quinta-feira, dezembro 30, 2010

o dez de dois mil e dez

1. EDITAR. das palavras às fotografias. das minhas palavras às dos outros. do meu olhar à fotografia. e depois editar a minha vida. cortar a direito, sublinhar, recuar, pensar e questionar cada palavra, cada gesto, cada momento, cada história.

2. HISTÓRIA. ser parte dela. ser ela. da minha própria história ou escrevendo a história dos outros. investigador e tutor. ser criador ou ser apenas uma história com final feliz.

3. IGNITE. e ser feliz ao ultrapassar medos, inseguranças, receios. falar com micro, como gente grande, e olhar olhos nos olhos, os olhos que nos olham. e apresentar a todo o mundo, o meu mundo, o meu projecto10.

4. PROJECTO10. " o projecto10 é apenas isso, um projecto para 2010." e, contudo, mudou para sempre a minha vida. obrigado a todos que passaram por aqui. que tornaram real este sonho. que fizeram comigo esta viagem.

5. VIAJAR. alemanha, turquia, portugal. o meu país de norte a sul, do interior ao litoral. de fora para dentro e de dentro para fora. uma viajem que foi sobretudo por mim mesmo, via amigos.

6. AMIGOS. sempre lá. sempre cá. ignorando os "lugares comuns" e as "frases feitas". ontem como hoje. foram cenários sem fim: noites de "vai tu", santos populares, benfica campeão, casas abandonadas no porto, quartos apertados em lisboa, montes escaldantes e ruas cruzadas de cerveja na mão. foram cenários sem fim. até nos carros de sempre.

7. CONDUZIR. e pegar no carro, no bólide, na viatura e no automóvel. cuidado que transpiro. olha a velocidade que cresce. olha o medo que vira desconforto e olha o conforto e a habituação a chegarem, assim de mansinho, como uma quinta na autoestrada. sem ter mais medo de morrer.

8. MORTE. hoje mais presente do que ontem. do que nunca. certamente menos que amanhã. um ano inteiro repleto de negro, que é por vezes menos escuro, apenas sombrio. não nos ensinam a viver isto. como se pode viver a morte? não ensinam isto na primária, liceu ou universidade. aprende-se sim na conversa de amigos pela noite fora ou nas palavras guardadas em pequenos tesouros prontos a desembrulhar numa insónia. aprende-se com o tempo. com o aproximar da morte. quando se percebe que temos que guardar o que os que foram nos deixam: o melhor da vida é mesmo isso, viver.

9. VIDA. e não falo dos nascimentos que não vi. falo apenas da vida que está em tudo o que disse atrás, do editar à história, do ignite à viagem, dos amigos à condução, do transformar a morte em vida. e é tão simples, e é tão fácil como pegar num cliché e dizer que no fundo tudo se resume ao...

10. AMOR. eu que em dois mil e dez conheci o "r" e o "a" como nunca. vi o fim de algo que é suposto não ter limites. eu que vi o principio do amanhã já hoje. vi a ruptura e o apaixonar. o fim e o inicio como um ciclo. de vida. da minha vida, que é tal e qual como a história de uma qualquer outra vida por escrever. venha o papel e a caneta...

Confession

Waiting for death
like a cat
that will jump on the
bed


I am so very sorry for
my wife


she will see this
stiff
white
body


shake it once, then
maybe
again:


“Hank!”


Hank won’t
answer.


it’s not my death that
worries me, it’s my wife
left with this
pile of
nothing.


I want to
let her know
though
that all the nights
sleeping
beside her


even the useless
arguments
were things
ever splendid


and the hard
words
I ever feared to
say
can now be
said:


I love
you. 

Charles Bukowski

"it's the economy, stupid"

via Bandeira ao vento

As mulheres de Cavaco

No debate com Defensor Moura - em que o actual presidente, sem estar protegido por discursos escritos, demonstrou até onde pode ir a sua arrogância -, coube a Cavaco Silva o minuto final. Dedicou-o às mulheres, que nesta quadra festiva estão em destaque. Não fosse a virgem Maria modelo para todas as senhoras sérias e a família o centro das suas vidas.

Ao falar às mulheres, Cavaco fez-lhes um elogio. Pela sua participação cívica na vida em comunidade ? Não. Pelo papel crescente que vão tendo nas empresas, na Academia, na cultura, na política? Menos ainda. O elogio foi para as mães, esposas e donas de casa. Por cuidarem das crianças e fazerem milagres com o apertado orçamento familiar.

Quando Cavaco Silva fala o tempo anda para trás. Revela-se o líder paternal, que trata, com a serenidade dos homens ponderados, das coisas do Estado. Vigilante, protege-nos dos excessos. Nunca debate, porque o debate poderia dar a ideia de que ele navega nas águas sujas da polémica democrática. Ele é o consenso. Apesar de tudo o que sabemos, representa a honestidade no seu estado mais virginal. E para ser mais honesto do que ele qualquer um teria de nascer duas vezes e, supõe-se, duas vezes escolher Dias Loureiro como seu principal conselheiro político. A cada acusação responde sem resposta, porque ele está acima da crítica. A crítica a Cavaco é, ela própria, uma afronta à Pátria.

Mas o tempo volta para trás não apenas no olhar que tem de si próprio, mas no olhar que tem do País. Nesse País está, no centro de tudo, a família. E no centro da família está a mulher. Não a mulher que tem uma vida profissional relevante e é uma cidadã activa e empenhada. Mas a esposa e a mãe. É ela - quem mais? - que cuida dos filhos e gere as finanças domésticas.

Cavaco Silva não se engana. Esse país modesto e obediente - onde o chefe de família confia no líder que trata das finanças da Nação e na mulher ponderada que trata das finanças da casa - ainda existe. Ao lado de um outro, feito por uma geração que nasceu numa democracia cosmopolita. Onde os cidadãos têm sentido crítico e as mulheres têm vida fora do lar. Onde os homens também cumprem o seu papel nas coisas comezinhas da educação dos filhos e a gestão da economia doméstica também é obrigação sua. Onde os cidadãos não pocuram homens providenciais que os protejam do Mundo. O problema de Cavaco não é viver divorciado do País real. É haver uma parte desse país que lhe escapa.

Cavaco Silva recorda o que fomos: provincianos, medrosos, conservadores, ordeiros. E nós, como todos os povos, carregamos no que somos um pouco do nosso passado. O cavaquismo representa um Portugal que demora a dar-se por vencido. É o último estertor do nosso atraso. E o seu último minuto teve aquele cheiro insuportável a nefetalina. Aos mais velhos, que o reconhecem, dá segurança. Aos mais novos, a quem diz tão pouco, parece tão inofensivo como um avô que vem de outro tempo.

Há quem ache que Cavaco não é de direita. Engana-se. Cavaco é a única direita que realmente existe em Portugal: conservadora, tacanha, provinciana, caridosa e estatista. A outra, liberal, cosmopolita e tão pouco latina, se não se adaptar terá de esperar muito tempo pela sua vez. Passos Coelho, que representa tudo o que Cavaco despreza, irá descobri-lo muito mais cedo do que julga.

Daniel Oliveira, publicado no Expresso Online, via Arrastão

nota: não podia deixar passar este post por nada na vida. ele é brutalmente verdadeiro e infelizmente realista!

you are a lover

«It's not a shame nor a glory, just a romantic tale.»


Tracey Thorn

"black swan" ou um cisne das penas muito brancas

Pode a análise de um filme falar sobretudo de outros filmes? Pode um filme elogiado transversalmente - das listas populares e "popularuchas" aos críticos afamados -, deixar-me com um sentimento de desilusão? Pode um cisne preto ser mais branco que outra coisa?
Primeiro aspecto a realçar, Black Swan está já e vai ganhar ainda inúmeros prémios. Óscares incluído. É uma película evidentemente acessível para o grande público, tem uma envolvente banda sonora, alguns bons planos. Tem tudo para ser um dos filmes do ano. Contudo...

Sexto Sentido, Clube de Combate, A Mosca, ou O Exorcista pareceram-me estar ali como referência, e isso não é obrigatoriamente bom. "Ah, afinal era tudo falso." ou "Era tudo na cabeça dela, quem diria?" é um volte-face fascinante, mas previsível desde o Clube de Combate ou do Perdidos. Depois, confesso que aqueles efeitos especiais pareceram-me quase sempre muito "manhosos". OK, era a loucura da menina mas mesmo assim... Mesmo assim aqueles trinta segundos em que saem penas das costas da Nina parecem apenas A Mosca dos tempos modernos, e pouco depois a torção total da tíbia é tão verossímil e importante para todo o enredo como o virar de cabeça e vomitar no Exorcista.

Mas, há sobretudo um filme que esteve nas "entrelinhas" o tempo todo, A Pianista de M. Haneke. Antes de mais, ambos têm como personagens principais artistas solitárias. Pianista e Bailarina. A busca da perfeição é o único objectivo de ambas e, todavia, como é dito logo no início deste filme "Perfection is not just about control, it's also about letting go." Os dois filmes apresentam também duas mães, cada uma à sua maneira. Obsessivas, controladoras e amargas, elas são apesar de tudo o pé na terra das duas artistas "sonhadoras". Dois homens, esses sim bastante diferentes, marcam ainda o enredo. E neste caso confesso que tenho que assumir que tanto o papel como o actor (Vicent Cassel) são muito mais importantes para a trama e, sobretudo, para o desenlace. O terceiro personagem em comum entre os dois filmes é o "sexo" ou a tensão sexual. Ele será até, muito provavelmente, um catalisador tão importante na história como a procura de perfeição de bailarina e artista.

Confesso que fiz esta análise demasiado a quente. Não deixei respirar, nem pousar o filme. Mal pensei as cenas, as interpretações, a outra vida do filme. E, após ter explicado este pormenor, termino com algumas considerações: a música de Schubert é mais envolvente e quase demente do que Tchaikovsky; Portman é bem mais bonita do que Hubert, mas ainda é menos actriz; Haneke mostrou uma loucura mais psicológica, doentia até, do que a demência demasiado visual e visível de Aronofsky, e tal como Hitchcock dizia: o mais assustador é o que não se vê. Em conclusão, sinto em Black Swan um sabor a quase. Quase um grande filme. Quase uma interpretação memorável. Quase... Diria mesmo que a este Cisne falta evidentemente um golpe de asa.

terça-feira, dezembro 28, 2010

um apontamento (a dois tempos) sobre o reconhecimento

E quando o reconhecimento chega cedo? Hoje ao almoço (nem tarde, nem cedo) falava-se do caso de um autor que está em vida, ainda mais atendendo ao facto de em anos de autor (porque deve existir uma tabela semelhante à dos cães), a ter sucesso, reconhecimento, e prémios, bem cedo. Explicações? Falou-se numa das principais característica  definidoras da modernidade, que é esta rede onde todos vivem e partilham. Tudo. Além disso é também possível uma maior divulgação da(s) obra(s) dos artistas. Apontou-se o facto de alguns autores terem "redes de simpatia" já montadas. Talvez seja tudo isso...

Mais tarde, mas ainda cedo, e enquanto lia outras coisas e pensava noutras ainda, veio-me uma potencial resposta. O reconhecimento chega hoje mais cedo porque há um crivo maior. Paradoxo? Talvez. Mas a verdade é que há hoje mais leitores bons e maus - e não estou aqui para discutir a história da galinha e do ovo e de não haver bons ou maus leitores -, mas há também mais críticos. E mais editores. E os editores lêem mais hoje. Melhor e pior, certamente, mas lêem mais. Nem por acaso no bibliotecário de babel foi colocada hoje à tarde uma citação de Samuel Johnson, que reza assim: «The greatest part of a writer’s time is spent reading. In order to write, a man will turn over half a library to make one book.» Pois com o editor não é muito diferente. ou seja tem que ler muito. Gasta (ou ganha) muito tempo. E onde quero chegar com isto? O crivo é hoje mais apertado, mas é também mais fidedigno, excepção feita aos críticos que se deixam levar por modas ou interesses como Sílvia Chicó refere no seu artigo. Creio que podemos olhar para os críticos e editores como sendo a materialização física do tempo. São relógios, ou calendários, ambulantes. E não estou de todo a ser depreciativo. Um bom editor ganhou tempo em vida, como que chegou mais cedo às certezas do crivo do tempo. Mas claro que isto é só uma tese...

domingo, dezembro 26, 2010

Identidade


Preciso ser um outro
para ser eu mesmo

Sou grão de rocha
Sou o vento que a desgasta

Sou pólen sem insecto

Sou areia sustentando
o sexo das árvores

Existo onde me desconheço
aguardando pelo meu passado
ansiando a esperança do futuro

No mundo que combato morro
no mundo por que luto nasço


Mia Couto in Raiz de Orvalho e Outros Poemas

PROJECTO10 - #10 Reconhecimento



Imagens do cemitério de La Recoleta em Buenos Aires, Argentina.

Realização e Montagem: João Manso
Imagem e Direcção de Fotografia: Armanda Claro
Áudio: Zé Pedro Alfaiate

25.XII.10

chega assim ao fim um dia daqueles que não devia ter fim. comes e bebes, sorrisos e risos, presentes e oferendas. foi ser e estar por um dia.
por fim a noite. fechada, como não podia deixar de ser, no bairro (do amor e da amizade).
e agora que me deito só penso neste dia que se aproxima do fim. ele é um projecto, ele é um ano. este dia é como um mundo inteiro num ano só. um ano que no fundo foram dez. o ano dez. o ano do projecto dez. amanhã o número dez. amanhã mais um fim. e desta vez com um sorriso sem fim.

quinta-feira, dezembro 23, 2010

sexta-feira, dezembro 17, 2010

as outras palavras

eu sei que a geometria das emoções e dos sentimentos segue regras desconhecidas e surpreendentemente variáveis.eu sei que ela é a incógnita na matemática elevada ao expoente do bater do coração. mas confesso que não sei porque insisto usar régua e esquadro no amor.


eu poderia dizer que és o meu círculo de vida, embora não encontre nunca os cantos à casa do amor.eu poderia dizer que sou um quadrado amassado pelas angústias, as reais e as imaginárias. eu poderia mesmo dizer que vivo constantemente dentro de um triângulo, que nem precisa de ser amoroso para ser complicado e enigmático.

por vezes sinto que recrio e mesclo o Inferno de Dante com o Estrangeiro de Camus. e vejo as últimas noites na tua cama, onde já fui tão feliz, como viagens ao(s) Inferno(s). foram trajectos com vários níveis de dor, de tristeza, de emoções. sabes, talvez sejam mesmo nove os momentos que definem o nosso distanciamento. nove como a palavra Separação lida letra a letra. nove como se Disjunção fosse agora a rima-mãe do nosso amor.

palavras com silêncio dentro

gosto tanto de palavras, mas,
se calhar não peso nunca o valor que elas têm na vida dos outros.
minto. muito.
vivo vidas criadas mesmo ao jeito de sonhar.
só não minto no que sinto.
e sinto muito, mesmo o que não consigo dar palavras.
e se assim chego aqui. ao nada. vazio. ao silêncio pleno.
aqui à derrota num campo de batalha sempre imprevisto.
não ganhei nada. perdi tudo.
e agora?

quinta-feira, dezembro 16, 2010

Guta Naki


no Toca e Foge

nota: Os Guta Naki apresentam hoje o seu primeiro álbum às 21h30 no Nimas.

um adeus com um sorriso


"Culturismo" por Herman José in Herman Enciclopédia

terça-feira, dezembro 14, 2010

momento Kit-Kat

by Quino

As tarefas

(Redacção de uma rapariga de nome Maria Adélia nascida no Carvalhal e educada num asilo religioso em Beja)

Há muitas espécies de tarefas e cada pessoa tem que cumprir a sua tarefa. As tarefas dividem-se em duas espécies: as tarefas do homem e as tarefas da mulher. As tarefas do homem são aquelas da coragem, da força e do mando. Quer dizer: serem presidentes, generais, serem padres, soldados, caçadores, serem toureiros, serem futebolistas e juízes, etc., etc. Ao homem deu Deus nosso Senhor a tarefa de velar e mandar, que até Jesus Cristo foi homem e Deus escolheu ter filho e não filha para morrer neste mundo em desconto dos nossos pecados que são muitos e na hora da morte disse «Pai perdoa-lhes que eles não sabem o que fazem». Deste modo são os homens que organizam as guerras para tirarem o mundo da perdição e do pecado (por exemplo: as cruzadas), combatendo para salvar a Pátria e defender assim as mulheres, as crianças e os velhos.

Depois há as tarefas das mulheres, que acima de todas está a de ter filhos, guardá-los e tratá-los nas doenças, dar-lhes a educação em casa e o carinho; é também tarefa da mulher ser professora e mais coisas, tal como costureira, cabeleireira, criada, enfermeira. Há também mulheres médicas, engenheiras, advogadas, etc., mas o meu pai diz que é melhor a gente não se fiar nelas que as mulheres foram feitas para a vida da casa, que é uma tarefa muito bonita e dá muito gosto ter tudo limpo e arrumado para quando chegar o nosso marido ele poder descansar do trabalho do dia que foi tanto, a fim de arranjar dinheiro para nos sustentar e aos filhos.

Como a vida está muito cara e ninguém pode com ela, diz a minha mãe que a mulher tem de trabalhar para ajudar o marido, mas eu cá não gostava nada de ter de ajudar o meu marido e só hei-de casar com um homem rico que me possa dar vestidos e automóvel, ir ao cinema, ter duas criadas e a minha mãe diz-me, filha fazes tu muito bem pensar assim, não cases com um pelintra como o teu pai, que o ordenado que ele ganha não dá para as faltas: desterrou-se a gente para estas terras porque ele é mesmo apalermado, mas é teu pai tens que lhe guardar respeito. Desterrou-se a gente e aqui só se comermos as pedras que o chão dá e eu estou neste asilo. Na terra da minha mãe sempre havia o meu avô que ajudava e lá a terra bota mais coisas das suas entranhas para matar a fome. Mas o meu pai resolveu-se a vir para estas bandas, de pedreiro, e como uma das tarefas da mulher é obedecer ao homem, assim fez minha mãe, que o que nos vale é ela ir a dias a casa da fidalga, parente de outra fidalga que teve uma filha aqui no convento, que uma das tarefas das mulheres, dantes, era ir para o convento e ainda hoje será, mas agora nem sempre vai obrigada. Diz o senhor prior que é uma vocação mas eu não sei o que isso quer dizer e ponho tarefa que é mais bonito. Ainda outro dia a fidalga me perguntou se eu não queria ir para freira (na família dela têm a mania de irem para freiras) e eu respondi muito obrigada e fiquei calada a olhar para o chão como a minha mãe me ensinou, ela disse que engraçadinha e fez-me uma festa na cabeça e eu vi os anéis que ela trazia nos dedos, a brilharem. Anéis com pedras lindas e pensei que fidalga deveria ser uma tarefa para as mulheres: então eu queria ser fidalga e beijei a mão da fidalga assim de repente, só para sentir na boca os anéis e ela julgou que fosse por mor dela e disse coitadinha e deu-me cinco escudos, mas quando eu queria ir à tenda comprar rebuçados a minha mãe tirou-me o dinheiro enquanto gritava não sejas gastadeira rapariga, que isso sempre dá para trazer um pouco de arroz e batatas, e eu lhos dei porque os filhos igualmente têm as suas tarefas e uma delas é obedecer aos pais, mas pensei que nunca mais lhe contava nada da minha vida nem lhe mostrava nada que me dessem: cada um governa-se e a gente nesta vida tem de ter a tarefa de ser esperta, e uma das tarefas da mulher é disfarçar, que bem vejo a minha mãe com o meu pai. Uma vez até me disse: filha, olha que a mulher tem de usar muita manha para conseguir o que quer, pois como somos mais fracas, o homem faz da gente gato-sapato e esse é o que é dado. Mas a gente tem de se defender. Outra das tarefas da mulher, então, será ter manha.

É preciso não se cair em tentação, diz o Senhor Prior, eu cá não percebo nada dessas coisas e só sei que quando for grande nunca hei-de ser uma desgraçada tal a minha mãe, sempre a limpar as porcarias que o meu pai e a fidalga fazem. Pelo menos a fidalga sempre nos vai dando uns fatozitos velhos e uns restos de comida em vez de os deitar no caixote. Que também há as tarefas dos pobres e as tarefas dos ricos. Uma das tarefas dos ricos será serem caridosos e a dos pobres pedir e aceitar o que lhes dão mostrando-se muito agradecidos.

O mundo sempre foi assim, prega o Senhor Prior, uns com tudo outros sem nada, é essa a vontade de Deus; concerteza porque ele nunca teve fome como nós, mas o Senhor Prior respondeu que para se ir para o céu depois de morto é preciso ser-se pobre e os ricos não vão para o céu, e contou uma história de um camelo que entrava pelo fundo de uma agulha e eu por achar graça, deitei a rir de tal maneira que ele me pôs logo de castigo. Que uma das tarefas das crianças é estarem de castigo, tal como uma das tarefas das pessoas grandes é castigarem as crianças por via de que elas aprendam a gostar de castigar pessoas; que castigar é uma tarefa bastante usada e precisa para a vida.

Ainda a semana passada o patrão do meu pai o castigou por ele estar a dizer aos que trabalhavam com ele, que deviam pedir mais dinheiro que aquele não era nenhum para demanda da comida e a casa que se tem de pagar. E o patrão do meu pai deixou o meu pai sem trabalho uma semana em que só eu comi, por assim dizer, por via de estar no asilo que só lá não durmo.

E a minha mãe fartou-se de moer o meu pai com palavras e choros, homem não te metas nestas coisas, olha o resultado que dá, a gente aqui a morrer de fome e os outros de barriga cheia, que o patrão não os castigou mas só a ti que eras o das ideias.

Que uma das tarefas dos patrões é a de castigar os empregados, e a tarefa dos empregados é a de trabalhar para os patrões a fim de estes ficarem mais ricos e mais patrões. Talvez eu um dia case com um patrão.

A verdade é que isso não quer dizer nada, pois quando o meu pai vem bêbedo e bate na minha mãe, grita: aqui eu é que sou o patrão. E ela cala-se e põe-se a chorar baixinho.

E pronto, vou acabar, pois não podia dizer todas as tarefas que há no mundo, se não estava a vida inteira a escrever. Só gostava de falar de mais uma tarefa que é a da mulher de má vida. E eu ainda não percebi o que seja isso da má vida, pois má vida tem a minha mãe e todas as mulheres como ela.

Prega o Senhor Prior ser tal coisa grande pecado e qualquer mulher que tenha essa tarefa vai para o inferno...

Diz o Senhor Prior que uma das tarefas da mulher é ser virtuosa, e eu embora também não perceba o que seja ser virtuosa, imagino que não deve dar nenhum arranjo.

Gosto muito das tarefas.

Maria Adélia

20/6/71

Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta, Maria Velho da Costa in NOVAS CARTAS PORTUGUESAS, Dom Quixote, 2010

quarta-feira, dezembro 08, 2010

segunda-feira, dezembro 06, 2010

é oficial...

desde que apanhei a minha última overdose de Gonçalo M. Tavares que não consigo escrever uma frase. simplesmente perdi a vontade de "competir" neste campeonato. sinto-me a ir a jogo tal e qual o sporting com a sua intransponível distância para o primeiro classificado.

11 aforismos de Marcello Duarte Mathias

Enaltecem-lhe o silêncio e esquecem-se de que ele é mudo…

***

É próprio da filosofia dos cobardes julgar que todos têm medo.

***

A diagonal é a linha recta dos Portugueses.

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Ler – criação passiva.

***

Gasta-se uma vida inteira a corrigir um erro de trajectória.

***

Ser excessivo é a minha maneira de ser sincero.

***

Da frustração nasce a vingança, que é outra frustração.

***

Para o verdadeiro aristocrata, a nobreza não estará na guilhotina?

***

Já não há profetas. Há futurólogos que se enganam.

***

Morreu amnésico. Cego no meio da escuridão.

***

A aprendizagem da morte é uma convalescença ao contrário.

[in Brevíssimo Inventário, D. Quixote, 2010]

via Bibliotecário de Babel, e com algum atraso...

i like birds...


Pigeon: mission Impossible