quarta-feira, março 30, 2011

A TERCEIRA MÃO DE CARLOS DE OLIVEIRA

I
A primeira mão escreve com o tempo e contra
o tempo
a segunda reescreve o passado com o futuro e
por todo o lado instaura o presente do fim
depois a terceira mão vem e escova
e constela os tempos


II
A primeira monta um cenário nocturno à espera
da noite que virá. A segunda traz a esse cenário
a noite glaciar. A terceira sobrepõe as noites
e revela o seu povoamento
comum: luz eléctrica, papel intensificado,
uma teoria da escrita, desolação.


III
Uma segreda e comove-se
no espelho tempestuoso. Outra seca
o saco lacrimal e deduz de si mesmo o movimento
que faz a emoção: A terceira contribui
com o espelho das metamorfoses, a câmara
que filma a dedução
[e enlouquece numa só letra.


Manuel Gusmão in A Terceira Mão, Caminho, 2008

terça-feira, março 29, 2011

Tristeza e Solidão



Sou da linha de umbanda
Vou no babalaô
Para pedir pra ela voltar pra mim
Porque assim eu sei que vou morrer de dor

Ela não sabe
Quanta tristeza cabe numa solidão
Eu sei que ela não pensa
Quanto a indiferença
Dói num coração
Se ela soubesse
O que acontece quando estou tão triste assim
Mas ela me condena
Ela não tem pena
Não tem dó de mim


Baden Powell & Dulce Nunes

segunda-feira, março 28, 2011

Souto Moura vence "Nobel" da arquitectura

O arquitecto do Porto ganhou o prémio que já distinguiu nomes como Oscar Niemeyer e Frank Gehry.

Eduardo Souto Moura venceu o prémio Pritzker 2011, considerado como o "Nobel da arquitectura". De acordo com a organização, a distinção foi entregue ao arquitecto do Porto pelo "rigor e precisão na arquitectura", assim como pela "sensibilidade" na inserção das obras no seu contexto.

Curiosamente, o anúncio foi feito por um site especializado na área - "Scalae". A informação ainda não está disponível no site oficial do prémio Pritzker.

in DN, 28.03.11

sexta-feira, março 25, 2011

este leãozinho é bem mais interessante do que o verde


Leãozinho by Beirut

por respeito ao delicado momento da instituição não farei qualquer comentário

«Designa-se por charter ou chárter o voo operado por uma companhia aérea que fica fora da sua operação normal, ou regular; existem, no entanto, companhias dedicadas inteiramente a este tipo de voos como, por exemplo, a White Airways ou a Monarch Airlines.
Habitualmente são voos fretados por outras companhias ou clientes individuais, para destinos turísticos, e aeroportos secundários.»

in Wikipédia

quarta-feira, março 23, 2011

Gonçalo M. Tavares, Eu e mais 25 autores construímos um conto


Ilustração de João Lemos
 
#1
Dois lutadores de sumo. Treinaram vinte anos. O seu peso enorme, os rosto ameaçadoramente contidos. Imóveis, os dois corpos. Prontos para a acção.
Gonçalo M. Tavares

#2
Cada um visava o outro antecipando na sua mente cada movimento, Olhos nos olhos, o combate psicológico começara semanas antes, quando o de porte menos imperial desafiara o campeão dos campeões.
Kimatuto encarou o adversário como um tigre encara a sua presa. Na sua mente surgiam imagens de outros combates. Ainda não era hoje que o seu percurso de invencibilidade iria terminar. Era e continuaria a ser o rei do tapete.
António Ruivo, Leiria

#3
Continuaria a ser o rei do tapete. Repetia incessantemente para si mesmo. Continuaria a ser o rei do tapete. Repetia. Continuaria a ser o rei do tapete. E, contudo, nem um músculo se mexia. Continuaria a ser o rei do tapete mesmo apesar de o forte embate que sofreu do seu adversário quase o ter atirado para fora. Continuaria a ser o rei do tapete mas precisava mesmo de reagir porque o corpo insistia em não se mexer. Era a primeira vez que tal lhe acontecia. Era a primeira vez que lutava desde a morte daquele estranho na sua rua. Onde não reagira. Quando o devia ter feito.
João Tibério, Queluz

#4
A multidão vociferava ao longe o eco de uma multidão. Na sua cabeça a imagem do homem a esvair-se em sangue enquanto tentava dizer-lhe alguma coisa que não conseguia entender. Aproximara o ouvido aos seus lábios ensanguentados mas a única coisa que conseguira perceber era algo parecido com "procurem o dezanove". Não decifrara de imediato. Só no escuro da noite, dando voltas na cama na tentativa de dormir, conseguira juntar os sons silabados, omissos, até obter aquele estranho apelo. E igualmente o apelo dos seus olhos, numa névoa a esconder um último brilho antes de se apagar. Morrera nos seus braços e compreendera a suave doçura dum corpo acabado de morrer. Uma imperceptível desistência.
Paulo Gonçalves, Porto

#5
O momento do nascimento e o momento da morte. Dois momentos de ruptura que se ligam e nos ligam definitivamente. Ele morrera nos seus braços e por isso agora passaria a fazer parte de si. Como um filho. Tentara deixar de pensar nisso mas não conseguia. Sentia-se agora responsável por ele. Irremediavelmente. E não desistiria enquanto não descobrisse o que era "o dezanove". Mesmo que se lhe esgotassem os únicos momentos de descanso de que usufruía, que eram os que passava à noite, na verdade já de madrugada, junto da única pessoa que partilhava com ele o calor da sua existência.
Céu Guitart, Azeitão

#6
Esta fracção de pensamento quebrou-se quando subitamente sentiu as mãos do adversário no mawashi e os pés a flutuar. O sal que espalhou pelo dohyō, os cânticos do gyōji, o espaço circular violentamente contido que resumia a sua existência física e espiritual há 20 anos, repetiu nessa noite com a intensidade consciente de algo que se faz pela última e derradeira vez. Com as pregas profundas da sua obesidade comprimidas às do opositor, sentiu-se levar violentamente para fora do recinto sagrado. Caiu humilhado, e sem levantar a cabeça pensou: "Acabou. E agora?...", e um número voltou-lhe à memória... "dezanove"
Guilherme Vaz, Porto

#7
Na sua boca, sentia o amargo da derrota. Todos os feitos anteriores seriam rapidamente esquecidos. A fama, efémera, não passaria de uma ténue recordação de um passado glorioso. Um braço repousou sobre o seu ombro. Olhou para trás e viu uma figura familiar. Franzino, um homem de dentes desalinhados, amarelecidos pela sucessão de cigarros que aspirava durante o dia, sussurrou-lhe: "Estou contigo. Não cairás sozinho." O seu primeiro treinador, o homem que apesar da sua pobreza o retirou de um orfanato e acreditou nas suas potencialidades era, para ele, mais que um pai. Fora o principal responsável pela sua ascensão meteórica. No auge, foi renegado por ordens do agente que lhe prometeu fama e fortuna. Pashi saiu do anonimato da multidão para restaurar uma amizade perdida, um perdão concentrado num gesto. Kuamu, o promotor do combate, conversava com o árbritro. Secretamente, entregou-lhe um envelope, sem remetente ou destinatário, apenas dois algarismos: 1 e 9.
Manuel Lopes, Lisboa#8
Shinozuka atravessava a cidade, atribulada e feérica como sempre. Não parara sequer para uma refeição rápida, tinha urgência em chegar a casa. Um nervoso miudinho percorria o seu corpo magro e endurecido por anos de disciplina e rigor. Tinha urgência em chegar a casa. No bolso do casaco aquele envelope subtilmente entregue por Kuamu fervia de inquietação e destilava mistério. Depois do combate, das cerimónias e dos discursos, ainda se sentiu tentado a abri-lo e a acabar com a curiosidade que o consumia. Conteve-se. Entrava em casa e, sem cumprimentar a mulher, fechou-se no seu pequeno e despojado escritório. Quando abriu o envelope, a surpresa não se dissipou: um bilhete de avião, para o dia seguinte. O destino ficava a 19.000 Km de distância.
Ricardo Moura Pais, Arraiolos

#9
Um amargo de boca. Como justificar a partida apressada, a bagagem arrumada à pressa, a ansiedade latente. Ao mesmo tempo uma vontade indócil de perceber. As quase 27 horas de distância, as escalas na Europa, as esperas e as dúvidas, tinham um destino. Como pronunciar esta palavra tão estranha, já incrustada no seu pensamento: Flo-ria-nó-polis.
Ricardo Moura Pais, Arraiolos

#10
"Tudo diferente", pensava Shinozuka. O tempo quente e húmido era o que restava do mundo de onde viera há 27 horas e onde havia estado todas as outras horas antes dessas. Conseguira justificar a sua ausência com um convite de última hora para arbitrar um torneio internacional. E ali estava, num país que não conhecia para entregar um envelope a um homem que nunca vira: Aito Sato. Dele apenas sabia que foi um dos kyodai de uma importante família Yakuza, entretanto desaparecido. Recebera a carta de Kuamu que apenas lhe disse: "Depois disto a tua dívida está paga". Sato, Kuamu e ele. Todos intermediários. Operários de uma linha de produção, responsáveis por apertar um parafuso de uma peça que nunca viriam a conhecer. A inquietação voltou. Num impulso abriu o envelope. Nele encontrou duas coisas: uma carta onde se podia ler "Obrigado" e uma chave com uma placa e um número, 19.
Nuno Grosso, Lisboa

#11
Entretanto resolveu parar para pensar. Esta história parecia-lhe muito mal contada e demasiado rocambolesca para quem passa a vida a correr atrás do normal. O número 19 sempre tinha sido o seu favorito, mas jamais imaginaria ter de percorrer meio mundo à procura de algo que cada vez lhe parecia mais irreal... Parecia-lhe que estava na história errada. Se calhar era tudo um lapso e a ele apenas competia provar que estava a meio de um engano. Por que razão iria atrás de um número apenas porque alguém recusa aceitar que, por vezes, o inevitável é mesmo inevitável? Ele sempre fora uma pessoa demasiado pragmática para perder tempo com ilusões...
Ally Fontana, Lisboa

#12
Shinozuka aproximou-se do balcão da recepção. "Ligue-me ao quarto 19". Um momento de espera, percorrendo todas as vozes da sua vida, todas aquelas que poderiam estar do outro lado da linha. "Sim?" Um momento de espera. "Sou eu..." Um momento de espera. "Vou descer. Encontro-te no bar do hotel". Desligou. Pediu uma bebida no bar e sentou-se. Olhou à sua volta, tudo lhe parecia estranho. Nunca poderia ter imaginado que acabaria sentado no bar de um hotel à espera de uma pessoa. O número dezanove desenhou-se na sua mente e aí permaneceu até desvanecer com um toque no ombro, a sombra de alguém atrás de si. Virou-se.
António Barbosa, Covilhã#13
O toque no ombro foi leve, sem tensões, amigável. Uma mulher? Linda, traços nitidamente japoneses. Cabelos negros e compridos, maravilhosamente lisos e brilhantes.
– Ohayou Gozaimasu, cantou a bela.
Shinozuka não reagiu: a boca aberta, secou-lhe. Ela sentou-se à sua frente e fez de seguida um sinal para o rapaz atrás do balcão do bar. Pediu num português perfeito: um sumo de maracujá. Shinozuka continuava mudo.
– Outro para o meu amigo.
Em cima da mesa, a bela pousou a sua bolsa pequena e a chave com um pesado porta-chaves em madeira exibindo o número 19.
Maria do Céu Mota, Santa Maria da Feria

#14
Enquanto esperava pela bebida, ela permaneceu silenciosa. Avaliou-o com o olhar, mas a sua expressão não traiu minimamente os seus pensamentos. Shinozuka começou a sentir-se desconfortável, sem saber se devia fingir-se distraído ou se devia olhá-la também nos olhos... nunca tivera muito jeito para esses jogos. Finalmente, para seu alívio, o empregado trouxe a bebida. Ela pegou no copo... voltou a pousá-lo com impaciência e, chegando-se à frente, disse-lhe baixinho, com voz ríspida:
– 35? Eu sou a 19, entrega-me a encomenda.
Ana Borges, Torres Vedras

#15
Shinozuka endireitou-se na cadeira. A roupa pesava-lhe e uma sensação de mal-estar tomava conta de si. Considerara adequado vestir o seu melhor fato para este encontro - afinal, não sabia o que ira encontrar.
No entanto, o calor daquela cidade atrasava-lhe a respiração, tornava-a mais pesada, e sentia-se cada vez mais fraco. Olhou o tecto, observou atentamente a ventoinha que, por cima de si, rodava as suas pás. No entanto, era como se todo o ar se tivesse ido.
Ohayou observava-o expectante, franzindo ligeiramente o sobrolho. Reiterou:
- Entrega-me a encomenda.
Shinozuka levou a mãe ao bolso interior do casaco, observou a bela mulher sentada à sua frente e estendeu-lhe o envelope.
Joana Loureiro, Lisboa

#16
Aguardo esta carta há tanto tempo! Dela depende o meu futuro e o de toda a minha família.
Pegou lentamente no copo e sorveu o sumo até à última gota. Fitou Shinozuka por alguns segundos e começou a ler a carta. Shinozuka reclinou-se na cadeira e, por delicadeza, fechou os olhos.
Um estampido breve e seco ecoou. Ohayou, deitada sobre o lado direito, jazia no chão do hotel. Um fio de sangue lento, espesso, corria pelo mármore branco da recepção.
José António Quelhas Lima, São Mamede de Infesta

#17
O metal dos olhos de Shinozuka diluiu-se na enchente descontrolada que lhe afogou as janelas da alma. O cérebro ordenava, mas a voz não queria embalar aquele sofrimento que corria, e de repente, invísivel, tomava já conta de tudo. O peito de Ohayou, quedo, prenunciava que nunca mais um sorriso de anjo encantaria ou faria qualquer outra coisa na forma como os minutos corriam naquele local.
Um gato esquelético cruzou a esquina daquele corredor, entrou na sala, e deitou-se junto ao corpo recém-partido. Parecia suspirar pela concretização de uma premonição. Ao lado, o corpo sorria, muito brevemente, mas só isso. Estava morto.
Shinozuka continuava mudo. Ao longe ouvia-se uma rouca sirene da polícia, que gritava já no preciso momento em que começou a chover. Nada havia para dizer a ninguém. Um homem louco, um animal indiferente, e coisas por explicar, dariam trabalho a quem quisesse perceber a sequência dos acontecimentos.
Pedro Candeias, Lisboa#18
O sopro da sirene está mais próximo. De súbito, Shinozuka, que ficara em 10 segundos sem mover um músculo, sentiu-se expandir numa apanha de ar aparatosa.
O choque parecia multiplicar-se pelo número de gotas da tempestade que se abatia lá fora. Ainda assim Shinozuka está consciente e disperso. O som das sirenes cessou. Em seu lugar surge um flash intermitente, silencioso: azul e vermelho. A sala de luz morna é agora vermelha.
Shinozuka é esbofeteado um par de vezes pelas ofuscantes luzes, fita o balcão vermelho, a chave 19 e a bolsa de Ohayou, azul pega na carteira, vermelho sai pelas traseiras. Pálido e perdido desata a bolsa, lá dentro um leitor de música e um bilhete para 35.000 km de distância. Junto à janela.
Filipe Corrugado, Porto

#19
"35", repetia incessantemente enquanto o seu passo apressado e o seu volumoso corpo se evidenciavam cada vez mais no olhar dos que o viam passar.
No seu caminhar determinado não se desenhava a certeza de um destino. Fugia e como um animal ferido procurava apenas uma solidão onde pudesse reconstruir uma ordem, um sentido do que lhe parecia ser cada vez mais enigmático.
"35", fora assim que Ohayou o interpelera. Lembrava-se agora do leitor de música da bela Ohayou e levou a mão ao bolso do seu casaco para se certificar de que o levava com ele.
Num acto súbito entrou numa velha pensão e pronunciou uma só palavra quando com largo sorriso um velho homem em camisa de alças lhe dava as boas-vindas e se dispunha à conversação. "Room", disse Shinozuka, olhando para a parede desmaiada onde estavam as chaves dos quartos.
Pedro Marques, Paris

#20
Abandonou o corpo à cama, ressumando exaustão e desespero corrosivo. Percorreu o tecto com o olhar vago, perdido na memória dos últimos acontecimentos, acabando por cerrar os olhos, acossados pela ausência de horas de sono, esgotados de nada vislumbrar. O cansaço era, sem dúvida, seu adversário e não favorecera o desempenho da memória. Ainda assim, tentou, em hercúleo empenho, ligar pormenores que o conduzissem à decifração do complexo enigma. Ansiava representar, novamente, o papel de árbitro activo e competente, como nunca o deixara de ser em todos os dohyō, de outros combates. Mas esta era uma luta pouco objectiva, revestida de inúmeras sinuosidades, progressivamente obscura e intrincada.
"Para além do inverosímil existe, certamente, uma explicação", pensou em jeito de próprio encorajamento. É interrompido nos seus pensamentos pelo som grave do telefone. Do outro lado, uma voz masculina faz cair, pausadamente, uma nova imposição.
Maria do Rosário Colaço, Lisboa

#21
Demasiado cansado para reagir, Shinozuka escuta a voz séria e metálica que se faz ouvir do outro lado do telefone. À medida que as palavras se soltam, em tom incisivo e peremptório, sente-se invadido por um temor e uma sensação de mal-estar percorre todo o seu corpo e mente.
O som estridente que, segundos antes, o despertara dos pensamentos mais profundos e o enervara sobejamente, cedeu lugar àquela voz, sem rosto, anónima e que lhe provocava um calafrio inexplicável.
Do outro lado, a voz masculina ordena-lhe, friamente, a devolução imediata do leitor de música da bela Ohayou, que trouxera consigo na fuga desesperada que encetara minutos antes.
Como podia a voz saber que guardara o objecto pessoal de Ohayou?, questionava-se entre um misto de surpresa e receio. Quem era aquela gente que parecia saber todos os seus movimentos? O que fazer? Como conseguir escapar aos olhos invisíveis...
Luz Câmara, Coimbra#22
Como conseguir escapar desta teia? Como se deixou transformar nesta marioneta completamente manipulada?
Sai à rua. Sente-se espiado em todos os seus movimentos. Olha freneticamente para trás, para os lados, para trás, olha nos olhos de quem passa como se todos estivessem envolvidos, procurando também um sinal... sem saber de quê!
Desesperado e exausto deixa-se cair ao virar de uma esquina, como se ali ficasse invisível do resto do mundo. Lembra-se da sua bela mulher, precisava do seu olhar que o acalmava e lhe dava ao mesmo tempo toda a tranquilidade e força do mundo, do seu abraço apertado mas terno, de sentir o seu cheiro doce e o calor do seu corpo, do seu beijo... Onde estaria ela, que estaria a fazer?
Brutalmente arrancado aos seus pensamentos e ao chão, foi empurrado para dentro de uma carrinha fechada que se pôs de imediato em movimento: "ONDE ESTÁ O LEITOR DA OHAYOU?!"
Raul Galveia, Coruche

#23
O seu coração palpitava e agitava-se no seu peito num batimento descompassado, a sua cabeça latejava e o seu corpo debatia-se por uma posição reconfortante. Mas tudo se assemelhava a estar bem longe de ser reconfortante: a carrinha tinha um cheiro insuportável a enxofre, as cordas que lhe amarravam os tornozelos estavam demasiado apertadas e estar vendado impossibilitava-lhe avaliar fosse o que fosse. Já passara uma hora desde o seu infortúnio. As perguntas ressaltavam-lhe na cabeça imparavelmente; estava num estado irremediável de incompreensão - parecia-lhe um grande puzzle no qual não conseguia juntar as peças. A sua linha de pensamento foi interrompida por um brusco abanão da carrinha. Teriam parado?
Joana Vaz, Sintra

#24
Ouvido atento, músculos retesados, expectante. Sim, tinham parado. A porta da carrinha é aberta e o cheiro a enxofre mistura-se com o odor adocidado do campo, um cheiro a terra húmida, a terra lavada pela chuva que tinha caído. Onde estaria? Sente que lhe retiram a venda. Abre os olhos numa mistura de luz e sombra. Olha à volta o descampado. Não havia ninguém, tudo era silêncio. As cordas, à volta dos tornozelos, pareciam cada vez mais e mais apertadas. E os pés deixaram de existir. O seu corpo é uma amálgama de dor. A cabeça rodopia numa tontura, numa interrogação. O que tinha acontecido? Quem tinha matado Ohayou? Porquê? Quem era ela, afinal? Um murro enorme atinge-o em pleno rosto. E outro, e outro ainda. E o sangue, devagar, escorre por entre a pele lívida de espanto. Uma voz rouca, soturna, pergunta:
- Quem és? Diz, quem és tu? Por que mataste Ohayou?
Respira...
Maria Teresa de Jesus dos Santos, Massamá

#25
De súbito, o homem parou; levou a mão direita ao bolso - uma carta. Entregou-a a Shinozuka. Uma carta fechada. Shinozuka tinha medo, mas mesmo assim estava curioso. Uma luta rápida: curiosidade/medo. Ganhou a curiosidade. Mas isto foi na sua cabeça, cá fora ele não se mexeu. Esperava uma indicação concreta para abrir a carta - ou um soco. Não veio soco.
Gonçalo M. Tavares#26
No branco imaculado da carta, uma pinga do seu sangue. Do sangue que derramara nem ele sabia porquê. O lugar e a altura não eram as propícias a um raciocínio desanuviado. E os tambores que escutava na sua cabeça, que a enchiam num ritmo sonoro ensurdecedor, também não ajudavam. Na sua mão uma carta. Que carta era aquela? Que poderia ela desvendar? Repousaria no seu conteúdo a causa de tamanha violência? Os seus dedos dormentes tentaram abri-la, mas nem isso. Sentia-se desfalecer. Não veio "selo". Veio só a carta. Esta carta. Seria ela um soco no estômago?
Miguel Santos Teixeira, Oeiras

#27
O despertar fora lento e doloroso. Deu instruções ao seu corpo dormente para se erguer, mas este recusava-se a obedecer. Olhou em volta. Estava deitado no chão do que parecia ser uma casa abandonada. As janelas estavam parcialmente destruídas e os tentáculos da natureza ameaçavam as indefesas paredes. As falhas no telhado pareciam feridas abertas pelos raios de sol que teimavam em iluminar um pedaço de papel perto do seu corpo. Lentamente as recordações regressavam à superfície. A carta. A revelação estava ao alcance da sua mão.
Vitor Costa, Famalicão

#28
Estranhamente a casa abandonada tornou-se acolhedora, um refúgio. Arrastou-se para um canto lentamente, dolorosamente. Encostado à parede ergueu os joelhos e rodeou-os com os braços, a carta ainda na mão, já ligeiramente amarrotada. Abriu-a. Lá dentro uma palavra: Felicidades. Fixou os caracteres elegantes - femininos? - uma e outra e outra vez. A barriga enorme começou a tremer, depois o resto do corpo. A boca de Shinokuza abriu-se e a sua garganta lançou um grito transformado numa gargalhada enquanto o papel branco caía amarfanhado no chão.
Estou livre - pensou.
Isabel Brinca, Faro

#29
Não conseguiu controlar as lágrimas. Pegou no papel e releu a mensagem de novo. Suspirou num misto de resignação e de alívio. A palavra ainda continuava lá, mas agora já não parecia tão reconfortante. A sensação de liberdade depressa cedeu lugar a uma vaga de confusão. Continuava a chorar e as suas mãos recusavam-se a largar o papel amarrotado e salpicado de água. Pensou na ironia do destino. Estava a afogar a ordem de libertação nas suas próprias lágrimas. De repente ouviu o som de passos. Levantou-se num ímpeto e afastou-se para um canto. A cadência era cada vez mais curta e audível. Viu uma sombra recortada pelo sol junto à porta. Engoliu em seco e aguardou.
Vitor Costa, Famalicão

#30
Ouviu a porta abrir-se. O som das dobradiças enferrujadas e o ranger do movimento ecoaram pelo espaço. A luz do exterior banhou a entrada recortando figuras por entre os móveis semi-desfeitos, filtrada pelo pó de anos de abandono. Contra luz viu um homem alto, magro. O estranho ficou à porta piscando os olhos para se habituar à escuridão. Ou seria surpresa por o encontrar ali? Dificilmente se poderia esperar encontrar um lutador de sumo numa casa perdida no sul do Brasil! Perguntou-lhe quem era e o que fazia ali num japonês perfeito, mas com algum sotaque. Devolveu-lhe a pergunta e aguardou. O estranho sorriu, entrou na sala, limpou o tampo de uma cadeira e sentou-se. Em seguida retirou do bolso interior do seu casaco uma garrafinha de metal e bebeu um golo. Depois esticou o braço e ofereceu-lha. Inicialmente, olhou-a, desconfiado, mas depois aceitou a oferta do estranho. Foi então...
Patrícia Loureiro, Lisboa

#31
…que o reconheceu. O impacto da revelação fora brutal e demorou alguns segundos a recompor-se. Esfregou os olhos, incrédulo e desconfiado. Não pode ser, pensou. Aproximou-se e observou-o. Aquele rosto aquilino, os olhos em forma de amêndoa, o nariz pontiagudo e o mesmo olhar vigilante e indecifrável de sempre. Um nome formou-se na sua mente. Sakamura. Outrora fora o seu melhor amigo até ao dia em que conheceram a mulher que destruiria o juramento feito desde a infância. A amizade cedera lugar à mentira, ao ciúme e à traição. Começava agora a encaixar as peças para completar o puzzle do seu rapto. Tudo fazia sentido. A carta, a estranha mensagem, a morte de Ohayou. Estremeceu perante este último pensamento. O seu olhar fulminante apontou para o culpado. Estava frente a frente com o assassino de Ohayou.
Vitor Costa, Famalicão#32
Sakamura disse: em tempos traíste. Nunca soube porquê. Mas não esqueci. Vais ser incriminado por um assassinato que não cometeste. E ficarás sem entender muito do que te aconteceu. Esta será a minha segunda vingança. A melhor delas, até. Depois, voltaremos a ser amigos, sem dúvida. Até breve.
Gonçalo M. Tavares

in Público, 21.03.11

quinta-feira, março 17, 2011

de azul

desde o primeiro dia que insistes em pintar de azul
esta parede que me espelha.
são jactos de raiva.
mas também sabes como odeio essa palavra.
repetes: jactos.
com raiva.
e nós que não aguentamos mais os passos que rasgam a madeira,
nem os vidros que nos reflectem,
sobra-nos o tempo do relógio
e das estações.
fecho o livro e salto lá para cima,
não espero ouvir o respirar
nem o murmurar
deste fim que chegou antes da
andorinha.
deste fim que chegou antes da
primavera.

Longing To Belong


Eddie Vedder

I'm falling harder than I've ever fell before
I'm fallin faster, hoping I'll land in your arms
Cause all my time is spent here
Longing to belong to you
I dream of circles perfect, eyes within your face
My heart's an open wound that only you replace
And though the moon is rising, can't put your picture down
Love, it's a frightning way to fall
And when the time is right, I hope that you'll respond
Like when the wind gets tired and the ocean becomes calm
I may be dreaming but I'm longing to belong to you

terça-feira, março 15, 2011

"Só mais uma coisinha" sobre "O desastre de Sócrates, o desastre de Passos e a ausência dos outros"

(...) «A coisa mais interessante a descobrir é como se pode ir de três pessoas para trezentas mil sem pedir permissão a qualquer partido, sindicato ou associação. Não tenho dúvida de que qualquer destas organizações está agora a repensar a sua relação com a sociedade — e isso é bom, mas desde que dê aos partidos vontade de serem organizações mais democráticas desde o início.» (...) «A estratégia tradicional-revolucionária quando chegamos ao “estado a que chegámos” seria pressionar até à queda do poder, para que viesse aí um novo poder. Mas aí temos novo bloqueio: não tanto que o “novo poder” se arriscaria a ser pior do que o atual — mas que, passado o primeiro momento, as coisas voltariam a ser dirigidas de cima para baixo. Há uma semana inventei uma palavra — à volta da ideia de “reformulação” — para descrever o que se estava a passar, definindo como tal a noção de um movimento que fosse democrático desde o ponto de partida e em cada um dos seus passos, e que tivesse como objetivo reformular de forma inclusiva o próprio país. E dou por mim a pensar: o que faria agora um movimento reformulocionário, se existisse?»


(...)
«Excelente seria que a esquerda à esquerda de Sócrates fosse uma alternativa de poder. Com um programa de ruptura credível, propostas exequíveis no actual quadro económico, que pelo menos distribuíssem de forma decente os sacrifícios, e que tivesse um discurso europeu de alguma coragem, o que passaria por uma aliança política estratégica com as economias periféricas que travasse o golpe de Estado que a senhora Merkel está a levar a cabo na União. Uma esquerda que dissesse que quer governar. Amanhã. Mesmo que não seja para mudar o Mundo ou para aplicar todo o seu programa. Mas para evitar o suicídio social, económico e político deste País. Basta ver o clima social e de protesto para perceber que há uma base eleitoral (ela já valia bastante nas últimas eleições e hoje, fosse outra a estratégia, poderia valer muito mais) para uma alternativa ao discurso da inevitabilidade No entanto, no interior do PS, todos parecem esperar que Sócrates caia de maduro. E não me ocorre ninguém credível que tenha um discurso coerente de oposição ao que foi esta governação desastrosa. E a esquerda à esquerda do PS parece estar viciada em cavalgar os protestos sem nunca querer chegar à meta, sonhando com revoluções imaginárias que nem os nossos netos verão. É pena. Existe vontade de mudar mas parecem faltar os protagonistas. E assim, o desencanto com a política e com os partidos continuará a tomar o lugar do que poderia ser o crescimento de uma verdadeira alternativa política. Corajosa, de ruptura, mas realista e credível.»


Destas duas opiniões, com as quais não concordo na totalidade, retiro algumas ideias importantes:

- Sócrates e o seu governo estão há já demasiado tempo completamente fora dela. Não são só as medidas erradas - todos se enganam -, são sobretudo as decisões, quando duras e politicamente  questionáveis, que não são convenientemente explicadas. Infelizmente, quando vejo este governo jogar à política sinto a mesma tristeza que sinto quando vejo o Postiga em campo. É inacreditável como um jogador mediano pode ter perdido completamente a noção das regras e basicamente está sempre em fora-de-jogo.

- Se não há ponta-de-lança para atacar o jogo, também não há treinador que pegue nisto. Passos Coelho não passa de um Azenha. Não tem experiência, não tem carisma, joga para o empate e na esperança do erro do adversário. Será um flop daqueles... sobretudo porque é evidentemente uma marioneta de vários interesses e lobbys liberais. Ah, e claro que o FMI também não serve de treinador. É, aliás, deliciosamente irónico reparar que quem chama hoje pelo FMI são os mesmos que aquando da sua primeira presença o renegaram por completo. Irónico? Ou nem por isso? Não creio que seja um caso de "nunca digas desta água não beberei" mas antes um aproveitamento dos principais liberais portugueses de matriz anglo-saxónica de uma certa ingenuidade em termos de macro-economia de alguma extrema-esquerda. Há que ter muito cuidado! Não é o FMI que é o papão, mas é ele que abre as portas do populismo posterior.

- Perante este cenário o que podemos esperar? Extrema direita ou apenas direita-conservadora-nacionalista-católica-etc? Jamais! Extrema esquerda? Muito complicado. Não têm qualquer vontade de governar, o que até é normal e compreensível, pois isso significaria passar pelo escrutínio real das pessoas, e essa é uma situação que nem em termos internos é hábito. Também não é na rua que se decidirá o nosso futuro...As manifestações são uma prova interessante e significativa de alguma vitalidade da população, mas isso só não chega. Não é na rua que se decide o destino de mais de 10 milhões de pessoas. Tem que ser primeiramente num parlamento, numa assembleia municipal, e depois no trabalho, escola e vida de cada um. Têm que surgir rapidamente novos partidos e movimentos cívicos. Um exemplo? Um desejo? Um verdadeiro partido dos "Verdes". Que não seja muleta de ninguém, que não se restrinja à ecologia, mas ofereça também uma visão do mundo mais sustentável ambiental, politica e socialmente.

- Outras propostas?

domingo, março 13, 2011

some other stuff


Dark Stuff | Dust Lane
Yann Tiersen @ A Take Away Show

sábado, março 12, 2011

esclarecimento "público"

perante o receio que creio que se apoderou de alguns amigos sobre a minha pessoa, gostaria de esclarecer e reiterar que não sou reaccionário nem sou um velho num corpo de jovem. simplesmente era contra o ridículo de juntar numa só manifestação tão diferentes e até opostos protestos. eu desço todos os anos esta mesma avenida da liberdade no 25 de abril e tenho todos os anos o mesmo prazer, espero sempre ansiosamente por esse dia, porque gosto de lutar por essa vitória no passado. porque tenho orgulho nela.

pelo contrário, sou contra os hipócritas políticos que se aproveitaram dum pequeno movimento e tornaram-no em algo que não era. não assistimos a nada semelhante ao egipto nem à líbia, mas viu-se algo bonito. algo que juntou muitas pessoas. e isso é bom, e isso mostra que a democracia está viva. infelizmente, custa entender a muitos que também a vinda do papa e o benfica campeão juntou pessoas, ou seja até é normal as pessoas reunirem-se em dias especiais. 

a triste verdade é que se só estivessem ali as pessoas que são realmente jovens precários, não teríamos um sexto delas, porque os precários ficaram a trabalhar ou não têm de todo condições para se deslocar a lisboa. as grandes bolsas de pobreza e dificuldades não estão entre os que brincam às revoltas mas sim nos que nem acesso à internet têm. que havia muita gente neste protesto que está a passar mal, claro. que poderiam estar melhor, claro. que grande parte das vezes - e limito-me ao que ouvi nos diferentes directos -, as pessoas só pediam um contrato, com um bom montante e muitas certezas, também é inegável.

não endoideci nem me tornei reaccionário... até garanto que se fizerem manifestações todos os dias, se cada um sair da sua comfort zone, e sentir que há um ideal comum e não apenas interesses individuais, estarei na primeira fila. só assim... porque ir para a rua a um sábado à tarde durante duas horas e meias para o "social" não chega para me deitar de consciência descansada todos os dias.

Por que é que NÃO VOU participar no protesto da "geração à rasca"?

ou a história do ter, o não ter, e o gostar de ter...

Tenho quase 30 anos. Tenho 13 euros na conta até ao final do mês. Tenho 4 euros no telemóvel, que nem sequer é um smartphone. Tenho um estágio curricular a terminar em 15 dias e tenho apenas um infindável número de incertezas sobre o meu futuro imediato. Tenho 15 páginas para escrever para o relatório desse estágio e quase nenhum tempo, porque também sou tutor numa universidade para ganhar alguns trocos. Não tenho dinheiro para as últimas propinas.Tenho a garganta apanhada , tive febre nos últimos dias mas não tenho médico de família para me receber. Tive duas deslocações ao estrangeiro no último ano: uma em trabalho, outra em lazer. Tive também a possibilidade de passear por Portugal em alguns fins-de-semana deste último ano. Não tenho carro. Uso os transportes públicos e tenho o passe social. Editei uma revista pro bono, escrevi noutras revistas e estou sempre disponível para os meus amigos. Sou evidentemente uma boa pessoa e, se acreditasse nisso, até seria um cristão recomendável, contudo NÃO VOU participar no protesto da "geração à rasca".

Não participo porque não sou hipócrita, como muitos que hoje picarão o ponto, mas sobretudo porque não acredito que exista uma "geração à rasca". E porque não compreendo a razão deste protesto nem a sua forma. Parece que esta manifestação é na realidade várias. Ou esta manifestação são na realidade várias. Confuso? Até no português a convocatória era confusa. Parece que hoje há a manif de protesto pela precariedade do trabalho; a manif contra os políticos; a manif dos políticos que vão na onda, desde os jotas até os presidentes reeleitos (que sempre foram contra todo e qualquer tipo de movimentos sociais); a manif dos anticapitalistas; a manif dos que não-arranjam-trabalho-no-estado-e-até-que-dava-jeitinho-que-o-fizessem-porque-têm-que-comprar-rapidamente-o-passe-para-os-festivais-de-verão-que-são-bem-fixes-este-ano; ah... e a manif dos que acham-mesmo-que-não-há-liberdade-nem-direitos-em-Portugal-e-isto-é-igualzinho-ao-Egipto-Líbia-e-outros.  Sinceramente... haja paciência! Estamos indiscutivelmente num dos momentos mais negros economicamente da nossa história e isso é inegável, mas não é na rua que se dá a volta à crise. É no trabalho. É nas eleições. É na criação de associações e movimentos cívicos. "O povo é quem mais ordena." Não é isso que está em causa. Nunca foi. Mas o povo é mandrião... Claro que eu não sou... mas o meu vizinho. Ui, que molengão. E não merece o trabalho que tem. Eu fazia melhor. De certeza.

A crise existe, em parte, por causa das certezas. E dos ouvidos tapados dos diversos governos que realmente atacam sempre os mais desprotegidos, deixando por exemplo os bancos sem aumento de impostos. Mas também do zé-ninguém que foge sempre aos impostos porque os ricos também o fazem. E os ricos e grandes até podem fazê-lo... se forem bons autarcas. É essa uma das piores certezas... a de que não existem realmente princípios inequívocos no protesto de hoje. Porque além de muitos dos que hoje vão protestar não fazerem parte da mesma geração, logo não têm os mesmos problemas, a verdade é que não estão realmente preocupados com a mudança de paradigma no país. O que muitos querem garantir hoje é um trabalho certo, tal e qual como o dos país e seus amigos. Esquecendo que muitas vezes são esses mesmos que lhes roubam uma possibilidade. Alguns dos que hoje saem à rua ouvem a "cantiga do bandido" de políticos que se fazem passar por independentes e concordam. E acreditam que a culpa é mesmo do sistema. Que não há volta a dar. Ou então que basta ir para a rua para tudo mudar. Isto não é o Egipto, meus caros. O problema aqui não é político, pese embora as más práticas políticas dos mesmos. A crise aqui é de valores e princípios. Somos todos muito de "esquerda" mas ao fim do dia só queremos os mesmos direitos adquiridos  que foram oferecidos num passado cor de laranja, fantasista e fantasioso.

Felizmente, todos temos direito à indignação. Os que se manifestam hoje. E eu. Nem que seja por achar que verei apenas uma feira de vaidades, de hipocrisia e de falsos moralismos. Não me apetece brincar às revoluções, às revoltas sociais e aos heróis. Mas também acredito que irão estar  bem mais de cem mil pessoas na Avenida da Liberdade. É o mínimo para algo preparado com mais de um mês, que contará com partidos na sua organização e amplo destaque na comunicação social. No final do dia peço apenas uma coisa: não façam parecer que este protesto é minimamente semelhante às revoltas populares dos países do médio oriente, pois essas foram espontâneas e tinham um substrato politico e social, e não foram um amuo de jovens arreliados por ainda estarem em casa dos pais e terem a prestação do Smart em atraso.

Uma última referência sobre esta questão: terei muitos - quase todos mesmo -, amigos neste protesto. Vejo essa situação com bastante alegria e orgulho. Felizmente somos diferentes. Muitos deles têm mesmo a vida já orientada e não é por isso que deixam de se manifestar. Isso também mostra que  haverá muita gente que estará neste protesto por acreditar que "um outro mundo é possível". Eu também acredito piamente nisso. Simplesmente penso que o trajecto  até essa realidade é outro... Desculpem, mas é que da minha parte esse percurso começou há muito. Teve inicio no momento em que aprendi que há que ter brio e profissionalismo todos os dias... E acredito que temos ao nosso dispor mais meios e conhecimentos do que qualquer outra geração. Não somos de todo "à rasca". Eu não sou, e tu?

Nota: As minhas palavras são, no fundo, um outro eco possível das de um amigo com que tanto falei sobre estes assuntos.

Adenda: Este governo, e tal como o do sr. Silva no passado, perderá toda a razão se a policia atacar sem razão os manifestantes. A liberdade de manifestar uma opinião é um direito bem anterior ao nascimento de muitos dos senhores que por aí andam, e não pode nunca ser restringida.


ser antoine doinel

é sentir a tristeza solitária de cada onda fria.

Serenade for the renegade


Esbjörn Svensson Trio

[Fumam à janela]

Fumam à janela, o vento frio
desfaz o fumo, os dedos tremem.
Não sabem uns dos outros,
espalhados pela cidade, mas
procuram as luzes ainda acesas
noutras casas. Noite dentro,
o silêncio dos que dormem
é uma afronta, desleixo pueril
de quem consegue ignorar
as facadas do tempo, a areia
entre os dedos, o sobressalto.


José Mário Silva

quinta-feira, março 10, 2011

ele há dias

ele há dias em que as palavras permanecem mudas, quietas e sem sentido. 
ele há dias em que nem a empregada as varre da estante nem o pai almoça.

domingo, março 06, 2011

[dentro das minhas quatro paredes]

dentro das minhas quatro paredes
falta sempre uma janela que se abra de
par
em
par.

e quando fico, assim,
encostado contra os limites do mundo - aqueles que me juraste que nunca conheceria -,
apetece-me gritar
e dizer que não.
que não.
que não.
que não há mais nãos.
nem sins feitos de murmúrios.


lembras-te da nossa conversa naquela manhã?
aquela que chegou pé-entre-pé e se instalou no nosso silêncio feito de beijos.
eu falei-te de mim e tu de ti. trocámos juras e segredos. e eu soube, sim, porque nesse dia tive a certeza que eu seria sempre assim. um desenho feito à tua medida. uma palavra criada para não termos de dizer nenhuma outra.

e eu, assim,
complexo, confuso e imutável.
em suspenso.
e eu, assim,
é que acabei por perder,
dentro das minhas quatro paredes,

a porta da rua.
e fico a sós com o segundo toque que ecoa sozinho.

porque a vida também pode ser um palíndromo

Caos Calmo (2008)

sábado, março 05, 2011

O mexilhão do lado errado

Vários jornais internacionais - o espanhol El País, o italiano Corriere della Sera (este na capa)... - publicaram-lhe a foto, ontem. Um rapaz, não desses nossos modernos de 35 anos ainda na casa da mãe, mas um de 17 anos, talvez menos, negro, agachado e julgado por vencedores. Algures entre Brega e Ras Lanuf, na Líbia, e entre rebeldes. Ele, o rapaz, manifestamente não era um rebelde, não estava entre os seus. Tinha à volta inimigos com indicadores duros e até uma pistola, de cão puxado atrás, encostada ao seu pescoço. Ele estava na fase do terror em que não se grita, os olhos estão fixos e a boca aberta e seca. Se houvesse máquina que nos filmasse a alma teríamos ali a história milenária e banal da vítima. E, no entanto, as legendas colocavam- -no do outro lado: ele era um leal de Kadhafi, o tirano. Era? Ou era o mais mexilhão dos mexilhões, o mexilhão do lado errado? Já vi tantos na minha vida de repórter: os fracos desapossados até da condição de estarem em baixo, porque os ventos da história diziam que eles pertenciam ao mau lado. A este rapazito negro já o vi louro, refugiado num mosteiro ortodoxo de Pec, no Kosovo, sem poder ir buscar o irmão deficiente à casa abandonada da família - entre os dois estavam os oprimidos kosovares e era a estes que as tropas da ONU emprestavam a condição de bons... A este rapaz negro coube-lhe não termos pena dele. E isso é tão injusto. 

Ferreira Fernandes in DN, 05.03.11

que eu

não sei quantos passos mais
levam os meus sapatos.
não sei quantas mais montanhas,
daquelas feitas à tua medida,
poderei eu subir.
que eu só tenho uma pedra de calçada a fazer de coração
e uma casa velha para te aconchegar.

és

és o barco de mastro partido,
que rasga a nuvem mãe,
quando trazes um rastro no mar revolto
com os teus passos perdidos.

és o sol quente na noite que chegou pela manhã.
e se te chamo onda
oiço o nosso eco, aqui,
e perco o pé.
fico aliviado, aqui,
e
assim à deriva, como os beijos que ousamos escrever.
neste tão presente amanhã.

Seu


Mayra Andrade

sexta-feira, março 04, 2011

Porco Trágico I

conheço um poeta

que diz que não sabe se a fome dos outros
é fome de comer
ou se é só fome de sobremesa alheia.

a mim o que me espanta
não é a sua ignorância:
pois estou habituado a que os poetas saibam muito
de si
e pouco ou nada dos outros

o que me espanta
é a distinção que ele faz:
como se a fome da sobremesa alheia
não fosse
fome de comer
também.


Alberto Pimenta

quarta-feira, março 02, 2011

Lançamento de DESOBEDIÊNCIA



Fazemos o circuito
inevitável das coisas ociosas
sem sentido.


Corpos a ranger
transparentes e leves
sem memória
e sem apelo.


Suburbanos e ausentes
continuam na tarde quente
tão inúteis
como agora.


Incompletos mesmo
partituras negras
monótonos, betonizados
e sem perdão possível.

Eduardo Pitta

terça-feira, março 01, 2011

palavras a duas mãos

Em todas as esquinas da cidade
nas paredes dos bares à porta dos edifícios públicos nas janelas dos autocarros
mesmo naquele muro arruinado por entre anúncios de aparelhos de rádio e detergentes
na vitrine da pequena loja onde não entra ninguém
no átrio da estação de caminhos de ferro que foi o lar da nossa esperança de fuga
um cartaz denuncia o nosso amor.


Daniel Filipe in A Invenção do Amor
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Inventemos então
                         a nova forma de amor.
Pensemos então
                      essa palavra,
                      essa palavra que traz
tanto
dentro de si.

És tu e eu
             e todo um mundo atrás.

É o amar o amor
que deveras se sente,
quando a fórmula mágica surge na folha,
                                               no cartaz,
                                               no jornal de domingo à tarde.

Inventemos então
                         a nova forma de amor.