quarta-feira, agosto 26, 2009

os passadores

se eu vivesse num mundo meu haveria passadores de poesia em cada esquina. deambulariam perdidos nas ruas da cidade com uma quarta de poema na mão. gulosa e viciante, a poesia. de todos os lados surgiriam poetas feitos profissionais do roubo de palavras a outros. todos ansiosos por ler algo. leve ou dura, clássica ou contemporânea, musical ou verso popular haveria para todos os gostos. uma quarta de poema. em todos eles apenas uma palavra comum, tu.

Apocalypticodramatique




Apporte-moi mes cachets
Serre bien ma camisole
Accélère encore le son de ta voix
Ma techno délire psychédélique
Apocalyptico-dramatique
Sirène obsédantes
Métal hurlant plastique qui résonne
Aux arcades d'acier de l'oreille
Entartrée par ton ouïe déficiente
Des éclairs chopent tes yeux au hasard
Les lasers t'étranglent et t'enfoncent leurs dards
Cette nuit sucera ma sève
Moi, je m'en fiche je râve
Refrain
C'est le grand rassemblement
C'est la fête ou la teuf des Grands
Aux yeux écarquillés
Aux pupilles dilatées
Et aux coeurs dressés
Par le batt'ment de coeur
Qu'elle te prend sans savoir
Ton pauvre coeur qui n'en peut plus
De ne plus pouvoir respirer
Eh ! Toi p'tit con
Qu'est-ce que tu fais là ?
Dis-moi p'tit con
Tu viens franchir le pas ?
Mais t'ignores le parfum enivrant
Obsédant
Qui te couvre d'ivresse
Te transforme en détresse
Et peut faire de ta soirée
Comme une éternité à crier
Refrain
Mais au nom de la vie
De ces quelques-uns qui sont restés bloqués
Sur ton drôle de chemin
Au nom de mon ami malade
Qui hurle au fin fond d'son hôpital

Tryo

Esquerdireita

A esquerda da minoria da direita a maioria
Do centro espia a minoria
Da maioria de esquerda
Pronta a somar-se a ela
Para minimizar
Numa centrista maioria
Mas a esquerda esquerda não deixa.
Está à espreita
De uma direita, a extrema,
Que objectivamente é aliada
Da extrema-esquerda.


Entretanto
Extra-parlamentar (quase)
O Poder Popular
Vai reactivar-se, se...


Das cúpulas (pfff!) nem vale a pena
Falar, que hão-de
Pular!


Quanto à maioria de esquerda
Ficará – se ficar – para outro poema...

Alexandre O´Neill in Anos 70 – Poemas Dispersos

alguns apontamentos políticos

1. Como referi num post anterior (link) nada parece mudar nos diferentes partidos e a lógica das propostas vagas mantém-se. Assim, e tal como ontem António Costa Pinto referia num debate na SIC noticias é evidente que perante a crise mundial actual provavelmente será necessário um aumento de impostos aquando do próximo orçamento e, no entanto, ninguém o diz... bem pelo contrário.

2. Este cenário de prometer propostas vagas como melhorar a condição de vida dos pobrezinhos ou emprego para todos mas sem incentivos aos patrões que são uns ladrões já é antigo. E não vai mudar, só piorar... Do PCP ao PP. E porquê? Porque não é assim tão fácil escrever um decreto de lei, vê-lo aprovado pelo presidente da República, e depois aplicá-lo quando se fala de privados. Porque é muito bonito privatizar tudo para encher os cofres do estado para diminuir o défice mas depois perde-se o controlo das empresas. É uma consequência natural, Srs. do PSD.

3. O melhor exemplo dos malefícios de algumas privatizações e valorização excessiva dos privados é a liberalização dos combustíveis. A 31 de Dezembro de 2003, o governo de Barroso e Ferreira Leite liberaliza as variações dos preços neste sector (Portaria nº 1423-F/2003 de 31-12-2003) e o que se verificou foi a subida dos preços (algo que no entanto não podem ser acusados). Mas, é incorrecto que alguns anos depois acusem o governo de não controlar os preços dos combustíveis. O governo simplesmente tem que cumprir o que foi aprovado anteriormente...

4. Esta ideia de cumprimento é aliás de bastante difícil compreensão para o PSD. Veja-se o exemplo do TGV que foi provado por esse mesmo governo e que compreendia 3 diferentes trajectos, actualmente é acusado pelos mesmos de uma embirração socialista. Não. É antes uma obrigação internacional social-democrata. Mas, mais do que isso acho que é ridículo pensar em deixar Portugal fora do TGV. Portugal está num canto da Europa e tem que ter as melhores e as mais variadas formas de comunicação. A alta-velocidade é apenas mais uma delas.

5. A principal justificação para negar e rejeitar o investimento em grandes obras públicas que tem sido avançada por diferentes vozes do PSD é que em tempo de crise há que poupar. Erro. A história tem provado o contrário. Nunca o proteccionismo foi a solução mais viável. Sobretudo na época da mundialização total. Carlos Santos, no blog SIMplex, realça alguns desses erros nas políticas económicas do PSD. Aconselha-se a leitura atenta deste post (link) para compreender a dimensão do erro dos "laranjas" que mais parecem "verdes" por vezes.

6. Destaque ainda para o facto de assim que José Manuel Fernandes voltou das férias o Público decidiu novamente pegar novamente nos casos (link) que mais agitaram o governo e Sócrates nos últimos anos. Felizmente, é um direito de qualquer jornalista escrever o que quiser desde que não escreva mentiras, agora será lógico e coerente chamar a tema de capa uma notícia que acrescenta muito pouco às anteriores? Não será que estamos apenas perante uma necessidade de manter sempre a fogueira em lume brando? Só o tempo o dirá.

7. Para terminar destaco mais uma vez a posição de Marques Mendes sobre a ética dos políticos (link). No último mês foram várias as afirmações do antigo líder do PSD sobre este assunto e parece evidente que procura chamar a atenção para dentro do seu próprio partido sobre as consequências negativas que a falta de preocupação ética na elaboração das listas poderá ter nas próximas eleições...

domingo, agosto 23, 2009

instantâneos sentidos

hoje sou apenas mais um sulco na areia

Tudo sobre o programa eleitoral do PSD: "Hmmm..."

Tenho a declarar que eu sei tudo. Conheço o mais bem escondido mistério de Verão: o programa eleitoral do PSD. Antes que me processem por escutas ilegais, adianto que o soube assistindo a uma entrevista televisiva de Manuel Ferreira Leite (Grande Entrevista, RTP1, na quinta-feira passada).

A frase-chave de MLF, indiciando o espírito da coisa, foi: "Eu não quero saber se há escutas ou não, eu não quero saber se há retaliações ou não, o que é grave é que as pessoas acham que há." Dito de outra maneira: não venham cá com a mania dos factos que o importante é que se ache alguma coisa sobre o assunto.

Raramente vi um político português dizer o sentimento de pertença ao seu povo de forma tão inequívoca. Com uma frasezinha apenas, MLF mostrou ser tão portuguesa quanto aquele empresário que ripostou às primeiras calculadoras electrónicas japoneses pondo no mercado um aparelho que não dava números mas debitava belíssimas impressões. "Eu não quero saber se há escutas ou não, [o importante] é que as pessoas acham que há..."

E o interessante é que a gloriosa frase, além de atestar a marca genética lusa da autora, define uma linha, aponta um rumo, escreve, enfim, um programa eleitoral. Cujo é, sem mais delongas: o PSD vai para a suspeita, depressa e em força. Suspeita é a condensação da frase-chave - é o seu sumo. Daí que eu tivesse deslindado o tal mistério do Verão (ajudado, também, por naquele destapar durante a entrevista, dizendo o programa tão curto que talvez coubesse numa folha A-4). Cabe, cabe. O programa do PSD é isto, numa folha branca, escrito com marcador grosso: "Hmmm..."

"Hmmm...", como diz a mulher morena que vê um cabelo louro no ombro do casaco do marido careca. "Hmmm...", como atitude constante e militante para os próximos dois meses. Por uma vez não teremos uma campanha eleitoral com os indicadores duros, acusando. Vai ser mais com boca torcida, insinuando: "Hmmm..."

Aguiar-Branco, na festa do Pontal do PSD, já tinha dado o mote: "Suspeita-se", disse-o cinco vezes num parágrafo. Pacheco Pereira sintetizou: "Só faltava que fosse proibido falar das suspeitas sobre o Governo." E MLF filosofou com a frase que já referi. Tudo numa semana e como antevisão do programa eleitoral que vai ser: "Hmmm.." E, na Grande Entrevista, MLF avisou que vai ser um programa para cumprir. Suspeito, até, que será cumprido todinho durante a campanha: suspeitas, suspeitas, suspeitas.

MLF devia até suspeitar de Fernando Seara. Também esta semana, durante um fogo em Belas, uma repórter televisiva perguntou: "Pode dizer-se que há suspeitas de fogo posto?" Ao que o presidente PSD da Câmara de Sintra respondeu: "Prefiro dizer que é intrigante." Suspeito que é mais um autarca que não aceita a linha do partido.

Ferreira Fernandes in DN, 23 Agosto 09

obs: destaque ainda para o editorial sobre a entrevista de la Féria e a falta de apoios que sente. Pessoalmente, espero duas coisas: que esta continue porque significa que o PSD não ganhou e  não pode premiar o encenador do regime e ao mesmo tempo fica patente que nunca la Féria deixou de levar uma "peça" ao palco por falta de fundos ao contrário de tantas e tantas outras companhias... há que ser realista e ter em conta a realidade de todos os outros que fazem teatro antes de se queixar da falta de fundos....

insensatez

Ah, insensatez que você fez
Coração mais sem cuidado
Fez chorar de dor o seu amor
Um amor tão delicado
Ah, por que você foi tão fraco assim
Assim tão desalmado
Ah, meu coração, quem nunca amou
Não merece ser amado

Vai, meu coração, ouve a razão
Usa só sinceridade
Quem semeia vento, diz a razão
Colhe sempre tempestade
Vai, meu coração, pede perdão
Perdão apaixonado
Vai, porque quem não pede perdão
Não é nunca perdoado


Vinicius de Moraes

ao som do Senegal


Baaba Maal - Bouyel

mais PM e PR...

Estado de consternação

Quando Mário Soares era Presidente da República e eu era director do Público, tivemos uma conversa telefónica em que, a dada altura, se ouviram uns ruídos estranhos na linha. Dei--me conta da bizarra interferência, apesar da minha fraca audição, enquanto Soares confessava estar já habituado a ocorrências do género. Rimo-nos ambos e eu pedi-lhe que me deixasse mandar o hipotético escutador a um certo sítio pouco aprazível.

O episódio ficou por ali e não apareceu notícia nenhuma no jornal, ‘encomendada’ por Soares, sugerida por um assessor presidencial fantasma ou decidida por mim. E não apareceu porque não havia factos que sustentassem qualquer notícia digna desse nome, apenas uma suspeita que, entretanto, se foi tornando, com a passagem dos anos, cada vez mais trivial, como se em Portugal as centrais de escuta se tivessem disseminado a uma velocidade supersónica.

Na época em que essa conversa telefónica aconteceu, o primeiro-ministro era Cavaco Silva e as relações entre ele e Soares estavam, como ficou para a História, muito longe da amenidade política. Mas o Presidente de então, apesar das suas suspeitas, não se queixou publicamente ou, que eu saiba, utilizou algum dos seus assessores para intrigar junto da imprensa (pelo menos, certamente, junto do Público) sobre a eventualidade de estar a ser escutado por Cavaco (ou por alguém a mando dele).

Suspeitas, repito, não são factos, muito menos quando aparecem difundidas através de uma única fonte anónima, sem confirmação plausível. Por muito que a suspeição de sermos ouvidos por outrem em conversas privadas seja insuportável e envenene o clima que é suposto vigorar num Estado de Direito, pior ainda será que se especule gratuitamente acerca disso enquanto não se apurar um fundamento razoável para tais suspeitas.

O verdadeiro jornalismo é feito de factos apurados, não de meras presunções ou suspeições que, por outro lado, têm como base fontes que se refugiam no anonimato e na irresponsabilidade. Mas, nos dias que correm, não faltam jornalistas prontos a acolher avidamente todos os pretextos de intriga e bisbilhotice política, desde que isso lhes ofereça uma manchete para agitar o pântano da silly season e vender mais uns tantos exemplares, neste momento de crise aguda em que vive a imprensa.

Particularmente lamentável, porém, é quando alguns desses jornalistas se tornaram conhecidos por uma carreira marcada pela isenção profissional, como é o caso de São José Almeida, autora do texto que deu origem à manchete do Público da passada terça-feira. Se entre os melhores há já quem ceda à tentação de mandar a deontologia às urtigas, que podemos esperar dos outros – e a que jornalismo teremos direito?

Seguindo a rota da ‘notícia’, cujo objectivo seria criar um clima de afrontamento bélico decisivo entre Cavaco e Sócrates, verificamos que ela começa num jornal quase confidencial, o Semanário, o primeiro a relatar que assessores de Belém estariam a contribuir para o programa eleitoral do PSD. Logo a seguir, duas figuras de segundo plano do aparelho do PS, José Junqueiro e Vitalino Canas, que nunca perdem uma oportunidade para pôr-se em bicos de pés, aparecem a exigir que a Presidência esclareça se isso corresponde à verdade. É então que surge uma fonte anónima de Belém, na qual o Público exclusivamente se baseia para construir o destaque da edição de terça-feira, extraindo desse testemunho fantasma um enredo de comicidade aterrorizante: «O clima psicológico que se vive no Palácio de Belém é de consternação e a dúvida que se instalou foi a de saber se os serviços da Presidência da República estão sob escuta e se os assessores de Cavaco Silva estão a ser vigiados».

Entretanto, o mais curioso é que a fonte anónima não desmente expressamente a colaboração de assessores de Belém na campanha eleitoral do PSD. Pelo contrário, neste teatro de sombras e suspeitas cruzadas, o motivo aparente e inconfessado da «consternação» no palácio presidencial (imaginam-se os rostos contristados e o ambiente de cortar à faca) seria o de a espionagem telefónica ter detectado essa colaboração secreta entre os homens do Presidente e a equipa de Ferreira Leite.

Se o ridículo mata, a hipocrisia não é menos mortífera. Basta seguir os sinais emitidos pelas recentes intervenções do Presidente (os seus vetos sucessivos, as suas queixas oblíquas contra o Governo) para se confirmar o que toda a gente está farta de saber: Cavaco já terminou há muito a fictícia (e mutuamente hipócrita) lua-de-mel com Sócrates e a sua favorita eleitoral é a velha amiga e colaboradora dos tempos em que o actual PR reinava directamente sobre o partido laranja. Aliás, a imparcialidade presidencial é um dos mitos insustentáveis da nossa Constituição, pelo menos sempre que se verificam situações de coabitação política entre um Presidente e um Governo de origens partidárias diferentes.

O discípulo mais querido de Cavaco e, porventura, o artífice principal da campanha da sua eleição, Alexandre Relvas, não faz formalmente parte do staff de Belém, mas preside ao Instituto Sá Carneiro, o principal think tank do programa de Governo do PSD (é supostamente um formigueiro de ideias e propostas inovadoras que, segundo o próprio Relvas, deverá deslumbrar os portugueses). Ora, se o homem mais chegado a Cavaco é um dos estrategas fundamentais de Ferreira Leite, que impedirá outros consultores (formais ou informais) do Presidente de darem também os seus contributos?

Será precisa uma central de espionagem para revelar o mistério e criar um clima de ‘consternação’ no palácio presidencial? O mais apropriado seria falar, sim, do estado de consternação em que vive o país, ao sabor das ridículas guerras do alecrim e da manjerona entre Belém e São Bento, enquanto a imprensa se deixa manipular pelo anonimato, a irresponsabilidade e a hipocrisia política.

Vicente Jorge Silva in SOL, 21 Agosto 09

nota: sublinhados da minha autoria

sábado, agosto 22, 2009

alquimia do verbo

agora fiquei triste, realmente,
emudeci

o que esta boca sente
quando sorri!

o jardim está sem gente
e anda um vago sonho por aí

quando voltar a minha força ausente
hei-de pensar neste álibi.

Mário Cesariny

ainda o PM e o PR...

Um silêncio suspeito

1. Numa Presidência da República nunca há "fontes". Há factos, comentários ou opiniões, que um Presidente, em certas alturas, quer tornar do domínio público sem se comprometer por via oficial, nem sequer com uma nota. E há colaboradores para executarem a vontade e a estratégia do Presidente. Quando não o fazem, obviamente passam imediatamente a ex-colaboradores.

É por isso que o silêncio de Cavaco Silva pesa sobre a actual suspeita de pseudovigilância ilegal às comunicações dos seus assessores por parte de "alguém" do gabinete de José Sócrates.

Como assinala um analista tão isento quanto António Capucho, cavaquista e conselheiro de Estado, quem cala consente.

Ou seja, podemos concluir que Cavaco Silva acredita, ou tem a certeza - o que seria infinitamente mais grave -, de que "alguém" no gabinete do primeiro--ministro anda a ouvir as conversas dos seus colaboradores. Mais: anda a cometer um crime, como tal punido na lei.

2. Depois desta notícia, ao contrário do que advoga António Capucho invocando "razões de Estado", não é possível o assunto "ficar circunscrito a Belém e S. Bento".

Este não é um qualquer "disparate de Verão", como foi classificado no discreto e surpreendente ligeiro esclarecimento de José Sócrates.

Estamos perante uma acusação gravíssima que vai inquinar a campanha eleitoral e merecer a devida valoração por parte dos eleitores que se preocupam com o País.

Muitos eleitores vão, no mínimo, perguntar-se antes de votarem: será que José Sócrates, o primeiro-ministro, tem na sua estrutura pessoas capazes de tudo, até de ilegalidades, para andarem um passo à frente na gestão da informação?

Até agora, Cavaco Silva demonstrou, com o seu silêncio, que quer que os portugueses ponderem essa possibilidade.

3. Para que não restem dúvidas: é absolutamente condenável a estratégia da Presidência da República nesta questão.

Ou a notícia é falsa e já deveria ter sido desmentida; ou a notícia corresponde ao que o Presidente pensa e só poderia ter duas consequências: queixa na Procuradoria e demissão do Governo.

Em democracia não se pode abusar da suspeita, uma palavra que parece, aliás, ser o eixo central da campanha do PSD. Em democracia, a este nível de órgãos de soberania, as suspeitas calam-se e as certezas exigem coragem e uma comunicação frontal com os cidadãos.

No meio está um pântano para onde acaba de escorregar um dos principais símbolos do Estado português. Cavaco Silva, o presidente de todos os portugueses, está hoje, ele próprio, perante a suspeita de estar a participar activamente na campanha eleitoral. Sem provas, sem dar a cara, está a patrocinar que se atire lama sobre José Sócrates.

4. Pessoalmente, não tenho qualquer dúvida: a relação entre o Presidente da República e o primeiro-ministro já está a um nível que faz mal à democracia.

Chegou-se aqui com muita culpa de José Sócrates (o Estatuto dos Açores foi uma declaração de guerra), mas tudo se agravará se Cavaco Silva sucumbir à estratégia de olho por olho, que neste caso pode começar a ser interpretada como um apoio formal ao PSD e a Manuela Ferreira Leite.

Num quadro de maior fragmentação do espectro partidário, como se prevê que possa sair das próximas eleições, esta agressividade entre os dois homens vai ter impacto.

A vida política portuguesa não está a caminhar no bom sentido - e tudo isto só dá razão a quem continua a engrossar as hostes do abstencionismo ou do voto de protesto.

João Marcelino in DN, 22 Agosto 09

sexta-feira, agosto 21, 2009

passos alados

são passos alados
que voam rastejantes
e nos levam a outros dias.

são passos graciosos
feitos linhas tímidas nas fotos que tiras
escondida
atrás de um e de outro turista.

são passos gastos
nas solas dos sapatos velhos
que trocas todos os Invernos.

são passos que voam para longe
e não voltam mais
à cidade onde fomos tão felizes.
naquele ano.
naqueles momentos.

são os passos alados
naquele passo-de-tempo feito passatempo.

quinta-feira, agosto 20, 2009

los fragmentos de la noche

Cómo aislar los fragmentos de la noche
para apretar algo con las manos,
como la liebre penetra en su oscuridad
separando dos estrellas
apoyadas en el brillo de la yerba húmeda.
La noche respira en una intocable humedad,
no en el centro de la esfera que vuela,
y todo lo va uniendo, esquinas o fragmentos,
hasta formar el irrompible tejido de la noche,
sutil y completo como los dedos unidos
que apenas dejan pasar el agua,
como un cestillo mágico
que nada vacío dentro del río.
Yo quería separar mis manos de la noche,
pero se oía una gran sonoridad que no se oía,
como si todo mi cuerpo cayera sobre una serafina
silenciosa en la esquina del templo.
La noche era un reloj no para el tiempo
sino para la luz,
era un pulpo que era una piedra,
era una tela como una pizarra llena de ojos.
Yo quería rescatar la noche
aislando sus fragmentos,
que nada sabían de un cuerpo,
de una tuba de órgano
sino la sustancia que vuela
desconociendo los pestañeos de la luz.
Quería rescatar la respiración
y se alzaba en su soledad y esplendor,
hasta formar el neuma universal
anterior a la aparición del hombre.
La suma respirante
que forma los grandes continentes
de la aurora que sonríe
con zancos infantiles.
Yo quería rescatar los fragmentos de la noche
y formaba una sustancia universal,
comencé entonces a sumergir
los dedos y los ojos en la noche,
le soltaba todas las amarras a la barcaza.
Era un combate sin término,
entre lo que yo le quería quitar a la noche
y lo que la noche me regalaba.
El sueño, con contornos de diamante,
detenía a la liebre
con orejas de trébol.
Momentáneamente tuve que abandonar la casa
para darle paso a la noche.
Qué brusquedad rompió esa continuidad,
entre la noche trazando el techo,
sosteniéndolo como entre dos nubes
que flotaban en la oscuridad sumergida.
En el comienzo que no anota los nombres,
la llegada de lo diferenciado con campanillas
de acero, con ojos
para la profundidad de las aguas
donde la noche reposaba.
Como en un incendio,
yo quería sacar los recuerdos de la noche,
el tintineo hacia dentro del golpe mate,
como cuando con la palma de la mano
golpeamos la masa de pan.
El sueño volvió a detener a la liebre
que arañaba mis brazos
con palillos de aguarrás.
Riéndose, repartía por mi rostro grandes cicatrices.


José Lezama Lima (1910-1976)

quarta-feira, agosto 19, 2009

PM escuta PR?

Estará o Palácio de Belém vigiado? Espero que melhor que a varanda do Palácio do Município. Estará Cavaco Silva a ser escutado?

Se sim, lá ficam sem argumentos os que defendem o aumento dos poderes presidenciais porque ninguém ouve o Presidente. Estou a brincar com coisas sérias? Estou, mas nada se comparado com o silêncio do Presidente depois de um jornal sério ter dito que um homem do Presidente disse que o Presidente estava sob escuta. Um homem? No sentido de ser humano que não o de carácter: assessor da Presidência que insinua um crime contra um símbolo da Nação e não dá a cara não é homem nem é nada. Um jornal sério? Sim, apesar de, nessa notícia, ao falar-se de "João Lobo Antunes", se pôr uma foto de "Nuno Lobo Antunes" e, linhas antes, chamar-lhe "António Lobo Antunes." E isso é grave? É, porque também há o Pedro, o Miguel e o Manuel, que também são irmãos e gente. E chamar toda a família para aqui tem algum jeito? Tem, porque quero que se saiba que estou estupefacto. Estupefacto? Sim, e ponha aí também a palavra suspeita. Suspeita? Sim, para se irem habituando: durante dois meses é a palavra que mais vão ouvir.

Ferreira Fernandes in DN, 19 Agosto 09

obs: Bluff - "In the card game of poker, to bluff is to bet or raise with a hand that will fold enough better hands to be profitable. This is useful because it can cause other players to believe the bluffing player has a dominant hand, so that they all fold; the bluffing player then wins the pot. By extension, the terms are often used outside the context of poker to describe the acts of pretending knowledge one does not have, or making threats one cannot execute." in wikipedia

... não consigo deixar de pensar que se estivesse a jogar poker a Presidência, mais uma vez de uma forma dessimulada e não oficial, tinha reagido de forma culpada ao achar que realmente está a ser escutada. Ou seja... ela pode realmente estar a ser escutada porque ficaram genuinamente preocupados... ou seja... talvez seja verdade que haja acessores a trabalhar para o psd... e mais uma vez a situação é preocupante para os dois lados...

segunda-feira, agosto 17, 2009

uma outra forma de fazer teatro

Pouco tempo passado da morte do Raul Solnado eis que outra personagem fundamental da história do teatro contemporâneo em Portugal desaparece. A morte de Isabel Alves Costa deixa um vazio significativo numa área do teatro onde há poucos homens e ainda menos mulheres a ousarem criar. 

Porque criar é inovar. E inovação é uma das características que no mundo artístico português mais inimigos gera. O trabalho que desenvolveu à frente do Rivoli não foi reconhecido por um poder político que apenas quer circo para o povo. La Féria e música pimba garantem muitos mais votos do que um trabalho invisível de ensinar o povo a ver teatro. 

Mas, nem de más noticias e injustiças gritantes se faz a história de Isabel Alves da Costa. Felizmente para o Minho e para um grande amigo meu foi possível criar algo novo. Criar numa lógica de dar. Sem receber. De ensinar. Numa lógica onde só há espaço para verbos e para acção. As Comédias do Minho têm desenvolvido um projecto onde o ensinar, o mostrar, o dar são verbos de conjugações múltiplas e variadas. São verbos compostos. São verbos sem fim...

No dia da sua morte fica garantida apenas uma certeza: só não há espaço para o verbo morrer neste projecto. Neste dia duro fica um abraço grande para ti, Luís.

kind of blue

The 50th Anniversary of Miles Davis' Kind of Blue

sexta-feira, agosto 14, 2009

Ai, Portugal, Portugal...

Ai, Portugal, Portugal
De que é que tu estás à espera?
Tens um pé numa galera
E outro no fundo do mar
Ai, Portugal, Portugal
Enquanto ficares à espera
Ninguém te pode ajudar

Jorge Palma

Que futuro pode realmente ter Portugal quando não se pensa o passado? É que infelizmente é se escravo do presente, ou quanto muito do futuro imediato, e não há nem houve hábito de examinar e avaliar os erros do passado.

A história enquanto ciência social é algo mais do que ler livros, papeis antigos e dizer um x número de lugares comuns. Pela história podemos analisar as tendências sociais, políticas e económicas que norteiam os tempos. Através dela vemos que há ciclos, e nem estamos obrigatoriamente a dar razão à visão marxista, simplesmente há ciclos como os há na própria vida humana e como nela convém compreende-los para melhor viver e avançar.

Como Eduardo Lourenço referiu uma vez um dos nossos maiores problemas é o excesso de auto-estima, e não como muitas vezes se apregoa o contrário. Vivemos constantemente de acordo com uma recordação nacionalista de que já fomos grandes e por isso acredita-se que só por si tudo voltará ao lugar. Mas não. Só por si não. E importa perceber que esse é um dos aspectos fundamentais do nosso atraso, a incapacidade para compreender o conceito de comunidade. Ou seja, há e sempre houve uma tendência para acusar os outros de não se mexerem e continuar descansado a ver crescer as ervas daninhas no seu quintal.

Ao mesmo tempo que há essa falta de apoio e ligação entre os portugueses para uma construção comum, que só existe ocasionalmente em grandes momentos desportivos ou quando o perigo externo é real, existe um outro problema que é igualmente resultado da falta de leitura histórica - a incapacidade de analisar friamente o presente. Como diz novamente E. Lourenço:"Vivemos hoje tempos melhores do que os que conhecemos no nosso passado recente, e só quem não passou por eles pode desvalorizar esta evolução. Não podemos ser tão pessimistas, talvez tenhamos de reconhecer que os intelectuais, e eu também, sofrem por vezes de um excesso de espírito sonhador, até com uma carga utópica. Depois desiludimo-nos porque a realidade não desaparece e está onde está para nos tirar as ilusões." Basicamente, isto significa que o pessimismo resultante da falta de análise imparcial obriga, muitas vezes, a tomada de posições demagógicas dos políticos ou de outras figuras importantes da sociedade. A demagogia por sua vez resulta em mentira, falsidade e outras acções que descredibilizam a confiança de cada um no outro.

Para o caldo ficar devidamente estragado convém que se tenha acrescentado ao excesso de auto-estima colectiva, à falta de análise histórica, outra característica tipicamente lusitana - a apetência pelo vago. Sempre houve, e nota-se sempre mais na classe política, um especial gosto pela não tomada de posição. Se não se definir claramente uma coisa ficamos livres da responsabilidade em caso de falha. Só assim se entende que os programas de governo sejam sempre chorrilhos de lugares-comuns, onde raramente se encontram ideias concretas. Do PC ao PP, passando por todos os outros claro, temos a garantia de menos impostos, maiores ordenados, melhores casas, mais produtividade, menor tempo de trabalho, mais trabalho para todos, mais filhos, melhores casamentos, liberdade religiosa, sexual, política, etc, de tudo um pouco. Mas sempre vago. Porque todos sabemos que é impossivel ter tudo ao mesmo tempo. Mas, isso não se diz. Perde-se votos. Mas, perde-se também credibilidade.

E significa isto tudo que temos que acabar com a democracia, com os partidos, com os governos? Não. Nunca! Pelo contrário. O problema não são os políticos mentirosos, criminosos ou incompetentes nas sim as pessoas que votam neles. Que criticam levianamente mas nada fazem para mudar. Na política e nas suas vidas. Que mandam papeis para o chão, que cospem, que não são competentes nem profissionais nos seus trabalhos, que se orgulham das vigarices e chico-espertices, que saem sempre cinco minutos mais cedo ou fazem ronha no trabalho porque todos os fazem. Porque ninguém esta isento de culpa. A culpa em sociedade é mesmo assim é repartida. A responsabilidade também. E os resultados idem.

E toda esta análise vem a próposito de quê? É simples... Ontem saiu uma noticia que indicava que o PIB subiu uns ligeiros 0,3%, o que é notoriamente pouco mas é quer se queira quer não positivo. Exceptos para os habituais profetas da desgraça, os mesmo que garantiram alguns dias antes que havia sinais de que a economia recuaria 0,6%. Ups! Erro! Não é grave, também nunca ninguém é confrontado com as suas declarações com mais de 30 minutos. Mas, infelizmente e como é hábito em tantas outras coisas há sempre uma noticia negativa a contrabalançar... a taxa de desemprego atingiu os 9,1%. O que é um valor significativo. Alarmante. Mas, também o que esperavam de um país que sempre viveu assim com pouca produtividade, com poucos empregos, e muito sol para fazer sorrir. Um país onde a lei do tabaco foi a melhor que aconteceu, pois só assim a pausa para o café e cigarrinho pode demorar um pouco mais e a manhã passa num pulinho e a tarde nem se fala.

Estas duas noticias opostas não são nem retrato de uma vitória nem de uma derrota política ou partidária são apenas o espelho das pessoas que as comentam alarvemente em vez de lerem todo o contexto. De pararem para ler os outros países, as outras economias, as outras histórias, as outras vidas. Estas notícias são os melhores presentes envenenados que alguns ressabiados podem receber...

easy

"Im easy like sunday morning" - realmente nem vale a pena dizer mais nada sobre uma expressão tão simples e tão completa...

cidade no verão

a cidade é igual a uma casa
com os quartos abertos ao calor
do meio-dia, cada corredor
conduz ao mar em brasa, ruas praças
que no ar como salas a luz traça

Gastão Cruz in A moeda do tempo

Por que é que o CDS/PP nos toma por parvos?

O CDS/PP já colocou na rua cartazes para as legislativas. Pelo menos é o que se presume serem os cartazes que o CDS/PP colocou nas ruas, já que as próximas eleições são legislativas. E que dizem, que propõem, que prometem os cartazes do CDS/PP? A bem dizer, os cartazes do CDS/PP interrogam. Por exemplo: "Por que é que os criminosos têm mais direitos que os polícias?". Ou "É justo dar o rendimento mínimo a quem não quer trabalhar?".

Com estas singelas perguntas, o CDS/PP diz-nos, aos passantes que lêem os seus cartazes, uma extraordinária série de coisas. Desde logo, que em Portugal os criminosos têm mais direitos que os polícias e que quem recebe o rendimento mínimo não quer trabalhar. Depois, que apesar de afirmar, insinuando-as, as duas enormidades anteriores, não tem coragem de dizer claramente ao que vem, ou seja, não se atreve a propor que "os criminosos" deixem de ter direitos - como, desde logo, o direito a não serem considerados criminosos excepto quando tal é provado nas instâncias próprias, ou seja, os tribunais; o direito a defesa, garantido constitucionalmente e fundamental distinção entre o Estado de Direito e a barbárie; o direito à vida (ou seja, a não serem executados a sangue frio à esquadrão da morte), e outras minudências do mesmo tipo - e que se acabe com o rendimento social de inserção, lançando na total miséria (com o que isso naturalmente implicaria em termos de criminalidade, mas isso agora não interessa nada ao CDS/PP) todos os que são por ele abrangidos por manifesta incapacidade de prover a uma sobrevivência digna.

Não: o CDS/PP toca e foge: quer ter um discurso de extrema-direita tentando não perder completamente a aparência de respeitabilidade e de ligação aos valores democrata-cristãos que gosta de propalar. O CDS/PP quer os votos dos que acham que "os criminosos" deviam ser abatidos a tiro sem contemplações e dos que acham que os pobres são pobres por sua exclusiva culpa e não merecem ajuda, mas quer poder não colocar nada disso no seu programa para, se se der o caso, fazer coligações e governar sem lhe virem cobrar essas "medidas". O CDS/PP sabe, aliás que foi governo de 2002 a 2004, que o seu presidente foi ministro de Estado nesse período e que teve um ministro da Solidariedade, Bagão Félix, que se limitou a alterar o nome do Rendimento Mínimo criado pelo Governo de Guterres para Rendimento Social de Inserção. O CDS/PP sabe que é, mais coisa menos coisa, o diploma assim alterado que está em vigor ainda hoje - o tal cujas regras o CDS/PP questiona nos seus lamentáveis cartazes e ao qual, significativamente, voltou a trocar o nome. O CDS/PP quer, afinal, vender a alma ao diabo sem ninguém reparar. E o mais extraordinário é que parece acreditar que isso é possível.

Fernanda Cãncio in DN, 14 Agosto 09

quarta-feira, agosto 12, 2009

ali. onde o olhar se perde

lisboa 09

carta aberta a Marques Mendes

Caro Marques Mendes,

Anunciei, na semana passada, o fim desta série de cartas abertas inspiradas pelo presente período estival e pré-eleitoral. Mas senti-me obrigado a adiar esse compromisso para poder expressar-lhe o meu apreço pelo desassombro e liberdade de espírito que acaba de demonstrar. Falo, obviamente, do seu protesto contra o esquecimento a que foi votada uma lei proposta por si em 2005, visando a inelegibilidade dos autarcas acusados de crimes graves no exercício das respectivas funções.

Com efeito, não é frequente que antigos dirigentes partidários saiam do seu retiro confortável para lançar uma pedrada no charco das conveniências e do cinismo onde se afunda a ética política. Ora, você denunciou «uma omissão grave, deliberada e escandalosa» que põe em causa, em primeiro lugar, o seu partido, mas envolve também todos os outros – a começar, naturalmente, pelo maior deles, o PS.

É essa omissão que torna possível a arrogante impunidade de alguns autarcas acusados e condenados pela Justiça mas de mãos livres para se recandidatarem aos cargos que exercem, como ainda esta semana pudemos constatar depois do julgamento de Isaltino Morais (alguém que, tal como Valentim Loureiro, você impediu de representar o seu partido, pagando corajosamente o preço de inevitáveis derrotas eleitorais).

Essa lei metida na gaveta há mais de três anos pecava por ser parcial – e, nessa medida, de certo modo injusta –, já que deveria contemplar não apenas os autarcas mas todos os candidatos a cargos electivos ou os nomeados para funções públicas. Em todo o caso, havia nela a vontade de introduzir regras de responsabilidade cívica que a classe política – designadamente os barões feudais do poder local – se tem furtado a respeitar, alimentando o descrédito das instituições democráticas.

A presunção da inocência é um valor essencial do Estado de direito e, algumas vezes, quer por falta de provas, quer por acusações infundadas, podem ocorrer situações que penalizam os cidadãos incriminados. Isso não prejudica, porém, o princípio fundamental de que os cidadãos a eleger têm de estar acima de qualquer suspeita. Quem abraça a causa pública por motivos nobres deveria tomar a iniciativa de suspender o seu mandato e renunciar a ser eleito até estarem eliminadas todas as dúvidas.

Sei que isso representa um sacrifício que, compreensivelmente, apenas pessoas de invulgar envergadura moral estarão dispostas a fazer. Por outro lado, a Justiça lenta, ineficaz e kafkiana que temos, não garante, muitas vezes, a reposição da verdade e a ilibação dos inocentes em tempo oportuno. Só que isso nunca poderá constituir um álibi para justificar comportamentos como aqueles que têm sido exemplificados por alguns caciques locais (como Valentim, Isaltino, Fátima Felgueiras ou Ferreira Torres, só para falar nos casos mais notórios). Em nome da separação entre a Justiça e a política, o que eles visam, no fundo, é assegurar politicamente – pelo voto popular – a sua impunidade no plano judicial.

Em mais uma das suas já antológicas declarações, Manuela Ferreira Leite afirmou esta semana, a propósito da lei (congelada) sobre a inelegibilidade de políticos acusados em processos judiciais, que «em vésperas de eleições não se discutem assuntos tão sérios». Extraordinária confissão! Talvez por isso, a actual líder do PSD não hesitou em escolher para a lista de candidatos a deputados por Lisboa dois dos seus ‘indefectíveis’ que, por ocasional infelicidade, têm processos a correr contra eles nos tribunais (sendo que um deles, António Preto, é não apenas arguido mas acusado).

Desconheço se quando você falou de «omissão grave, deliberada e escandalosa» a propósito da tal lei que meteram na gaveta, já sabia das opções da sua sucessora. O facto é que acertou completamente na mouche. Afinal, a severa paladina da ‘política de verdade’ não sente nenhum incómodo em rejeitar por antecipação – embora alguns notáveis do PSD insistam em fazer crer o contrário – qualquer futura iniciativa parlamentar que vise reparar a omissão escandalosa a que você se referia.

Enquanto protege dois dos seus fiéis envolvidos nas malhas da Justiça, Ferreira Leite mostra-se implacável com qualquer potencial acto de desafio à sua autoridade – como se dessa autoridade não estivesse, afinal, verdadeiramente segura. Confirmou-se, assim, a estupidez política que aqui previ na semana passada. Passos Coelho ganhou o estatuto de vítima do integrismo ferreirista e, para que não restassem dúvidas, um adepto de Coelho, Miguel Relvas, viu-se excluído da lista de Santarém a favor de Pacheco Pereira. Que dirá agora Pacheco do caso (exemplar) de António Preto, depois das acusações que vem fazendo à complacência das direcções partidárias com comportamentos políticos eticamente intoleráveis?

Entretanto, tirando a ousadia de escolher uma mulher livre e independente como Maria José Nogueira Pinto, Ferreira Leite esmerou-se na promessa de renovação das listas eleitorais com um casting que tresanda à naftalina dos velhos baús: Deus Pinheiro, Couto dos Santos, Costa Neves (um pára-quedista açoriano em Castelo Branco – que apetecível presente para José Sócrates!).

Termino, caro Marques Mendes, apresentando-lhe um tardio mas sincero pedido de desculpas. Quando você liderava o PSD acusei alguns comentadores de condescenderem demasiado consigo e até de o levarem ao colo. Ora, nunca houve tanta condescendência reverencial de certos opinion makers (e Pacheco Pereira é apenas o exemplo mais patente) em relação a um líder do PSD como aquela de que desfruta hoje Ferreira Leite. As gaffes e incongruências em que ela vai, todos os dias, tropeçando, são afinal o penhor cristalino da sua autenticidade!

Vicente Jorge Silva in Expresso, 07 Agosto 09

terça-feira, agosto 11, 2009

sudoeste 09 - ao jeito de lamiré

13º daquilo que ainda chamo sudoeste. nunca fui desses de chamar nomes estrangeiros a palavras portuguesas. a momentos portugueses. por isso fui ao 2º, 3º, 4º e voltei apenas lá o ano passado. confesso que gostei. mudou muito. tem muito de comércio mas há sempre espaço para a música. mais do que no de Sines de que gostava tanto. e por isso decidi regressar este ano. pessoalmente começou mal o festival mas só podia melhorar. melhorou um pouco com a garantia de não haver tenda mas sim cama. a companhia fez o resto...

national foi bom. mas como não sou um fã incondicional resume-se a isso. competentes. bons músicos. logo bom concerto. ladyhawke não foi escolha minha. fui com a vaga... logo voltei ao principal para ver buraka. e que concerto. percebe-se o porquê do sucesso lá fora. mesmo não gostando muito da sua base musical, eles são excepcionais em concerto. muito bons.
perdi um pouco de mariza. mas deu para ver que soube aguentar-se a um estilo de concerto fora do seu habitual registo. bom. um pulo no shaggy para um parabéns a um amigo e ouvir um clássico e siga lá para a frente. deolinda também estiveram em grande. desde a banda filarmónica com o seu importante fon-fon-fon até à viagem final. sinal muito negativo para zero 7. concerto paupérrimo. sem garra mas sobretudo como é possível trazerem a segunda equipa para um jogo da champions?
dia final para mim e mad caddies só teve direito a ponta final. porque o essencial foi o melhor. de longe. dos melhores concertos que vi nos vários sudoestes. faith no more foi brilhante. em inglês e em português. do melódico ao mundo dos riffs. foi 5 estrelas. e a relação com o público singular ou não estivéssemos perante um público mais velho e apaixonado.  delicioso. talvez por isso até etienne de grécy me pareceu muito bom. ainda estava com os ouvidos em extâse.

mas, a principal conclusão a tirar do festival não é nada positiva. o pó foi evidente desde o primeiro dia ao contrário do ano anterior. bem ao jeito dos primeiros anos. a (des)organização mudou datas e horas de concertos sem o menor aviso. houve situações vergonhosas como a impossibilidade de concerto de legendary tiger man. problemas com os multibancos. muita coisa a melhorar na organização. mas percebe-se. é sempre assim em portugal. em tempos de crise procura-se cortar em tudo. só para manter o lucro e comprar o novo jipe...

restaurar de escadote

Aprecio uma boa acção política. O cidadão que pela madrugada atravessou a Praça do Município de escada ao ombro, subiu à varanda e hasteou a bandeira da Monarquia tem a minha simpatia. Acção justa: defende uma causa. Acção oportuna: aproveita-se da proximidade do centenário da República. Acção no lugar certo: naquela varanda foi mudado o regime, em 1910. Acção estética: é bonita aquela bandeira. Acção bem propagandeada: filmou-se a coisa. E, sobretudo, acção como devem ser as políticas: comprometendo só quem a faz (não mandando outros à frente), e com um gesto sem consequências definitivas (não se arriscou sangue, só umas bordoadas na esquadra vizinha). É pena que com tanto acerto se descurasse um ponto: a causa em si. A causa é digna, já o disse, mas não me anima restaurar a Monarquia. Eu, quando quero jogar, vou ao casino. Apostar que o filho do rei, por ser filho do rei, é quem melhor nos governa pode dar jackpot (D. João II) ou a forte probabilidade de um cretino (a lista não cabe aqui). Mas, repito, gostei da acção. Como gosto de cada vez que a Liga para a Libertação dos Anões de Jardim rouba um.

Ferreira Fernandes in DN, 11 Agosto 09

não gostava de estar na tua posição

não gostava de estar na tua posição.
uma alma penada entre os tic tacs do tempo.
presa ao passado
sem noção do presente.
ser um arrasto prolongado feito disparo de máquina antiga.

não gostava de estar na tua posição.
folha queimada que insiste em não cair
e evita beijar o chão.
de outras como tu.

não gostava de estar na tua posição.
evitando o contacto com o mundo.
desligando telefones, rasgando cartas, ensurdecendo palavras,
escutando, apenas, as tuas próprias ideias.

não gostava de estar na tua posição.
ontem. agora. amanhã.
mas vou estar aqui. p'ra ti.
como te prometi no nosso casamento.

terça-feira, agosto 04, 2009

Felis silvestris catus

Um gato, em casa sozinho, sobe
à janela para que, da rua, o
vejam.


O sol bate nos vidros e
aquece o gato que, imóvel,
parece um objecto.

Fica assim para que o

invejem — indiferente
mesmo que o chamem.

Por não sei que privilégio,
os gatos conhecem
a eternidade.

Nuno Júdice in Zoologia

nota: aos gatos que povoam um mundo meu que parecia fechado a eles...

estar aqui é...

estar aqui
deslocado de outros momentos
onde me pergunto porque deixei passar
os refugiados do momento.
hora de estar,
ser uma questão
sob a forma de dúvida.
mar batendo.
ritmado.
culpa da lua dizem. culpa minha, garanto.
culpa de não arrumar o coração.
hoje é tarde. tirei o dia de folga.
não quero pensar mais nisso. nem por um momento.
de dúvida.

a lack of color


Death Cab for Cutie

Ferreira Leite mostra o seu V de verdade

Hoje é o dia "D" no PSD para as listas de deputados às legislativas e a primeira ronda de reuniões da líder, Manuela Ferreira Leite, com distritais foi ontem. Umas foram inconclusivas e outras, como o caso de Lisboa, azedaram. E muito, a ponto de causarem a ruptura entre a direcção e a distrital de Carlos Carreiras.

Ao que o PÚBLICO apurou, a causa da ruptura foi a inclusão, por proposta de Ferreira Leite, de alguns nomes em lugar elegível, como António Preto e Helena Lopes da Costa, ambos deputados e arguidos em processos judiciais, a par da subalternização dos nomes propostos pela distrital - o primeiro está em 17.º lugar, zona cinzenta.

Ao PÚBLICO, o líder da distrital lisboeta, Carlos Carreiras, não quis pronunciar-se sobre nomes, mas admitiu que a proposta que ouviu de Ferreira Leite é "uma derrota pessoal". "Vou ponderar as ilações a retirar", afirmou. Não considera, para já, o cenário de demissão, devido aos compromissos que tem com militantes do partido, quer para as legislativas, quer para as autárquicas de Outubro. Carreiras disse ter reservas quanto às listas, por incluírem pessoas que representam "um passado em que se aplicaram más práticas".

O deputado António Preto é arguido num processo por crimes de fraude fiscal e falsificação e Helena Lopes da Costa é arguida num processo de abuso de poder por atribuição irregular de casas municipais quando era vereadora na Câmara de Lisboa.

A reunião com a distrital de Lisboa terá sido a mais tensa de todas as que se realizaram ontem entre a líder social-democrata e as distritais. Mas pela sede da São Caetano à Lapa passaram, pelo menos, José Cesário (Viseu) e Marco António (Porto). Ao que o PÚBLICO apurou, foram inconclusivas, pelo que as decisões ficam adiadas para hoje. Primeiro, na reunião da comissão política e, à noite, no conselho nacional, num hotel de Lisboa. "Amanhã [hoje] se verá", foi a única frase ouvida ontem pelos jornalistas à presidente do partido, Manuela Ferreira Leite, sobre as listas e a anunciada renovação, durante uma visita ao Tribunal de Vila Franca de Xira.

Em Coimbra, a lista também já estará mais definida. Deverá ser liderada por um vice-presidente, Paulo Mota Pinto, e incluir Fernando Antunes, Rosário Águas, Nuno Encarnação (filho do autarca da cidade) e Miguel Almeida.

Para hoje, estão agendadas outras reuniões com distritais. Com a de Vila Real, por exemplo, para resolver um dos "casos" das listas do PSD: o "sim" ou o "não" a Pedro Passos Coelho, adversário de Ferreira Leite na corrida à liderança, como cabeça de lista no distrito. Passos Coelho manteve-se ontem em silêncio.

Ao PÚBLICO, o líder da distrital de Vila Real, Domingos Dias, disse que ainda espera ser possível um consenso com Ferreira Leite. Propôs o nome de Passos, mas a escolha não é pacífica. Até entre os membros da comissão política, que não esquecem as contínuas posições críticas no último ano.

in Público, 04 Agosto 09


obs: Passos Coelho fica mesmo de fora e dois candidatos que estão indiciados entram nas listas... mas vamos acreditar que ela defende uma politica feita de verdade, sinceridade, honestidade e frontalidade...