quarta-feira, agosto 18, 2010

[Uma tristeza de crepúsculo]

L. do D.


Uma tristeza de crepúsculo, feita de cansaços e de renúncias falsas, um tédio de sentir qualquer coisa, uma dor como de um soluço parado ou de uma verdade obtida. Desenrola-se-me na alma desatenta esta paisagem de abdicações - áleas de gestos abandonados, canteiros altos de sonhos nem sequer bem sonhados, inconsequências, como muros de buxo dividindo caminhos vazios, suposições, como velhos tanques sem repuxo vivo, tudo se emaranha e se visualiza pobre no desalinho triste das minhas sensações confusas.


Livro do Desassossego. Vol.I. Fernando Pessoa. (Organização e fixação de inéditos de Teresa Sobral Cunha.) Coimbra: Presença, 1990. - 90. via Arquivo Pessoa

Od Ah Ehad (One More Brother)


by Hadag Nahash

here

i'm here. quando não tiveres mais força para segurares a porta. estou aqui. quando não conseguires mais subir as escadas. je suis ici. quando perderes esse sorriso tão teu. estarei aqui.

sábado, agosto 14, 2010

O mundo decadente do dr. Pacheco Pereira

O dr. Pacheco Pereira decidiu fazer na revista Sábado um conjunto de comentários sobre a criação artística contemporânea em Portugal. O teor dos comentários indicava essa obsessão que o político tem por controlar tudo o que aparece no espaço público e revelava nos mesmos comentários que o seu mundo de referências culturais para a arte é um mundo decadente. O dr. Pacheco Pereira, que é o político que mais espaço ocupa na comunicação social, tem um desejo incontido de querer arregimentar o país. O dr. Pacheco Pereira quer arregimentar a relação dos jornalistas com os políticos (lembramo-nos todos do triste episódio quando, enquanto líder da bancada do PSD, quis impor normas de acesso dos jornalistas aos deputados da AR), quer impor quais são os bons e os maus jornais, quer decidir quais as boas e as más notícias. No programa que tem na SIC, supostamente sobre comunicação social, é constrangedor ouvir o elevado número de lugares- comuns que profere sobre jornalismo, sem apresentar qualquer fundamentação teórica, quer dos cânones das ciências da comunicação, quer das teorias mais recentes sobre comunicação em espaço público. Muito recentemente, o dr. Pacheco Pereira achou que também tinha algo a dizer sobre como arregimentar as artes em Portugal, em particular sobre todas as actividades artísticas que não conhece. E porquê? Porque se considera a si próprio um legislador de poéticas possíveis e autor de expressões que acha que são de um enorme contributo para a vida intelectual portuguesa, como esse exemplo de uma finura invulgar que é a palavra "culturalês", que ele criou para aplicar à linguagem utilizada por artistas. E vai daí, e do lugar da sua decadência cultural, tratar de opinar sobre o discurso das artes performativas em Portugal.

Ao comentar como comentou um conjunto de grupos e de espectáculos o dr. Pacheco Pereira demonstrou o desconhecimento que manifesta em tudo o que diz respeito à cultura e à arte contemporâneas. Pese embora não ver os espectáculos sobre cujos anúncios e o conteúdo se pronuncia, e pese embora, como o afirmou, ver filmes em casa, em DVD, do mesmo modo que alguém pode dizer que viu a Gioconda num calendário, o dr. Pacheco desta vez decidiu investir contra os artistas portugueses, porque não entende como estes possam ser subsidiados pelo Estado e pelos contribuintes, quando ele acha ridícula a linguagem por estes utilizada. O dr. Pacheco Pereira, que parece desconhecer que nos países da União Europeia, no Canadá e nos EUA a maioria das actividades produtivas são subsidiadas das mais diversas formas: da agricultura à investigação científica. É um defensor dos mercados, desde que estes se comportem conforme ao seu mundo próprio, mas de facto nada sabe do mercado das artes, nem de subsídios como estratégias possíveis de criação na formação, nem de outras formas de investimento na criação de massa crítica. No seu mundo decadente os artistas e as personagens históricas nascem já como génios ou como personagens históricas, não experimentam, não falham, não erram, não persistem. A ignorância do dr. Pacheco Pereira é grande no que diz respeito às artes contemporâneas e à evolução que as suas múltiplas formas têm tomado desde as vanguardas da década de 1970. E por isso estranha que se conceba e realize um espectáculo para cinco pessoas. Há espectáculos para cinco, para um, para dez ou para centenas de espectadores e não é pela quantidade de público que se determina a sua qualidade, nem tão-pouco há uma relação directa entre custo e qualidade. O dr. Pacheco Pereira deveria saber que a arte exige um pensamento sofisticado e que, a pronunciar-se sobre ela, deveria ter estudado, visto, investigado. Talvez, se tivesse lido alguns textos de Hal Foster, Didier-Huberman, Jacques Rancière, Giorgio Agamben, Penny Phelan, Susan Foster, Homi K. Bhabha, André Lepecki, ou mesmo alguns de autores mais antigos, como algumas páginas de Crítica da Faculdade de Julgar, de Kant, no que diz respeito à autonomia da arte ou Organon de Brecht no que diz respeito aos heróis demasiado humanos, não tivesse proferido tão soberbas opiniões. Afinal, toda avaliação do dr. Pacheco Pereira sobre os artistas que fazem arte contemporânea baseia-se em provas, em argumentação? Não, é apenas a sua opinião.

Quero com isto dizer que todos os artistas portugueses são bons e o que fazem é excelente? Não. Há alguns muito pouco interessantes e há obras que muitas vezes nos levam a lamentar o tempo passado a contemplá-las. Mas o contrário também é verdadeiro e bastante mais frequente: há artistas contemporâneos em Portugal a criar obras fantásticas, que alargam o mundo, que alargam a nossa percepção do mundo e nos transformam. E tal como na investigação em todos os ramos das ciências, na criação artística existem falhas, cometem-se erros e há tempo perdido, mas isso faz parte da natureza da produção contemporânea.

Este tipo de artigos, como o do dr. Pacheco Pereira, não é inocente. Antes prepara e condiciona a opinião pública, que já muito facilmente considera como desperdício os subsídios concedidos aos artistas, apresentando-os como portadores de uma linguagem cifrada, inspirando-se e criando sobre coisas materiais do quotidiano e não bélicas, que é o que entusiasma o dr. Pacheco Pereira. Mais uma vez, um pouco de estudo sobre a história da arte e ele perceberia que os quartos do hotel e o quotidiano de que falava o performer são matéria de trabalho artístico numa história que pode ser encontrada tanto em Bizâncio como nos infortúnios no cinema de Apiachtpong. Este tipo de artigos feitos a partir, de facto, de um lugar decadente, de um lugar sem esperança, são na sua falsa cautela com o erário público de uma enorme perversidade, pois servem de pretexto para retirar os subsídios aos artistas, porque supostamente o que estes produzem fica aquém dos mínimos. Será que o dr. Pacheco Pereira já se questionou se o que ganha, tal como os seus colegas deputados, e que representa duas vezes e meia mais do salário de um artista português das artes performativas a recibos verdes, pode parecer-nos excessivo, dado que aquilo que vemos produzir por si e pela grande maioria dos seus colegas nos parece ser absolutamente irrisório? Ao que nos é dado ver de fora da AR através dos jornais e da TV, porque havemos de continuar a subsidiar os senhores deputados que produzem pouco, que têm uma linguagem pobre, maioritariamente desprovidos de qualquer criatividade política? Não, não estamos já a diabolizar os políticos-deputados. Seria de uma enorme leviandade, pese embora que nos daria algum prazer imaginar que numa legislatura, apenas numa, como experiência, o orçamento da Assembleia da República fosse trocado pelo do Teatro S. Carlos e vice-versa. Um dos problemas dos artistas portugueses é o de muitas vezes não saberem comunicar. Sim, deveriam saber escrever bom português como todos os cidadãos, mas não é isso que se espera deles: espera-se mais, espera-se que sejam capazes de transmitir a singularidade da sua obra, e para isso há especialistas que o fazem e bem mas... custa dinheiro. E portanto são eles que o fazem; mal sim, e às vezes com uma dose de ligeireza que não é correcta, mas que deriva da enorme instabilidade financeira em que vivem na maioria dos casos. Mas imaginemos que o dr. Pacheco Pereira, nas suas aulas de história política, queria explicar o Lago dos Cisnes aos seus estudantes. Se tem recursos financeiros para isso contrata uma companhia de ballet para que os estudantes possam ver a obra a que se refere. Se não tem tais recursos, será ele próprio a interpretar o papel do Príncipe Sigfried e a ter de executar os vários entrechats, pirouettes, grands jetés à frente dos seus estudantes. Não me parece que a solução fosse mais feliz e mais convincente que a prosa do Miguel Bonneville sobre a sua performance [na foto] e que foi o alvo da grande crítica e indignação do historiador.

Não vivera o dr. Pacheco Pereira no seu mundo decadente e politicamente autocentrado e deveria admitir a sua enorme ignorância em muitas matérias, e em arte em especial, e então talvez começar por estudar, ler e voltar a estudar e depois ver espectáculos, e cinema, e ouvir música numa sala de concertos, e gostar ou desgostar, entusiasmar-se ou angustiar-se, emocionar-se, se ainda for capaz, e admitir a estranheza ou exaltar-se com a beleza que pode emergir no mundo de hoje, e então pronunciar-se. De outro modo tudo não passará de uma visão decadente sobre o mundo, revelando uma obscenidade preconceituosa contra a produção artística contemporânea.

António Pinto Ribeiro in Público 13 VIII 10

quinta-feira, agosto 12, 2010

na hora de arrumar as lembranças

hoje trouxe umas palavras comigo.
vou junta-las como naquele jogo que fazíamos quando eu era pequeno. tão pequeno.
eras tu, sempre altiva e distinta. e eu, intensamente sujo e perdido.
eram as manhãs de inverno que pareciam verão. e eras tu que enchias a rua com o teu longo cabelo louro, e esse teu perfume que me acompanhava dias inteiros. mesmo naqueles em que não saía do buraco e o sol era uma prestação que eu não podia pagar.
nunca soube da tua vida. nunca perguntei. queria mas não o fazia.
nunca soube porque paravas tu naquela esquina para jogar com um pequeno sem-abrigo.
nunca soube porque pensavas em mim, quando estavas longe daquela rua perdida.
dizias que tinhas tido saudades minhas, enquanto me fazias uma festa terna na cabeça.
foi o gesto mais próximo de amor que tive. e eu gostava.
pensei em ti. muito. em cada momento da minha vida. e hoje que arrumo as últimas palavras no caixote da vida, pergunto-me porque não voltaste mais a afagar-me a cabeça. sinto falta disso. sinto a tua falta. e, contudo já não sinto nada. é assim a vida da rua que tu nunca conheceste.

oldies...


Coffee & TV - BLUR

A gravação do rosto

Na superfície branca do deserto
na atmosfera ocre das distâncias
no verde breve da chuva de Novembro
deixei gravado meu rosto
minha mão
minha vontade e meu esperma;
prendi aos montes os gestos da entrega
cumpri as trajetórias do encontro
gravei nas águas a fúria da conquista
 da devolução do amor.

Os calcários e os granitos desta terra
foram por mim pesados.
Dei-lhes afagos
leves olhares
insônias longas
impacientes esperas.

O zinco dos telhados cobriu-me solidões
e esperanças que tu sabes.

Esperei por ti
Bordei-te flores nos canteiros do céu
abri-te valas, semeei-te milhos
pari colheitas de searas vãs
abri os dedos, semeei calhaus.

Espremi a terra e fiz-lhe água nascente
povoei prados de criaturas doces
ergui torres, girassóis gigantes
dei vida e morte, vi  nascer, morrer.

Aqui reinei, julguei, plantei videiras
caminhos, grutas de vestígios
colhi olhares de animais bravios
deixei aos dedos aladas liberdades.

Empilhei madrugadas de atenção
disparei molas, carabinas frias
de traição ao vento.
Combati silêncios, instalei trincheiras
de perdão. Recebi recados de mongólias vastas
acendi fogueiras
para sufocar o medo.

Aqui sonhei europas, verdes ásias
cidades de cristais, antárdidas caiadas
daqui refiz a lua de astronautas;
contei estrelas       colhi algumas
para dormir com elas.

Aqui ejaculei delírios verdes
que a madrugada insinua e vence.
Aqui colhi primícias de virgens escandinavas
e coroei outeiros e o meu sexo
com as suas tranças de ouro.

Saltei de monte em monte
e naveguei o ventre do deserto
assinalei o umbigo do mundo e plantei setas
apontando o sexo fundo da terra.
Beijei a carne universal e úmida de uma fêmea em cio,
menstruada.

Aqui me dei, aqui me fiz
desfiz, refiz amores.
Aqui me embebedei e vomitei o espanto.

Daqui abalo hoje, parido para o nada
apalpo a água
afago um bicho
ordeno qualquer coisa
 
e vou.
Ruy Duarte Carvalho (1941-2010)

conclusões sem resposta

tenho um jeito assim de odiar as pessoas. um repugnar presente que me torna ausente. um abandono de quereres. um inferno vivo.
e quando ao final do dia fecho a porta de casa com estrondo, não percebo ainda porque insisto em sair todas as manhãs cedo.

something to read about it


Bookshelf Sculptures by Mike Stilkey via Bookshelf Porn

A soldado desconhecida

Josefa, 21 anos, a viver com a mãe. Estudante de Engenharia Biomédica, trabalhadora de supermercado em part-time e bombeira voluntária. Acumulava trabalhos e não cargos - e essa pode ser uma primeira explicação para a não conhecermos. Afinal, um jovem daqueles que frequentamos nas revistas de consultório, arranja forma de chamar os holofotes. Se é futebolista, pinta o cabelo de cores impossíveis; se é cantora, mostra o futebolista com quem namora; e se quer ser mesmo importante, é mandatário de juventude. Não entra é na cabeça de uma jovem dispersar-se em ninharias acumuladas: um curso no Porto, caixeirinha em Santa Maria da Feira e bombeira de Verão. Daí não a conhecermos, à Josefa. Chegava-lhe, talvez, que um colega mais experiente dissesse dela: "Ela era das poucas pessoas com que um gajo sabia que podia contar nas piores alturas." Enfim, 15 minutos de fama só se ocorresse um azar... Aconteceu: anteontem, Josefa morreu em Monte Mêda, Gondomar, cercada das chamas dos outros que foi apagar de graça. A morte de uma jovem é sempre uma coisa tão enorme para os seus que, evidentemente, nem trato aqui. Interessa-me, na Josefa, relevar o que ela nos disse: que há miúdos de 21 anos que são estudantes e trabalhadores e bombeiros, sem nós sabermos. Como é possível, nos dias comuns e não de tragédia, não ouvirmos falar das Josefas que são o sal da nossa terra? 

Ferreira Fernandes in DN

Se inventasse alguma coisa, o que inventaria?

Eu não sou de inventar muitas coisas. O que eu faço mesmo é a minha poesia e isso é uma coisa que não depende de mim inteiramente. O poema não pode ser feito por decisão minha. Eu digo que a minha poesia nasce do espanto, de alguma coisa que me tira do equilíbrio do quotidiano. Se isso não ocorre, o poema não nasce. Se pudesse, escreveria poesia dia e noite, mas isso não é possível. As pessoas também sonhariam viver o amor a vida inteira, apaixonados, mas tudo são maravilhas que não acontecem como a gente quer. E a poesia também, o sonho a cada momento. Tomara eu estar naquele estado para escrever um novo poema, mas nunca sei qual é, porque é uma coisa que surge inesperadamente.

Ferreira Gullar in jornal i

Visita aos embaixadores da Lomografia

Natalie Zwillinger é uma jovem israelita na casa dos trinta anos. Há algum tempo, sentiu necessidade de revisitar as memórias da sua família, judeus que testemunharam de perto a acção das tropas alemãs, antes e durante a II Guerra Mundial. A busca que então encetou levou-a a um ponto, incontornável: Auschwitz. Até Setembro, Natalie apresenta as imagens, que recolheu na cidade polaca e depois sobrepôs com outros registos, na Embaixada Lomográfica de Lisboa.

'Fui investigar alguma da história da minha família, na Polónia e República Checa, e fotografei vários rolos nos campos de concentração', diz Natalie. Mais tarde, reutilizou os registos dessa viagem ao passado e fotografou imagens de momentos em família, celebrações religiosas em Israel, momentos do quotidiano.

Nova casa para a Embaixada
O espaço da Galeria é uma novidade. Há dez anos em Portugal, a nova Embaixada foi inaugurada no início do mês de Julho, depois de se mudarem do Bairro Alto para o número 15 da Rua da Assunção, em plena Baixa da cidade.
As embaixadoras portuguesas da Sociedade Lomográfica são Ana de Almeida e Sónia Galiza. Foram elas quem importou o fenómeno de Londres, depois de tomarem contacto a experiência lomográfica, quando viviam e trabalham na capital inglesa.
Entrando neste universo, que começa a estabelecer-se como espaço de culto para cerca de '30 a 40 mil' adeptos no país, como avança Márcio Barcelos, da Embaixada de Lisboa, há uma pergunta que vai pedindo esclarecimento: para uma actividade que se quer descontraída e divertida, porquê estas designações tão formais?
'Em Viena existe muito peso aristocrático, e, em jeito de ironia, quem criou a Sociedade Lomográfica ? que também tem um nome com peso ? decidiu que as lojas e representações noutros países seriam Embaixadas', explica Márcio Barcelos.

Lomografia: entrar no universo

E, na prática, o que é a Lomografia? Natalie Zwilinger responde: 'Eu costumo dizer que a Lomografia é como a Fotografia, mas com máquinas baratas'. De facto, as Lomo que encontramos nas prateleiras da Embaixada variam entre os 40 e os 60 euros, para as máquinas mais simples. Há outras que ascendem aos 200 euros, mas para quem dê os primeiros passos na arte, as 'Diana' (nome de um dos equipamentos com maior saída) são mais que suficientes.
Depois, é só uma questão de jogar com as especificidades de cada rolo fotográfico, trocar lentes e, como diz Márcio Barcelos, 'experimentar, experimentar, experimentar'. 'A ideia das máquinas lomográficas é que a própria máquina assume a responsabilidade de dar um resultado interessante à fotografia sem que a pessoa tenha de pensar muito', continua.
Mas Natalie faz outra interpretação desta que é uma das dez regras (bastantes informais) do lomógrafo. Para a artista, que descobriu a Lomografia numa loja em Nova Iorque, um pouco por acaso, há cerca de 10 anos, o 'não penses' deve ser interpretado na medida em que esta actividade não exige um conhecimento de máquinas fotográficas, de exposição ou de rolos. De facto, adianta, '99.9% das vezes, eu estou com o olho no visor da máquina. Se vir algo de que não gosto, não disparo'.
No final de contas, e mesmo prestando alguma atenção às regras, o que importa mesmo é divertir-se enquanto se registam os quadros quotidianos mais variados.

A era do digital

Há um ponto crítico, quando se fala deste regresso ao passado da fotografia. Depois da massificação da fotografia digital, como levar a cada pessoa a que se limite a um número ínfimo de disparos? 'Eu não vou pedir a ninguém para deitar a [máquina] digital fora, até porque eu tenho uma'. Natalie complementa, dizendo que o que se pede é que, ao contrário de uma primeira interpretação da máxima que apela à não reflexão, quem fotografa deve olhar para aquilo que está à sua frente e questionar o interesse daquilo que vê.
Porque, pensando bem: o rolo não é infinito.

in DN

sexta-feira, agosto 06, 2010

#6 - já online - vamos à ilha?


Realização e Montagem: João Manso
Imagem e Direcção de Fotografia: Armanda Claro
Áudio: Zé Pedro Alfaiate

Das 'concierges' ao 'ambassadeur'

De um embaixador para outro, uma história de nós. Há dias, o nosso embaixador em Paris contou no seu blogue ("Duas ou Três Coisas", de que já aqui falei) que num jantar social os convivas lhe diziam: "Ah, embaixador português! A minha concierge também é portuguesa..." Seixas da Costa orgulha-se da marca de profissionalismo com que as nossas porteiras se impuseram em Paris, mas a repetição da relação "Portugal-concierges" empurrou-o para uma boutade. Começou a contar uma história que logo prendeu a atenção da mesa fidalga. Disse que tinha dez funcionários na embaixada com a função exclusiva de interrogar as concierges portuguesas de Paris. Estas, sobretudo as dos bairros mais finos, relatavam os segredos do prédio... As senhoras e os cavalheiros começaram a ficar nervosos, suspeitando que o embaixador sabia deles mais do que devia. E só no fim do jantar Seixas da Costa revelou ser tudo brincadeira. Ontem, no blogue, ele lembrou o nome do novo embaixador francês em Lisboa: Teixeira da Silva (ver na pág. 9). Neto de um lenhador de Castelo de Paiva e filho de um garoto que chegou a Bordéus com seis anos... Teixeira da Silva, especialista em questões de intelligence, já deve saber que não pode contar com a porteiras francesas de Lisboa para aprender alguma coisa. Mas, graças à sua história familiar, já sabe mais de nós do que muita gente fina parisiense.


Ferreira Fernandes in DN

quinta-feira, agosto 05, 2010

sol ausente

está a acabar o dia e o tempo escorre pelo relógio abaixo.
já nem o sol me vislumbra na ponta da rua
porque acho mesmo que já não tenho tempo para o nosso amor.
sobra um meigo adeus no nosso café de sempre.
pede um chá fresco e eu uma cola com gelo e limão.
roubo-te o pedido, eu sei.
roubaste-me o coração, também sabes disso.

está a acabar o dia e ainda tenho tanto para caminhar nesta vida.
está a acabar o virar da página no jornal e eu já tenho os trocos contados para amanhã.
estão a acabar as palavras. a acabar.

PROJECTO10 #6 - ILHA


Realização e Montagem: João Manso
Imagem e Direcção de Fotografia: Armanda Claro
Áudio: Zé Pedro Alfaiate

domingo, agosto 01, 2010

[nem sequer os podemos considerar como inimigos]

Aqueles tipos nem sequer os podemos considerar como inimigos, são um erro, uma aberração, como uma ave sem asas…
Ri-me:
– Um arco-íris em tons de cinzento.
– Nem mais! Um rouxinol mudo…
– Uma ovelha carnívora…
– Um fadista feliz!
– Um fotógrafo cego!
– Ah, fotógrafos cegos existem realmente! – riu-se. – Conheço um francês de origem eslovena, chamado Evgen Bavcar. Cego dos dois olhos. E é bastante bom…


As mulheres do meu pai by José Eduardo Agualusa

fake empire


The National (2007)

a verdadeira violência policial



Policiais chegaram ao subúrbio de La Courneuve, ao nordeste de Paris, na quarta-feira (29) e ordenaram que um grupo de 60 pessoas se retirassem do local, segundo Michael Hajdenberg, jornalista da rede de informações francesa Mediapart.
via Bol Notícias

...a partir desse momento tudo degenerou como se vê... este vídeo mostra um caso de violência policial a níveis muito pouco frequentes nos países ditos civilizados. e não me venham dizer que em Portugal os "anarcas" ou movimentos de extrema-esquerda sentem e sofrem o mesmo. comparar Sarkozy com Sócrates mostra apenas má-fé e demagogia dos acusadores.