domingo, setembro 30, 2012

Passos é o Special One da política

«O Partido Comunista Português (PCP) e o Bloco de Esquerda (BE) vão unir esforços na luta contra as medidas de austeridade, podendo mesmo acordar acções conjuntas de protesto. É a primeira vez que isto acontece, em Portugal, sobre assuntos de política nacional.» in Público

Tenho a certeza de que Passos e seus amigos entrarão para a História mais tarde ou mais cedo. É inevitável, e justo diga-se, porque juntar patrões e funcionários, trabalhadores e desempregados, polícias e ladrões, PCP e Bloco, não é para todos. Não é mesmo. Em suma, para ser mesmo perfeito era substituir a vassoura com olhos que está no Largo do Rato por um verdadeiro líder. Conto contigo, Special One da política.

sexta-feira, setembro 28, 2012

se...


Se tive sempre dificuldade em perceber as praxes, ainda mais tenho quando acontecem situações destas: «Uma jovem estudante ficou, na quarta-feira, inanimada depois de ter participado numa praxe académica, tendo dado entrada no serviço de urgência do Hospital José Joaquim Fernandes, em Beja. Encontra-se, desde então, nos cuidados intensivos com prognóstico reservado.» in Público 

Se tive sempre dificuldade em perceber situações destas, ainda fico mais surpreendido com a inutilidade e/ou estado de alheamento dos jovens universitários perante o que os rodeia.
Se ainda fosse universitário - e atendendo aos negros tempos que correm -, tenho a certeza de que gastaria todas as minhas energias e forças para lutar por um futuro melhor para a Academia, para a Economia, para a minha vida. Tenho a certeza absoluta de que jamais perderia tempo em praxes, brincadeiras e outras parvoíces (mais ou menos violentas). O Futuro é agora. E precisamos de todos.

quinta-feira, setembro 27, 2012

O sr. Franco e o sr. Salazar



Confesso que odeio as expressões «isto era bem melhor no tempo de Salazar» ou «isto nem no tempo de Salazar». Embora exponham ideias opostas ambas incorrem num grave erro: negam ou esquecem a violência que flagelou tantos portugueses.

Os tempos que vivemos são negros. Muito. Todavia, e felizmente, não chegámos ainda à situação que foi vivida em Portugal e Espanha durante muitos anos. Demasiados.
Discute-se muito (e há muito) que não há democracia em Portugal e isso tem sido um perigoso erro. Portugal não tem falta de democracia, pode é ter uma democracia pouco saudável. Isso verifica-se na pouca independência da comunicação social, na dificuldade de fazer algumas investigações e julgar esses crimes, no descrédito em relação aos partidos e movimentos políticos, em mil outras coisas mais. Mas ainda há democracia, felizmente (e repito esta palavra). Felizmente, ainda podemos falar, e que melhor exemplo que as críticas que varrem as redes sociais. 

Porém, vivemos tempos negros. Em Espanha proibiram algumas pessoas de rumar a Madrid, em Portugal foi «afastado» um jovem que atirou uns insultos ao primeiro-ministro (imagino o que fariam aos 60 mil adeptos que atacam as mães dos Xistras e afins). Estes dois pequenos gestos não são pequenos. São gigantes. São perigosos. Muito.

A Europa atravessa um momento deveras delicado e, infelizmente, é liderada por uns experts do excel incompetentes e teóricos. Um terror. Pois esses labregos da matemática e da alta finança (isso existe mesmo?) perceberam há muito que isto está a dar buraco. Que as suas projecções e quadros teóricos estão errados e não são aplicáveis à actualidade. Porque os tempos são outros e a economia já não tem as mesmas variáveis do início do século XX. Eles (os maus, sim, isso existe mesmo) perceberam que fizeram tudo ao contrário mas não vão desistir. Não vão abandonar o barco sem responder com força física (e armada) à luta pelos direitos dos trabalhadores, dos desempregados, dos reformados e de todos os sonhadores (porque o futuro para muitos é apenas uma miragem inalcançável).
Eles não vão desistir sem luta e tenho a certeza de que o sr. Franco e o sr. Salazar teriam o maior orgulho nas pessoas que hoje comandam os seus países. E isso é negro.

A Casa de Mateus usa escritores para homenagear governantes?

Maria Teresa Horta recebeu o prémio D. Dinis, da Fundação Casa de Mateus, por ter escrito "As luzes de Leonor". Vou repetir: uma escritora foi premiada por uma obra que ela, e não outra pessoa, escreveu. E esse prémio foi dado pela Casa de Mateus, não foi dado pelo Estado. Decidiu a Fundação convidar o primeiro-ministro, com as fortes ligações que se lhe conhecem à cultura e à literatura, para entregar o prémio.

Maria Teresa Horta aceitou o prémio. Maria Teresa Horta não aceitou o que lhe parecia intolerável: cumprimentar Passos Coelho. Porque o prémio não foi dado pelo Estado e Passos Coelho nada teve a ver com a obra, a sua atitude é coerente. Para recebermos um prémio não temos de branquear aqueles que, com todo o direito, consideramos coveiros do nosso País e da sua cultura. Como Maria Teresa Horta nada tem contra o prémio ou contra a Fundação, não tinha de recusar nada. Como Maria Teresa Horta tem tudo contra este governo, recusou ver Pedro Passos Coelho associado ao seu nome e à sua obra. Fez bem.

Afinal, a cerimónia de entrega do prémio da Casa de Mateus era condicional: para ser homenageada pelo seu trabalho a escritora estava obrigada a aparecer ao lado do primeiro-ministro. O cheque seguiu por correio e a cerimónia foi cancelada. Segundo o presidente da Fundação, a Casa de Mateus não iria ficar à espera que houvesse outro primeiro-ministro para fazer a cerimónia. Ficar à espera? Mas homenageada era a Maria Teresa Horta ou a Pedro Passos Coelho?

Houve quem achasse que para ser coerente a escritora teria de recusar o dinheiro. Pois a mim parece-me que Maria Teresa Horta não podia ter sido mais coerente: aceitou um prémio atribuído por um júri constituído pelos seus pares. Recusou pousar ao lado de quem nada tem a ver com o assunto e que só se lembra da cultura quando isso lhe dá uma"photo opportunity".

Já a Casa de Mateus enviou uma mensagem aos próximos premiados: as suas homenagens vêm na condição dos escritores aceitarem branquear um governo que desprezem. A Fundação considera-se sobre tutela do governo e considera que os premiados também o têm de estar. Sendo assim, espero que nenhum escritor ou crítico sério volte a aceitar participar nos seus júris. Que a fundação convide Miguel Relvas e Vítor Gaspar e o secretário de Estado da tutela.

Há muitos anos recebi um prémio. Foi-me dado pelo então Presidente da República, Jorge Sampaio. Aceitei-o, com orgulho, das mão de alguém que, não sendo da minha cor política, eu respeitava como estadista. Se fosse Cavaco Silva a entregar o prémio não teria lá posto os pés. Porque um prémio não serve para comprar o estômago de ninguém. Se a Fundação Casa de Mateus não o compreende, e insulta o premiado para não contrariar um governante, mais valia que não desse prémios a ninguém. Quem não compreende que a escrita é um ato de liberdade não está habilitado para dar prémios literários a escritores.
Daniel Oliveira in Arrastão

quarta-feira, setembro 26, 2012

às cinco da tarde, como no antigamente

são quase cinco. ligo o rádio velho do avô. a tarde está quente e o capilé está no frigorifico desde o almoço. deve estar bem fresco. devia ir buscá-lo mas tenho medo de perder o 11 inicial. o meu 11. o 11 do vizinho da frente. o 11 de quase todo o bairro. o meu avô sempre me disse que era um bairro de um clube só. eu sabia que não era bem assim, mas sabia também que a nossa segunda sede fora ali e era natural que tantos gritassem em  uníssono.
são quase cinco. procuro afinar melhor a transmissão. há sempre alguns ruídos inconvenientes e não posso perder nada. por uma questão de respeito ao clube foi sempre assim, cá em casa. penso na minha primeira recordação: o avô a ajustar o rádio e o 11 a sair da telefonia bem devagar. era pequeno. eu era tão pequeno que vejo apenas uma imagem bem distante e enfabulada. lembro-me da voz rouca do senhor alves da rádio dizendo os nomes e o meu avô a lançar os seus cognomes. é tão forte e intensa essa imagem que até creio que os jogadores estavam sentados ao meu lado. eu, o meu avô, o 11, o resto do plantel e todo um mundo de adeptos.
são quase cinco. tenho alguma sede. devia ter ido buscar capilé. agora já não dá. e o 11? surpresas? ou nem por isso? e o meu avô? o avô deveria estar aqui ao meu lado. preciso dele, mais do que um capilé fresco. preciso do meu avô. preciso mesmo. talvez ele me fizesse acreditar que este clube que jogará às cinco ainda é o nosso. talvez ele me mostre que o nosso clube tem uma história e não é apenas mais uma empresa-vendida-ao-marketing-e-aos-interesses-de-um-futuro-que-é-de-outros-e-não-dos-adeptos.
são quase cinco. hoje a bola vai rodar debaixo do sol. é dia. ainda é dia. é uma tarde quente, como antigamente. gosto disso. do sol a queimar o mais belo estádio do mundo e todo um mundo a ouvir o relato na telefonia dos seus avós. gosto de futebol, amo a bola e o meu benfica. assim, como no antigamente. tudo simples e puro.

lá fora

do outro lado da janela cai a chuva. já é muita. eu não gosto disso. confesso que já não me lembrava deste cheiro da terra molhada. da visão dos vidros empoeirados. do barulho dos passos de miúdos atrasados para um novo primeiro dia.
lá fora continua a chuva. não fico triste. não fico contente. não fico indiferente. é uma ausência de sentimentos quase tão grande como a data da última chuvada. ainda te lembras? era uma semana de calor imenso. já vestias aqueles curtos vestidos coloridos e eu sorria. era primaverilmente feliz. um ingénuo, diziam-me. o teu alegre balançar pela manhã enchia-me a casa e tenho a vaga recordação de jogar à bola com os petizes que faziam vida de futuro jogador logo à minha porta.
eram outros tempos, os que se viviam lá fora. e até chovia. é por isso que te asseguro que a culpa não é da chuva. a culpa tem um nome e responde por saudade de nós.

sexta-feira, setembro 21, 2012

«O Arquipélago da Insónia» e «Livro» na longlist do Prix Femina 2012


No início da semana tivemos o anúncio da primeira seleção de autores para o prémio literário Médicis Étranger 2012 (link), e esta contava com dois portugueses: António Lobo Antunes com O Arquipélago da Insónia e Gonçalo M. Tavares com Uma Viagem à India.

Ontem foi divulgada em França (link) a longlist do Prémio Femina e destaca-se, uma vez mais, a presença de dois autores portugueses nessa lista: o repetente António Lobo Antunes, com o livro acima indicado, e José Luis Peixoto, outro dos afamados vencedores do prémio Saramago, com Livro.

Uma excelente notícia a prendar o dia em que arranca o mais recente festival dedicado à língua portuguesa (link).

"Se os sapatos te magoam, tens de substituí-los. Mas não podes mudar de pés!"


 © Rua de Baixo

2006. 2008. 2010. 2012.
Lisboa. Paris. Istambul. Lisboa. 
Á espera de Godot  no Meridional. (link) Errar no 20ème arrondisement.(link) Passar pelas paisagens áridas da Turquia.(link) Viver  Lisboa. E perder as palavras.
Assim se faz um circulo que, na realidade, é uma linha contínua.
O Sr. Ibrahim e as flores do Corão é a peça. É o exagero. O auge. E de uma forma brutalmente simples. Cenário despojado, palavras certeiras. É um hino à amizade, lê-se algures. É mais do que isso, é um monólogo a mil vozes e experiências. O diálogo das nossas vidas.
Saí como poucas vezes me senti. Sem palavras. Verdadeiramente «nem vale a pena dizer mais nada». E depois, sem aviso, começaram a brotar palavras, recordações, emoções. 

Vi pela primeira vez Á Espera de Godot  neste mesmo teatro. Saí igualmente arrebatado.
Rasguei as ruas de Paris tardes a fio. Espreitei os árabes - aqueles que estão abertos das 8h até às tantas -, e conheci o 19ème e 20ème arrondisements. Apaixonei-me por esses diferentes mundos bem no centro do mundo. Li La vie devant soi  - e que semelhanças- em cafés dessa zona. Bem em frente às mercearias dos senhores Ibrahim.
Conheci Ancara, Istambul e a viagem que as une. Faltou-me o carro novo e um ancião ao meu lado.
E Lisboa. Sempre Lisboa. Uma cidade minha, que é cada vez mais toda de todos.

Perco-me nas palavras. Nas ideias. Queria que tudo fosse simples. Reduzido ao essencial, tal como nesta peça. Sem extras, como no carro do senhor Ibrahim. Só uma música minimal, uma luz singela, e as palavras. Que palavras. Obrigado, Eric-Emmanuel Schmitt. Obrigado, Rui Rebelo. E obrigado Miguel Seabra. Obrigado Meridional.  Obrigado!

quarta-feira, setembro 19, 2012

correr riscos...

© Le Monde

o Humor

«Esta foi a forma escolhida pela revista para dedicar a mais recente edição às manifestações que agitam o mundo muçulmano por causa de um filme, produzido nos Estados Unidos, que ridiculariza o profeta Maomé. O site da revista está inacessível. Há milhares de comentários na página da revista no Facebook, e também se pode ver uma cópia da primeira página com a caricatura de Maomé, mas não há informação sobre o que terá acontecido ao site.»

Há quase 5 anos vivia em Paris e a polémica do momento era a questão do véu (link). 
Releio essas palavras e noto que alguma coisa mudou na minha percepção dos acontecimentos e, sobretudo, dessa intrincada relação entre liberdade (individual) e responsabilidade (estatal). Continuo a achar que uma mulher tem tanto direito a usar véu (julgam-me por isso...) como a usar um crucifixo. O essencial será sempre que a escolha seja mesmo dela, e não do pai, irmão, marido, grupo social/religioso pertencente (será possivel não ser influenciado pela pressão de grupo em relação a hábitos e símbolos?)
No caso das representações de Deus, de um profeta ou nos ataques mais ou menos violentos às representações e crenças religiosas, o problema parece-me bem mais complexo. Mais do que o individual conta o colectivo. Mais do que o colectivo interessa e convém proteger a laicidade e/ou religiosidade de cada um. Uma das obrigações do Estado, certo?  Infelizmente, continuo com demasiadas dúvidas em relação a tudo isto. Talvez o receio das reacções não racionais e muito violentas que se espalham por todo o mundo me prejudique a capacidade de julgamento. Talvez seja só isso. Talvez...
Sei apenas uma coisa: Não acredito em Deus, nem em religião, ou mesmo na necessidade de Igrejas (locais de culto), mas claro que aceito que cada um acredite e defenda essas crenças. É isso a Liberdade no seu expoente. Por isso mesmo, custa muito que alguém não deixe o Outro expressar-se numa das mais importantes formas de liberdade: o Humor.

terça-feira, setembro 18, 2012

Nível!

 © Enric Vives-Rubio

A escritora Maria Teresa Horta, distinguida com o Prémio D. Dinis pelo romance “As Luzes de Leonor”, disse esta terça-feira à Lusa que não o aceita receber das mãos do primeiro-ministro, conforme o previsto. 

nota: Que nível! Ontem como hoje. Que nível!

a Taça dos Campeões Europeus voltou


© Zoran Lucić

segunda-feira, setembro 17, 2012

Eu obrigo, tu obrigas,..., eles obrigam. Não, obrigado!

O PSD está a preparar uma proposta de modo a obrigar as empresas a reinvestirem o montante que irão poupar com a diminuição de 23,75% para 18% da sua contribuição para a Segurança Social. As empresas poderão mesmo ser proibidas de distribuir lucros pelos seus accionistas. 

nota: Obrigar? Mas obrigar não é uma acção um pouco forte? Obrigar? Mas obrigar não é pouco liberal? Obrigar? Mas... não Obrigado.
Qual o sentido de equacionar (e mal) uma proposta e depois a contragosto tentar mudar tudo? Tudo não. Tentar compensar o erro, sem o assumir. Ridículo! Recuem na questão do TSU e protejam os trabalhadores e as empresas mais frágeis, por exemplo, taxando os lucros.

sábado, setembro 15, 2012

15.09


não é o cartaz que é retro, anacrónico é ficar em casa com medo de mudar alguma coisa.

quinta-feira, setembro 13, 2012

O dia do fim?

O Grito do Ipiranga – Pedro Américo (óleo sobre tela, 1888).
 
Um governo só acaba quando uma alternativa nasce. Não uma alternativa teórica, que acontece depois de um milagre, mas uma maneira muito concreta de ir do ponto A para o B. E isso a oposição portuguesa não tem, e não quis ter até hoje. 

Não foi a primeira vez que um dia 7 de setembro foi uma grande derrota para um governo português. Em 1822, nas margens plácidas do Ipiranga, o rei de Portugal perdeu o Brasil. Cento e noventa anos depois, a oposição portuguesa quer pensar que este foi o dia em que Pedro Passos Coelho, ao anunciar o mais escandaloso roubo ao cidadão comum, perdeu o poder.
Mais devagar. Claro que há algumas semelhanças: aquele texto no facebook com que Pedro Passos Coelho tentou esconder o cargo de primeiro-ministro atrás do seu coração de pai foi um bocadinho como a carta de perdão que, segundo reza a história, foi enviada de Lisboa para os conjurados brasileiros e o seu líder Tiradentes. Só piorou as coisas. Em vez de deixar Tiradentes viver, a pena foi meramente comutada de “morte cruel” para “enforcamento”. Morreu um homem, nasceu um mito, e os portugueses estavam lixados. Ainda estão.
O problema aqui é que o fim de um governo não é uma coisa que caia do céu. Um governo só acaba quando uma alternativa nasce. Não uma alternativa teórica, que acontece depois de um milagre, mas uma maneira muito concreta de ir do ponto A para o B. E isso a oposição portuguesa não tem, e não quis ter até hoje. Sim, já sei! Quando esta crónica for publicada, receberei mensagens e terei comentários que me dirão o contrário: o partido X, o partido Y e o partido Z têm tudo escrito em três papéis diferentes. Bastará que os partidos dos outros se submetam ao papel do meu partido (perdão: a expressão consagrada por quarenta anos de tricas é “que cheguem a uma plataforma mínima de entendimento”) para que venha a nós o reino dos céus. Até lá, podemos continuar a fazer tudo como sempre fizemos.
E porque não? Simplesmente porque estes não são tempos comuns. Nunca, em tempos de democracia, foram tão roubados, prejudicados e deixados em risco os portugueses comuns. E desde sempre, em tempos de democracia, se habituaram os portugueses a contar com a politicazinha feita da mesma maneira: morra o mundo, venha a troika e as pragas do inferno, que nem assim se entende a esquerda portuguesa. Como tal, aquilo que em geral se interpreta como a paciência do cidadão português é simplesmente o seu desânimo.
Uma alternativa pode ser um extenso papel, com centenas de medidas, pessoal e intransmissível. Um caminho para uma alternativa é uma coisa muito mais simples.
Em primeiro lugar, os partidos de oposição devem declarar-se preparados para substituir o governo. Ou seja: devem assumir em público que para eles é mais importante disponibilizarem-se agora para o país do que saber se vão exercer o poder sozinhos ou juntos, em posição dominante ou não.
Em segundo lugar, os partidos da oposição devem concordar em encontrar-se e falar, sem precondições. Dizer que o outro partido precisa de renegar a mãe para atingir “a plataforma mínima de entendimento” ainda se pode entender em caso de formação de governo. Mas para falar?
Em terceiro lugar, os partidos da oposição devem construir a alternativa em público e, acima de tudo, com o público. Devem aceitar integrar-se numa sociedade mobilizada de que eles já não são a vanguarda. Sábado há manifestações em várias cidades do país (eu estarei em Braga). Dentro em pouco haverá o Congresso Democrático das Alternativas; há outros novos movimentos e iniciativas. Venham, não tenham medo de concordar.
O mais importante numa alternativa não é saber que ela existe mas é inalcançável; é participar nela e torná-la real. Quando virem um caminho aberto, os portugueses recuperarão a esperança. Caso contrário, o passado sete de setembro terá sido apenas o dia da corda na garganta — e não o do grito do Ipiranga.


nota: A raiva está por todo o lado: aqui, aqui, aqui e em mil sítios mais. As manifestações de sábado são o princípio do fim? Creio que não. Já escrevi aqui que não. Mas algo está a mudar. E textos como o de Rui Tavares são tão fortes, violentos e brutais como aqueles que se enchem de asneiras. Porque está cheio de liberdade. Porque exige opções. Porque pergunta por soluções. O dia do fim (deles) pode estar a chegar mas só depende de nós lutar para ter o dia seguinte.

Quando o navio começa a ir ao fundo

A esta altura do campeonato, não restam muitas dúvidas sobre o significado político de Pedro Passos Coelho. A mensagem que nos dirigiu no Facebook, na qual veio queixar-se das suas próprias acções, deixou-me nas mãos apenas uma dúvida: Passos Coelho é o cúmulo da inutilidade ou é o expoente máximo do cinismo? Por generosidade, por algum excesso de condescendência, e também para manter a urbanidade necessária a que esta crónica chegue a conhecer a luz do dia, proponho que aceitemos o seguinte: a mensagem que Passos Coelho nos dirigiu foi sincera. Admiti-lo tem duas vantagens. A primeira é que descobrimos o próprio Passos Coelho consumido pela sua mais conhecida tirada de psicologia étnica: afinal, quando julgou os portugueses piegas, era ao espelho que se via. Admiti-lo tem, em segundo lugar, o conveniente de podermos tomar a mensagem como uma declaração de morte política, neste caso peculiarmente declarada pelo próprio cadáver. É que, se Passos Coelho nos diz que o que está a fazer é contra aquilo que ele próprio quer fazer, resta-nos concluir o seguinte: estando nós a ser governados em modo de piloto automático, nada perderemos se nos livrarmos do fardo que é remarmos para um homem do leme que só pode o que não quer.

Devo dizer, entretanto, que a queda abrupta de um homem não é coisa que, por si só, me agrade. Em primeiro lugar, porque a queda de Passos Coelho, em si mesmo, nada resolve. Pode ser celebrada, pode ser festejada, é um ponto de partida indispensável, mas por si só nada resolve, tal como, por si só, nada resolveu a queda de José Sócrates. O que é importante, sim, é lutarmos por uma democracia política económica. E se isso passa por derrubar quem dá o nome e a cara a esta engrenagem, passa também por um exercício crítico muitas vezes minucioso. Dou-vos o exemplo de um texto da imprensa de ontem, no qual, falando--se das eleições holandesas com a naturalidade que o consenso político-ideológico reinante no espaço publicado permite, se escrevia: “Nem só de temas pesados como a economia ou a Europa vivem as eleições holandesas. Há propostas mais ou menos originais, desde acabar com a propriedade privada de terrenos (…)”. Peço desculpa, mas discutir os limites à propriedade privada é assunto de economia. Se me disserem que não é tema para ser debatido numa revista de otorrinolaringologistas ou nas eleições para o comité técnico da Federação Portuguesa de Hóquei em Patins, aceito; agora, que é questão de economia, é.

Em segundo lugar, o espectáculo da queda de Passos Coelho é desagradável porque o estardalhaço que o processo ameaça espoletar poderá ser particularmente útil à fuga às responsabilidades de todos os que nos convenceram a entrar nesta aventura austeritária. Não me preocupam tanto, confesso, os casos de fuga mais espalhafatosos, como o de António Nogueira Leite, figura de alta tecnocracia, vice-presidente da Caixa Geral de Depósitos, secretário de Estado de um governo PS nos anos de 1990 e actualmente membro do Conselho Nacional do PSD, que disse, há um ou dois dias, num momento indubitavelmente cristalino, que não tardava muito e se pirava daqui para fora. Estampou-se, espero. Preocupa-me, sim, o caso mais subtil de Paulo Portas. Por simpatia, os jornalistas e os comentadores tendem a chamar habilidade, capacidade táctica, maquiavelismo (pobre Maquiavel…) à capacidade de sobrevivência de Portas, mas pergunto se não é tempo de os jornalistas, e todos nós, começarmos a perceber que, se queremos olhar a “situação” de frente, não é Passos Coelho que deve despertar todas as fúrias. Há pessoas na vida política portuguesa que passam por todas as guerras e delas nunca saem feridas. São as primeiras que devemos atirar aos tubarões. No dia 15 de Setembro sairei à rua contra a troika, contra o governo do PSD, mas também contra o governo do CDS-PP.

José Neves in jornal i

Anatomia de um assalto (IV): as responsabilidades da oposição

Nunca foi tão evidente o divórcio entre um governo e o País. Nunca foi tão clara a indignação das pessoas. E a conversa do "inevitável" já não paga dívidas. Depois daquebra do produto em 3,3% no ano de vigência do memorando, de 416 novos desempregados por dia e de uma brutal quebra nos rendimentos do trabalho, o governo falhou no défice - em vez de 4,5%, 6,9% - e na dívida pública - entre o primeiro trimestre de 2010 e o mesmo trimestre de 2011 aumentou 20.7 mil milhões de euro; da assinatura do memorando até hoje aumentou 26.6 mil milhões de euros.

Sim, quando a troika chegou estávamos numa aflição. O PIB caia 0,7%. A dívida pública correspondia a 97% do PIB. O PIB agora cai 1,6%. E a dívida pública está nos 116% do PIB. Só o empréstimo e os juros agiotas que impedem que se possa chamar a isto uma ajuda levarão mais de 70% do que produzimos este ano.Não havia dinheiro, agora há ainda menos. Estávamos pobres, agora estamos miseráveis. Estávamos endividados, agora estamos mais.

Com as medidas anunciadas por Vítor Gaspar e Passos Coelho, assistimos à maior transferência de rendimentos do trabalho para o capital de que há memóriana história portuguesa. Escrevi ontem que o governo tem uma estratégia. E que essa estratégia passa pelo empobrecimento do País (o próprio primeiro-ministro o afirmou), na esperança de, com uma violenta redução dos custos do trabalho, garantir um crescimento típico de uma economia terceiro-mundista: não acrescenta valor e não distribui riqueza. Mesmo que resultasse, e não resultará, esse crescimento passaria ao lado da esmagadora maioria dos portugueses. Tão ao lado como a crise passa de uma pequena minoria.

Perante o mais radical dos governos eleitos que este país já conheceu, perante uma subversão democrática que passa pela aplicação de medidas que são em tudo contrárias ao que foi prometido em campanha eleitoral, perante o pornográfico assalto aos rendimentos dos que vivem apenas do seu trabalho, perante a falência de todos os objectivos definidos por quem nos pediu sacrifícios e, muito mais importante, perante uma política de terra queimada que deixará uma marca de destruição durante décadas, vivemos um momento de emergência nacional.

Não basta os partidos da oposição concordarem com este diagnóstico. Têm de ser consequentes. Não é apenas ao governo que se têm de exigir responsabilidades. É a todos. Quem contesta este caminho tem de apresentar alternativas - há quem esteja a dedicar as suas energias a essa tarefa difícil, mas deixarei isso para amanhã - e saber como as pretende aplicar.

É apenas isto que falta para correr com esta gente: uma alternativa credível. Olha-se para os partidos da oposição e fica-se com a sensação de que, no meio da tragédia, continuam a sua vida como antes. A direção do PS parece estar convencida que pode, como de costume, ficar, com um ar muito responsável, à espera que o poder lhe caia nas mãos de podre. Perante a selvajaria apresentada no último fim-de-semana, Seguro exalta-se e... pede uma audiência com o Presidente da República. Nem é capaz de dizer o óbvio: que este orçamento terá de contar com o seu voto negativo. Parece haver, da parte do secretário-geral do PS, uma enorme dificuldade em perceber a diferença entre "responsabilidade" e "passividade". Só que a estratégia habitual, a do paciente candidato a primeiro-ministro que espera que o seu antecessor se estatele sem nada fazer, já não resulta. Para governar um País é preciso que ainda haja um país governável.

O PCP mantém-se na sua fortaleza, seguro da sua razão e sem contactos que o possam contaminar com a impureza alheia. O Bloco de Esquerda faz experiências, divide o seu pequeno poder por pequenos poderes internos, desbarata a sua credibilidade, que já foi tão abalada nos dois últimos anos, e sonha com transposições automáticas de uma realidade (a grega) que tão pouco tem a ver, na sua história e cultura política, com a nossa.

Sou, por natureza, optimista. Se não o fosse, há muito tinha deixado de me ocupar do debate político. Tinha ficado na plateia a comentar, sem correr o risco de me comprometer com causas, ideias, partidos. E a minha esperança reside no sobressalto cívico que esta crise começa provocar. E que esse sobressalto se transforme numa exigência. Não ao governo, que há muito se percebeu ser incapaz de ouvir o País. Mas a quem se apresente como alternativa.

Não há que temer as acusações sectárias do costume. Não há que temer as mútuas recriminações e lições de história, em que as responsabilidades do passado, que são tantas, servem apenas para nada mudar. Os tempos não estão para esses medos.Vivemos, vivemos mesmo, uma emergência nacional. Não há tempo para rodriguinhos e conversas a pensar nas susceptibilidades de cada capelinha. É como cidadão que quero correr com esta gente do governo. É como cidadão que preciso que uma alternativa possível se construa. Não dá para esperar mais uma décadas.

Que não se iludam os partidos da oposição. Se julgam que vão apanhar os cacos do desespero das pessoas, enganam-se. Se julgam que a contestação e o desespero acabará ordeiramente numa alternância ou num protesto que teme a vitória, não perceberam nada do que se está a passar neste País. As pessoas estão indignadas. Mas a sua indignação não atinge apenas o governo. Atinge todos os partidos e todos os "políticos". Pode ser injusto, mas em momentos como este paga quem falha por ação e por omissão. Ou os partidos da oposição conseguem dar uma resposta a isto, fazem um esforço para perceberem onde se entendem - com a humildade de reconhecer os seus erros e a coragem de serem claros em relação ao carácter antidemocrático deste memorando e à forma de o ultrapassar -, ou as pessoas não acreditam neles. E desistem. Emigram. Abstêm-se. Amedrontam-se.Para correr com esta gente é preciso perceber que há outra gente. Num país tomado pela desilusão, não é fácil. Mas esta dificuldade é a única coisa que nos sobra.

Porque um País não se faz apenas de partidos e de políticos, amanhã trato do resto. De nós todos. Porque um cidadão não é um cliente. Nem tem sempre razão, nem tem de comer e calar.

Publicado no Expresso Online. Este é o quarto de cinco textos sobre o tema. Amanhã: as responsabilidades dos cidadãos.

terça-feira, setembro 11, 2012

Aqui que ninguém nos ouve

Acabei de ouvir Miguel Relvas dizer, com o seu já habitual ar de sabujo, que o apoio aos mais desfavorecidos é uma preocupação permanente deste Governo. Perante a impossibilidade de ser ouvido por esta gente, perante esta espécie de surdez desprovida de qualquer noção de civilidade no serviço prestado ao país, vou escrever como se eles não nos estivessem a ouvir.

Que país é este que aceita que um bando de filhos da puta confisque impunemente o resultado do trabalho de milhões de pessoas? Quão insensível é preciso um bando de filhos da puta ser para anunciar ao país uma redução do salário mínimo? Eu sei que muita gente sente já ter assistido a isto antes, mas este não é um bando de filhos da puta qualquer. É uma espécie refinada de filho da puta, tão perigosa pela sua ignorância quanto pela capacidade inesgotável de mandar um país inteiro para o caralho que o foda. Bem sei que é um bando de filhos da puta com maioria absoluta. Infelizmente, demasiados eleitores desconheciam, à data das eleições, que estavam a mandatar um bando de filhos da puta com tão especial vocação para foder o mexilhão. Quiseram acreditar que este não era um bando de filhos da puta. Infelizmente, jamais imaginaram que este viesse a tornar-se o maior bando de filhos da puta que o país já viu no poder, e a mais séria ameaça ao modo de vida de todos os que diplomaticamente têm aceitado a pior forma de governo, salvo todas as outras.

Está ali um bandalho dum funcionário descansado na televisão a dizer-me que as empresas são locais de cooperação entre patrões, empregados e a cona da mãe dele. Amigo: locais de cooperação o caralho que ta foda. Este pulha dum cabrão, que nunca trabalhou numa puta duma empresa na vida, assim como a maioria destes inefáveis cabrões, que eu podia alegar não terem outro nome, não fosse o facto de já os ter apresentado como filhos da puta, mas dizia eu, este filho da puta, bandalho e pulha dum cabrão, sobejamente merecedor de todos os insultos que me forem ocorrendo, diz-me que a empresa é um local de cooperação. As empresas, cabrão desumano, são locais onde as pessoas convivem de forma mais ou menos saudável com um modo de vida/ocupação de tempo que, de forma mais ou menos saudável, aceitam ao longo de parte das suas vidas. Então explica-me lá, ó javali cagado pela arca, em que é que uma empresa é um local de cooperação, e não uma desesperada forma de prisão, quando um bando de filhos da puta destrói qualquer possibilidade de as pessoas terem uma remota esperança de construir algo edificante a que possam chamar vida, esperar que esta subsista, se mantenha e evolua positivamente sem a ajuda, mas especialmente sem a constante sabotagem, de um bando de filhos da puta. Se o referido bando de filhos da puta nos estivesse a ouvir, ouvir-se-ia por esta altura um deles dizer, de forma inacreditavelmente ponderada, dotado da mais fina filha-da-putice - que este bando de filhos da puta confunde com elevação, humanidade, sentido de estado e afins – diria que eu, e vocês todos, passámos estes anos todos a viver acima das possibilidades.

Mas quais anos, meu filho da puta? E quais possibilidades? Trabalho que nem um cão há 6 anos, a tempo inteiro mais as horas todas que não me pagaram, e o número de reduções salariais que tive, imposta por este bando de filhos da puta, é já próximo do número de empregos que tive na minha ainda curta carreira. Comprei um carro em segunda mão, uma mota para poupar no que não podia gastar com o carro, e vou jantar fora e ao cinema. Comprei uns discos, uns livros, fiz meia dúzia de viagens baratas, comprei uns móveis do Ikea e, durante o processo, paguei uma renda e uma catrefada de impostos. Vá lá, tentei ser feliz sem pedir ajuda a ninguém nem ir preso. Aceitei o mais serenamente que pude as regras do jogo, isto é, trabalho, trabalho e trabalho para usufruir do resto e conservar, em doses iguais, a saúde mental e a ambição, a primeira das quais começa a desvanecer-se, como se lê. E, no final de uma semana de 60 horas de trabalho que aceitei de bom grado porque considerei justa e saudável a relação cooperação mantida com a minha entidade peregrina, ligo a rádio e é-me anunciada a ideia peregrina com que este bando de filhos da puta, sem critério nem humanidade, premeia um país inteiro, que na sua maioria vive em muito piores condições do que eu.

Reduzir o salário mínimo? Aumentar ainda mais a precariedade de quem trabalha a recibos verdes? Transferir uma soma obscena de dinheiro dos trabalhadores para as empresas num país com clivagens sociais e económicas absolutamente trágicas, numa esperança infundada de que isso promova emprego? Isto já não cabe na cabeça de ninguém, e há um bom motivo para existir hoje uma impensável maioria que vai de António Nogueira Leite a Bagão Félix, passando pelos 4 sem abrigo que contei de casa até ao trabalho, mais as lojas falidas. Não é simbolismo nem retórica nem injustiça poética: isto é a vida, conforme ditada por um bando de filhos da puta, a abater-se sobre um país inteiro, dia após dia, cêntimo após cêntimo, impossibilidade após impossibilidade. Haverá um pingo de decência nestas cabeças? Milhões de vozes manifestam em uníssono a vontade literal de esganar estes filhos da puta, ao mesmo tempo que consideram, infelizes, a hipótese de fugir do seu próprio país, e estes filhos da puta aparentam não sentir nada. Foda-se, reduzir o salário mínimo. Há gente que merece o pior de nós. E é assustador que aí se inclua o Governo do meu país.

Vasco Mendonça in Sinusite Crónica

segunda-feira, setembro 10, 2012

Saberão eles o que fazem?

1. Chegará a altura em que deixaremos de perguntar de quem é a culpa e quereremos ouvir apenas um pedido de desculpa. Um sinal de arrependimento, uma confissão de erro, uma liquidação da dívida moral do país sobre o seu povo. Talvez então recomecemos a acreditar. No que nos dizem. Neles. Nos tingidos pela incompetência. Nos ungidos de espírito de missão. Nos que falham.

O anúncio de medidas de austeridade feito pelo primeiro-ministro ao entardecer de sexta-feira, antes de um jogo de futebol, é uma tragédia. Não é o seu primeiro nem último acto, é a tragédia em curso. Tratá-lo com ligeireza, como o Governo fez, é transformá-lo numa comédia. Confessar que custa muito dar estas notícias, vitimizando-se, é transformá-la numa farsa. Infelizmente, o primeiro-ministro padece desse frequente exibicionismo da humildade, condói-se da sua missão. Mas o problema não é esse.

2. O Governo anunciou para 2013 o aumento da taxa social única (TSU) para os trabalhadores, descida da taxa para empresas, supressão de um subsídio para funcionários públicos. Todos fizeram contas: os trabalhadores privados perderiam 7% do salário, o equivalente a um ordenado anual; os funcionários públicos, de empresas públicas e pensionistas perderiam dois, o mesmo que em 2012. Foram contas rápidas. Rápidas de mais. Na verdade, perde-se mais do que isso, pois 7% sobre o salário bruto é mais do que isso no salário líquido. Mas quão mais? Não se sabe.

O primeiro alarme foi dado na própria sexta-feira pela "Rádio Renascença", que avisou que a perda seria superior a um salário. Na noite de sexta-feira, o Negócios contactou diversos membros do Governo para confirmar as contas. Em todos os membros do Governo fora das Finanças, encontrámos pasmo. Das Finanças ouvimos silêncio. O que persistiu durante sábado, apesar da nossa insistência. Mais: enviámos as nossas contas, simulações e tabelas ao Ministério das Finanças. Resposta? Nada. Silêncio. Ao fim da tarde, o Negócios libertou a notícia: com a informação revelada pelo primeiro-ministro, o sector privado vai afinal perder mais do que um salário líquido em 2013, podendo essa perda, se não houver mais medidas, chegar aos dois. As Finanças emitiram finalmente um comunicado, dizendo que a conclusão é especulativa, pois não é conhecida ainda "toda a informação". É inacreditável. Verdadeiramente inacreditável.

3. A verdade é que, como o Negócios e a Renascença noticiaram, os trabalhadores privados vão perder mais do que um salário em 2013. O "quão mais?" permanece sem resposta. Porque o Governo ainda não clarificou "toda a informação". Mas "toda a informação" não evitará esta conclusão, apenas a doseará. É inacreditável que, para uma medida tão grave, os leitores saibam mais pela edição de hoje do Negócios do que os contribuintes e pensionistas sabem pelas comunicações do Governo.

Este texto não é sobre uma notícia do Negócios, é sobre a insensibilidade inacreditável e lamentável de um Governo que atira uma bomba para cima dos portugueses e não presta "toda a informação". Neste momento, os portugueses não sabem ainda quanto vão perder em 2013. Isto revela mais do que amadorismo. Mais até que insensibilidade. Demonstra crueldade. A crueldade de um anúncio mais preocupado com a imagem do Governo do que com a vida dos portugueses.

Só há duas razões para o Governo continuar sem prestar esclarecimentos 48 horas depois do anúncio das medidas e 24 depois de o Negócios ter revelado que o impacto é, afinal, maior do que parece. Uma é ignorância, o Governo não se ter apercebido de que o impacto nos salários dos portugueses é maior do que parece. Essa hipótese é inacreditável. Literalmente: não é crível. Sobra a outra hipótese: o Governo ainda não sabe como vai explicar que, para esse aumento não ser maior do que parece, terão de ser accionados mecanismos (provavelmente através do IRS, tabelas de retenção na fonte e deduções) que no final mostrem que o aumento da carga fiscal será percentualmente maior nos salários mais baixos que nos salários mais altos.

4. O curso da revelação destas medidas mostra a hierarquia do poder em Portugal. É intencionalmente que o Negócios hoje considera que Angela Merkel é a pessoa mais poderosa na economia portuguesa - e que Vítor Gaspar (número dois) tem mais poder na economia que Passos Coelho (número três). Estas medidas de austeridade mostram-no: a troika quer, Gaspar sonha, a obra de Passos nasce. Um escreve o texto, o outro implementa, o último lê-o.

A execução orçamental está a derrapar assustadoramente desde Maio. Desde então, cada mês tem agravado o saldo, por causa das receitas do IVA e do aumento do desemprego (menos IRS, mais prestações sociais). O "caso" da privatização da RTP silenciou aliás a desgraça da última execução orçamental. Faltam três mil milhões de euros este ano; podem faltar até sete mil milhões para o ano. Por isso é que o Governo anda a enviar sinais de fumo à troika, fazendo de conta que não pede o que precisa: tolerância no défice.

Não foi anunciada nenhuma medida para compensar o desvio deste ano. Isso quererá dizer, provavelmente, que Portugal vai mesmo ter tolerância em 2012. O Governo dirá então que compensou ser bom aluno, o que é verdade; e nós diremos que as medidas do BCE de quinta-feira facilitam essa tolerância, o que também é verdade. E isso será bom para Portugal.

Falta 2013. O Governo aproveitou o álibi político do chumbo do Tribunal Constitucional ao corte de dois salários da função pública para a essa medida somar outras. Mas a solução é sempre a mesma: impostos, impostos, sempre mais impostos. Como o PSD bem perguntava antes de ser Governo: e o corte na despesa? Governar é mais do que aumentar impostos e ter "coragem" para anunciar a medida. Até uma criança saberia governar assim.

Nos últimos 12 meses, foram feitas em Portugal reformas como nunca se havia feito. A mais clara de todas é a da legislação laboral. O País ainda pode sair disto com sucesso, mas o Governo está a fracassar. E assim aumenta impostos.

5. Estas medidas não são apenas uma saída de emergência. Desta vez, o Governo aproveitou para fazer uma reforma estrutural: a subida permanente (repete-se: permanente) dos descontos para os trabalhadores, a descida para as empresas. Concretiza-se o desejo da descida abrupta da TSU. Financiada por quem trabalha. Com o pretexto de que vai aumentar o emprego.

Esta medida tem um impacto muito, mesmo muito positivo nas empresas. É uma redução pronunciada, o que melhora a sua competitividade e pode aliviar a pressão financeira na tesouraria e junto dos bancos a que devem. Mas fá-lo transferindo esse peso para os trabalhadores (e, não o sabemos ainda, provavelmente para os pensionistas). A redução salarial líquida acumulada pela austeridade é brutal. O crédito malparado que pode descer nas empresas vai certamente aumentar nos particulares. Além disto, esta medida beneficia todas as empresas, incluindo os famigerados sectores não transaccionáveis.

Depois da reforma da legislação laboral, temos pois a descida abrupta da TSU para as empresas. Nunca um Governo foi tão amigo das empresas. Num mundo perfeito, as empresas serão agora amigas dos trabalhadores. Porque se é verdade que as empresas exportadoras vão poder contratar mais gente, as empresas expostas ao mercado interno não precisam de aumentar capacidade instalada, porque a procura está em queda. Isso significa que não precisam de contratar mais pessoas. Vão apropriar-se do bónus do Governo.

A pressão social é mais do que um conceito abstracto. Se o Governo se mostra mais preocupado com as sociedades do que com a sociedade, e se as empresas não souberem ajudar depois de serem ajudadas, o resumo destas medidas de austeridade é só um: aumento de impostos, redução de salários.

Esta insensibilidade do Governo em relação a quem paga impostos é assustadora. Talvez seja tique da tecnocracia, o de medir o impacto das decisões ao equilíbrio entre as receitas que se ganham para o défice e a popularidade que se perde nas sondagens. O país já foi cozido e está agora a ser cosido - e nem nos dizem sequer quanto dinheiro nos vão tirar. Sim, eles sabem o que fazem. Só não sabem o que nos fazem. Mas querem que os adoremos.

Pedro Santos Guerreiro in Jornal de Negócios

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© Zoran Lucić

sábado, setembro 08, 2012

Ai, Portugal, Portugal

«Ai, Portugal, Portugal
Enquanto ficares à espera
Ninguém te pode ajudar»




7 de Setembro de 2012. Gostaria de pensar que este dia vai mudar a história de Portugal, mais especificamente, que pela primeira vez em muito tempo teremos um primado do social sobre a economia. Gostaria.
Mas tal como no passado, no famoso 12 de Março, nada mudará. Escrevi-o na altura (link) e, infelizmente, parece que acertei. Aquele momento não trouxe maior compreensão sobre o que se passava politica e economicamente em Portugal. Pelo contrário, milhões de pessoas optaram por personalizar a crise. Tal como aconteceu no passado com Pedro Santana Lopes. Tal como acontece quando ingenuamente se considera que o nazismo é Hitler e o fascismo Mussolini. Uma pessoa não faz a primavera.
E este é exactamente um dos aspectos que mais me indigna no actual cenário português, ver Passos Coelho ou Relvas como os culpados. Os únicos responsáveis. 
A crise vem de trás, tem razões que até podem ser explicadas por aspectos culturais, por deficiências recorrentes nos que são os investidores privados, pelo contexto internacional, pelos péssimos agentes políticos nacionais, pela incapacidade gritante de cada um de nós apresentar uma solução. Falamos demasiado nos cafés, nos blogs, no facebook, nos fóruns da TSF ou caixa de comentários do Record. E o que fazemos? Nada. Já que «é na mesa do café que toda a acção fica».
E a todo este cenário de marasmo, junta-se uma agenda. Sim, aquela palavra que se diz à estrangeira, para dar mais status e parecer que é coisa séria. E é. Muito séria. Não discuto a conceptualização de esquerda ou direita. Nem as soluções de Keynes ou Hayek. Esta agenda é muito mais prática do que isso. Não é uma agenda, é uma lista telefónica de amigalhaços. Uns porreirões é o que são. Os acordos deixaram de ser de cavalheiros mas de canalhas. Este é o primeiro grande problema: tudo é um potencial bom negócio para o amigo. Basta recuperar uma empresa estatal e depois vendê-la. Não tenham medo. Mesmo que corra mal haverá sempre uma rede de segurança. Assim fica fácil...
É sabido que se considera que o tempo em que vivemos é sempre o mais singular e único da História. É sempre assim. Tem sido sempre assim, ao longo da História. Eu gostaria de poder dizer que vivemos os piores tempos da História. Todavia, acho que não. Acredito sinceramente que até no século XX, descontando os óbvios períodos de guerra, houve crises e momentos de pobreza e incerteza maior. Se não é esse o problema, então porque sentimos esse aperto? A resposta é tão simples... Tivemos um projecto europeu com pernas para andar, em termos de avanços culturais e aceitação/conhecimento do próximo e do outro foram feitos avanços enormes; há um discurso universal sobre direitos humanos, sobre ecologia, sobre niveis de democratização. Tudo mudou. Tudo avançou. E agora tudo parece estar em causa. Por causa da economia. «É a economia estúpido», já se lia na tshirt do jovem revolucionário que varre Avante, Alive ou Festival de Sines, e, contudo, não é apenas a economia. É toda a forma como se pensou e definiu o sentimento de progresso.
As letras juntaram-se, as palavras acotovelaram-se, as frases encheram-me a cabeça, quase que me esqueci da razão porque precisei de escrever e com tudo isto o Passos Coelho parece ainda mais pequeno. Reles. Um zé-ninguém. Coitado, a culpa nem sequer é dele, só que a História avançará e preocupa-me mais o futuro. O meu e o nosso. Lembro-me da Grécia (link) e relembro a sensação de estarmos a passar uma fase com alguns dos mais incapazes políticos da história europeia, porém isso não é desculpa suficiente. Hoje somos muitos e, sobretudo, temos ferramentas que nunca tivemos. Não são precisas armas, nem mesmo pedras, basta fazer política. Bastará?

quinta-feira, setembro 06, 2012

Os copos alheios

Serve mais um! E ele serve. Já nem lhe agradecem. A noite vai alta e os copos alheios enchem-se de frustrações alcoolizadas. Ele sorri. Conhece a mulher abandonada, o velho traído e as rugas da avó dos netos distantes. Um dia voltarão,garante-lhe. Ele sabe que não. Ninguém quer voltar àquela terra. Já não há terras. Ardeu tudo. Já não há animais. Morreram todos. Já não há sonhos. Tiraram-lhes a televisão. Nos copos alheios vêem-se os reflexos de pessoas. Ele gostaria de ver a essência de cada um nesses copos mas há muito que a modernidade citadina deixou aquelas pobres criaturas a morrer. A surpresa virá no fim, com uma autópsia incompreensível para o médico novo, acabado de chegar da cidade, morreram sem um sinal de cirrose. Apenas uma intrigante ausência de afectos.