domingo, setembro 27, 2009

o silêncio de outras mudas


Madeira 09

carta aberta a Creil

21 Abril de 2002 - Talvez esta data não te diga nada mas a mim diz muito. Ela é o paradigma de uma lógica de pensar a política em que as escolhas são feitas por negação e não pela positiva. O voto anti-partidos terminam sempre penalizando todos e basta recordar a história recente da Europa para o perceber. Só não vê quem pretende ser cego para depois pedir justificações a tudo e todos pelo que não se mexeu.

No caso que me é mais querido – a esquerda – a história enche-se de exemplos onde a fragmentação ideológica e a dispersão política favoreceram sempre a direita. Atente-se a Espanha, Itália ou Portugal. Mas, sobretudo veja-se o exemplo francês onde esta pulverização deu aso a que Le Pen – o candidato de extrema-direita que é mais conhecido por negar o Holocausto e por promover o ódio aos emigrantes do que por proposta concretas para a evolução da França – chegasse à segunda volta das Presidenciais. Para mim isto todo este quadro é assustador embora só seja possível que um homem destes exista porque existe democracia. Se fosse ele a ditar as leis certamente não haveria Le Pens à esquerda.

Desculpa! Mas votar em qualquer partido melhor do que votar PS é uma frase abusivamente demagógica e hipócrita. Mais do que isso atesta uma falta de conhecimento e análise política. Podemos certamente realçar que as diferenças entre esquerda e direita se esbateram na contemporaneidade mas elas continuam a existir. A esquerda e a direita continuam a ter concepções divergentes em relação ao conceito do intervencionismo estatal e privatizações, saúde, educação, cultura, liberdade individual, defesa, Europa e muitas outras áreas em que ocasionalmente tivemos oportunidade na campanha de observar. Certamente que votar PCP não é o mesmo para ti do que votar CDS, nem Bloco ou PSD. E espero que PS não seja o mesmo que PNR porque senão esta afirmação falaria muito por si só em relação à tua concepção do mundo.

Votar PS e mesmo contando com todos os erros cometidos e mesmo com as suspeições que não foram provadas não é a mesmo coisa do que votar num partido que defende a Monarquia como o PPM, ou votar num em que a candidata especializada em economia confunde IRC com IRS além de assumir que nunca leu Saramago até ao fim como o PSD, e muito menos num partido que ataca violentamente os estrangeiros e a liberdade como o PNR. Quem já viveu no estrangeiro, mesmo que como nós tenha sido em condições de trabalho não-precário ou enquanto estudante sabe bem que há diferenças de tratamento entre estrangeiros e nacionais e se acreditamos que um outro mundo é possível isso tem que mudar.

O voto é secreto mas as declarações de intenção não o são. Eu assumo que voto PS, sem complexos mas com alguma mágoa por algumas falhas governativas. E custa-me ver que outras pessoas cinjam a sua argumentação à análise leviana de um programa de governo onde procuram imprecisões em áreas que desconheçam mas sobretudo defendam que um programa vago como o do PSD é o ideal. Ou seja custa-me ver que não digam em quem votam mas defendam um partido ou façam uma alusão à abstenção ou ao voto em branco como solução. Como solução ou como desculpa para depois passar quatro anos a dizer mal de tudo e de todos?

Voto PS mas acima de tudo pretendo que tal como parece estar a acontecer, 22% ao meio-dia, haja uma grande participação. Será a prova cabal de uma democracia pujante e real ao contrário da potencial asfixia democrática que tentaram colar a este governo, estado, país. Mas mais do que isso pretendo que se vote esquerda. Mesmo que seja em dois partidos que assumem que não farão concessões nem acordos com o PS, prefiro um Portugal à esquerda e com todas as suas divergências do que um Portugal retrógrado, conservador e ultra-liberal.

Uma última palavra para ti, Creil. Não te conheço e apesar do tom desta carta poder parecer muito agressivo não o é na realidade. Simplesmente vivo muito intensamente este país e como tal incomodou-me que uma pessoa que parece ter a capacidade de análise da sociedade do momento político em que nos encontramos tenha caído na armadilha de achar que votar contra alguém é o melhor. O melhor para todos é votar pela positiva. Como eu referia num post recentemente (link) um dos maiores defeitos da identidade portuguesa é a dificuldade em assumir posições de forma a fugir às responsabilidades inerentes. Eu quero, tal como tu certamente, que haja espaço para todos nós trabalharmos e vivermos em liberdade e igualdade de direitos e escolhas. Quero que haja mais desbobinadores em Portugal.

Um abraço,
João Tibério


Não vou falar sobre o assunto

Ontem devíamos reflectir, hoje devemos decidir, daí que a crónica não aborde o assunto. Qual assunto? O assunto. Então vou falar de coisas bem mais giras. No Grande Prémio de Singapura, Fórmula 1, um bólide da Renault faz--se à curva 17, guina para esquerda e desfaz-se no muro... Um colega, que me espreita o computador, previne: "Ei, não vais repetir o que toda a gente sabe." Sabe?, perguntei eu. E ele: "No ano passado, o Briatore, patrão da Renault, convidou o piloto Nelsinho Piquet a simular um acidente na curva 17, em Singapura... O Briatore até foi expulso, há dias, da Fórmula 1. Isso toda a gente já sabe." Enxotei o colega. Eu estava a contar o Grande Prémio de Singapura deste ano. O piloto Romain Grosjean, da Renault, chocou contra o muro na curva 17 no treino de anteontem. Pus-me a reflectir sobre coincidências.
O sueco Kim Christensen gosta de estar aconchegado. Como trabalha entre postes - é guarda-redes do IFK Gotemburgo, líder do campeonato - tem o hábito de aproximá--los. É, pode-se. As câmaras de TV apanharam Christensen a dar pontapés na base dos postes. Como alguns são amovíveis, e os toques são de fora para dentro, ganha-se uns centímetros. Christensen disse que faz isso há muito e que é prática comum em todo o mundo. Por cá, quando vemos o guarda-redes a fazer coisas esquisitas dentro da baliza antes do jogo, pensamos logo em vudu. Reflicto: as explicações simples são muitas vezes as mais maravilhosas.
Barack Obama foi ao programa televisivo Late Show, de David Letterman. Este perguntou se as críticas às sua políticas não eram devidas a racismo. Obama: "É importante darmo--nos conta de que eu já era negro quando fui eleito." Eu penso (como era ontem, reflicto) que se Obama fosse esmiuçado em Portugal e desse uma resposta destas eu era multado pela Comissão Nacional de Eleições: apelava ao voto nele, apesar das proibições.
O escocês Jerry Morris vai fazer cem anos, fez sempre a sua corridinha diária e mesmo hoje é ágil. Mas não foi à custa das suas pernas que o Financial Times lhe chamou "O homem que inventou o exercício". No final dos anos 40, Londres teve uma epidemia de mortes por ataque de coração. Cientista num hospital, Morris achou que valia a pena, perante números tão altos, estudar as estatísticas. E foram os trabalhadores de transportes que o encarreiraram para a paragem certa. Nos autocarros londrinos de dois andares, os motoristas passavam o tempo sedentariamente sentados. Já os pica-bilhetes faziam 500 a 750 degraus por dia. E aqueles tinham o dobro de ataques de coração destes. Eu diria que se o mundo fosse justo, Jerry Morris devia ter percentagem nos lucros dos ginásios de todo o mundo. Mas reflicto e não digo: aplaudir inteligência prática e incentivar o mérito pode indiciar o meu voto.

Ferreria Fernandes in DN, 27 Set 09

segunda-feira, setembro 21, 2009

Moon up the Chair


Rashin Kheirieh

um primeiro passo...

Cavaco Silva afinal tomou uma posição antes das legislativas (link) mas esta crise, que para ele talvez ficasse terminada dessa forma, ganhou pelo contrário contornos ainda maiores e mais negros... Ao afastar Fernando Lima assume-se que ele terá mesmo tido a reunião com o jornalista do Público e como eu, assim como o Cavaco, não sou ingénuo, e sabendo-se que o assessor era seu amigo e conselheiro desde 1985 algo me diz que não terá tido a reunião à revelia e sem conhecimento do presidente.

Mais esclarecimentos continuam por isso a ser necessários... mas mais do que isso é evidente um facto: Cavaco perdeu duas pessoas de confiança no último ano pese embora as tenha tentado manter até ao limite... Fica também evidente que se as eleições presidenciais fossem hoje Cavaco seria o primeiro presidente a não ser reeleito... são mais do que muitos os motivos para repensar as suas acções políticas.

domingo, setembro 20, 2009

isto pode dar prémio

Abro a porta de vidro devagar. Espreito, indiscreto, a biblioteca que não encontro. E escadas acima as palavras de outros reescrevem "a mensagem" de um outro pessoa.

A "objectiva" esteve na origem desde ontem à noite até hoje a meio da tarde duma maratona de leitura. Os transeuntes eram também convidados a escrever uma frase sobre um livro que faltasse no hotel Bairro Alto, e a melhor ganhará um fim de semana no dito hotel para duas pessoas... Será que vai dar prémio?

ele acha, logo existe

Não venham cá com os vossos factos que eu tenho as minhas suspeitas - eis Portugal cada vez mais assim. Já tínhamos os inspectores da Judiciária que falhavam uma investigação sobre factos e acabavam a vender livros sobre as suas suposições. Isso era a prática corrente - as vitórias morais no futebol eram a expressão mais popular dessa tendência. Há semanas, uma líder partidária, Manuela Ferreira Leite, decidiu dar base programática à coisa: "Eu não quero saber se há escutas ou não, eu não quero saber se há retaliações ou não, o que é grave é que as pessoas acham que há." O nacional-achismo passou a doutrina oficial.


Tão oficial que chegou a Belém. Belém acha-se escutado. Logo, Belém é e está a ser escutado. E o que faz um Presidente escutado? Num país menos virado para o etéreo, procurava-se o facto. O microfone, os gravadores, os espiões… Olhem, no Brasil - é só um exemplo para ficarmos dentro da nossa língua - um caso destes aparece nos jornais com a fotografia do agente que escutou e o comanditário da escuta ou, no pior dos casos, com a fotografia do "grampo", como eles chamam à aparelhagem espiã. Factos. Mas isso é em países materialistas.


Por cá, pelo Portugal do achismo, o Presidente chama o Lima e diz-se: "Eu acho." Isto é gente de muitas suspeitas e poucas palavras e Lima viu logo o filme todo. Vai a um café discreto e diz a um jornalista: "Eu acho." O jornalista espanta-se, naturalmente. Lima olha para todos os lados e sussurra: "E estou habilitado para poder dizer que o Presidente também acha."


É daquelas informações que têm de amadurecer em casco de carvalho durante 17 meses. Findo os quais, a manchete: "Belém acha!" Foi há um mês. Desde esse achamento, conheceram-se os seguintes não factos: o Presidente NÃO alertou a Procuradoria NEM os Serviços Secretos para investigarem; o Presidente NÃO alertou o Parlamento para se mobilizar contra o escândalo. A esses 'nãos' acrescente-se que os militares, tendo sido convidados pelo Presidente a passar o palácio de Belém a pente fino, NÃO encontram nada.


Ficou assim comprovadíssima a suspeita de Cavaco Silva. Como se sabe, o achismo vive numa nebulosa e alimenta-se de leves impressões - tivesse sido encontrado um pequeno facto e lá ia a tese de Belém por água abaixo. Felizmente, podemos continuar a achar, a suspeitar, a desconfiar. É um modo de vida como outro qualquer. Só peca quando descamba para a sua variante de apontar o "clima de medo que se vive." A frase destrói a tese. Se houvesse mesmo um clima de medo, eu acho, suspeito e desconfio que não havia tanta gente a apontá-lo.

Ferreira Fernandes in DN, 20 Set 09

sábado, setembro 19, 2009

um pixel de jesus


Na negritude ousaram encontrar
alguém que os levasse pela mão.
agora é tarde! - ainda lhes gritei.
Mas eles seguiam já, contentes, carreiro abaixo
com uma cruz podre aos ombros.
Indiferentes aos urros de dor que
Jesus lhe reservava.
Agora é tarde! - que ele não passa de um pixel das vossas memórias.

Talvez seja do cansaço...

... Mas não consigo perceber como tudo isto passou de uma noticia do DN sobre um assessor presidencial que criou em "laboratório" uma falso caso para o Público e respectivo interesse de um partido no escândalo... para a pretensa existência de novas escutas sobre o jornal envolvido no conluio. Claro que algumas horas depois já o respeitável sr. editor do Público já se apercebeu que se calhar não pode mentir descaradamente sobre pretensas escutas.
Deve ser cansaço só isso... porque negar a a história das primeiras escutas é que não... isso não seria política de verdade.

Mas, o que me impressiona mais é o pior presidente da república no Portugal democrático continuar nesta guerrilha. Não pode. Só pode fazer duas coisas: ou o governo espiou e escutou e tem que necessariamente de ser demitido antes das eleições e serem julgados rapidamente os culpados; ou apresenta a demissão porque um presidente não pode criar boatos para intervir na politica. O presidente não pode deixar para depois a tomada de decisão. Não pode. É pura incompetência! E pura falta de respeito pela democracia. Uma coisa é certa nada surpreende neste senhor que foi um primeiro-ministro que por diversas vezes desrespeitou uma democracia mais madura.

no tempo inexistente

Intemporalidade semelhante
à de um morto
escuridão do não tempo
tempo argila
submisso aos dedos lentos
de quem joga xadrez com os condenados.

Gastão Cruz

sexta-feira, setembro 18, 2009

Nem vale a pena dizer mais nada... ou vale?

'E-mail' denuncia que Fernando Lima, assessor de Cavaco, entregou ao 'Público' um 'dossier' sobre as suspeitas de espionagem do Governo a Belém.


As suspeitas de escutas por parte do gabinete do primeiro-ministro à Presidência da República foram levantadas por Fernando Lima, assessor de imprensa e homem de confiança de Cavaco Silva. Lima terá, segundo documentos a que o DN teve acesso, procurado o jornalista do Público Luciano Alvarez, segundo este último, em nome do próprio Presidente.


Num encontro, que terá decorrido em Abril de 2008, "num café discreto da Av. de Roma", o assessor de Belém entregou a Luciano Alvarez um dossier sobre Rui Paulo de Figueiredo, adjunto jurídico de José Sócrates, cujo comportamento levantou suspeitas aquando da visita de Cavaco Silva à Madeira. Lima estaria convencido que este adjunto de Sócrates integrou a comitiva para "observar, o mais dentro possível, os passos da visita do Presidente e o modo de funcionamento interno do staff presidencial".


Todas estas informações constam de um e-mail enviado por Alvarez ao correspondente na Madeira, Tolentino de Nóbrega, no qual relata o encontro com Fernando Lima e sugere que até seria bom que a história viesse da Madeira, para que o ónus não recaísse sobre a Presidência: "O Lima sugere e eu acho bem duas perguntas para o início do trabalho (até porque a eles também interessa que isto comece na Madeira para não parecer que foi Belém que passou esta informação, mas sim alguém ligado ao Jardim)."


Este e-mail é apenas um dos vários documentos a que o DN teve acesso, cujo conteúdo se refere a questões internas do jornal.


Contactado ontem pelo DN, o editor do Nacional do Público nega a existência do mail. "É tudo forjado", disse Luciano Alvarez. Já Tolentino de Nóbrega não quis comentar "assuntos internos do jornal". Mas o DN verificou a autenticidade da correspondência junto de um dos envolvidos (ver nota da direcção).


Nesse e-mail de 23 de Abril de 2008, Alvarez refere-se ao assunto - que prefere tratar via net porque "nem os homens do Presidente da República arriscam a falar por telefone" - como a possível bomba atómica, se a história for confirmada. Admitindo que tudo não passe de "paranóia dos do PR e do Lima", faz questão de frisar que "não deixa de ser grave que o PR pense isto e que ande a passar informação ao Público, manifestando grande vontade da história vir a público."


Desde que o diário dirigido por José Manuel Fernandes divulgou o caso, o que só aconteceu em Agosto deste ano, 17 meses depois, não houve qualquer desmentido da Presidência da República. Nem depois de Francisco Louçã, líder do Bloco de Esquerda, ter dito na reportagem da SIC "Como nunca os viu" que a fonte das escutas é Fernando Lima (ver pág. 3). Dos envolvidos nas alegadas escutas, só Sócrates comentou o assunto, para o classificar de "disparate de Verão".


Tolentino de Nóbrega respondeu ao mail de Alvarez a 5 de Maio de 2008. Nessa mensagem deita por terra as desconfianças de Belém: "Conforme disse em contacto telefónico, feito na semana passada, julgo que tudo isto não passa, como admitiste, de paranóia do PR & Lima". O correspondente no Funchal descreve, depois, exaustivamente, os passos que deu para tentar confirmar a que título e como Rui Paulo de Figueiredo esteve presente nas cerimónias da visita do Presidente da República à região autónoma.
Quase um ano e meio depois, o jornal publica a manchete a dar conta das alegadas escutas por parte do gabinete de Sócrates a Belém, sustentando, um dia depois, notícia da véspera com as suspeitas à volta da presença de Rui Paulo de Figueiredo no Funchal.


No último domingo, o assunto foi tema de um artigo crítico do Provedor dos Leitores do 'Público', Joaquim Vieira, no qual se ficou a saber, pela primeira vez, que Tolentino de Nóbrega tinha informado o editor do jornal que não conseguira confirmar qualquer das informações, inclusive num contacto pessoal com o assessor de Sócrates. Nesse artigo, Vieira anuncia voltar ao caso este fim-de-semana. O assunto está também nas mãos do Conselho Editorial do diário.

O DN tentou ontem, ao longo do dia, o contacto com o director do 'Público', José Manuel Fernandes, bem como com o assessor de imprensa do Presidente, Fernando Lima, mas nenhum respondeu aos nossos contactos.
DN, 18 Set 09

terça-feira, setembro 15, 2009

algumas notas turcas



Cem Adrian - Aşktan Korkma

obs: mais uma nota turca do enviado especial Mário...

There's something like booze in the air

There's something like booze in the air:
Makes you feel down and out...
If you're eating your heart out because you're here
And the girl you love is God knows where,
And you miss her -
That crushes you.

There's something like booze in the air:
Goes to your head, gets you drunk.


Orhan Veli Kanık

nota: via Mário

domingo, setembro 13, 2009

do mar do norte

depois de uma fraca "Menina Júlia " um intenso "Peer Gynt"... alguns sons depois de algumas palavras da Suécia e Noruega. as lembranças lado a lado...

Edvard Grieg - Peer Gynt - Suite No. 1, Op. 46 - 'Morning'

esta, sim, é a asfixia moderna

Brice Hortefeux é ministro do Interior francês. Agora é também o protagonista de um escândalo em França. No sábado visitava a Universidade de Verão do UMP, o seu partido e de Sarkozy, quando um jovem militante lhe pediu uma foto juntos. Os amigos do rapaz (Amine, filho de um argelino e de uma portuguesa) começaram a mandar bocas brincalhonas: "Ah, isto é que é integração…", "ele até fala árabe…", e coisas assim. Se querem que vos diga, gosto. Prefiro "jotas" arrapazados do que vê-los, aos 18 anos, de gravata nas Universidades de Verão. O ministro Hortefeux imbuiu-se da atmosfera, pôs a mão no ombro de Amine para a foto e outro rapaz disse: "Ele é nosso árabe." E o ministro disse: "Quando há um, é bom, quando há muitos é que há problemas. Bom, então, adeus!" Gargalhadas, palmadas nas costas e ponto final não fosse alguém ter gravado em vídeo. Este apareceu nos jornais e já se pede a demissão do ministro. Amine defende Hortefeux, garantindo que o episódio não teve nada de racista. É a velha história do contexto das anedotas: pode contar-se todo o tipo de piadas, não se podem é contar piadas a certos tipos. Mas, no tempo dos telemóveis com vídeo, como saber quem são os tipos que nos ouvem?

Ferreira Fernandes in DN, 12 Set 09

da pedra quente

uma pedra mole,
que tem o seixo perdido na sua vista,
rebola perdida na arruada de outros homens.
com passos diferentes. desconhecidos. sem destino.
grita a medo por quedas novas.
por novos pontapés e arrastões.
sonha, só, com os disparos de crianças à beira rio.
e quando a pedra, mole, se escondeu uma última vez entre as outras
já era tarde. já o cão alçava a perna decidido a uma última mija. quente.
e ela assim. mole e sem palavras.

sexta-feira, setembro 11, 2009

a discutir nos próximos tempos

Recentemente, um critico que muito prezo perguntava: "Estarão os novos poetas portugueses em mau caminho, como se tem afirmado algumas vezes? Ou sofrerá antes a nova poesia duma simples crise de crescimento?"

Jorge de Sena in "O Reino da Estupidez I"

quarta-feira, setembro 09, 2009

as palavras invisiveis

As palavras invisiveis
escritas na letra da primária
no caderno de papel cavalinho,
entre desenhos perdidos,
insistem em não se apagarem.
São letras presas
por um fio
que se agarram a todas as outras
que solteiras balançam no baile de verão.

As palavras que sem cor nem cheiro
me enchem o espaço que guardo para a chegada do amanhã, são palavras
vazias.

Ocas. Reflexas. Amorfas. Adjectivadas.
Perdidas nas teias que todas as outras palavras teceram para as apanhar.
Uma apanhada,
feita jogo de criança,
feita brincadeira inocente.
Um policia e ladrão,
onde não há mais crime a descoberto.

pisca

mete o pisca,
grande pisca que ilumina toda a nossa curva à direita.
mete o pisca,
mostra o pisca que vira decidido as rodas do carro.
o pisca.
que não pisca mais enquanto seguimos
rua adentro.
no sentido único para o nosso mundo.
tal e qual como descreveste
em mil conversas tidas.
na rua que estreita torna real
mil desejos.
não vires mais, agora. nem mais um pisca, agora.
pára o carro. sai lá para fora.
sente a noite quente e envolvente.
é assim o mundo que criamos. feito tal e qual à nossa medida.
um fato pronto-a-vestir daqueles antigos
como a música baixa do auto-rádio.
fecha os olhos. sente o peso das estrelas. que nos contemplam.
fecha os olhos. sente o cheiro das árvores. que nos perfumam.
guarda este momento. com amor.
que o meu toque suave que desliza pelo teu braço já cá não estará quando abrires os olhos da próxima vez.

and now for something completely different


o facebook da vida real

pequena curta madeirense

take one:
Se Obama tem Martha's Vineyard, se Putin tem Tuva na Sibéria......o grande líder, o timoneiro infalível, o mestre sapiente, o vigilante que nunca dorme, a mão que embala todos os berços dos seres superiores nados e criados nas ilhas afortunadas de Camões, o leão indomável, a bússola que nunca falha, ou seja em poucas palavras, o excelentíssimo doutor Alberto Cardoso, por muitos conhecido por João Jardim (para outros simplesmente por Deus), também merece a sua Dacha de férias, sem que tenha que comprometer a sua paupérrima reforma...Longa vida ao peditório. Não cometam essa injustiça ao grande Líder e ao criador de todas as coisas boas no céu e na terra.

A título de exemplo veja-se um exemplo de política na Madeira (link).
Realmente pagar 10€/dia com campo de ténis incluído, em pleno centro do Porto Santo, numa zona onde um aluguer atinge facilmente os três dígitos por dia é um crime para um simples reformado...

Desculpem a demagogia usada (que aliás reprovaria numa situação normal), mas a realidade mostra que o tipo de discurso e método usado pelo PND, tem ajudado a criar imensas brechas e a revelar a verdadeira face do jardinismo. Algo que no rectângulo não tem sido nada visível (o que é compreensível). Louve-se a criatividade usada.

take two:

Alberto na sua bitola pré-eleitoral habitual: Usar meios do Governo Regional para fazer campanha; usar actos públicos como meios de propaganda política...

No entanto, já nem se dá ao trabalho de esconder ou tentar minorar o sucedido, estando-se a borrifar para as acusações pendentes. Vai daí um valente "fuck them" num inglês à Berardo (o sociodialecto de Oxford é algo que não existe nestas bandas). Vide link, primeira gravação do espaço áudio (em mais uma grande demonstração do que é a cena política na ilha).

Asfixia democrática cá no rectângulo? Isso é coisa de meninos. Experimentem fazer oposição na Pérola do Atlântico...

take three:

No preciso dia em que Manuela Ferreira Leite proclama não sentir na Madeira a mesma asfixia democrática que sente no rectângulo, delegados da oposição são impedidos de participar nas reuniões de escolha dos membros de mesas de votos em diversos concelhos na ilha (link)...priceless!

ps: às tantas é a social democracia musculada que a dra. Manuela Ferreira Leite parece advogar. Aquela do dia dos secos e dos molhados, aquela da carga policial na ponte ou aquela da suspensão da democracia por seis meses...questão de estilo. (sim estou a ser propositadamente demagógico. Mas quem advoga o slogan "política de verdade" sujeita-se a tal facto...

Aires Gouveia

terça-feira, setembro 08, 2009

"e contudo ela move-se"

Lisboa 09

e no menu profissional hoje temos...

Uma missa pela Nossa Sra. da luz.
A de 8 setembro de 1463 apareceu a Nossa Sra da Luz em Carnide e como este dia revelou-se bastante importante para o meu futuro profissional e para a minha experiência enquanto investigador cá vou eu arranjar-me todo supimpas e escutar com redobrada atenção o sr. padre Jorge.  Haverá ainda espaço para os mimos das velhotas que adoram os jovens interessados nestas coisas... interesse dizem elas... paciência de santo digo eu...

adenda: conseguiu ser um pouco mais deprimente do que imaginava...

hipocrisia sem limites


Está revelado o modelo de bom governo do PSD -- o de Alberto João Jardim na Madeira! Onde a asfixia democrática inclui o controlo governamental de quase toda a comunicação social (incluindo um jornal pago pelos contribuintes) e pela expulsão de deputados da oposição, onde quase toda a vida económica depende do governo regional, numa promiscuidade sem fronteiras, e onde reina o mais incrível forrobodó orçamental e financeiro.
Quando a "política de verdade" se transforma na mais rotunda hipocrisia política...
Outros elementos da "boa governação do PSD na Madeira" -- que Ferreira Leite quer replicar a nível nacional -- são a utilização de viaturas oficiais em acções partidárias e o insulto como arma de combate político. Edificante!

Vital Moreira in Causa Nossa , 07 Set 09

domingo, setembro 06, 2009

uma história simples

... faz-se do passado e do presente a caminho do futuro. das memórias de um filme que voltam cena a cena agora. enquanto o vejo.
... faz-se de um velho sr. Straight que passa devagar por muitos outros srs. e muitas outras histórias. calmo e sereno. como qualquer outra história simples.
... faz-se de uma ost coerente e minimalista.
... tudo simples. como uma história simples que gostaria de escrever. que adoro ver. simplesmente.


The Straight Story OST by Angelo Badalamenti

sábado, setembro 05, 2009

summertime


Keith Jarrett

Asfixia democrática

Não demorou muito. É típico em Portugal, mas desta vez bateu, com toda a certeza, algum recorde olímpico. Assim que o último partido apresentou o programa eleitoral, terminou a discussão das ideias. Bem sabemos que há uma overdose de dez debates, mas o que ocupa verdadeiramente o espaço mediático é a "asfixia democrática", as denúncias que não chegam a ser concretizadas e a corrida que a Administração da Prisa deu em Manuela Moura Guedes.

O país inteiro terá pensado de imediato que o foi o PS que acabou com o "Jornal Nacional" de sexta- -feira, mas demorou pouco a mudar de opinião. Na lógica do "diz-me a quem interessa o crime, dir-te-ei quem é o criminoso", toda a gente percebeu que o PS é o partido mais prejudicado com esta decisão a três semanas das eleições e, portanto, não poderiam ter sido eles.

Vale o que vale. Há um historial de queixas de Sócrates em relação à TVI e isso por si só é uma forma de pressão. Dir-se-á que é legítima, porque Sócrates, pelo facto de ser primeiro-ministro, não está inibido de se defender e de criticar o que julga ser criticável. A verdade é que, mesmo tendo havido pressões, a maioria das pessoas tem agora a tendência para pensar que ninguém é tão estúpido para fazer uma coisa destas em período eleitoral.

Neste aspecto, a Esquerda (PCP e Bloco) foi bem mais eficaz que a Direita (PSD e CDS). A Esquerda não quis fazer juízos de intenção e limitou-se a recordar o historial de conflitos entre a TVI e o PS, enquanto que a Direita não hesitou em culpar directamente o PS pelo sucedido. Deixar que as pessoas julguem com base no que conhecem é sempre melhor que impor-lhes uma "verdade" assente, apenas, num sentimento. Mais ainda, a escolha dos protagonistas da Direita (Aguiar-Branco e Paulo Portas) deu um pretexto ao PS para se defender. Os dois eram ministros quando Marcelo foi obrigado a deixar a TVI.

Mas a vida não corre bem a José Sócrates e ao PS. A teoria da "asfixia democrática", assente muitas vezes em acusações não concretizadas, como foram as escutas em Belém ou a pressão sobre empresários/militantes do PSD, faz caminho. O modo, sempre muito susceptível, como a equipa de Sócrates lida com os media ajuda a que teoria colha apoios entre os jornalistas e leva a opinião pública a acreditar na possibilidade de existir um abuso de poder. O debate feito à volta destes temas cria, aliás, um pretexto emotivo para os eleitores castigarem o partido que está no governo.

Estamos em campanha, toda a opinião é avaliada pela direcção que toma, mas não pode deixar de se perguntar: O PSD no poder estaria disponível para aceitar, de bom grado, um jornal como aquele que era dirigido pela jornalista Manuela Moura Guedes?

Estamos em tempo de adivinhar a necessidade de um Bloco Central. O Poder deve dirigir a sua actividade em benefício do bem comum. Os partidos do arco do poder querem manter a roda livre em que vive o jornalismo justiceiro? Quer o povo informado ou controlado? Quer a actividade jornalística contra o poder ou a favor do contraditório?

Neste país em que vivemos é o negócio que impera. Políticos, agentes judiciais, banqueiros, empresários e sindicatos ou controlam a Comunicação Social ou são vitimas do mau jornalismo. Custa muito assumir que bom jornalismo é apenas uma pequena parte do todo, mas é preciso que se faça cumprir as regras.

Asfixia democrática é jornalismo sem regras. Já que andam todos com tanta coragem, alguém está disponível para impor responsabilidade? É que é muito bonito viver à pala do ataque gratuito ao poder para parecer jornalista isento, mas o povo não ganha nada com isso.

Paulo Baldaia in JN, 05 Set 09

paranoia

la porte c'est du bois silencieux transparent
la froideur des clefs étrangères près du coeur
le retour est un cachot cruel
il m'arrive de le voir
sur la carte
distinct au milieu des autres
quand la peur m'aura rongée jusqu'à l'os
il restera l 'attente
de l'enfance
un doigt pointé
sur moi

Vladimíra Čerepková

sexta-feira, setembro 04, 2009

se o ridículo matasse...

ridículo. no mínimo ridículo toda esta história do fim do jornal de sexta da tvi. e ridículo porque também o acontece acabou e não houve metade do barulho. surpresa? nem por isso... vamos a coincidências... 

1. moniz sai inesperadamente da tvi.
2. moniz ganha bastante dinheiro com mudança. muito dinheiro mesmo. e vai para uma empresa com ligações à tvi e à impresa.
3. a tvi prepara o regresso do jornal de sexta em grande. mas não chega a mostrar as promos preparadas há semanas nem a dois dias de distância.
4. um dia antes do recomeço uma entrevista de Moura Guedes onde a frase chave é "Só se fossem muito estúpidos é que me tiravam do ar!".
5. na quinta-feira alguém de espanha termina com o excelente programa de informação da tvi. tão bom que tinha direito a jornalistas especiais. os quais, no entanto, MMG não tinha problemas em insultar.
6. no mesmo dia em que o programa é cancelado, a mártir e os restantes jornalistas se demitem, bem como o "independente Vasco Pulido Valente" (palavras de Cintra Torres), a impresa dispara quase 11% na bolsa.
7. nesta sexta todos os jornais fazem capa com as fotografias sensuais da antiga cantora e com o seu desespero por não continuar a fazer teatro de jornalismo. num desses jornais há espaço para ela confirmar que se ri a escrever algumas noticias.
8. a tvi apesar da censura socialista, que nesse mesmo dia fechou todos os jornais e restringiu o acesso à internet, consegue difundir a partir de uma tv ilegal em Espanha a reportagem sobre o último desenvolvimento do caso freeport: um outro primo do PM é suspeito - que melhor para ilustrar esta reportagem do que imagens constantes e repetitivas de Sócrates.
9. ainda nesta véspera de fim-de-semana sic noticias, rtpn e muitos outros só falam deste caso assustador e revelador da neo-ditadura.
10. o ministro da propaganda socialista Miguel Paes do Amaral e o secretário geral da informação Paulo Simão  ousam contestar a "politica de verdade" do jornal de sexta. politica de verdade? onde é que já ouvimos isto?
11. enquanto escrevo estas últimas linhas já a UE, EUA e uma força especial da NATO preparam a invasão de Portugal de forma a restaurar a democracia.

quarta-feira, setembro 02, 2009

O vício da literatura: em revistas e sem lucro

A ideia nasceu de "um grupo de amigos que gostava de ver jogar o Benfica e nos intervalos discutia literatura". É assim que Rui Alberto explica a criação da revista "Callema", dedicada à publicação de textos inéditos de quem já tem nome e de quem (ainda) não tem voz.

Tudo começou no primeiro ano da faculdade, no curso de Estudos Portugueses. Rui e quatro amigos, "o núcleo duro da 'Callema'", queriam produzir uma revista na qual pudessem publicar textos sem ninguém que os censurasse. O sonho só se concretizou no fim da faculdade, em Novembro de 2006.

Ver o produto do esforço e trabalho de cinco rapazes entre os 25 e os 28 anos, "foi fantástico mas ao mesmo tempo estranho": "Foi óptimo ver que não era só conversa, que realmente conseguíamos fazer alguma coisa e foi estranho porque para alguns foi a primeira publicação."

A revista não dá lucro, mas também não dá despesas: auto-sustenta-se. Cada um tem o seu trabalho e um deles nem vive em Portugal - depois do curso decidiu procurar trabalho lá fora - mas nem por isso desistem do sonho: "Enquanto houver romantismo, isto vai para a frente. Estamos sozinhos, não podemos depender de ninguém, mas vale a pena."

Apesar de uma modesta tiragem de cem exemplares, a "Callema" recebe vários pedidos de colaboração, contos, ensaios e poemas dos quais vive, a par de "convites que são feitos a algumas pessoas, para cada edição". No número dois da revista contaram com três poemas inéditos de Nuno Júdice, escritor, poeta, ensaísta e professor universitário, num exemplar que esgotou.

No entanto, e por muito louvável que a ideia seja, a pergunta obrigatória é: o que leva estes jovens, que nem 30 anos têm, a entregarem-se a um projecto que não dá lucro? A resposta, romântica, não demora. "A partir do momento em que viemos a público, adquirimos um dever cívico: temos o dever de fazer ler, pensar e escrever." E se acha que tem qualidade para aparecer nas páginas da "Callema", tem bom remédio: callema@cooperativaliteraria.net. Mas não se esqueça que esta malta só aceita textos inéditos... e bons.

O reino digital Chama-se "Orgia Literária" (orgialiteraria.com) e é uma revista digital de crítica literária, online há mais de três anos. Nasceu pelas mãos de Emanuel Amorim de 24 anos e Gonçalo Mira, de 23: "A ideia era escrever só sobre livros, sobre o que gostávamos e líamos, mas depois fomo-nos tornando mais atentos às obras que saíam e hoje temos entrevistas e artigos generalistas sobre literatura."

Gonçalo acabou o curso de literatura este ano e espera encontrar trabalho rapidamente, mas nem a perspectiva de passar a ter menos tempo para a manutenção do site o demove: "É verdade que dá trabalho mas havendo vontade dá sempre para conciliar. O importante é que não sejamos só nós, continuando com os 20 colaboradores que já temos é mais fácil."

Sem lucros e com algumas despesas inesperadas (como a compra de um servidor próprio para alojar o site), estes dois jovens mantêm a revista digital, por amor aos livros e fidelidade à literatura.

Longe vão os tempos em que os movimentos literários usavam as revistas como palcos de ensaio para a experimentação de novos estilos. Apesar disso e da irregular periodicidade das revistas de hoje, parece que afinal as gerações de "Orpheu", "Presença" ou "Sudoeste" (Fernando Pessoa, Mário de Sá Carneiro, José Régio, Almada Negreiros) ainda respiram.

Diana Garrido in jornal i , 02 Set 09

terça-feira, setembro 01, 2009

apontamento duma solteira

hoje o sol ficou até mais tarde no escritório.
é pena.
tinha-lhe preparado um jantar à luz das velas. e uma roupa nova vestida sobre o corpo.

hoje o sol ficou até mais tarde no escritório.
ainda bem.
deixei uma roupa a secar lá fora.

hoje o sol ficou até mais tarde no escritório.
e eu aqui sob o olhar mortiço de uma lua de setembro.

rise and fall


Sophie Hunger

da entrevista

O homem é bom! Poucos políticos se podem gabar de ter um tão grande à vontade na televisão ou no parlamento como ele. A costela da Grécia Antiga nele é bem grande e injecta-lhe elevados níveis de eloquência. É verdade. Dá gosto ouvi-lo. E ainda por cima preparam-lhe bem os discursos ou intervenções.

Hoje não foi diferente (link ). Pareceu patinar na questão da Ana Gomes e Elisa Ferreira mas soube dar a volta por cima com umas pausas preenchidas... mas de resto esteve sempre no controlo. Brilhante na forma como se demarcou do PSD e de Ferreira Leite na questão dos valores. E não apenas na hipócrita questão da "verdade" laranja, sobretudo em assuntos importantes como economia e sociedade. Aí há diferenças entre esquerda e direita. Inegáveis. 

A verdade é que talvez nem fosse difícil brilhar nesta entrevista mais do que Ferreira Leite alguns dias antes. Sócrates tem o seu próprio trabalho para defender-se. E quanto ao que falhou sabe melhor que ninguém onde foi, logo pode precaver-se. Quanto à outra candidata tem o difícil trabalho de se apresentar sem ter nada para apresentar. Mais do que isso, não pode fazer referência à sua assustadora experiência governativa enquanto péssima ministra da educação (responsável pela progressão automática da carreira) e das finanças (responsável pela falsa diminuição do défice através da venda de património ao desbarato). Se a Sócrates apontavam que era muito duro e rude agora é demasiado simpático. O biltre.  O sacana. Coerência, por favor. É obvio que os políticos assumem diferentes posturas conforme os objectivos, e é assim com ele, com Ferreira Leite, Louçã e todos os outros. É assim com todos os hipócritas que apontam isto mas depois são cínicos com os seus patrões enquanto falam do jogo de domingo passado.

Sócrates esteva ainda bem a tirar o coelho da cartola do inov social, porque como ele dizia quase ninguém lê  os programas eleitorais. Mas, toda a gente sabe dizer mal  e repetir o que leram na coluna ou no editorial do jornal do comboio. No entanto, a pérola veio no final... a outra fala muito do conceito e papel da família mas é ele que fala da vaidade que são os seus filhos. Genial. Comunicação política ao mais alto nível e um exemplo do papel que ela tem na actualidade. Só não vê quem não quer.

Hoje era a entrevista que estava em causa. O seu desempenho nela e não ao longo de quatro anos. Nela ele foi um claro vencedor, nas próximas eleições logo se vê porque são contas de outro rosário... e nem vale a pena dizer mais nada...

o estupropulsor diatérmico da honra

Investigar nos lares e outras associações secretas. Tem
revestido o aspecto duma forma benigna do cancro:
A DAMA ANTINOMA.
Mata à terceira que lhe aparecem.

Mário Cesariny

um programa eleitoral à moda portuguesa

Há um ponto muito importante no programa eleitoral do PSD que a comunicação social não tem valorizado devidamente. Encontra-se na oitava página do auto-intitulado "Compromisso de Verdade", e garante que um futuro governo liderado por Manuela Ferreira Leite vai "consagrar a possibilidade de amortização do goodwill para efeitos de IRC, na aquisição de empresas em actividade, bem como do reporte de prejuízos mesmo que o capital da empresa seja transaccionado em mais de 50% (sem necessidade de requerimento ad hoc )." O que é que isto quer dizer? Eu não faço ideia. Mas que é sintomático, é. E explico porquê.
É que quando chegamos à parte das promessas sobre Justiça, encontramos esta frase singela: "Daremos real combate à corrupção a todos os níveis, e reforçaremos a repressão do enriquecimento injustificado no exercício de funções públicas." E nada mais é dito. Fazendo as contas, temos então um programa eleitoral que dedica 254 caracteres a amortizar o goodwill para efeitos de IRC (certamente o sonho de milhões de portugueses) e 143 caracteres a atacar a corrupção a todos os níveis, esse problemazito insignificante. Eu diria que há um certo défice de goodwill quando se trata de especificar medidas em matérias realmente incómodas e relevantes, e que são parte fundamental do cancro que mina a competitividade do País.
Na verdade (como diria Manuela Ferreira Leite), o problema do programa do PSD não é ser demasiado generalista, porque em múltiplas áreas (sobretudo na Economia) há um batalhão de medidas bem concretas. O problema é o excesso de detalhe nuns lados quando comparado com a falta de detalhe noutros. Quando se trata de implementar medidas por decreto-lei - baixar aqui um escalão para 10%, subir ali uma taxa para os 35% -, o programa do PSD está cheio de ideias. Quando se trata de apresentar soluções - ou, se não "soluções", ao menos "ideias" - para as áreas que nos últimos anos mais têm afectado a credibilidade do regime, o "Compromisso de Verdade" multiplica as generalidades e é invadido por uma torrente de "suspenderes", "avaliares" e "ponderares".
Este é, afinal, um programa que garante ir apostar na "fileira florestal" e na "visitação turística", temas que fazem vibrar metade de Portugal, mas que se refugia nas meias-tintas sempre que toca em assuntos mais polémicos, do Estatuto da Carreira Docente ao estado lastimável dos tribunais. Fazendo as contas, as páginas dedicadas à Economia são mais do dobro das dedicadas à Justiça. É fácil perceber porquê: aquilo que podemos esperar de um governo PSD é o velho Estado intervencionista em tudo o que é negócio, mas sem nenhuma vontade de enfrentar os verdadeiros monstros que sufocam o regime. PSD e PS estão bem um para o outro.

João Miguel Tavares in DN, 01 Set 09