sexta-feira, março 30, 2012

do que fica destes dias

o que fica destes dias não é o teatro do passado. não são as televisões, jornais ou rádios que não falam do presente. o que fica destes dias não é a dúvida sobre o futuro da bola que roda e não entra. não são os sonhos futuros e objectivos por alcançar que parecem mais distantes. o que fica destes dias não é a enorme distância entre a cama matinal e a da noite já demasiado escura. não é nada disto. e é tudo. é um cansaço extremo de tudo isto. o que fica destes dias é um cansaço pessoano. que é tão meu, como teu. que é tão meu, como nosso.

quinta-feira, março 22, 2012

Portugal não é a Grécia

© Reuters

E não o é porque somos realmente diferentes. Esse é o facto, mas as razões são bem opostas às que o governo ou alguns opinadores profissionais procuram fazer crer . Temos traços culturais e problemas económicos estruturais dispares. Mesmo que no fim pareça tudo igual. Somos diferentes e não é para estarmos à tona mais alguns dias.

Portugal não é a Grécia. E eu não quero violência nas ruas. Quero recuperação económica, aposta e investimento na cultura e educação. Educação nas escolas e, sobretudo, cívica. Cultura nos teatros, nos cinemas, nas livrarias, no livre acesso à mesma. Quero uma cultura de paz e não de violência.

Portugal não é a Grécia. E, contudo, somos todos iguais. Tal como os alemães, franceses e outros. Esquece aquela conversa repetida ao expoente da loucura nos media, aquela que diz que eles não são europeus e não nos sentem como tal. Se os governos não fazem um povo, muito menos o faz alguma comunicação social.

Portugal não é a Grécia. Mas estamos todos no mesmo barco. O destino? Acabar com a fuga ao fisco, com a não tributação das mais valias e fuga de capitais. Com o desinvestimento na saúde, rumo aos Estados Unidos. Em Portugal, na Grécia, em todo o mundo. Porque só com a ajuda de todos pode haver uma real redistribuição da riqueza. Não será hoje, nem amanhã. Mas pode acontecer.

Portugal não é a Grécia. Porém, tenho uma certeza: hoje não fomos um país civilizado! Ninguém pode tolerar que um jornalista seja agredido pela policia. Nem que fosse como resposta a algo provocatório. Portugal merece mais e urgem respostas do governo. O que aconteceu hoje tem de ser punido e não falo da cabeça dos policias em causa. Falo da mesma lógica agressiva e violenta que esteve por detrás de confrontos com as forças de autoridade na primeira metade da década de 90. Não estamos a falar de acaso e coincidência mas de atitude e forma de lidar com as opiniões contrárias.

Portugal também é a Grécia.

domingo, março 18, 2012

E enquanto os brasileiros escrevem os portugueses contam tostões

1. Sento-me com uma amiga a almoçar em Lisboa e ela conta-me que está a viver com 300 euros por mês. Transfere-os todos os meses da conta-poupança para a conta-corrente. Isto é possível porque, aos 35 anos, continua em casa dos pais, no seu quarto de rapariga, onde agora tem o computador, primeira coisa que liga todas as manhãs. Vive com muito pouco e sente-se uma sortuda por ter bom ambiente familiar. Durante anos aguentou-se num emprego que detestava, largou-o finalmente para tentar escrever e traduzir. Da escrita ganha nada, a tradução varia entre sete e oito euros e meio por página. Um livro de tamanho médio, que lhe leva três meses de trabalho, representa mil e tal euros de remuneração. É assim que a literatura estrangeira está a ser traduzida em Portugal. À custa desta falta de alternativa.

2. Sento-me com outros amigos em Lisboa que escrevem, entre outras coisas, algumas penosas e mal pagas, algumas nunca pagas, milhares de euros ao ar. Não vem da crise, é uma exploração antiga: escrever não é trabalho e o tempo de quem escreve não é tempo. O tempo dos gestores é dinheiro, como o dos canalizadores, mas quem escreve não paga luz, não tem fome, não tem família, não precisa de seguro, de segurança social, nem, mais à frente, de pagar o funeral. Uma espécie de sobrehumano ao serviço da cultura. Portugal é assim um país de poetas ricos, escreveu Nuno Moura, poeta que podia dizer sobre isto o que nem imagino.
Em Portugal, poetas e prosadores são certamente tão ricos que não precisam de ser pagos quando vão daqui para ali, e fazem textos para colóquios, para revistas, para jornais, e são chamados para debates, para badanas, para prefácios — montras, em suma, em que se podem mostrar e de que portanto beneficiam. O que escrevem não tem preço e o tempo deles não se mede.
— Não há dinheiro que me pague — remata aquele meu amigo que nem quando cede ao sarcasmo deixa de ser o mais elegante.

3. Porque somos um país de poetas ricos e elegantes. Morremos à fome mas com elegância. Depois toda a gente lamenta e entretanto é de bom tom não falar naquele assunto a que João César Monteiro chamaria o dinheirinho.
Por pudor perdemos a vida. Não é digno, é só obsceno, gente que não sabe como viver amanhã, que todos os dias sabe o que perde, que não está a fazer o que tem para fazer aqui. E aqui é um lugar cada vez mais pequeno, onde os cidadãos elegem um governo e esse governo depois os manda emigrar, como se a sua única razão de ser não fosse servir os cidadãos.

4. Entre o fim dos anos 1990 e o começo de 2000, este país pareceu acreditar que talvez lhe coubesse fazer algo pela sua literatura. Quebrando o protocolo do pudor, o então instituto do livro ousou instaurar bolsas de criação literária. Portugal foi país-tema de grandes feiras internacionais em anos sucessivos: Frankfurt 97, Rio de Janeiro 99, Paris 2000. Pelo meio houve o Nobel para Saramago, 98. As traduções portuguesas explodiram — e é com o dinheiro das traduções, mais que dos direitos em Portugal, que os escritores conseguem, enfim, pensar nessa coisa extraordinária: viver da escrita. Muito do que agora está a ser colhido foi plantado então. Vejam os nomes de quem recebeu essas bolsas.

5. Para muitos escritores, uma bolsa paralisa, constrange, cada um saberá de si. Mas a possibilidade tem de existir para quem quiser recorrer a ela. Devia ser dever do estado, governo central e autarquias. Mais, num país como Portugal, que pouco melhor tem para oferecer que os seus criadores, devia ser uma estratégia.

6. Sento-me com outra amiga em Lisboa e ela conta-me que recusou idas e vindas e textos por não serem pagos, mas que isso não constituiu problema para quem a convidava, porque havia sempre gente para aceitar — como agora há cronistas a escrever de graça.
Eu vejo duas boas razões para escrever de graça. A primeira é quando alguém próximo nos pede. A segunda é quando reverte a favor de quem precisa. No primeiro caso trata-se de amizade, no segundo de voluntariado. O resto chama-se abuso.
O abuso não só perpetua o estado das coisas como o acentua. Cada vez que alguém acha natural não pagar a quem escreve está a dizer que a literatura é acessória, e a contribuir para que ela desapareça.

7. Em 2012, o Brasil está a viver plenamente o que Portugal julgou viver há 15 anos. Em 2013 será protagonista na feira de Frankfurt, a maior do mundo, prepara inúmeros programas paralelos e não é por acaso: nos últimos anos, os incentivos a quem escreve multiplicaram-se. Além do apoio às traduções, as embaixadas do Brasil pelo mundo convidam escritores brasileiros para encontros locais, de Washington a Istambul. Dentro do Brasil, governo federal, estados e municípios promovem bolsas, festivais, residências, edições ou turnés. As instituições habituaram-se a pagar pelo que pedem mesmo que se trate da divulgação do último livro do autor. Pagam o tempo que ele podia usar para escrever.
O resultado disto é que mais do que uma geração de escritores brasileiros emergiu, os mais velhos largando empregos, os mais novos não tendo que os arranjar. As compras governamentais às editoras, para alunos e professores, reforçam substancialmente muitos direitos de autor. E tudo o mais tende a ser pago: escrever uma badana, um prefácio, ir a um colóquio, a um festival.
Muita gente talentosa fica fora deste circuito e falta fazer quase tudo: ler no Brasil ainda é um luxo de poucos; fora best-sellers, as tiragens são baixas; as boas livrarias estão concentradas no eixo São Paulo-Rio. Mas, num momento em que tudo parece crescer no Brasil, há muitos estímulos públicos e privados para que a literatura também cresça.
A Petrobrás tem bolsas de criação literária anuais. Não sei de nada remotamente semelhante em Portugal. A PT criou um prémio literário enorme para autores lusófonos com obra publicada no Brasil. E quem não chega a publicar no Brasil? Bolsas e residências literárias regulares, conhecem?

8. A crise podia ser o começo e não a precipitação do fim. De um governo que acha natural despachar cidadãos para o estrangeiro não vejo o que se possa esperar. Mas talvez pudéssemos começar por perder o pudor, porque vergonha é que quem convida não fale em dinheiro, indigno é partir do princípio de que os escritores dão o seu trabalho, a única coisa pela qual podem ser pagos.

Alexandra Lucas Coelho in Pùblico, 18-3-2012

"bom de bola"

Lançamento. Hoje. 18h00. Fnac Colombo. Vai ser melhor do que ver a bola...

segunda-feira, março 12, 2012

Cine Qua Non #5

Lançamento da Cine Qua Non #5 {que fecha a chaveta desta 1ª colecção}, a realizar no dia 15 de Março (5ª feira), pelas 18h, na Livraria Pó dos Livros (Av. Marquês de Tomar, 89).

A nova luta de classes

Há dias, no programa Prós e Contras, um conselheiro de "empreendedorismo" teorizava, de forma prosélita e desenvolta, sobre as más escolhas de "projecto de vida" que justificariam muito do desemprego actual. Era evidente pela conversa, que achava que existia uma espécie de culpa individual em se estar desempregado. Pelo meio, perguntou, com evidente escárnio, a um desempregado se este tinha tirado um curso de História, uma imprevidência para quem quer ter um emprego. Não tenho dúvida de que quem formulava esta pergunta fazia parte de um dos lados do novo binómio da luta de classes descrito por Passos Coelho, o dos "descomplexados competitivos". O curso de História, se tivesse feito parte do currículo do desempregado, colocá-lo-ia de imediato na categoria de "preguiçoso autocentrado", antiquado e inútil, "piegas" e queixoso, a quem é preciso dar um abanão de pobreza a ver se se torna "competitivo". Estamos, como já referi, perante uma nova forma de luta de classes: a que opõe "descomplexados competitivos" a "preguiçosos autocentrados". Pelos vistos, uma característica destes últimos é que se interessam por História.

É verdade que saber História vale muito pouco no mercado de trabalho, mas também é verdade que saber Matemática pura, Física Teórica, Astronomia, Biologia Molecular, já para não falar de Filosofia, Sociologia, Geografia, Grego Clássico e Latim, Literatura Portuguesa, também não valem muito mais. E, by the way, os milhares de licenciados em Marketing, Economia, Jornalismo, ou como se diz agora "Ciências de Comunicação", Artes Performativas, Arquitectura, Composição, os pianistas, violoncelistas, violinistas, também não vão muito longe. Seguindo o critério do nosso mago do "empreendedorismo", não é muito difícil, e no meu caso gratuito, aconselhar cursos seguros e certos. Eu costumo aconselhar maltês, uma língua de que há enorme escassez de tradutores e intérpretes na UE, e o turco, russo, chinês e árabe também podem fazer parte do currículo dos candidatos a "descomplexados competitivos". Mandarim ou cantonês de certeza que têm futuro, assim como "beber a água do Bengo", na exacta composição químico-financeira corrente para esses lados.

Saber de História não é garantia de nada, nem o conhecimento da História garante que se saiba governar um país. Mas ajuda, ajuda pelo menos a ter-se uma visão menos cega da nossa missão no governo das coisas privadas e públicas, e a conhecer alguma coisa sobre os limites do voluntarismo político. E ajuda bastante a não se ser ignorante, nem a se actuar como um ignorante quando se pensa que tudo começa em nós, essa ilusão adâmica muito corrente nestes dias.

A História ajuda nas coisas grandes e nas pequenas, torna o mundo mais interessante e alimenta a curiosidade e o engenho. Para gostar de comer um croissant não é preciso olhar para ele com os olhos da História e perceber que se está a cometer um acto muito pouco politicamente correcto de turcofobia, ou, pior, de islamofobia. Mas quem sabe o que é e de onde vem o croissant, costuma saber um pouco mais sobre a História da Europa e isso faz bem à sanidade do debate público. Muita asneira que para aí circula sobre os feriados e o seu significado, sobre a Maçonaria, sobre o comunismo, sobre o fascismo, sobre a democracia, poderia ser evitada lendo um pouco mais sobre História.

A História, como todas as formas de cultura viva, é uma forma de saber e olhar. Engana e ilude muito, mas também modera a tendência para a vã glória. Se é que a História nos ensina alguma coisa, é que poucas coisas são realmente importantes e que 99,99% dos casos o que fazemos pouco muda, ou não muda nada. Para os governantes, é obrigatório, para se enxergarem melhor, uma actividade que normalmente não lhes "assiste". Países como o Reino Unido, ou os EUA, têm a História no centro da política, o que nem sempre dá bons resultados, como se vê em França, onde todos os Presidentes do passado achavam que eram uma encarnação de Vercingétorix, Joana d"Arc, Luís XIV, Napoleão ou De Gaulle e os actuais já ficam contentes em serem como o Astérix.

O discurso de Odivelas do primeiro-ministro ganhava alguma coisa com a História, embora, como ele se encontra na categoria dos "descomplexados competitivos", não ligue muito a uma disciplina dos perdedores. Mas assim saberia que, antes de nomear os "preguiçosos autocentrados" como seus adversários, deveria pensar duas vezes sobre o papel que o epíteto de "preguiçosos" tem quando é usado genericamente para designar grupos ou comportamentos sociais. Para os colonos, os "pretos" eram a quinta-essência dos "preguiçosos" e por isso deviam ser obrigados a trabalhar à força de castigos corporais. Puxem pela língua a muitos patrões e aos seus capatazes (hoje chamam-se "responsáveis pelo pessoal"), às "patroas" sobre as suas "criadas", e o epíteto de "preguiçoso" aparece quase de imediato. Em países em que coexistem zonas industrializadas com regiões rurais, os habitantes dessas regiões, o Alentejo, a Galiza, a Andaluzia, o Sul de Itália, são descritos em anedotas como "preguiçosos". Nos campos trabalha-se muito, dependendo do ciclo agrícola, e há períodos de inactividade, onde, como toda a gente sabe das anedotas, os alentejanos estão debaixo de um "chaparro" a ver o mundo passar em slow motion.

Existe, aliás, outra classificação que costuma vir junto, a de associar essa ruralidade à falta de inteligência e dificuldade em socializar de forma adequada, ou seja, não só eram estúpidos, limitados, como não sabiam comer à mesa. É para isso que servem os epítetos de "saloios" ou de "labregos", a interessante migração da palavra galega para camponês, que veio junto nos anos trinta e quarenta do século XX com os galegos, que a miséria da sua terra trouxe para trabalhar em mercearias e restaurantes, ou outros ofícios menores, em Lisboa e no Porto. O problema da História é este, o de tornar poucas palavras inocentes.

Na luta de classes entre os "descomplexados competitivos" e os "preguiçosos autocentrados", a ordem dos pares é interessante, quer na parte social, quer na do psicologismo vulgar. Os "preguiçosos" são primeiro preguiçosos e s?? depois são "autocentrados", e os "competitivos" são primeiro "descomplexados" e é por isso que são "competitivos". Os pares têm, por isso, uma ordem invertida: nos "preguiçosos", avulta a condição social, nos "descomplexados", a psicologia domina. Embora provavelmente nada disto tenha sido muito pensado e saiu assim, como poderia ter saído de outra maneira semelhante, este dualismo revela aquilo que os sociólogos chamam as background assumptions do seu autor. Os que estão presos na sua condição social, deixam soçobrar a sua psicologia no egoísmo; os dinâmicos psicologistas ultrapassam a sua condição social pelo êxito no mercado.

O país divide-se assim entre funcionários públicos, vivendo do erário público, acima das suas posses, e fazendo tudo para ter feriados e não trabalhar (os "preguiçosos"), cultivando um egoísmo social assente em pretensos "direitos adquiridos" ("autocentrados"); e jovens yuppies, dinâmicos e empreendedores, com uma "cultura empresarial", capazes de correrem riscos ("competitivos"), sem cuidarem de terem "direitos" para subirem "por mérito" na escala social ("descomplexados"). Nem uns nem outros existem na vida real, nem sequer como caricaturas, que é o que isto é, mas isso pouco importa.

A História está cheia destes dualismos, velhos como o tempo, mas típicos da linguagem abastardada do poder dos nossos dias. É um esquema assente numa mistura de demonização e de wishful thinking, que circula assente num moralismo social, também típico dos dias que passam. A História revela o poder destrutivo deste tipo de discursos, que se tornam, de um momento para o outro, socialmente insuportáveis.

Esse momento ainda não se deu, e os papagaios do "pensamento único" repetem este discurso sem pararem para pensar. Ou sequer para ler alguma coisa de História, mesmo com o risco de se tornarem "preguiçosos autocentrados".

Pacheco Pereira in Abrupto (Versão do Público de 10 de Fevereiro de 2012.)

Bluebird


via Blogtailors

sexta-feira, março 02, 2012

o retro está na moda

Hoje é dia de clássico! E há blogs especialmente pensados para o efeito como este. O look é retro, os conteúdos actuais, o jogo decide (muito d')o futuro da temporada. Venha a bola...

tic tac tic tac

O problema não é o despesismo do Estado

Vi, esta semana, um noticiário da televisão generalista. Notícias avulsas. Um carro do Instituto de Conservação da Natureza parado à porta de sede local enquanto a o Parque de Montesinho ardia e os bombeiros se espantavam pela ausência no terreno dos técnicos do ICN. Razão possível avançada pelo jornalista: poupança na gasolina. Milhares perdidos para poupar umas centenas. Alteração no funcionamento dos hospitais de Tomar e Torres Novas faz com que muitos pacientes fiquem a mais de cinquenta quilómetros de urgências diferenciadas. Risco de falta de medicamentos por não pagamento de dívida a uma empresa da indústria farmacêutica. Redução de despesas no transporte de doentes. Encerramento de dezenas de tribunais deixa ainda mais isolados concelhos do interior. Redução do montante do subsídio de desemprego e da duração da prestação só está à espera da luz verde do Presidente da República. O Instituto de Emprego e Formação Profissional vai passar responsabilidades, na colocação de desempregados, para empresas de trabalho temporário, os negreiros da modernidade.
É a imagem de um Estado em esvaziamento e de um País que, pouco a pouco, vai ficando paralisado, como se peças fundamentais para o funcionamento de uma máquina fossem faltando sem que ninguém as subsitua. É por necessidade, dirão muitos. O Estado andou a gastar o que não tinha, repetirão. Como na Grécia, concluirão.
Até à crise financeira global de 2008, Portugal tinha, em 2007, uma dívida pública inferior, em percentagem do PIB, à Alemanha e à zona euro: Portugal com 62,7%; Alemanha com 64,9%; zona euro com 66,2%. Foram os juros e a perda de receitas com a crise económica, e não um súbito despesismo público, que mudaram esta realidade.
Mas vamos aos números atuais de três países em dificuldade. A dívida pública grega corresponde a 42% do total da sua dívida. A metade restante divide-se pelos bancos (17%), empresas não financeiras (23%) e proprietários de casa (17%). Bem diferente da estrutura da dívida espanhola e portuguesa. A dívida pública corresponde a 13% do total da dívida espanhola e a 15% da portuguesa. A dos bancos corresponde a 39% e 30% da dívida espanhola e portuguesa, respetivamente. E as dívidas por compra de casa correspondem a 17% da dívida espanhola e a 23% da dívida portuguesa. Se olharmos apenas para a dívida externa o padrão repete-se. O Estado grego é responsável por 55% da dívida externa do país, o espanhol e o português por 17% e 26%, respectivamente. Mais um dado interessante: 48% da dívida externa portuguesa e espanhola e 41% da grega é a bancos alemães e franceses. Ou seja, são nossos credores, não são nossos amigos.
É com base nestes números, e não na repetição até à náusea de mitos urbanos sobre o despesismo do Estado, que deveríamos discutir a nossa situação e procurar soluções. É estranho que, perante estes factos, a grande prioridade do governo seja continuar a emagrecer o Estado. A nossa prioridade é o crescimento económico e a poupança privada. A outra é aumentar as exportações. Tudo para garantir liquidez na nossa economia. Por fim, garantir um mais eficaz mercado de arrendamento que obrigue menos gente a comprar casa. O governo fez a lei das rendas mas falta a parte do Estado, que tem de ser um agente ativo neste mercado.
O que estamos a fazer é cortar num dos fatores com menor responsabilidade na nossa dívida. O resultado, como se tem visto, é o oposto ao pretendido, porque as contas do Estado não são independentes da economia. E, com isso, estamos a criar condições para piorar a nossa saúde económica, impedindo o crescimento e a poupança e agravando todas as variáveis responsáveis pelo nosso endividamento externo.
Poderá dizer-se que nos sobra muito pouca margem de manobra perante as imposições externas e que sem uma solução em Berlim e em Bruxelas dificilmente poderemos ter uma política expansionista, que é aquilo que realmente precisamos. Não me parece que ser mais troikista que a troika corresponda a aceitar apenas uma limitação imposta por outros. Mas o que não vale mesmo a pena é continuar a insistir numa mentira sobre as origens das nossas dificuldades. Porque quando o fazem percebemos que o problema de quem nos governa não é a dificuldade em lidar com variantes que não controla. É mesmo um preconceito ideológico mais forte do que a clareza dos números.

Daniel Oliveira in Expresso

nota: Este artigo podia perfeitamente entrar na «série» Crise e Media, pois é um excelente exemplo de como os factos podem ser dados de forma tão diferentes. É sabido que a estatistica permite tais manipulações, mas também deve ser de conhecimento de todos que essa circunstância nunca é inocente.

quinta-feira, março 01, 2012

Space Oddity


David Bowie

fim de tarde

é um novo fim de tarde, este. é o regresso ritmado à noite que insiste em meter medo. chove. e se há meio mundo a festejar a vitória de um deus desconhecido, há outro que chora a terra que já não é seca. ninguém sabe o que ela sente realmente, talvez porque ninguém a conhece verdadeiramente. na sua mais pura essência.
ela desliga o telemóvel. apaga as luzes do escritório. ouve os passos dos colegas e uma ou outra conversa. já não gosta disto. quer a solidão.
sai. desce pelas escadas. entra no carro e foge. chove.
abre a porta de casa. apaga todos os eletrodomésticos, dos velhos comprados a prestações aos novos pagos a pronto.  chove. tem pena. sempre gostou de passar os dedos na terra africanamente seca. tem saudades dele. ele dava-lhe vida. ele era o amante perfeito da água que escorria no vidro. chove. ninguém esperava que agosto fosse assim. nem ela. este é um agosto que cheira demasiado ao regresso às aulas. e, contudo, chove.