quarta-feira, fevereiro 29, 2012

Os media e a crise

Ainda ontem falávamos no CES sobre os media e a forma como se discute (ou nem por isso) a crise. Há pouca, errada ou nenhuma informação. Incompetência dos jornalistas ou instrumentalização dos mesmos? Os interesses dos grupos económicos interferem explicitamente na acção dos jornalistas? Mil e uma questões, poucas respostas.

Aqui fica mais um exemplo:

O mistério dos salários encolhidos

Os augúrios começaram a soar com bastante antecedência. Paul Krugman passou por cá ontem para receber o doutoramento honoris causa, e os ventos de desgraça sopraram mais fortes. As posições de Krugman em relação à crise da dívida soberana são relativamente conhecidas num certo meio, mas o povo que sabe do mundo pelos telejornais não sabia o que este Prémio Nobel da Economia achava do que se passa em Portugal. Para mais, por ter passado por cá no período pós-evolucionário, teria mais autoridade para opinar sobre a crise que atravessamos. Não será necessário repisar as suas teorias - quem quiser que passe pelos Ladrões de Bicicletas e pesquise por Krugman. O que me interessa é o tratamento mediático que a visita dele teve. De tanta coisa que disse, entre a conferência que deu em Lisboa e a entrevista que deu ao Jornal de Negócios (e que passou na RTP Informação), o que acabaria por ser mais destacado seria a afirmação de que os salários dos portugueses teriam de ser desvalorizados entre 20 a 30%. Já não é a primeira vez que esta informação corre pelos jornais. Mas será verdade? No blogue Jugular, houve uma primeira versão desmontada. A tradução que o Jornal de Negócios publicou de uma entrevista dada pelo economista ao Le Monde estava errada. Krugman não tinha recomendado um corte de 20% nos salários portugueses. Tinha apenas sugerido um ajustamento salarial de Portugal em relação à Alemanha, fosse através da subida generalizada da taxa de inflação ou através de um aumento dos salários alemães muito acima de um aumento em Portugal. Trocado por números, como esclareceu na entrevista dada ontem, o ideal seria que, por exemplo, a Alemanha subisse os salários 5 ou 6% e Portugal apenas 1 ou 2%. Esta medida seria suficiente para esse ajustamento de 20% das tabelas salariais entre Portugal e a Alemanha, o que provavelmente tornaria o nosso país mais competitivo sem que fosse preciso cair na espiral recessiva para onde os países periféricos da UE estão a deslizar. É de resto esta a luta de Krugman, no seu blogue do New York Times e nas outras intervenções públicas que tem feito a propósito da crise do Euro: denunciar as políticas de austeridade impostas pelo directório germano-francês, as que estão a levar os países periféricos à bancarrota e ao fim da moeda única.

No entanto, o que se foi ouvindo ao longo destes dias, a parangona mais repetida, é o tal suposto corte nos salários. Eu poderia achar que este é mais um caso de sensacionalismo, que aos jornalistas interessa mais o sangue e a desgraça do que a verdade bem explicada a quem pouco percebe de economia. Mas desconfio que as razões serão outras, bem mais graves. É que na Grécia acabou de ser aprovado o enésimo pacote de austeridade, e desta vez eles vão ser forçados a cortar o salário mínimo em 200 euros. O que se passa, sem rodeios, é muito simples: é preciso mentalizar os portugueses para o que aí vem - não esqueçamos que a Grécia é o futuro de Portugal, daqui a um ano - e o Governo, através do ministro da propaganda Relvas e dos seus assessores pagos a peso de ouro com o dinheiro dos nossos impostos, já meteu mãos à obra. Spinning e mau jornalismo, em todo o seu esplendor; e isto é apenas um exemplo do que vemos e lemos diariamente, o discurso único a que estamos submetidos desde que começaram a notar-se os primeiros sinais da crise. Habituem-se!

Sérgio Lavos in Arrastão

terça-feira, fevereiro 28, 2012

dia de festa

28 de fevereiro será sempre um dia de festa. parabéns a todos os que sentem este clube.

segunda-feira, fevereiro 20, 2012

A visão dos media sobre a crise


Segunda-feira, 27 de Fevereiro de 2012 
15:00 até 17:00 
Picoas Plaza - CES Lisboa

Para além das mudanças económicas e sociais no quotidiano dos indivíduos, nada afirma mais a atual situação de crise do que os media: "Portugal vítima da guerra ao euro"[Correio da Manhã, 15/01/2012], “S&P corta rating a nove países, França perde AAA e Portugal passa a ‘lixo’”[Público, 13/01/2012]. Estes são só alguns dos exemplos que podem ser apontados nas últimas manchetes dos jornais diários portugueses. Podemos, ainda, citar os especiais da televisão a ensinar como viver cortando no orçamento doméstico ou os encartes especiais das revistas semanais a explicar “tudo” sobre a crise. Até mesmo as publicidades são invadidas com a temática e lembram o passante de que “O mar não está para peixe, mas no mercado X a pescada está a preço de banana”. Com um olhar rápido pelos meios de informação confirma-se: “Estamos em crise!”.

Partindo desta constatação, as questões a seguir (e tantas outras) se fazem necessárias: É possível que os media sejam agentes que contribuam para um debate que dê solução à crise ou, simplesmente, tornam-se “transmissores” de informação, isolando-se e protegendo-se na ideia de isenção jornalística? Os media têm poder para ampliar o debate e fornecer propostas de soluções? É necessário que os jornais entrem neste debate assumindo linhas políticas (por vezes evidentes)? Em qual medida a cobertura sobre a crise associa-se aos interesses políticos e económicos dos grupos mediáticos? Até que ponto a temática deve ser tratada de forma alarmistas? Qual a ação e importância dos media alternativos como contraponto do mainstream jornalístico? Como as redes sociais estão a transformar a produção e veiculação das informações sobre a crise? Há “criminalização” e/ou silenciamento sobre as mobilizações sociais nas informações divulgadas pelos media após as medidas de austeridade?


Inserido no Ciclo "Democracia e austeridade: Portugal em debate", este encontro visa discutir sobre estas e outras questões com os seguinte convidados:

José Luís Garcia- Investigador do Instituto de Ciências Sociais

João Tibério – Historiador (pós-graduado em R. I) e tutor na Universidade Aberta; Editor júnior na editora Dom Quixote

Pedro Guerreiro – Jornalista/ Diretor do Jornal de Negócios

Rute Barbedo - Coordenadora da Revista Nota Positiva

Alison Roberts – Correspondente britânica / AIEP

Moderação: Léo Veronez - Doutorando em "Democracia no século XXI", no CES/FEUC-UC 

ver mais: http://www.ces.uc.pt/eventos/index.php?id=5118&id_lingua=1

sexta-feira, fevereiro 17, 2012

Um exemplo para os gregos

Presidente alemão apresenta a demissão.

Ou então não.
Ou como na melhor bandeira cai a nódoa.
Ou como cada país tem o presidente que merece.
Ou...



Refém Da Solidão



Baden Powell

tantos anos de blog

e continuo a ficar surpreendido com as pesquisas alheias:

é tão fácil

é tão fácil escrever a vida dos outros como é simples tirar um café na nespresso. pegas numa cápsula e mete-la no lugar do coração. ligaste a máquina primeiro? é básico e os resultados são infalíveis. se é bom? se é novo? não. mas sabe sempre ao mesmo: a uma vida nova com cheirinho a café da manhã.

é uma da noite

anne fecha a porta de casa. atira os sapatos para um canto. calça as pantufas. «as mais quentinhas de sempre», assim as elogiava a avó. devia ligar-lhe. não pode. já é tarde. abre o frigorífico. espreita. não há nada. umas beterrabas, uma fruta cortada, um queijo curado e o vazio. e o frio.
fecha a porta do frigorífico. pega num copo. bebe água. abre o congelador. algumas ervilhas saltam. espalham-se pelo chão. pisa algumas. há uma costeleta de porco, mas é demasiado pequena. também há medalhões de pescada. e cebola. aos pedaços e às rodelas, mas sempre muito gelada. como a vida que sopra lá fora.
a janela está aberta e «está uma corrente de ar daquelas», pelo menos assim dizia a avó. cereais. pode comer uns cereais. abre o frigorífico e tira o leite. não chega. e está azedo. tal como a relação com a avó. podre e decadente, resultado de estar sempre ausente. «quem rima sem querer...» diria a avó. ela dizia tanta coisa. e muitas delas acertadas. pois agora não dirá mais nada.
anne sente-se vazia. torna-se numa ausência prolongada, numa espécie de corrente de ar sem vento, num verso sem rima, numa hora da noite sem duas.

quinta-feira, fevereiro 16, 2012

"Não gosto de Futebol" ou "Não ligo muito a Futebol"

Cada vez entendo menos estas pessoas.
Como é possível não se gostar de Futebol? Como é possível não ter uma paixão doentia por algum clube? Não acredito no meio termo de "gosto mas não ligo muito..." isso não é gostar! É um pouco como aquela malta que fuma mas só fuma à noite quando bebe uns copos.
As pessoas que não gostam de Futebol agarram-se a quê?
2ª feira, dia chuvoso, pego no trabalho e parece que à medida que faço as coisas faltam ainda mais para fazer do que no início... mas... depois lembro-me que na 4ª feira o Benfica joga na Champions com alguém! Fico logo mais calmo... O dia afinal não é tão cinzento!
Domingo, dia de luto antecipado por estarmos de ressaca 80% das vezes e por sabermos que amanhã acordamos cedo para trabalhar. Mas depois lembro-me que o Benfica joga com alguém nesse dia, o chegar da noite não é um acontecimento tenebroso mas sim um momento que anseio! Estar nervoso desde a véspera de um jogo importante, no próprio dia ter o cérebro bloqueado de 5 em 5 minutos a pensar em todas as variáveis possíveis desse jogo.
Estar nervoso durante o jogo, dizer coisas sem filtro, gritar, bater o pé durante 90 minutos, falar de tudo no intervalo com quem nos rodeia, comentar mudanças de técnico de bancada, todo um ritual normalmente acompanhado por cerveja e testoesterona em grandes quantidades.
Abraçar-me histérico a quem merece um festejo conjunto de um golo importante (o menos homo-erótico possível claro). Cerveja por todo o lado porque me esqueci de largar o copo, piso o gato porque escolheu a altura errada para se deitar aos meus pés, noto que no andar de baixo não gostaram do barulho mas hey... até ao fim do jogo sou uma besta sem qualquer sentido de comunidade.
Ficar amuado durante horas depois de um mau jogo (quem sofre é a patroa, que tem de aturar tudo isto), ficar contente durante dias depois de um jogo forte.
Adoro tudo isto que rodeia o Futebol, Adoro o Benfica e sei que um verdadeiro adepto me entende qualquer que seja a cor que apoia.

B. in gordo vai a baliza

terça-feira, fevereiro 14, 2012

Can't Help...



... Falling In Love.

Pearl Jam live version of Can't Help Falling In Love performed in Las Vegas, NV on Oct. 22nd, 2000. This version also appears on the Pearl Jam Holiday Single as a B-Side from 2000.

segunda-feira, fevereiro 13, 2012

Ler, escrever, ler e reescrever

Rui Zink é, além de escritor, professor universitário – e passam pelas suas mãos muitos estudantes que querem fazer carreira na edição (a Madalena, meu braço-direito cada vez mais indispensável, foi sua aluna de mestrado). E, apesar de ter uma imagem pública que se associa facilmente à paródia, à irreverência e à má-língua, diz coisas muito sérias que devem ser tomadas em conta sobretudo por quem escreve e deseja ver os seus textos publicados. Recentemente, deu uma entrevista muito interessante à revista Maxim (e eu que pensava, passe o preconceito, que estas revistas não tinham nada que ler) em que se colocava na tradição dos escritores portugueses que são simultaneamente criativos e críticos e que, portanto, fazem primeiro a parte criativa e a seguir são críticos de si mesmos, ou seja: escrevem, lêem e... reescrevem, pois claro! Provavelmente, para a maioria dos leitores, este percurso seria o normal, mas a verdade é que a ânsia de ver a obra nos escaparates e um certo amadorismo ou inexperiência impedem, frequentemente, o distanciamento necessário à autocrítica e à reescrita de textos que só lucrariam com esse segundo olhar atento e impiedoso e as consequentes tesouradas. Outra boa tirada de Zink: para escrever, é preciso ler muito primeiro. Totalmente de acordo.

Maria do Rosário Pedreira in Horas Extraordinárias

quinta-feira, fevereiro 09, 2012

# 31

e agora palavras. porque a nossa música é feita delas, e dos silêncios que preenchemos com a única palavra que fará sentido ano após ano: amor.

# 30



Mahna Mahna, Muppet Show

# 29



Sarabande de Bach, Cello Suite No. 6 in D major, BWV 1012, Mstislav Rostropovich.

# 28



The Great Elsewhere , Owen Pallett

# 27



Monogamia, B Fachada

# 26



Anyone Else But You, - Michael Cera and Ellen Page

# 25



Blower's Daughter + Creep, Damien Rice & Glen Hansard

# 24



Alfama, Pedro Moutinho e Mayra Andrade

# 23



Romeo and Juliet, Killers

# 22

The Suburbs, Arcade Fire

# 21



Sleep All Summer, The National and St. Vincent

# 20



Postcards form Italy, Beirut

# 19



Against All Odds, Postal Sevice

# 18



Nothingman, Pearl Jam

# 17



Restless choose leaving, Old Jerusalem

# 16



Sleepless Heart, Rodrigo Leão

# 15



You and I, Wilco

# 14



I Just Want Your Jeans, God Help The Girl

# 13



Between The Bars, Elliott Smith

# 12



Change Of Heart, El perro del mar

# 11



Northern Sky, Nick Drake

# 10



Over and Over, Chris Garneau

# 9



Sleep Alone, Bat For Lashes

# 8



Inside and out, Feist

# 7



Green Light, Jamie Lidell

# 6



Love is no big truth, Kings of convienence

# 5



River, Herbie Hancock feat Corinne Bailey Rae

# 4



Her Morning Elegance, Oren Lavie

# 3



So far around the bend, The National

# 2



All or nothing, Au Revoir Simone

# 1

Borboleta, foge foge bandido

quarta-feira, fevereiro 08, 2012

Não leia, isto é velho de 75 anos

A agência de rating Moody's baixa a nota da Grécia; as taxas de juro explodem; o país declara falência; a população revolta-se; o exército toma o poder, declara-se o estado de urgência e um general é entronizado ditador; a Moody's, arrependida pelas consequências, pede desculpa... "Alto!", grita-me um leitor, que prossegue: "Então, você começa por dizer que vai recapitular e, depois de duas patacoadas que todos conhecemos, lança-se para um futuro de ficção científica?!" Perdão, volto a escrever: então, recapitulemos. Só estou a falar de passado e vou repetir-me, agora com pormenores. A Moody's, fundada em 1909, não viu chegar a crise bolsista de 1929. Admoestada pelo Tesouro americano por essa falta de atenção, decidiu mostrar serviço e deu nota negativa à Grécia, em 1931. A moeda nacional (dracma) desfez-se, os capitais fugiram, as taxas de juros subiram em flecha, o povo, com a corda na garganta, saiu à rua, o Governo de Elefthérios Venizelos (nada a ver com o Venizelos, atual ministro das Finanças) caiu, a República, também, o país tornou-se ingovernável e, em 1936, o general Metaxas fechou o Parlamento e declarou um Estado fascista. Perante a sua linda obra, a Moody's declarou, nesse ano, que ia deixar de dar nota às dívidas públicas. Mais tarde voltou a dar, mas eu hoje só vim aqui para dizer que nem sempre as tragédias se repetem em farsa, como dizia o outro. Às vezes, repetem-se simplesmente.

Ferreira Fernandes in DN, 08.02.12

terça-feira, fevereiro 07, 2012

«o teatro é necessário»


A Associação Portuguesa de Críticos de Teatro atribuiu o prémio da crítica à companhia de teatro Comédias do Minho, dirigida por João Pedro Vaz. No comunicado da associação divulgado esta terça-feira, os críticos destacam o trabalho da companhia desenvolvido na região do Alto Minho, mostrando que “o teatro é necessário”.

continuar a ler no Público

Parabéns, Luís!

segunda-feira, fevereiro 06, 2012

Gir'ó Disco!

Dia 9. 22h30. Clube Ferroviário. Música da Boa. Mariana Vilela. Tiago Pereira. Indie. E é isso.

até que...

os seus dias eram cada vez mais longos, com a cama a agarra-lo pelos braços, e as manhãs a enganarem o desejado sol quente.
as tardes eram um back and forward, um eterno regresso às origens, um loop reinventado.
as noites chegavam cedo. e o inverno tapava-lhe o futuro.
ele fazia, refazia e desfazia. sentia que desaprendia a cada movimento da borracha e do delete. sabia que era um pouco dele que desaparecia ao fim do dia.
e assim os sorrisos foram morrendo. assim. aos poucos.
até que...

toca e foge é boss


Boss AC no Toca e Foge - Canal Q

U no és ningú

Ninguém é ninguém? Ou o dia em que a morte levou A. Tàpíes (1923-2012).

domingo, fevereiro 05, 2012

uma história com dois anos

VLADIMIR Então? Vamos embora?
ESTRAGON Vamos.
Não se mexem.
“À espera de Godot”, Samuel Beckett

Se insistirmos em ficar por cá? A ver o tempo passar, a criticar a passividade e apatia dos outros. E se ficarmos presos a um agradável e previsível presente?
Critiquemos, então. Há espaço para a crítica, sempre houve. Mas há ainda mais espaço para agir. Ajamos. Façamos. Um projecto à nossa medida, um projecto para 2010. O PROJECTO10

O PROJECTO10 nasce daí. Dessa ideia. Desse querer. Desse fartar. Nasce da espera por um Godot que insiste em chegar muito depois do fim da conversa de café. 

No PROJECTO10 há uma ânsia de errar em comum. De partilhar as nossas questões e as nossas respostas. E, tal qual como aqueles que nos rodeiam e optam por agir, uma vontade sem fim de chegar aos outros.

O PROJECTO10 cria hoje a sua identidade. Porque nestas nossas linhas e nos olhos do leitor encontra-se o mais puro e sincero cliché de comunidade.

PROJECTO10 não é política nem religião. Não é esquerda nem direita. Não é Sul nem Norte. Não é pobre nem rico, nem mesmo remediado. O PROJECTO10 só pode ser catalogado por quem o lê e por quem nele participa.

PROJECTO10 recria o conceito de sagrado, mas também o de profano. Faz as rupturas com o passado, mas também os cortes com o futuro. Porque somos todos jogadores de futebol num campo de contornos desconhecidos. A nosso favor? Claro! Hoje a polis é mais nossa, é mais comunitária. Vive e revive na web 2.0, na 3.0 e até na imaginária 10.0.

Porque hoje comunidade rima espontaneamente com global, e as contra e sub-culturas não são mais ilhas inacessíveis ao grande público. Porque num mundo de extremismos exacerbados a república de Platão existe hoje muito para lá “da juventude propensa para o mal”. Porque onde havia a “geração rasca” dos anos 90, encontramos hoje o devido reconhecimento em personalidades como Ricardo Araújo Pereira ou Mariza. Porque está Portugal a mudar? Porque Portugal está a mudar. E que Portugal temos hoje? Que identidade é a nossa?

Portugal é hoje provavelmente mais cosmopolita do que na época dos Descobrimentos. Porque hoje descobrimos o outro e deixámos que nos descubram. É um Portugal de turistas e de migrantes. 

(...)

A identidade do PROJECTO10 não se resume a palavras. A estas palavras. Nem às próximas que aqui escreverei. Nem às imagens que o povoam. Nem às músicas que nele ecoam. PROJECTO10 constrói-se, como qualquer sonho, com o trabalho incansável e extraordinário de muitos. De muitos amigos. De amigos que acreditaram que era possível criar este projecto. E foi. A todos eles, um grande obrigado. Este é o vosso/nosso PROJECTO10

05.02.10


PROJECTO10 #4 from PROJECTO10 on Vimeo.

nota: ontem como hoje... os mesmos objectivos.

sábado, fevereiro 04, 2012

silêncio, artista.

este é um silêncio bom. um silêncio daqueles sem palavras, que, no entanto, diz tanto.
odeio consensos e, todavia, não posso não gostar deste silêncio.
adoro o cinema. o mudo e o outro. gosto do buster keaton e desta sua segunda vida, ainda que pintalgada com toques de clark gable.
respeito a história do cinema e os homens que a têm escrito. tal como tenho muita consideração por aqueles que procuram não se render às maiorias. às modas e às manias. porque o futuro chega sempre mais cedo do que se espera, e é tão díficil conviver com essa assustadora realidade.
«o artista» é tudo isto.e é mais ainda. não é o melhor filme da história, nem sequer está no top10, mas é garantidamente uma das mais belas e sínceras homenagens ao cinema. é um «cinema paradiso» para ver, rever, e contar a todo o mundo.

sexta-feira, fevereiro 03, 2012

quarta-feira, fevereiro 01, 2012

Racismo e patriotismo: modos de usar


I'am a Patriot, Pearl Jam

Quando escrevo sobre o governo angolano e a sua corrupção desavergonhada, que tem como principais vítimas os próprios angolanos, há sempre alguém que me acusa de racismo. Quando digo que não quero a importação, para Portugal, dos modos de agir da elite económica angolana, sou xenófobo. Recentemente, houve mesmo um angolano que me chamou "racista" e "descendente de negreiros". Como é o caso, a acusação vem de quem confunde a cor da pele de alguém com a história colonial do País onde vive. Quando escrevo sobre o criminoso comportamento do Estado de Israel para com o seu vizinho palestiniano, impedindo-o de ter um Estado próprio e tratando-o como uma raça sub-humana, não escapa: há sempre alguém que me acusa de antissemitismo e me compara com a mais reles escória que a humanidade conheceu ou com o fundamentalismo islâmico, que tem tanto a ver comigo, ateu até à medula, como qualquer fundamentalismo religioso. A acusação costuma vir de quem confunde muitos milhões de fieis de uma determinada religião com o comportamento de uns grupos minoritários e radicais. Quando escrevo sobre o comportamento europeu, incluindo o português, em relação aos imigrantes (e como os europeus vão, se a crise se agudizar e muitos tiverem de partir, pagar cara a sua arrogância), passo a ser um esquerdista politicamente correto, sempre pronto a carregar o fardo do homem branco, um militante anti-ocidental e um racista ao contrário. Quando escrevo sobre o comportamento imperial dos Estados Unidos nas últimas décadas há sempre alguém que me acusa de ser anti-americano primário com saudades dos abjectos regimes do leste europeu. A acusação costuma vir de quem muda as suas exigências morais conforme a potência que está em causa. Quando critico a falta de democracia no Irão, a ditadura cubana, os abusos do caudilhismo chavista ou a exploração dos trabalhadores na China há sempre alguém que me acusa de ser um idiota útil do imperialismo americano e, claro está, de algum tipo de racismo latente. A acusação costuma vir de quem acha que os americanos são, pela sua natureza, a origem de todos os males no planeta. E não se importa de apoiar regimes criminosos, desde que estejam do lado contrário da barricada. Quando escrevo sobre o comportamento irresponsável do governo alemão nesta crise europeia e a sua aparente falta de memória sobre as condições que permitiram mais de meio século de paz na Europa há sempre alguém que me acusa de chauvinismo. Geralmente, as mesmas pessoas que fazem generalizações depreciativas sobre os gregos ou os portugueses. Apesar da dificuldade em ser, ao mesmo tempo, antissemita e anti-germanófilo, capacho dos americanos e anti-americano, politicamente correto e racista, ateu e islamista, quero ver se consigo, de uma vez por todas, pôr um ponto final nesta forma de debater. Não tenho nada contra nenhum povo, cultura ou religião. Nem a favor. Os povos são a sua história (cheia de contradições) e as suas circunstâncias. Não são homogéneos. Não há uma cultura ocidental, não há uma rua árabe, não há um sonho americano, não há um sentimento judeu, não há um racismo alemão, não há um atraso africano e por aí adiante. As sociedades são, todas elas, conflituais e contraditórias. Cabem nelas muitos povos, muitas culturas e muitos confrontos. As criticas que faço ou são a governos concretos, que determinam políticas de Estados, ou a hegemonias que, em determinado momento, dominam o sentir maioritário de um povo. Não acho que o expansionismo ou o trabalho estejam inscritos no DNA dos alemães. Não acho que os judeus sejam vilões ou heróis para todo o sempre. Não acho que os povos do sul da Europa sejam vítimas das potências europeias ou incorrigíveis preguiçosos. Assim como não acho que os portugueses sejam especialmente tolerantes ou especialmente desorganizados. Resumindo: não acho que aqueles que hoje são vítimas das circunstâncias não passem a ser, se para isso tiverem oportunidade, os piores dos carrascos das desgraças alheias. E vice-versa. Os debates sobre a natureza dos povos (que às vezes até se socorrem de argumentos biológicos, climáticos ou de outra qualquer patranha) ou a superioridade ou inferioridade das suas culturas não me dizem nada. Não dou para esse peditório. E é por ser profundamente antirracista que critico, sem pedir desculpas, o Estado de Israel. E é por não achar nada sobre "os americanos" que não tenho de fazer introitos idiotas sobre o seu magnifico cinema para criticar o seu comportamento imperial. E é por não gostar deste jogo de espelhos que critico a ditadura castrista sem ter de gastar dez parágrafos a falar do estúpido embargo americano. E é por assumir que sempre fui coerentemente anticolonialista, e por isso inconfundível com quinhentos anos de exploração, que não meço palavras para falar do regime cleptocrático que governa Angola. E é por ser um cidadão do Mundo que nenhum argumento em defesa de soberanias nacionais alguma vez me impedirá de criticar qualquer ofensa aos direitos humanos por parte de qualquer Estado. E é por ser europeísta que responsabilizo o governo alemão (este, com rostos e nomes) pela desgraça de um projeto que tinha de ser democrático e incluir todos os povos. Estou, isso posso garantir, cada vez mais cansado da desonestidade intelectual de tantos debates, que nos querem obrigar a ignorar as nossas convicções pelo medo de estereótipos e chantagens. Sim, estou zangado com Alemanha. Com o seu Estado e com o seu governo. E isto não muda um milímetro do que penso dos alemães: gosto muito de uns, não gosto nada de outros e a maioria deles nem conheço. Passa-se, aliás, exatamente o mesmo com os portugueses. E se nunca me faltaram críticas aos mitos lusotropicalistas, que nos vendem uma falsa tolerância histórica do colonialismo português, ou ao patrioteirismo vazio com que tantos políticos adoram pavonear-se, também desprezo esta autoflagelação nacional que uma certa elite gosta de vender para continuar a ver o povo de cabeça baixa. Talvez seja reação, mas por estes tempos sou mesmo um patriota. Como sempre, tudo depende das circunstâncias.

Daniel Oliveira in Expresso

#1 Para parte de Fevereiro, guarda a lenha no quinteiro.


Ou então solta já a gargalhada...