quarta-feira, abril 27, 2011

os espaços da palavra e do verso

Na próxima sexta-feira, a partir das 18h00, vou [José Mário Silva] moderar um debate na Feira do Livro que tem como mote “Inventar espaços para a Poesia”. Convidados: Paulo Tavares (poeta e editor), Rui Almeida (poeta e blogger divulgador de poesia), Catarina Barros (livreira da Trama) e Sandra Silva (editora e co-organizadora do Festival Silêncio!). A conversa decorrerá na Praça Amarela, esperemos que sob agradáveis condições atmosféricas.

via Bibliotecário de Babel

nota: a não perder. mesmo!

Dia de acção de graças

Escrever todos os dias não cansa. Escrever todos os dias não é suficiente. Por vezes, estás de copo na mão, a dizer disparates numa esquina, e pensas se os teus dedos frios por causa do gelo da bebida não deveriam estar nas teclas deste computador - o medo de não fazer o suficiente, o assombro do fracasso. Como te confessou um amigo, o fracasso é o que seguramente encontrarão todos os escritores. O fracasso de ficar aquém daquilo que imaginaram e se propuseram e que deu trabalho. Esse é o fracasso mais importante para o escritor: nunca alcançar, com a palavra, o que a cabeça criou e o coração engoliu e o corpo experimentou. Só isso permite que continue, porque a tesão não está na chegada, está naquilo que acontece durante a viagem. É a inevitabilidade do fracasso que empurra o escritor, arriscando, não caindo na tentação de repetir uma fórmula de sucesso. Por isso, é bom escrever todos os dias, manter o ritmo, tentar, falhar e começar de novo. O fracasso é teu amigo. Não tenhas medo de espalhar-te ao comprido na curva. Acelera mais. E escuta: nada disto é dramático, nem decisivo e sabes que preferes escrever para viver melhor do que viver apenas para escrever - há ainda muitos copos e muitas esquinas para dizer disparates. Mas lembra-te que tens a graça de ter encontrado aquilo que amas, e que fizeste disso a tua vida. A escrita não é um fardo nem é dor nem é sacrifício. É um privilégio. Razão pela qual continuarás a escrever todos os dias, curva e contracurva, namorando sempre (promete, vá promete) a possibilidade de um despiste.

Hugo Gonçalves in ionline

giant steps


John Coltrane

foi nesta noite só
que deixei os teus passos perdidos algures na alameda dos meus sonhos.
foi nesta manhã alva
que escrevi a partitura musical do outro john.
por onde andámos nós, então?
quais foram os giant steps que quisemos como nossos,
para contar a uns amigos de conveniência?
quais foram as notas e tempos que saltámos?
qual é o solo que fica no fim desta noite só?
se esta é a música que silenciosamente ecoa
hoje.

terça-feira, abril 26, 2011

código

Proclamo um código alternativo:
alheio às palavras,
uma linguagem sem frases,
uma língua que não possa ser condenada à memória,
uma prosa para enganar promessas,
um dialecto mudo sem
listas de preços ou formas de denúncia,
uma fonte gratuita de significados ambíguos,
um modo de expressar tudo quanto não pode ser expresso.

MIREN AGUR MEABE via Poesia Ilimitada

A Porca da Ideologia

Este post de José Manuel Fernandes (JMF) é muito revelador do modo como a historiografia tem sido frequentemente entendida no espaço mediático. Mas não é revelador tanto pelas questões de conteúdo (perdoem a simplificaçã0) que levanta, eventualmente as mais polémicas e sobre as quais não me pronuncio, até porque não li o livro da Raquel Varela. É revelador sim pela forma como JMF argumenta. Segundo JMF os historiadores dividem-se entre os que podem ser apresentados como historiadores (porque não são activistas políticos) e os que devem ser apresentados como historiadores e activistas políticos (simultaneidade que lhes retiraria lucidez científica). Isto é, para JMF a historiografia dividir-se-á entre a historiografia científica dos primeiros e a historiografia utópica dos segundos. Eu não sei se o JMF já pensou nas consequências desta brilhante tese. Ela implicaria, por exemplo, que dois dos principais historiadores portugueses, Fernando Rosas e Rui Ramos, fossem atirados para o caixote de lixo da historiografia não-cientítica, uma vez que são simultaneamente historiadores e activistas políticos. Ou que sucedesse o mesmo a Vasco Pulido Valente e a José Pacheco Pereira. A menos, é claro, que o problema de José Manuel Fernandes seja apenas com historiadores activistas políticos de esquerda e não historiadores activistas políticos em geral. Não será certamente esse o caso.

De qualquer dos modos, serve este meu post para fazer o seguinte registo: se um dia reactivarem a Academia das Ciências da URSS, os camaradas saberão que em Portugal poderão contar, para correspondente emérito, com o nosso JMF, zeloso defensor da verdadeira consciência da história contra a porca da ideologia. Isso ou então o facto do problema dos ex-marxistas ortodoxos não ser tanto terem deixado de ser marxistas mas sim insistirem em continuar a ser ortodoxos. 

José Neves in Vias de Facto

nota: o jmf falhou na crítica mais fácil de todas... é que a raquel varela é simplesmente uma péssima historiadora. mas ele, um pavoroso jornalista, também não o saberia reconhecer.

segunda-feira, abril 25, 2011

a próxima manhã é agora


Canto do Amanhecer - Carlos Paredes

ângulo raso

se no passado
foi escolha minha seguir toda uma eternidade
atrás do traço de um carvão 2b
é porque me enganei, porque te enganei, porque nos enganámos.
é que
o lápis azul,
o lápis vermelho
e a folha pautada do caderno a5
eram apenas as peças soltas da mochila de uma criança.
pois ouve, amor,
que neste novo presente
só uso transferidor e compasso
para escrever os nossos ângulos
rasos.

sabedoria popular


Lisboa, 25.04.11

25.04.11


36 anos + 1...

Só há liberdade a sério quando houver
a paz, o pão
habitação
saúde, educação.

Sérgio Godinho

sábado, abril 23, 2011

parabéns, sr. livro

«Foi logo na montra da livraria que descobriste a capa com o título que procuravas. Atrás desta pista visual, lá foste abrindo caminho pela loja dentro através da barreira cerrada dos Livros Que Não Leste, que de cenho franzido te olhavam das mesas e das estantes procurando intimidar-te. Mas tu sabes que não te deves deixar assustar, que no meio deles se estendem por hectares e hectares os Livros Que Podes Passar Sem Ler, os Livros Feitos Para Outros Usos Para Além Da Leitura, os Livros Já Lidos Sem Ser Preciso Sequer Abri-los Por Pertencerem À Categoria Do Já Lido Ainda Antes De Ser Escrito. E assim transpões a primeira muralha de baluartes e cai-te em cima a infantaria dos Livros Que Se Tivesses Mais Vidas Para Viver Certamente Lerias Também De Bom Grado Mas Infelizmente Os Dias Que Tens Para Viver São Os Que Tens Contados. Com um movimento rápido passas por cima deles e vais parar ao meio das falanges dos Livros Que Tens Intenção De Ler Mas Antes Deverias Ler Outros, dos Livros Demasiado Caros Que Podes Esperar Comprar Quando Forem Vendidos Em Saldo, dos Livros Idem Idem Aspas Aspas Quando Forem Reeditados Em Formato De Bolso, dos Livros Que Podes Pedir A Alguém Que Te Empreste e dos Livros Que Todos Leram E Portanto É Quase Como Se Também Os Tivesses Lido. Escapando a estes assaltos diante das torres de reduto, onde se te opõem resistência
os Livros Que Há Muito Programaste Ler,
os Livros Que Há Anos Procuravas Sem Os Encontrares,
os Livros Que Tratam De Alguma Coisa De Que Te Ocupas Neste Momento,
os Livros Que Queres Ter Para Estarem À Mão Em Qualquer Circunstância,
os Livros Que Poderias Pôr De Lado Para Leres Se Calhar Este Verão,
os Livros Que Te Faltam Para Pores Ao Lado De Outros Livros Na Tua Estante,
os Livros Que Te Inspiram Uma Curiosidade Repentina, Frenética E Não Claramente Justificada.
E lá conseguiste reduzir o número ilimitado das forças em campo a um conjunto sem dúvida ainda muito grande mas já calculável num número finito, mesmo que este relativo alívio seja atacado pelas emboscadas dos Livros Lidos Há Tanto Tempo Que Já Seria Altura De Voltar A Lê-los e dos Livros Que Dizes Que Leste e Seria Altura De Te Decidires A Lê-los Mesmo.»

Se numa noite de inverno um viajante, Italo Calvino

quinta-feira, abril 21, 2011

é oficial: estou apaixonado!

a livreira anarquista é a minha paixão digital mais recente. por ela até lia a obra completa de bakunin. é que é tudo tão bom neste blog. tem livros, tem humor, até tem bonecos. há melhor?

quarta-feira, abril 20, 2011

a outra rendição

se hoje não há macarthur
nem rendições forçadas
é porque esta cidade está deserta
e não há ninguém para assinar os papéis finais.
se as folhas que voam,
soltas,
são os cadernos de memórias
que alguém te devia ter sussurrado ao ouvido
é porque
hoje não há perdão
              nem rendição.
e se dar um passo
no meio dos escombros da cidade perdida
é trazer um pouco mais de vida
à terra que renegaste na minha infância
então
crescer longe foi a pungente deserção
que me ofereceste.
foi uma dádiva severa.
foi um presente pleno de perversão.
hoje relembro apenas este pó
feito migalhas da história
e
a bomba letal
que escreveu rendição nas paredes
ausentes de nós.

a árvore

além tejo '11


«Era uma vez – em tempos muito antigos, no arquipélago do Japão – uma árvore enorme que crescia numa ilha muito pequenina.
Os japoneses têm um grande amor e um grande respeito pela Natureza e tratam todas as árvores, flores, arbustos e musgos com o maior cuidado e com um constante carinho.
Assim, o povo dessa ilha sentia-se feliz e orgulhoso por possuir uma árvore tão grande e tão bela: é que em nenhuma outra ilha do Japão, nem nas maiores, existia outra árvore igual.»

Sophia de Mello Breyner Andresen in A Árvore

a outra porta

sinto
que hoje é um bom dia para conhecer as vermelhas luzes de néon
da tua nova casa.
não é distinta, eu sei.
e traz consigo o cheiro gasto
dos teus avós moribundos.
nela as cadeiras rangem a cada espreguiçar
e há um zumbido constante
da farmácia-casa-mãe-de-drogados-e-putas-virginais.
eu sei que há um bordel para lá das portas de madeira
por onde entras
com aquele vestido branco. imaculado.
oferecido numa daquelas viagens sem rumo. tão es-pon-ta-ne-a-men-te.
e sei
também
que entre a puta da esquerda, a puta da direita e tu
sobra apenas uma curva.
e sei que resta apenas
um balançar de corpo
que pode ser do estupro ou da bebedeira.
e sei que se hoje se entra por aquela porta cândida
é porque o amanhã não traz mais forças
do que um sóbrio baixar de braços
e o não
lutar mais pelos sorrisos do teu filho.
assim abandonado.

arabesque


Ahmad Jamal

terça-feira, abril 19, 2011

Deixem-se de merdas, somos todos culpados

A Trama fechou e o coro das lamentações soa agora tão alto quanto soou quando a Trama abriu. É este o ciclo da vida. Nascer e morrer com estrondo, sobreviver calado.

A Trama fechou e com ela fecha um sonho, não o da Catarina e do Ricardo, mas um sonho muito maior de acreditar que é possível existir uma livraria como a Trama, com livros, ideias e propostas de qualidade. Um sonho de acreditar que isso é possível em Portugal e, como tantas outras coisas, para que exista neste país, teria que ser em Lisboa. Se a Trama não se aguenta em Lisboa, o que dizer do resto do país?

A Trama fechou e com isso temos mais uma oportunidade de pensar o que andamos aqui a fazer. As pessoas querem ler, mas não querem, propriamente, comprar livros. As pessoas querem comprar, mas não estão para se estar a chatear com idas a livrarias e problemas de estacionamento. As pessoas vão a livrarias, mas não estão propriamente conscientes de que o acto de compra é um contributo para manter um espaço aberto. Compramos nos hipermercados, nas Fnac’s, nas Amazon’s. Compramos na sociedade do conforto. E de tanto conforto, um destes dias, não saberemos onde ir ver livros, porque as livrarias estarão todas fechadas.

A Trama fechou e eu não paro de pensar em mini-mercados. Antigamente, existiam mini-mercados em todos os bairros. Depois começaram a haver hipermercados nas cidades e os mini-mercados fecharam. Hoje em dia, custa-nos imenso ter que aguentar uma fila num hipermercado só porque nos falta um litro de leite para o pequeno-almoço do dia seguinte. Percebem? Não, não acho que percebam.

Um espaço comercial, por mais alternativo, especial e poético que ele possa parecer, é um espaço comercial. Hoje em dia nada se faz sem dinheiro. O problema da Trama não é a crise, nem uma maior ou menos habilidade de gerir um barco na tempestade. O problema da Trama somos todos nós. Não sabemos o que andamos aqui a fazer. A dar salvas às novidades e a arrancar cabelos às coisas que partem. Cada vez mais, saber como ajudar à sobrevivência é a verdadeira questão. 

Luís Filipe Cristóvão in Todos os livros serão um só

nota: e basicamente é mesmo isto. nem vale a pena dizer mais nada...

quinta-feira, abril 14, 2011

Se uma agência não encontra a solução é porque faz parte do problema

As agências de rating no banco dos réus

Hoje, a saúde das economias depende de um funcionamento transparente dos mercados financeiros. E, para isso, a regulação é indispensável. E a verdade é que as agências de rating têm jogado um papel central na crise das dívidas soberanas. E quando falamos destas agências, falamos apenas de três: Moody's, Fitch e Standard & Poor's. Sozinhas, controlam noventa por cento das participação no mercado das classificações creditícias.

É com base na avaliação que estas agências fazem que o mercado se comporta, com efeitos diretos e imediatos nas economias nacionais. Temos, por isso, antes de mais, de ter a certeza que não há nenhum jogador a fazer-se passar por árbitro. Sabemos que há. O Capital Group, através da Capital World Investors, é o maior acionista da Standard & Poor's e tem uma das maiores participações na Moody's. Em simultâneo, detém um investimento significativo em títulos de dívidas soberanas: entre eles, 370 milhões de euros em dívida da Irlanda, Portugal, Espanha e Grécia. Ou seja, o mesmo grupo que avalia o risco das dívidas beneficia das evoluções do mercado da dívida. Avalia e lucra. Arbitra e joga.

Depois, temos de ter a certeza que há o mínimo de rigor na avaliação que fazem. Não faltam exemplos que nos indicam o contrário, mas fico-me por os referidos neste documento : até o Mundo saber o que andava a fazer Bernard Madoff, a sua empresa financeira tinha uma das melhores classificações possíveis (AAA), simpaticamente garantida pela Standard & Poor's; as três agências davam, até à sua falência, a classificação máxima ao Lehman Brothers; a Enron só viu a sua classificação baixar a quatro dias da sua falência.

O Fórum de Estabilidade Financeira (FSF), numa informação de abril de 2008, registava deficiências dos modelos e metodologias de classificação destas agências, a inadequada diligência na verificação da qualidade do conjunto de ativos em que assentam os valores sobre que se emitiu uma classificação, a pouca transparência sobre pressupostos, critérios e metodologias utilizadas, a difusão insuficiente do significado e características do risco das classificações e a insuficiente atenção para o conflito de interesses subjacente ao processo de classificação.

Com estes dois dados - conflito de interesses e pouca fiabilidade - vale a pena recordar que as classificações e avisos destas três agências sobre a dívida portuguesa tiveram efeitos diretos e imediatos nas taxas de juro que o País teve de pagar pelo crédito que obteve. E quase sempre com argumentos contraditórios entre si. Fosse qual fosse o argumento, mesmo que uns se contrariassem aos outros, o resultado foi sempre o mesmo: a descida da cotação, sem que interessasse realmente a razão. Aliás, muitas das vezes os argumentos alimentaram-se a si próprios: se não há argumento para descer a cotação, ela desce-se na mesma, os juros aumentam, a situação piora e está criado o argumento.

E algumas classificações surgiram, não por acaso, em momentos cruciais na obtenção de crédito. Como no dia 15 de março de 2011, em que a Moody's cortou o rating das obrigações portuguesas de longo prazo de A1 para A3. Quando? Na noite anterior ao regresso de Portugal aos mercados financeiros. Algum novo dado que o justificasse? Nenhum. Apenas as debilidades do crescimento da economia, coisa velha de anos. A 22 de março, a Fitch anunciava que não iria alterar a classificação da dívida portuguesa por causa da crise política, dois dias depois alterava a classificação com esse mesmíssimo argumento. Sempre à vontade do freguês.

E quanto mais difícil se torna o acesso ao crédito, por causa destas classificações, mais as classificações baixam porque o acesso ao crédito é difícil. Trata-se de uma pescadinha de rabo na boca, onde as agências avaliam o cenário, criam o cenário, voltam a avaliar o cenário que criaram e no fim lucram com a coisa.

Os avisos para o papel criminoso que estas agências têm desempenhado na atual crise internacional vêm de todo o lado, incluindo do insuspeito FMI, que as acusou, o ano passado, de "usarem e abusarem do poder que têm" e pediu "uma supervisão mais estreita". No entanto, elas parecem continuar a poder manipular os mercados sem que ninguém faça coisa alguma.

Em alguns Estado, no entanto, a justiça (ou cidadãos através dela) começa a dar os primeiros passos para impor a lei. Há já processos penais no Tribunal Superior da Califórnia (contra a Moody's e a Fitch), no Tribunal Distrital de Ohio (contra a Standard & Poor's), no Tribunal Superior de Connecticut (contra as três agências); e em Espanha, com uma queixa apresentada pelo Observatório para o Cumprimento dos Direitos Económicos, Sociais e Culturais.

Em Portugal, como o Estado parece ser incapaz de fazer mais do que correr atrás do prejuízo, foi um grupo de cidadãos (na sua maioria economistas) que se mexeu. Baseiam-se na lei para tentar pôr as agências de rating sentadas no banco dos réus: "Quem divulgue informações falsas, incompletas, exageradas ou tendenciosas, realize operações de natureza fictícia ou execute outras práticas fraudulentas que sejam idóneas para alterar o regular funcionamentos do mercado de valores mobiliários ou de outros instrumentos financeiros é punido com pena de prisão até 5 anos ou com pena de multa". Recorde-se que foi o próprio Presidente da República a afirmar que a última descida do rating português era "muito exagerada". E querem saber quem decidiu o quê, como e o que lucrou com isso.

É assim mesmo que se faz. Quando o Estado não defende os seus cidadãos, os cidadãos defendem-se a si próprios. E recorrem à lei, na esperança que ela ainda exista. Pode não dar em nada? É o mais provável, já que é se trata de um David contra um Golias. Mas ao menos mostra-se que não nos resignamos a ver o fruto do nosso trabalho a ir parar às mãos de especuladores.
Quem quiser assinar a petição que está a correr, em paralelo com esta queixa (e onde podem ler informação mais detalhada, basta ir aqui.

Daniel Oliveira in Expresso

a short story das ilusões

“nem tudo o que parece é”, dizem. e neste caso é bem verdade. que seja mentira - a mais inocente das mentiras -, que a primeira página desse caderno esteja em branco. que não haja nada antes. que o capítulo um seja o zero. pois se dizem que tudo começou a ser escrito há muito é porque “nem tudo o que parece é”. e um ano é apenas isso, uma agradável short story, um viciante primeiro capitulo.

quarta-feira, abril 13, 2011

true story

«What really knocks me out is a book that, when you're all done reading it, you wish the author that wrote it was a terrific friend of yours and you could call him up on the phone whenever you felt like it. That doesn't happen much, though.»

The Catcher in the Rye, J. D. Salinger

terça-feira, abril 12, 2011

um mais um mais um

#1
Rasguem as praias da Oberkampf
que o mercado do décimo primeiro
é feito das frutas
mais coloridas.
Vejo nele o cristão e o muçulmano
abraçando as noites
em que o cravo e rosmaninho são
o aroma
da caravela final.
Tu sabes que não encontro a estação seguinte
e o nosso mar transbordou há muito
por esse carril em curva.
Tu sabes.

#2
Da Primavera que voa até nós
emerge a cor
airosa
da luz que pousa sobre ti.
É fresca a manhã de Maio
mas
eu hoje choro um pouco mais
porque sei que é mais acre
o pestilento cheiro
daquele fim
que chega com os amores de verão.

#3
Nada tenho em comum
com o nefasto fantasma
que habita
os teus mais teus medos.
Sou carne
com osso nas beiras.
Sou um homem que não chora.
Sou um homem que não sente.
Sou um homem que não vê a dor chegar.
Faço-me beirão num funeral mal-amanhado
e só agora vejo
que morri muito antes da sepultura se abrir
na montanha.
E morro.
Feito um fantasma dos teus.

fuck...

Rima com incontinência mas não tem nada a ver

Exmos. Senhores

A Trama Livraria, Lda. entrou em insolvência há escassos dias. Durante os próximos tempos entrará numa espécie de período de "liquidação" que tem por objectivo escoar todos os livros que foram adquiridos (em segunda mão, maioritariamente) ao longo de mais ou menos três anos de trabalho.

Suponho que o nosso encerramento seja uma surpresa para muitos - sobretudo para aqueles que não têm aparecido mas, para dizer a verdade, estava na cara.

Como todos sabemos, nenhum negócio vive de amigos, primos, vizinhos ou entusiastas. Um negócio, qualquer que ele seja, precisa de clientes para poder cumprir com um sem fim de obrigações que passam pela renda, pelos impostos, pelas contas (água, luz, net, telefone, essas coisas) e, com sorte (não a nossa, convenhamos), pelos ordenados.

Como podem ver não fomos bem sucedidos - isto se acreditarmos nesse conceito misterioso chamado "sucesso". A meu ver - e se nos seguem há tempo suficiente bem sabem que aquilo que acho serve de pouco ou nada - fomos muito, muito bem sucedidos. Falhou o guito. Falharam várias coisas, todas passando pelo guito.

Durante três anos fizemos tudo quanto podia ser feito - concertos, leituras, conversas, edição de dois livros, teatro, festarolas, cinema, actividades infantis e sabe-se lá mais o quê. Todas estas coisas foram feitas, essencialmente, por acreditarmos que eram necessárias, pese embora nunca tenham sido lucrativas. Mas que se lixe, não estávamos nisto pelo lucro e, imaginem, nem sequer somos de esquerda. O objectivo sempre foi o mesmo, desde essa tarde de 2007 em que concebemos a Trama, até há uns meses atrás: fazer aquilo de que gostávamos e em que tínhamos alguma experiência, continuar a aprender e... partilhar. Fúria juvenil, ímpeto irracional, inexperiência, falta de jeito para o negócio, chamem-lhe o que quiserem.

Não queremos que lamentem, que tenham pena, que nos consolem. Não estamos arrependidos e, creio, fazíamos tudo outra vez. Talvez agora soubéssemos uma ou duas coisas que tornariam este desfecho diferente... mas a verdade é que se as tivéssemos sabido há mais tempo, a Trama, como a conhecem, nunca teria existido.

Um erro, sim

mas belo
belo
belo
belo

Não queremos que se sintam culpados. Mas se se sentirem também não faz mal.

Até já

via Trama

somos

as tuas palavras,
e
os meus silêncios.
somos as tuas palavras,
e
somos os meus silêncios.
redesenhemos então o espaço.
que recriar a geometria
é viver um pouco mais no outro.
morde o lábio profícuo de paixão, amor.
cerra os dentes, amor.
respira, amor.
que hoje o teu baton é mais
carmim.
é assim intenso na minha memória.
e a nossa folha alva
que repousa a um canto
fica mais folha.
porque
somos as tuas palavras,
e
somos os meus silêncios.

Crooked Teeth


by Death Cab for Cutie

segunda-feira, abril 11, 2011

do zero que era dois

Tu sabes que não entendo essa pressa
de retornar à pagina zero.
Que sempre que vi as folhas a voar
e a tua mão insolente
a rasgar cada livro que escrevemos,
como um passado com código de barras
e um número fantasma,
me senti um pouco mais
a menos.
Tu sabes que quando renegas as palavras,
sussurradas por amor,
sou eu que suspiro por outro calendário.
Por outro almanaque.
E se leio aquele abandonado borda d’água
de ponta-a-ponta,
de página-a-página,
do antes-ao-depois,
não encontro, não, o teu zero.
O nosso zero.
O redondo ponto onde tudo começou.
Porque a nossa história começou no dois
e agora é tarde para se reinventar
a matemática da paixão.

do breve apontamento

«Disse a romancista na mesma sessão que o material do escritor – as palavras – é o mesmo de que toda a gente dispõe; e que devia haver uma maquineta, como as que contam os batimentos cardíacos ao longo de um dia, que registasse a quantidade de palavras que todos os seres humanos pensam (mas não dizem) pois estas seriam seguramente belíssimas. O escritor – notou então – só se distingue desses seres humanos porque não tem pudor de partilhar essas palavras que não diz.»

Maria do Rosário Pedreira in Horas Extraordinárias

sábado, abril 09, 2011

[o pássaro]



 Folha a folha como se constrói um pássaro
e entre si o ar e a árvore

se iluminam.

O pássaro canta, alguém escuta, as coisas

em desiquilíbrio

no grande buraco luminoso para cima.
E o canto continua tudo entre árvore e ar

com a luz desarrumada folha a folha.

E cada coisa regressa de si mesma.
(...)


Herberto Helder
In Ou o Poema Contínuo, Do Mundo, IV
ilustração de Toshiyuki Fukuda

Já nem tentam convencer-nos


Quando as viagens de avião dos eurodeputados eram pagas ao quilómetro, eles escolhiam ir em turística. Depois, passaram a ser reembolsados só mediante a entrega do bilhete e começaram a viajar em executiva. Esta semana, o eurodeputado português Miguel Portas (do BE) fez uma proposta para que as viagens de avião com menos de quatro horas fossem só em turística. A proposta fazia poupanças públicas (por exemplo, um Lisboa--Bruxelas ficava três vezes mais barato). E tinha sentido nos tempos que correm: não dizem todos, é a crise? Então, que todos a paguem (mesmo que o que para uns seja cortar os dedos, para outros seja só aparar as unhas)... Ora o Parlamento de Estrasburgo votou contra (402-216), confirmando o egoísmo dos que podem ("temos de apertar o cinto: apertem!"). Havia, porém, uns eurodeputados em condição especial, os portugueses, que votavam na mesma semana em que o seu país foi oficialmente dado por falido. Desses, esperava-se, pelo menos, oportunismo ou fingimento. Exigia-se deles um faz-de-conta sem mácula. Mas votaram assim: 9 por e 9 contra. Quem quiser vá às notícias ver a que correspondem em grupos políticos. O importante, mesmo, foi 9 agarrarem-se ao seu privilégio do aperitivo antes do descolar. Terem-se agarrado a isso em troca de se exporem demasiado releva uma sinceridade preocupante: mostraram desprezo pelos seus eleitores e não se importam.

Ferreira Fernandes in DN, 09.IV.11

sexta-feira, abril 08, 2011

aljube - a voz das vítimas

14.04.11 - 18h. - Antiga Cadeia do Aljube

quinta-feira, abril 07, 2011

O cerco a Portugal e os seus cúmplices

As agências de rating conseguiram o que queriam. Depois de darem muito dinheiro a ganhar em juros aos nossos credores, fizeram tudo para que Portugal aceitasse a vinda do cobrador de fraque. Feito o serviço que tornava os juros impraticáveis, a comissão liquidatária pode finalmente vir desmantelar o País.

A banca conseguiu o que queria. A chantagem resultou. A intervenção externa a permite que os bancos tenham dinheiro fresco e liquidez. Não é no País que estão a pensar. E na sua própria situação. E, mais uma vez, à custa do poder político e dos sacrifícios de todos nós. Já tinha sido assim com o BPN. Sempre foi assim com as vantagens fiscais. Assim continuará a ser.

PSD, Presidente da República e o exército de comentadores e economistas de serviço conseguiram o que queriam. Foram cúmplices do cerco ao país. Espero que nas décadas mais próxima não saia das suas bocas a palavra "patriotismo". O objetivo é claro: garantir que o odioso desta capitulação fica com o atual governo. O próximo primeiro-ministro terá apenas de aplicar o caderno de encargos que herdar. De caminho, asseguram-se os que temem qualquer tipo de imprevisto que, na próxima campanha, apenas de discutirá as responsabilidades passadas pelo estado em que estamos. Se foi a má governação ou o precipitar da crise política que nos trouxe até aqui. O futuro, esse, estará decidido mesmo antes dos votos.

A credibilidade das agências de rating não vale um cêntimo furado. A preocupação da banca com a situação do país é, sempre foi, nula. A guerra entre o PS e o PSD não tem a situação dos cidadãos deste país como centro do debate. Estamos sozinhos.

Nem sempre as gerações que se seguem são justas com os seus antepassados. Se forem, dirão que vivemos tempos em que dependemos de gente pequena e gananciosa. Mesquinhos demais para a grandeza das escolhas que tinhamos de fazer . Ambiciosos demais para a missão que deveriam ter como sua. Temos das elite políticas e económicas mais estúpidas e incapazes da Europa. Sempre foi esse o nosso drama. Não mudou nada.

Daniel Oliveira in Arrastão

terça-feira, abril 05, 2011

A DRINKING SONG

Connoisseur's Party for Two, Madison Moore

Wine comes in at the mouth
And love comes in at the eye;
That's all we shall know for truth
Before we grow old and die.
I lift the glass to my mouth,
I look at you, and I sigh.


W. B. Yeats

efeméride

parece que faz hoje anos que morreu o kurt. confesso que a morte dele disse-me zero. na altura. e hoje idem.
já a do j. s. bach. ui... foram quase seis semanas sem conseguir ouvir a paixão segundo s. mateus - bwv 244.

segunda-feira, abril 04, 2011

sempre gostei de palavras

e a partir de hoje... também gosto de casas com muitas letras

sexta-feira, abril 01, 2011

Ser Escritor

Não se é escritor porque se quer, mas porque se pode. E, porém, há imensos livros que se publicam de pessoas que decidem que a pele de escritor lhes serve às mil maravilhas – e até se vendem muito bem porque, infelizmente, nem toda a gente que aprende a juntar as letras sabe ler. Os verdadeiros leitores, como os verdadeiros escritores, serão sempre uma minoria – e a literatura séria está, com o tempo, condenada a ocupar uma pequena parcela das prateleiras das livrarias, onde hão-de proliferar muitos outros géneros de mais fácil assimilação. É uma pena que não se financie um escritor com provas dadas, como tantas vezes se apoia outro tipo de artista (o cinema é frequentemente subsidiado e os espectáculos e exposições quase sempre têm patrocínios). Os direitos de autor – em média 10% do preço de venda ao público do livro (sem contar com o IVA) – nunca poderão pagar as horas de escrita e reescrita de um romance. Noutros países, existem bolsas ou residências literárias que dão uma ajuda, fomentando a criatividade. Em Portugal, os autores ou têm outro emprego (o que nem é tão mau como pensam) ou vivem miseravelmente. Se escreverem um romance de duzentas páginas por ano (e já é muito) e venderem três mil exemplares (e tomáramos nós que todos os vendessem), receberão menos de quinhentos euros por mês, ou seja, o ordenado mínimo. Num país sem massa crítica como o nosso, quase poderíamos dizer que os escritores são uma espécie de empregadas domésticas intelectuais.

Maria do Rosário Pedreira in Horas Extraordinárias