebol, e o desporto em geral, foram muito mais potenciados. Durante o salazarismo o futebol foi amputado da sua vertente mais profissional, de espectáculo e de entretenimento e hoje em dia isso não acontece.

É verdade que Salazar defendia que o desporto nacional deveria ser a vela?
Sim, das poucas vezes em que ele aparece com trajes desportivos, surge dentro de um veleiro e diz que se houvesse um desporto nacional deveria ser a vela, por estar ligada ao mar. Na Mocidade Portuguesa, por exemplo, o desporto mais proeminente era o campismo.

quinta-feira, abril 25, 2013

Ele há dias assim que são o dia

A gente diz "foi há 39 anos". Não é muito, é meia vida de um homem. Mas foi mesmo há muito, no outro século. Pouco antes, no abril anterior, em 1973, cinco bracarenses estavam na casa de um deles. A PSP bateu à porta e multou-os por não terem avisado da reunião. O 1.º Juízo da Comarca de Braga confirmou a multa. E no jornal República, corajoso, o jornalista Vítor Direito, corajoso, tinha de escrever crónicas assim: "Manhã de nevoeiro transforma a cidade. Não se vê um palmo em frente do nariz. Andam por aí uns senhores a prever "boas abertas". Mas o nevoeiro persiste." E no Porto, a comemorar o 31 de Janeiro, houve um comício no Coliseu. Um estudante ia a meio do seu discurso quando o representante do Governo Civil (cuja presença era obrigatória) se ergueu e disse: "O senhor cale-se!" O estudante meteu o discurso no bolso. E ainda em janeiro, mas em Lisboa, António José da Glória, da tabacaria na Alameda, frente ao Técnico, disse, enquanto servia uma cliente: "Ontem, lá houve mais bordoada entre estudantes e polícias." Um guarda da PSP, desfardado e também cliente, logo lhe deu voz de prisão. O sr. Glória foi a tribunal por "propagação de boatos". Veio nos jornais. E em fins de fevereiro, alguém escrevia, no Comarca de Arganil: "Que aconteceu ao boateiro? Ficava bem uma lição eficaz." Hoje é o 25 de Abril. Eu amo-o como se fosse ontem. Sobretudo por pequeninas coisas que me recordam que antes dele foi há mais de um século.

Ferreira Fernandes, DN, 25.04.2013

quarta-feira, abril 24, 2013

das viagens


BIBLIOGRAFIA - Trailer (2013) from Filme Bibliografia on Vimeo

BIBLIOGRAFIA, um naufrágio de João Manso e Miguel Manso. Dia 25 de Abril, às 15h30, no Cinema São Jorge, inserido na 10ª edição do Festival IndieLisboa.

facebook.com/filmebibliografia
facebook.com/events/468311049903827/

terça-feira, abril 23, 2013

terra de pescadores


Comporta 2013

na minha rua

os velhos do restelo vivem na minha rua. pensam que o tempo não passa por aqui, que não ousa subir esta íngreme viela, que já tem planos para amanhã. os velhos da minha rua não acreditam nos relógios. muito menos nos calendários. contam histórias de outras vidas, elogiam os tempos vividos. não lhes sobra espaço para memórias futuras, nem para o futuro do conjuntivo. na minha rua vivem velhos. e novos. vivem muitas pessoas na minha rua. mas são as pessoas que já não vivem que fazem chorar as pedras das calçadas, é que entre janelas e portas entaipadas, entre mortos e fantasmas profissionais, já não vejo aldeia nesta cidade minha. antes era melhor, dizem.

sexta-feira, abril 19, 2013

Notas para um discurso no futuro próximo


Portugueses,

O Governo, preocupado com o aumento do desemprego, criou legislação que permitiria reduzir a taxa de desemprego em 50 por cento. Era uma medida corajosa que consistia no seguinte: executar, com um tiro na nuca, 500 mil desempregados. Mais uma vez, o tribunal rejeitou a medida por violar aquilo a que os juízes chamam, naquele jargão jurídico impenetrável, a "lei". Como já tem vindo a ser habitual, os tribunais ignoram a situação económica de emergência em que nos encontramos e, alegando mariquices como a conformidade às leis fundamentais do País, impedem que se faça aquilo que tem de ser feito. Essa atitude, como é evidente, bloqueia a acção do Governo. Perante o que se tem visto, parece-me desnecessário sequer colocar à consideração do Parlamento a criação do campo de concentração para reformados, ou o fuzilamento dos professores excedentários, uma vez que é sabido, de antemão, que serão rejeitados pelos tribunais com base num pormenor técnico qualquer.

Aquilo que aconteceu com o Orçamento Geral do Estado, que foi vítima de uma má vontade que nenhum outro documento oficial alguma vez teve de suportar, ainda está bem presente na memória de todos. Ao fim de 50 dias, disseram que o orçamento estava errado. Ao fim de 90, disseram que era ilegal. Não me surpreenderia que, dentro de uma semana ou duas, alguém dissesse que o orçamento era pedófilo. Encontramo-nos neste nível de embirração. Parem de ser picuinhas e deixem-nos governar.

Pelo segundo ano consecutivo, o Tribunal Constitucional chumba artigos do Orçamento de Estado. Estamos perante um vício - e um vício caro, uma vez que são artigos que custam milhares de milhões de euros. Trata-se de um escândalo que os juízes do Tribunal Constitucional se permitam provocar um desvio destes nas contas públicas. A única pessoa que está autorizada a provocar desvios colossais nas contas públicas é o sr. ministro das Finanças.

Vivemos tempos difíceis. O sonho de Francisco Sá Carneiro era: um Governo, uma maioria, um Presidente. Eu, como disse há dias Ricardo Araújo Pereira (é mesmo engraçado, aquele rapaz), sonho um pouco mais alto: só me satisfaço se puder governar com um Governo, uma maioria, um Presidente e a Constituição de 1933. Com a que temos neste momento, que vigora há mais de 30 anos e foi aprovada com os votos favoráveis do partido a que presido, descobri agora que é impossível.
O ainda primeiro-ministro,

Pedro Passos Coelho

Ricardo Araújo Pereira in Visão

quinta-feira, abril 18, 2013

"as horas pra mim são dias"


Comporta, 2013

nem à lei da bala

© Swoosh

pobre o povo que tem tão pobres governantes (link) e que vota em políticos que esqueceram há muito os seus eleitores e que insistem em não pensar nos seus nem à lei da bala. contudo, o resultado desta votação não é, de forma alguma, uma surpresa. a recusa desta lei é mais um dia díficil para obama, ele não o merecia, os pais, filhos, mães, amigos e todos os outros que fazem vida das vigílias após mais um crime "inesperado" também não o mereciam. então quem merece o tiro certeiro?

quarta-feira, abril 17, 2013

duas semanas

acredita em mim, a sério, não é apenas uma aventura. mas estás mesmo a gostar? sim, estou, desta vez parece que a coisa é... é séria, eu acredito, só não quero que saias magoado, é que ainda só passaram duas semanas. tem sido tudo tão natural, isso deixa-me tão sossegado. duas semanas, quem diria. só prova que o amor é sempre inesperado. mesmo.

sexta-feira, abril 12, 2013

até já


a mão de fora a rasgar o vento, a música que cantamos a repetir e os óculos escuros em riste que o pôr-do-sol é companhia amiga. não há frio nem calor, fome, sede ou cansaço que o fim de semana está a duas curvas de distância e o teu sorriso é sinónimo de retiro.

quinta-feira, abril 11, 2013

pés de areia

hoje o vento sopra tão quente como naqueles finais de tarde do verão passado. trocamos silêncios ao toque dos dedos e acreditamos que este dia pode não acabar. a roupa é de inverno, os sonhos de primavera, a paixão de verão e uma gota de outono escorre pela tua cara. garantes que estás muito feliz, que sabe bem estar aqui. agora. não trouxe relógio nem telemóvel, sabes? estamos só os dois, sussurro-lhe. o tempo irá parar e os nossos pés são areia aos olhos dos outros. eu e tu. já é futuro?

quarta-feira, abril 10, 2013

Manifesto por um Futuro Europeu


Nascida da ideia de cooperação, desenvolvimento e progresso, a Europa parece conformada no seu actual papel e sem futuro. A Europa esqueceu-se da comunidade dos europeus e parece caminhar de olhos fechados sobre um presente negro.

O projecto de uma União Europeia parece desvanecer-se perante as transformações globais, e a recuperação europeia encontra-se bloqueada por um processo burocrático que encobre o medo de não assumir compromissos com alcance histórico.

Esta Europa esqueceu a riqueza do seu passado, a vantagem do seu presente e o impulso democrático, ambiental e cívico do seu processo de construção, e apagou os benefícios de uma integração política e económica entre os seus estados-membros. Este é o momento para travar a soma de egoísmo e cepticismo que ameaça os países e os cidadãos europeus. É o tempo de recuperar as palavras de Shelley: “somos todos gregos”, e de Kennedy: “Ich bin ein Berliner.” Nascemos europeus. Nascemos em nações democráticas numa Europa sem fronteiras e queremos derrubar os muros entre os povos europeus.

Somos um grupo de jovens europeus de Portugal e mais do que identificar problemas, queremos ver a Europa levantar-se de novo e confiar nas mãos dos seus cidadãos, a responsabilidade histórica que lhes compete. Vimos comunicar que queremos e somos capazes de escolher o nosso futuro.

Identificámos três áreas em concreto nas quais focaremos os nossos esforços:

1. Democracia

A União Europeia carece de legitimidade popular. A separação entre os centros de poder não eleitos e a discussão política sem poder de decisão provocou um afastamento entre os interesses da comunidade de europeus e os interesses de alguns particulares.

O diálogo de aproximação que caracterizou a Europa foi substituído por imposições que subverteram o significado da própria palavra “União”, fracturando os estados-membros em grupos distintos. Os mais altos dirigentes da UE não são escolhidos por sufrágio directo, respondendo mais aos governos de alguns países do que aos cidadãos que deviam representar. Este afastamento é causado pela opacidade dos processos de deliberação, do impacto das directivas europeias e pela falta de legislação que aproxime os cidadãos dos decisores.

É necessária a criação de formas de representação dos cidadãos europeus cada vez mais para além da clássica mediação exercida pelos representantes dos respectivos estados-membros e a instituição de um exercício constante de transferência de informação de forma clara e directa, também no sector legal. Sobretudo, consideramos que deveria existir um maior esforço no sentido de instituir uma cidadania europeia significativa, que nasça não da padronização mas da aceitação e equilíbrio das diferenças, no sentido de criar uma verdadeira união, superior a fronteiras e tratados, ancorada no desejo de cada indivíduo de ser europeu e no espírito do lema da União Europeia: “Unidos na Diversidade”.

2. Educação e Cultura

A educação e a cultura merecem um particular destaque nas nossas preocupações, por considerarmos que são factores críticos para a promoção da coesão social, inovação, convergência entre países e desenvolvimento da Europa. Constituem uma parte fundamental na formação pessoal dos cidadãos, que se reflecte em todas as suas esferas de acção. As mais-valias demonstradas por iniciativas de mobilidade como o programa Erasmus, que aproximaram os estudantes dos vários estados da Europa e permitiram a esta geração uma visão global e inclusiva, devem ser tomados como ponto de partida para uma maior integração entre as várias instituições de ensino, de investigação, de desenvolvimento e de inovação.

Consideramos um direito fundamental o acesso à informação pela disponibilização pública, universal e livre da internet, assim como de todas as ferramentas tecnológicas inerentes a esse meio, a existência de equipamentos escolares modernos e de métodos de ensino-aprendizagem que promovam o trabalho colaborativo com recurso a meios tecnológicos avançados e que seja potenciado o envolvimento, desde cedo, dos estudantes com entidades, equipamentos e conteúdos culturais.

Defendemos igualmente a existência de uma política de financiamento e de acção social do ensino superior, assim como de combate ao insucesso e abandono, mais concertada à escala europeia. Desejamos uma sociedade onde a condição inicial do indivíduo não seja a determinante do seu futuro, tornando necessário um esforço de inclusão dos estudantes em posição mais desfavorecida e de apoio aos países sob maiores constrangimentos orçamentais.

Sugerimos uma maior dedicação à área da cidadania europeia no ensino obrigatório, de carácter sobretudo informativo, especialmente nos casos em que o estudo de tais assuntos já esteja previsto nos currículos, como é o caso do nosso país. Reforça-se também a necessidade da sua maior flexibilidade, apostando numa formação mais geral e transversal e evitando situações em que se torna impossível ou impraticável corrigir escolhas feitas anteriormente. Desta forma, e no sentido de permitir o maior desenvolvimento possível de todos, de forma livre e independente, afirmamos a vontade de ver promovidas acções de debate e de discussão no ambiente escolar, baseadas no civismo e no respeito mútuo, como incentivo a atitudes participativas e de combate ao atavismo.

Finalmente, gostaríamos de salientar a importância das indústrias criativas e das iniciativas culturais, especialmente no momento da crise que atravessamos. O elevado volume de actividade comercial gerado por estas actividades, no contexto europeu, é indicativo do seu potencial de crescimento, pelo que defendemos o incentivo à sua expansão.

3. Sociedade e Economia

Vivemos actualmente numa crise económica, financeira, mas sobretudo numa crise de futuro. As consequências destas crises são sentidas de forma severa pelos jovens, que procuram aplicar à sociedade e à economia o seu saber e trabalho, que tentam fugir à precariedade e que procuram a felicidade. Nos países intervencionados há uma geração inteira que vê as iniciativas culturais e sociais desaparecerem, sentindo-se assim entre a espada do desinvestimento e a parede da estagnação e perdendo a confiança numa Europa que se vê incapaz como instrumento potenciador de soluções.

A chegada do Euro elevou a Europa a um novo patamar e as exigências aumentaram sem que muitos estados-membros percebessem as implicações. Um dos erros da construção económica europeia foi a criação do Euro como instrumento para uma maior integração política. Fazê-lo como um fim e não apenas um meio para alcançar uma progressiva unidade política e económica poderia ter evitado as consequências que hoje sofremos - uma economia débil, com desigualdades crescentes e uma desunião política preocupante. Ao colocar todo o ónus das origens desta crise sobre os elevados níveis de dívida e défice e na ausência de reformas estruturais, estamos necessariamente perante uma análise incompleta. A abertura da Europa a mercados externos como a China e as debilidades nos sistemas produtivos de vários países europeus, potenciadas por esse choque, devem ser factores a considerar nesta avaliação. As actuais políticas, ao privilegiarem uma análise simplista desta crise invalidam a eficácia das soluções encontradas.

No actual quadro, em que mais de um quinto dos trabalhadores são precários, o desemprego jovem atinge níveis historicamente elevados (com mais de quatro em cada dez jovens sem emprego) e o investimento em investigação se afasta dos objectivos europeus 2020 (3% do PIB), definimos como principal prioridade o combate à precariedade, ao desemprego e um novo impulso à investigação. Se assim não for, o actual ciclo vicioso em que as economias do sul se encontram não terá fim, com consequências extensíveis a todos os estados-membros. A procura de soluções conjuntas ao nível europeu parte da interligação de Estado e economia para a promoção do bem-estar social e o relançamento do crescimento económico. Tendo em conta o novo quadro de apoio comunitário, consideramos prioritária a promoção da inovação, educação e cultura e o desenvolvimento de sectores como as pescas, a agricultura e as energias renováveis, assegurando a independência energética. É também fundamental que a Comissão Europeia assuma um papel mais activo na prossecução do ideal fundador da União, promovendo o crescimento económico e o desenvolvimento social, através da definição de metas claras não apenas de longo mas também de curto prazo.

Postos os pontos anteriores, assumimos a nossa responsabilidade na apresentação de medidas para a resolução de problemas concretos que se apresentam no contexto europeu:

I

A eleição directa do Presidente do Conselho Europeu no sistema de sufrágio directo e universal, a criação de um órgão eleito directamente pelos cidadãos com igualdade de representação para todos os estados-membros, e que coordene com o Parlamento Europeu na iniciação e debate legislativo. Também sugerimos que os partidos europeus ou outros movimentos cívicos indiquem as suas escolhas para Presidente da Comissão Europeia e que apresentem programas comuns em todos os estados-membros e defendemos a capacidade de grupos de cidadãos (independentemente da sua nacionalidade) recorrerem ao Tribunal de Justiça Europeu por manifesto défice de protecção jurídica nos seus países de origem.

II

A criação de uma rede de Universidades da União Europeia, sedeadas nos países em que exista um maior défice de qualificações, com custos normalizados de acesso, baseando-se na mobilidade e no livre acesso à informação e às publicações dela resultantes. De igual modo, esta iniciativa pode estender-se ao nível pré-Universitário (à semelhança do programa Comenius) e aos centros de investigação, que contribuem quer para a formação pessoal como para a produção académica, facilitando assim a transferência de pessoas e de conhecimento e a consolidação do sistema universitário europeu.

III

Propomos a criação de um banco europeu de capitais públicos de microcrédito ou de fomento - vocacionado para empréstimos de apoio à criação de novos negócios. Esta medida permitiria promover a criação de emprego, a aplicação de muito capital humano na economia e a sua modernização. O papel meritório reconhecido a várias incubadoras nacionais permitiria adicionar a experiência que garanta o sucesso do investimento.

Também consideramos que na resolução dos problemas identificados é essencial a expansão das competências e responsabilidades do Banco Central Europeu como responsável pela emissão de dívida comum a todos os estados, bem como agente activo na eliminação de off-shores em solo europeu, mas igualmente à escala mundial em cooperação com os restantes bancos centrais.

 
Subscritores do manifesto

 Diogo Capelo, Lisboa, estudante e bolseiro de investigação, 25 anos Tiago Batista Gil, Trancoso, arqueólogo
Stephanie Figueiras, Oeiras, estudante
David Filipe dos Santos, Viseu, mestre em Ciência Política
Rui Moreira, Lisboa, designer, 26 anos
David Crisóstomo, Charneca da Caparica, estudante, 21 anos Francisco Themudo de Oliveira, Ourique, estudante de Ciência Política, 19 anos
Jorge Pinto, Bruxelas, engenheiro, 25 anos
Hugo Fernandes Lourenço, Lisboa, jornalista, 28 anos
Pedro Moura, Coimbra, estudante, 24 anos
Mariana Teixeira Santos, Porto, jornalista/produtora de conteúdos, 30 anos
Jorge Miguel Campos, Coimbra, estudante, 20 anos
Ana Carolina Coutinho da Silva, Coimbra, estudante, 20 anos
André Costa, Paço de Arcos, historiador, 34 anos
Bernardo Pereira, Oliveira de Frades, economista, 23 anos
Kelly Rodrigues, Leiria, estudante, 20 anos
Melissa Rodrigues, Leiria, estudante, 20 anos
Madalena Martins de Jesus, Coimbra, estudante, 23 anos
João Tibério, Lisboa, historiador, 30 anos
Tiago Patrício, Trás-os-Montes, escritor, 34 anos
João Gregório, Lisboa, 34 anos
Aires Gouveia, Lisboa, precário profissional, 30 anos
Adriana Couto, Braga, estudante, 22 anos
Marta Rosa, Lisboa, estudante, 21 anos
Rafael Esteves Martins, Queluz, mestrando, investigador bolseiro, 25 anos
Cláudio Carvalho, Maia
Alexandre Henriques, Oliveira do Hospital, estudante de Sociologia, 21 anos
Rita Costa, Lisboa, estudante, 21 anos
Joana Gonçalves de Sá, Lisboa
Natacha Melo, Águeda, estudante, 18 anos

in Público (aqui e aqui)

nota: Orgulho!