terça-feira, novembro 30, 2010

Fernando Pessoa (13/06/1888 - 30/11/1935)

L. do D.

Enrolar o mundo à volta dos nossos dedos, como um fio ou uma fita com que brinque uma mulher que sonha à janela.
Resume-se tudo enfim em procurar sentir o tédio de modo que ele não doa.
Seria interessante poder ser dois reis ao mesmo tempo (: ser não a uma alma de eles dois, mas as duas almas).

Livro do Desassossego por Bernardo Soares
 
 
excerto via Arquivo Pessoa

neste dia

Neste dia cinzento
procuro um verso
e não encontro
não tem importância.

Adília Lopes in Apanhar Ar

sexta-feira, novembro 26, 2010

josé e pilar


ou como fazer um belo retrato em movimento do amor e da literatura. uma pérola a não perder...

Além do documentário exibido originalmente no DocLisboa, e já em circuito comercial, recomenda-se também a leitura da entrevista ao realizado Miguel Gonçalves Mendes no suplemento Ipsilon.

"José e Pilar": uma história de amor entre um português melancólico e uma intempestiva andaluza. Mas é também, diz-nos o realizador Miguel Gonçalves Mendes, um espelho que nos confronta, espectadores, portugueses"

Há um momento, e não é longe do início de "Pilar e José", em que o filme parece logo coisa ganha: quando a angústia do escritor Saramago perante a página em branco - cliché na nossa cabeça - se transforma numa batalha lúdica do jogador Saramago com a paciência - o jogo da... O que Miguel Gonçalves Mendes, 32 anos, revela aí é a determinação de construir uma cena como numa ficção. Isso vai tendo oportunidade de se mostrar ao longo do documentário, através da ironia, da cumplicidade e da admiração perante as personagens José e Pilar. E também esculpindo na montagem um espelho que nos confronta, espectadores, portugueses.

Um dos primeiros planos do filme é hoje estranho: José Saramago diz "Pilar, encontramo-nos num outro sítio". Parece um plano do "lado de lá". Em que momento da rodagem esse plano aconteceu? E tem um sentimento diferente hoje, quando sabemos que Saramago morreu?

Acho que o sentimento da altura e o de hoje é o mesmo. A temática da morte interessa-me muito. É uma obsessão que tenho de resolver. Claro que no caso do José a contagem descrescente estava lá, era um problema efectivo.

O que lhe propus foi a coisa mais idiota: "José, imagine que acontece um cataclismo, o que é que dizia à Pilar como última mensagem?" E ele disse aquilo...

quarta-feira, novembro 24, 2010

pouco depois da meia-noite

seria pouco depois da meia-noite.
lembro-me instintivamente do frio que me gelava
os dedos.
sei que rodavas em torno de ti mesma
e das folhas que sobravam entre roupas nuas
e sapatos sem mais caminhadas por fazer.
faltava uma lua
por entre os cortinados da tua mãe
e eu só pedia um candeeiro a óleo.
esperava ansiosamente por um incêndio
bonito
que tornasse infernal
esta noite de sonho.
era tão cedo, sabes.
não estou ainda habituado a enrolar os dias
em tão pequena manta de momentos.

terça-feira, novembro 23, 2010

os laços

in Kalandraka

amitié amoureuse

Os Franceses chamam amitié amoureuse a um sentimento diferente da amizade comum, mais profundo, mais íntimo, mais delicado. Por vezes transforma-se em amor; outras não. Era isso que eu esperava construir. Não te pedia amor. Nunca o faria; o amor nasce ou não. A felicidade que gera é tamanha que intimida, traz consigo uma sensação de pequenez. A obsessão conduz ao amor, mas nem sempre.


Miguel Urbano Rodrigues, Alva

# 9 - ANOS 90 - já online


Realização e Montagem: João Manso
Imagem e Direcção de Fotografia: Armanda Claro
Áudio: Zé Pedro Alfaiate


A revista folheada é a edição de Setembro de 1991 da Revista K.

esperança

by Banksy

Tão fiel que te fui a vida inteira,

E deixas-me na hora da verdade!
Eras a minha própria liberdade,
O meu anjo-da-guarda vigilante.
E quando, confiante,
A namorar o mundo na paisagem
E a ver em cada verso a tua imagem
Sorridente,
Eu porfiava em alcançar a meta
Do longo e penitente
Caminho de poeta
A que fui condenado,
Sinto-me de repente
Abandonado.
Sem a razão
De ter inspiração,
Traído,
Desmentido
E desesperado.

Miguel Torga

segunda-feira, novembro 22, 2010

O que vou aprendendo

1. Usa adversativas apenas em caso de extrema necessidade.

2. As cacofonias só se apanham lendo em voz alta ou no dia seguinte.

3. Os advérbios de modo estão para a literatura com o pré-fabricado para a arquitectura. Em todo o caso, nunca escrevas "basicamente" e pensa que "essencialmente" implica um requerimento.

4. Os tripletos (adjectivos) de Conrad eram de Conrad.

5. O "E" depois do ponto final acelera o texto; convém deixá-lo próximo do fim do parágrafo.

6. Ninguém ainda inventou a mancha gráfica ideal para o diálogo, mas é improvável que sejas tu a fazê-lo.

7. Revê todas as concordâncias como se Manuela Ferreira Leite te tivesse sussurrado o texto ao ouvido.

8. Nunca escrevas uma palavra que acabaste de aprender, mas podes fazê-lo se entretanto vires alguém a usá-la.

9. Não tenhas remorsos por usar um dicionário de sinónimos, se a mesa estava mesmo assim tão manca.

10. A gramática nunca deve impedir-te de escrever, só de dar a ler.

11 [com AF]. Faz por te salvares, se tens a sensação de que há uma forte probabilidade de estares refém dos seguintes verbos: "fazer", "ter", "haver" e "estar".

12. A principal dificuldade de uma frase longa não é a pontuação, nem sequer a lógica das orações subordinadas, mas como evitar usar mais de um "que" entre dois pontos finais.

13. Polvilhar [ver comentário] o texto com o léxico das corporações obedece às regras da boa culinária; em regra, o do Direito salga e o da Medicina é adstringente.

14. Evita periodicamente os correctores ortográficos, pois não há melhor forma de aprender que passar vergonhas em público.

15. Assume sempre a inteira responsabilidade pelos erros ortográficos e nunca os equipares a gralhas.

16. Aponta num caderninho todas as palavras que desconheces.

17. Não percas o caderninho.

18. Evita fórmulas, como a piada da regra que se refere à regra anterior.

19. Deixa os tempos verbais para o fim, mas não te esqueças de os corrigir, pois o mais provável é estarem errados.

20. Resiste à insegurança de escrever os teus próprios neologismos em itálico.

21. Inventa um numerus clausus para os textos que tens a meio.

22. Evita psiquiatras e parceiros com ambições literárias.

23. Tudo o que se altera num ápice com um "find" e "replace" nunca definirá um estilo.

24. Não contornes as limitações gramaticais com expressões seguras mas que sabes não serem as ideais.

25. [com MV] As orações subordinadas tendem a insubordinar o leitor.

26. Não uses os parênteses e os travessões indiscriminadamente. Inventa um critério qualquer. Eu uso os parênteses para adicionar factos e os travessões para fazer um comentário, mas deves inventar o teu sistema. O que conta é a coerência, mesmo que decidas usar o travessão para tudo, excepto referências a um amor passado, que ficariam sempre entre parênteses, a lembrar um casulo.

27. Parafraseando Miguel Esteves Cardoso, as enumerações devem ser absolutamente sinceras. A honestidade não fica assegurada com o recurso a processos de escrita automática.

28. Um curso de solfejo e a prática de um instrumento são muito mais úteis do que um curso de escrita criativa. A Literatura é uma eterna adolescente rebelde, misteriosa e possivelmente estúpida, enquanto a Música é a sua irmã bem comportada, sem ponta de mistério, que vai de certeza entrar para Medicina. É esta chata que vale a pena estudar; a sua mana não dá uma boa sebenta, serve apenas para o convívio. Isto porque a Música simplificou muito melhor do que a Literatura as dimensões horizontal (melodia e ritmo) e vertical (harmonia), vivendo bem com a redução da sua transcendência a uma partitura e regras claras.

29. Nunca mintas a um revisor, por maior que seja o teu desejo de lhe dizer que ele não é apenas peça de uma complexa engrenagem assente no princípio da redundância.

30. A principal dificuldade da crónica não é o remate sonante, mas a sua justificação prévia.

31. A musa não deve ser mais do que uma lebre


via Ouriquense

sexta-feira, novembro 19, 2010

PROJECTO10 # 9 - anos 90

ou como o tempo volta para trás...

Realização e Montagem: João Manso
Imagem e Direcção de Fotografia: Armanda Claro
Áudio: Zé Pedro Alfaiate

quarta-feira, novembro 17, 2010

radiohead - japan tour - 2008


01:28:04 de radiohead num concerto muito bom...

Resguardo

Quero-te num poema.
Viva e transfigurada,
Sentada
No banco dum jardim
De versos outonais,
A ver nos horizontes irreais
Sumir-se o tempo, o burlador
Do amor,
Que diz que volta, mas não volta mais.


Miguel Torga, in Diários, 12 Setembro 1983

so sorry


Feist

terça-feira, novembro 16, 2010

Viático

Levarei um poema.

Não quero outra bagagem.
E com ele pagarei
A passagem
Na barca de Caronte.
Um poema que conte,
Sem contar,
O derradeiro olhar
Que der ao mundo.
Um soluço de luz, paralisado
No fundo
Da retina.
Um relance de pânico, cantado
Por quem já desde a infância o imagina.
 
Miguel Torga in Diários, Dom Quixote

segunda-feira, novembro 15, 2010

poison


Your Kid Sister
via Ostranie

bonito

coisas bonitas - uma faca apontada ao coração, a carne a rasgar-se e as entranhas revirando-se, o cheiro, antes do sabor, do vómito subindo pelo teu corpo, o coito interrompido, o jacto adiado, a faca a atingir o coração, borrado de merda por todos os poros, tão forte o choque em todo o corpo, tão forte a imagem que te esqueces, uma vez mais - coisas bonitas, pediam-te, coisas bonitas, pois. 

luís filipe cristóvão

i want to be forever young

via Gerry Canavan

about today



Today you were far away
and I didn't ask you why
What could I say
I was far away
You just walked away
and I just watched you
What could I say

How close am I to losing you

Tonight you just close your eyes
and I just watch you
slip away

How close am I to losing you

Hey, are you awake
Yeah I'm right here
Well can I ask you about today

How close am I to losing you
How close am I to losing

The National

domingo, novembro 14, 2010

[era assim o amor]

Era assim o amor de Neary por Miss Dwyer, que amava um tal de tenente-aviador Elliman, que amava uma tal Miss Farren de Ringsakiddy, que admirava apaixonadamente, e de longe, um tal Padre Fitt de Ballinclashet, que não podia, sem mentir, ocultar uma certa inclinação por uma tal Miss West de Passage, que amava Neary.
- O amor correspondido - continuou Neary - é um curto-circuito.
- Embora seja hediondo, não deixa de ter forma - disse Murphy.
- O amor que ergue os olhos - disse Neary - , martirizado; que implora a uma ponta de dedo mínimo, embebida em verniz da China, que venha refrescar-lhe a língua; você não sabe o que é um amor assim, Murphy, suponho eu.
- Para mi, é grego - disse Murphy.
- Por outras palavras - disse Neary, por outras palavras -, a mácula única e indivisível, brilhante, orgânica e compacta, que trespassa a noite tumultuosa da estimulação heterogénea.
- A mácula sem Cordeiro - respondeu Murphy.

Samuel Beckett in Murphy

sábado, novembro 13, 2010

Se estão mesmo interessados nisto, então a primeira coisa que devem querer saber é onde nasci, e como foi a porcaria da minha infância, o que faziam os meus pais e tudo antes de eu ter nascido, e toda essa treta estilo David Copperfield, mas não estou para aí virado, para dizer a verdade.

J. D. Salinger in À Espera no Centeio

agenda cultural

sexta-feira, novembro 12, 2010

cresci numa frase

só.
cresci numa frase, só.
eu que deixei as minhas raízes vingar nas páginas
dos livros de outros.
eu que alimentei o sol com as rimas de poetas
e
embebedei as palavras com as lágrimas dos infelizes.
e se não encontro a nossa resposta na tua biblioteca
é porque
não sei da frase original.
não sei mais da frase-pecado-original.
e só
me resta ler uma frase só. como eu.
só.

Aquiles

sempre te disse que era ténue a linha
entre o fracasso e a glória.

sempre te perguntei porque se lembram realmente dele?
pelos louros, pelo calcanhar,
ou apenas por ser o maior e mais belo guerreiro?

soube sempre que não sabias a resposta.
tu que nunca leste Homero, nunca viste Rubens, nunca ouviste Gluck, disseste sempre que não sabias a resposta.
sempre te compreendi.

hoje acabou o sempre. e, por isso, te sussurro uma breve coisa. escuta-a, pois, com atenção:
se hoje sou um refém do destino. se hoje sucumbo a Páris. se hoje revivo o pecado acidental de Tétis.
é porque hoje fico sem amanhã.

quinta-feira, novembro 11, 2010

janela

volto à janela as vezes que forem precisas. abro e fecho. escancaro-me sem receio.
volto à janela as vezes que forem precisas. espreito e não vejo. não vejo, não. onde está o relógio de cuco que te trará a mim.
volto à janela as vezes que forem precisas. até se tornar apenas mecânico este gesto de viver sem ti.
volto à janela as vezes que forem precisas. até me tornar a janela em si. sem amor. sem ti.

hoje sinto-me assim...


via Bookshelf Porn

terça-feira, novembro 09, 2010

do presente

«O homem só pode estar certo do momento presente. Mas será bem verdade? O presente, poderá ele verdadeiramente conhecê-lo? Será capaz de o julgar? Claro que não. Porque, como poderia conhecer o sentido do presente quem não conhece o futuro? Se não sabemos em direcção a que futuro o presente nos leva, como poderemos dizer que este presente é bom ou mau, que merece a nossa adesão, a nossa desconfiança ou o nosso ódio?»

Milan Kundera in Ignorância

segunda-feira, novembro 08, 2010

histórias de amor XXV

este é um dia cheio de armadilhas. o sol não se decide a ficar por aqui e a chuva não me molha a alma. nem sei mais se a tenho. se acredito nela. se ela não me traz nada e eu fico assim não sendo nada. nem sol, nem chuva. sou apenas um frio intenso.


este é um dia cheio de armadilhas. dia em que vejo e revejo as horas cheias de minutos vazios. onde as memórias do amanhã não estão na biblioteca comprada há uns anos no ikea. onde o teu perfume não escorre mais pelo teu pescoço sem fim.

onde estás? onde ficaste, afinal? em que paragem saíste tu? porque não houve mais uma manhã com o teu sorriso a beijar-me? lembro-me como se fosse amanhã do teu último beijo, e assim fecho os olhos e ponho a música mais alta. por favor, silencia-me a memória curva ao som de um mi sustenido de liszt.

este é mais um dia cheio de armadilhas. onde vejo o teu corpo caído no asfalto, tal e qual como no dia em que o teu corpo estendido naquela estrada me meteu por um atalho onde nunca quis virar. morte.

untitled


Keith Jarrett

um dia como os outros

hoje é apenas um dia como os outros. pelo que toda e qualquer semelhança com um dia diferente, não passa disso. uma semelhança. um dia como os outros. mas, então, porque insiste ele em parecer tão longo?

domingo, novembro 07, 2010

The Fosse


Wim Mertens

da pergunta que nunca encontrou uma resposta

onde está o adn do amor?, perguntava ele todas as manhãs. todas as manhãs. de todos os dias. dias.
e, contudo, não achava uma resposta. não achava a resposta. e por isso ele perguntava. e perguntava.

mas ele não desistia nunca e, entre um café, uma carcaça e um jornal, repetia a sua pergunta ao expoente da loucura.

o sr. carlos, do café, gracejava sobre o assunto com a sua mulher.
a dona luísa da padaria nem lhe respondia, preocupada que estava com as dores de costas da dona elisa.
o sr. francisco do quiosque mantinha-se em silêncio. sempre fora assim, não fazia sentido mudar agora.

até que um dia, entre a pressa de entrar para o comboio apressado e o chega para lá da manhã confusa, sentiu um olhar cruzar-se com o seu. foram apenas breves segundos, mas acompanharam-no todo o resto da viagem. um coração tinha agora cara. um sorriso forma. sabia agora que o adn do amor iria chegar no comboio das 8h20.

sábado, novembro 06, 2010

a sunny night... dressed in yellow for you

Rashin Kheirieh

A solidão é como uma chuva

A solidão é como uma chuva.

Ergue-se do mar ao encontro das noites;
de planícies distantes e remotas
sobe ao céu, que sempre a guarda.
E do céu tomba sobre a cidade.

Cai como chuva nas horas ambíguas,
quando todas as vielas se voltam para a manhã
e quando os corpos, que nada encontraram,
desiludidos e tristes se separam;
e quando aqueles que se odeiam
têm de dormir juntos na mesma cama:

então, a solidão vai com os rios...


Rainer Maria Rilke

As mulheres quando querem conseguem tudo

Disse ela: As mulheres quando querem conseguem tudo. Tudo.
Assentiu ele: Sim…
Disse ela: As mulheres são uma força, uma energia.
Admitiu ele: Sim…
Disse ela: As mulheres, quando se convencem disso, são capazes. Capazes.
E ele: Sim…
Prosseguiu ela: Capazes de tudo. Não há nada que não consigam.
E ele: Sim…
E ela: São fantásticas, as mulheres. Diz-me, tu que tens a mania de pôr defeitos em tudo, haverá alguma coisa que uma mulher não consiga?
E ele, muito baixinho: Fazer um homem feliz?…

Rui Zink

sexta-feira, novembro 05, 2010

sonhos

- Que significa tal sonho? - E eu lembro-me da cabeça de cão em pedra negra, inclinada sobre as águas que fazem e desfazem nós brancos durante dias e dias. É uma cabeça que parece perscrutar o movimento das águas escuras, a sua inútil força interior. Ei-la mergulhada na sua atenção de pedra, com aquele ar hieraticamente profundo das coisas sem alma. Como parece estar na posse de um interesse e de um pensamento! - Que significamos nós para os sonhos?

Herberto Helder

fiesta


The Pogues

Curso de Livro Infantil - 9 Novembro - Lisboa

Objectivos:

Este curso não é uma oficina de escrita nem está vocacionado para a formação do leitor e para as acções pedagógicas associadas à leitura. Pretende-se, sim, explorar o universo do livro infantil tomando-o como objecto total, privilegiando a componente literária, mas sem negligenciar outros campos, como a ilustração, a edição ou a sua evolução histórica. Será dado ênfase ao livro para crianças e não para adolescentes, que consideramos integrado numa lógica de funcionamento própria. Serão mostrados e trazidos à discussão dezenas de títulos, sejam portugueses, traduções ou originais noutras línguas. Estas escolhas reflectem o gosto pessoal e as idiossincrasias da formadora e não têm qualquer pretensão de exaustividade nem de doutrinação.

Público-alvo:

Estudantes de literatura, edição e educação; professores, bibliotecários e educadores; pais e outros mediadores da leitura junto das crianças; ilustradores; livreiros. Todos os que gostam de ler livros para crianças.

Formadora:

Carla Maia de Almeida é jornalista freelance, escritora e tradutora. Colaboradora regular da Notícias Magazine, entre outros meios, é actualmente responsável pela crítica e divulgação de livros para crianças na revista LER. Licenciada e pós-graduada em Comunicação Social pela Universidade Nova de Lisboa, tem uma pós-graduação em Livro Infantil pela Universidade Católica Portuguesa. Na Caminho, publicou O gato e a Rainha Só (ilustrações de Júlio Vanzeler, 2005), Não Quero Usar Óculos (ilustrações de André Letria, 2008) e Ainda Falta Muito? (ilustrações de Alex Gozblau, 2009). Em Outubro de 2010, será a primeira autora de livros para crianças a realizar uma residência artística no estrangeiro com o apoio da DGLB. Escreve sobre livros e não só no blogue O Jardim Assombrado.

(ver o resto)

via Blogtailors.

quarta-feira, novembro 03, 2010

"Nada, só vim ver beber."

Alguma coisa não bate certo
Ontem, fui ver ver o jogo do Benfica. Não fui ao estádio da Luz, pagando entre 12 e 75 euros por um lugar, nem me refastelei no sofá vendo a RTP-1. Em vez dessas soluções fáceis (e até baratas: na RTP-1, era de borla), decidi-me por um momento cultural, de metalinguagem, de linguagem que fala de linguagem. Então, sintonizei o Canal Benfica. O meu televisor mostrou-me dois tipos a relatar o jogo, atentos, eles, a um televisor que eu não via mas que lhes mostrava, a eles, o jogo. "Ao vivo e a cores", disse, do espectáculo, um deles. O que eu via no meu televisor era um cenário cinzento e parado, com duas caras olhando-me, mas se me garantiam felicidade feérica, como não acreditar? Os dois, a meio corpo, e o da minha esquerda com olhos alucinados - o que é inevitável em quem passa hora e meia a seguir e a narrar alto as peripécias rápidas de um jogo de futebol visto num televisor. O da direita só comentava, podia permitir-se um sorriso irónico. O Benfica ganhou 4-3, depois de ter estado a ganhar 4-0, o que levou o relator a dizer: "Isto é, diria eu, inacreditável." Inacreditável, a palavra foi dita. No fim do jogo, desci ao bar da esquina. "O que toma?", perguntou-me o empregado. Respondi: "Nada, só vim ver beber." Amanhã vou propor ao Benfica o Canal Benfica 2. Basicamente será eu, filmado a meio corpo e de frente, no meu sofá, a dizer que estou a ver o Canal Benfica. 

Ferreira Fernandes in DN