quinta-feira, julho 30, 2009

de rastos

@ culturgest 09

tudo acaba bem quando acaba bem?

os teus fantasmas estão guardados num armário que pensas mandar fora comigo. não. tu vais atrás. para uma lixeira que julgas longe e, no entanto, está mesmo no teu quintal. donde os fantasmas nunca saíram.

benfica

Acho que já disse que sou do Benfica e nunca é demais dizê-lo, como daquelas vezes em que não nos cansamos de dizer “amo-te” a uma pessoa, mesmo que esta já o saiba há muito. Porque nos dá gosto dizer “Benfica” como se fosse um “Amo-te” repetido até à exaustão. Porque ser do Benfica é dizer “Amo-te” muitas vezes. Porque é o amor que nos une e nos cega e nos faz dizer que não, não é penalty quando todos sabemos que foi, ali, à nossa frente, “com o diabo” dizemos, mesmo não o querendo admitir, “não é, não é” sabendo que estamos a mentir.

Fernando Alvim

segunda-feira, julho 27, 2009

depois da gripe espanhola, da gripe das aves e da gripe suína, a gripe altamente conveniente

by Pedro Vieira via Arrastão

obs: Confesso que me perguntei muitas vezes como iria ser capaz MFL de pôr os seus cândidos pés naquele evento mediático e de alto nível intelectual... infelizmente teve uma gripe...

domingo, julho 26, 2009

o que um homem simples não sofre...

Tinha «demasiados convites» de pessoas a quererem ser suas amigas: o criador da Microsoft, Bill Gates, desistiu para sempre do seu perfil no Facebook, apagou-o. Mais: não é dependente das novas tecnologias e aconselhou cuidado com o tempo que lhes dispensamos.

Gates ainda tentou reconhecer as caras dos mais de 10 mil pedidos pendentes, mas cansou-se: «Estes serviços consomem-nos demasiado tempo útil. Temos de ser cuidadosos a gerir o seu uso», disse, durante uma conferência sobre tecnologia em Nova Deli, segundo o i.

in aBola, 27 Julho 09

sábado, julho 25, 2009

Lisboa, a verdade como ela é


nem vale a pena dizer mais nada...

no mundo dos lançamentos...

há espaço para momentos tão sui generis como a minha estória mais bizarra...
há tempo para perder tempo enquanto tudo começa muito fora de tempo...
há grandes e gordos personagens como que desenhados por um potencial cartoonista americano que se rodeiam duma assustadora mancha gordurosa sob aspecto de família...
há choros emocionados de quem acha que atingiu o Kilimandjaro literário e mal passou da serra do Caramulo...
há um local agradável onde todos parecem que caíram aos trambolhos de um pára-quedas invisível...
há um editor rude que deixou a educação algures ao pé dos restantes livros numa gráfica distante...
há um conjunto de situações que me fazem questionar sobre que mundo é este o dos lançamentos que guarda tão pequenas e curiosas pérolas...

sexta-feira, julho 24, 2009

Poema

O solitário está na gruta
a gruta está no nariz
o nariz está na cara
e a cara abre-se penosamente

A cara está na tristeza
a tristeza está lá dentro
dentro, dentro; lá dentro o desespero
e o desespero no seu elemento

O desespero está no fundo
o fundo, o muito fundo, o grande fundo
desfazem-se, refazem-se, são áridos
e as rugas arrumam-se em grande número.

E a Morte! aliás ainda Morte!
e lá fora! Morte e Morte! Morte!

Henri Michaux
tradução de Herberto Hélder

e devia ter ainda mais vergonha... na cara

Os três párocos do centro histórico de Lisboa apoiam Pedro Santana Lopes (PSD) na corrida contra António Costa (PS) para a presidência da câmara da capital.

"Este homem ama a Cidade! ... Este homem é um homem de palavra!... Este homem tem visão!... Este homem tem vergonha!", afirma o cónego Armando Duarte - que "fala também pelo padre Mário Rui e pelo padre João Seabra" - num texto publicado no último boletim das paróquias da Baixa-Chiado. "Em 2002, mal tomou posse, Santana Lopes recebeu-nos e aproveitou para nos dizer que queria ajudar na reabilitação das nossas igrejas", lembra o padre, antes de fazer aqueles elogios.

"O crivo que usámos no juízo sobre os mandatos de Santa Lopes e António Costa desfavorece o actual presidente. É certo que o dinamismo do Executivo liderado por Santana Lopes já havia tropeçado na pasmaceira daquele que lhe sucedeu", diz o texto. "Contudo, a nosso ver, em dois anos de mandato, António Costa nada alterou, antes agravou o impasse, tratando as paróquias e as irmandades, umas vezes como se fossem perigosos especuladores imobiliários e, outras vezes, como se fossem travões obscurantistas da cultura que interessa a uma Lisboa moderna e progressista".

"Se de nós dependesse, com quem preferiríamos voltar a trabalhar? Como a Igreja é mais estável, já conhecemos ambos", sendo "o juízo" feito com base nos "interesses paroquiais", o que o torna "algo subjectivo", assume o cónego Armando Duarte, que lança, porém, uma ponte face à imprevisibilidade dos eleitores: "Apesar de tudo, se o Povo de Lisboa julgar com uma bitola diferente da nossa e escolher António Costa, cá estaremos para, como ele, recuperar o tempo perdido", escreve o autor do artigo, antes de concluir (a negro carregado): "É um homem inteligente, pode mudar!"

in DN, 24 Julho 09

obs: Ele devia ter mais vergonha na cara... mas eles não lhe ficam atrás... Não sei porque mas tenho a ideia que a separação entre política e religião já ocorreu há alguns anos, mas também assumo que possa ser apenas cansaço.

Inês de Medeiros e Miguel Vale de Almeida nas listas do PS

... nem vale a pena dizer mais nada sobre esta noticia... ou até vale porque como diz o próprio Miguel Vale de Almeida no seu blog:

Vai ser um desafio de todo o tamanho. Mas, e como já disse, é importante definir - e ajudar a definir - que a linha de separação entre direita e esquerda deve passar entre o PSD e o PS; como é importante que cada vez mais pessoas vindas da vida “civil” participem da vida parlamentar e ajudem a animá-la e a influenciá-la com outras energias, pensamentos, linguagens e ligações aos movimentos de cidadania.


Assim vale a pena acreditar que algumas coisas podem mudar...

Top Ten Stupid Things Americans Say To Brits


Late Show com Ricky Gervais
contributo Mário Pimenta

quinta-feira, julho 23, 2009

sobre as escolhas...

No ano da graça de 2001 Dom Rui Zink escreveu um livro a partir das escolhas dos seus leitores internautas. Alguns anos depois João Tibério fez algo ainda mais ousado... escolheu o rumo da sua vida de acordo com o querer e escolhas dos seus companheiros de route no facebook. A escolha foi feita ontem.

Increvi-me em Agropecuária - ramo bovino, pintei o cabelo com madeixas lilases, comprei roupas de flanela verde, adoptei um porco com trissomia 21 e doei toda a minha fortuna a um programa da TVI de crianças com o talento de imitar piriquitos...
Na realidade e fugindo a hábito deste blog, como desabafava com uma muito iluste leitora deste blog, desta vez este post será pessoal... Inscrevi-me em Edição de Texto.

Edição de texto. Eu gosto de ler e reler. Ver e rever. Escrever e pouco de reescrever. Gosto de letras, palavras, frases e silêncios. Só fazia sentido isto. Podia ir arrumar livros, dossiers, folhas e papéis, mas eles para mim seriam sempre letras, palavras e frases... e tudo arrumado num pesado silêncio. Além disso, não posso nunca esquecer o coração nem os meus sonhos, mesmo quando a idade se acumula no BI e os medos surgem ao virar da esquina.

Edição de texto. Ponto final. Letra Times New Roman. Tamanho 12. HTML. e muito mais...

Edição de texto. Porque este texto também foi escrito pelos meus amigos e conhecidos.

Edição de texto. Porque o Zink também será meu professor...

O Portal Lisboa e a Chiado Editora vêm anunciar a sessão de lançamento do livro Entre o Sono e o Sonho – Antologia de Poesia Contemporânea – volume II

Uma obra literária que surge com o intuito de prestigiar e distinguir alguns poetas portugueses, integrando nomes consagrados e emergentes, promovendo simultaneamente a criação poética contemporânea.

Este evento terá lugar no Café In (Avenida Brasília, Pavilhão Nascente, n.º 311 – Lisboa) a 25 de Julho, Sábado, pelas 19h30.A entrada para o evento é livre.

É um fim de semana tramado... Festival de Sines, aniversários, inicio de férias para alguns, regresso do estrangeiro para outros... mas o convite fica feito para a apresentação deste livro que conta com um poema meu...

à beira

decidi passar pela praia.
ouvir o chapinhar de crianças despreocupadas.
felizes de não saberem como o tempo
passa veloz.
rodeadas de brincadeiras que duram eternidades.
e enquanto passo de passo-em-passo
por estes miudos
imagino mil traquinices que lhes pregaria
se invertesse por uma hora
a ampulheta do tempo.

lembro-me quando descia de rolamentos na herdade do pai.
eu e o meu irmão. rápidos como balas - até fogo fazia - dizia ele.
lembro-me que ele ria alto. sempre se riu assim.
mesmo quando a morte o encostou à parede, tal e qual como ele encostara a sua mulher ao sobreiro naquele verão chuvoso.
lembro-me que tal como ela lhe roubou um beijo inocente também a morte o fez. como um jogo de praia dum verão como este, em que a água fria se entranha nos meus pés. e arrepio-me.
do frio e das saudades dele. do riso dele. do fogo dele.

que inveja do mundo de sonho destes miúdos.
sinceramente, só quero que a morte os leve enrolados numa onda sem fim.
que a felicidade entre para férias e não abra mais a loja para eles. como fez comigo depois daquele verão. debaixo do sobreiro.
só quero os miúdos mortos de velhice!

com Augusto Abelaira

Estávamos no café
uma tarde de sábado
como antes quantas vezes
porém desta vez sós

e à minha pergunta
sobre o seu corpo vivo,
o fim está à vista
respondeu;

o silêncio
seguiu-se por um tempo
como se entre nós os dois
se erguesse já a morte

Gastão Cruz in A moeda do tempo

Callema em Bikini


Deixem-se de coisas... vistam o bikini e apareçam na Trama às 21h30... já sabem há um pouco de mim...

Jovem procura PSD para relação aberta

Cara dra. Ferreira Leite, espero que não leve a mal esta carta. Procurei-a no Facebook mas achei que aquilo não era feito por si e que, assim, o assunto ficava entre nós os dois.

Vou directo ao assunto porque não deve ter muito tempo. Terminei o curso há dois anos, a vida corre-me bem na consultora e um partner disse-me outro dia que nasci para "criar valor" (a coisa mais bonita que me disseram na vida). Enviei o meu curriculum para vários bancos de investimento e estou pronto a provocar "choques de gestão" noutras paragens. Mas esta semana o professor que mais admiro disse-me que eu devia aguardar, porque ele me pode levar para o seu governo.

Fiquei baralhado. Este professor passou o curso a dizer que o Estado não presta, que o sector privado é que é bom, que os hospitais deviam ser privados e as escolas idem, e que o PSD devia ser fechado de vez. Não repito o que ele dizia de si (não eram coisas bonitas), mas ele agora tem ido a umas sessões num instituto lá no PSD. Anda entusiasmado com isso, mudou de blogue e já escreveu dois posts a dizer que tem preocupações sociais...

Acho que ele costuma lá ir com um amigo que pode chegar a ministro (e que costuma garantir trabalho lá na minha consultora) e outro que é advogado num escritório grande, e que lembra com saudades os tempos do governo do dr. Barroso, seja lá o que isso quer dizer. Eles andam a recrutar gente como eu.

Na verdade, eu admirava a determinação do Sócrates, defendia a privatização da Caixa e achava que o Rendimento Social de Inserção era uma medida horrível. Mas agora que o meu professor me manda uns powerpoints do PSD (que acho que vão ser o seu programa de governo) ando mudado. Mas também mais confuso.

Eu sou leal e tenho um cérebro maleável. Outro dia, para me testar, defendi junto dos meus amigos que o Serviço Nacional de Saúde não devia acabar! Para quem não acreditava no que estava a dizer não me saí nada mal...

Mas para poder levar esta missão a sério eu precisava de perceber o que é que a dra. pensa de mais uns quantos temas e, já agora, se aquilo que o Alexandre Relvas e o António Borges dizem nos jornais é ou não a sério. Diga-me no que devo acreditar e eu passo a acreditar, é tudo uma questão de mind set, como se diz nos livros de gestão.

Eu decidi que vou passar a gostar de si e do Estado. Mas precisava de saber porquê e o meu professor não se explica muito bem. A única coisa que ele me pediu foi para tirar as minhas fotos no Sudoeste do perfil do Facebook...

Se me puder ajudar, agradecia. Mas se calhar basta dizer que somos contra o Sócrates. Conte comigo por uns tempos. Atenciosamente,

Ricardo Costa in Expresso, 20 Julho 09
contributo Cláudia Fernandes

sábado, julho 18, 2009

pensamentos mindinhos

será o bago de arroz o primo do bago de milho que foi estudar sushi para S. Paulo?

carta de despedida

Temos que deixar de nos ver, entre o trabalho e o ginásio, pouco antes do jantar de familia.
É bom. Confesso.
Sinto aquele sorriso de criança presenteada.
Mas há mais do que isso. Há outros, mais outros e outra.
O miudo entrou para a escola. Sabes disso. Eu contei-te enquanto nos enrolávamos alarvemente feito miudos nas traseiras do pavilhão azul ou feitos em carne picada de talho de suburbio. Sabes disso. Contei-te enquanto choravas por umas promessas de divórcio. Com lençois caidos a uma ponta da cama. Desfeita. Sabes disso. Pelas mensagens recebidas a conta gotas enquanto a minha mulher lava a loiça ou limpa o pó, lá dentro.
Sabes disso tudo. E insistes em ir-me ver ao trabalho, à escola do miudo ou quando alugas uma casa perto da minha de férias.
Sabes disso tudo. E não me deste espaço. Eu queria-te pelo espaço, pela liberdade feita relógio. E mesmo assim preferiste recuar o relógio feita namorada adolescente. E isso não. Desculpa. Só me deixaste uma solução. A morte passional dum amor liceal.
Desculpa, mas quando acabares esta carta será tarde demais. Já a faca rasgará as tuas costas encharcando o soalho novo que colocaras para os nossos futuros filhos brincarem. Desculpa. Mas a mão desta faca é apenas tua.


Do sempre teu,

X

são dias


by Planeta Tangerina

e há aqueles dias que não queremos que terminem nunca... um beijo

Siza Vieira

Toda a arquitectura pressupõe uma determinada relação entre a opacidade natural da maioria dos materiais empregados e a luz exterior. Os grossos muros românicos abriam-se dificilmente para que a claridade do dia movesse, num espaço que parecia recusá-las, as sombras que precisamente iriam dar-lhe sentido. A sombra é o que permite fazer a leitura da luz. O gótico rasgava-se verticalmente em vitrais que, dando passagem à claridade, ao mesmo tempo a matizavam para resgatar no último instante o efeito misterioso da penumbra. Mesmo nos modernos tempos, quando a parede é, em grande parte, substituída por aberturas que quase a anulam, que a fazem desaparecer em absurdos revestimentos de vidro que diluem os seus próprios volumes num processo de caleidoscópicas reflexões e projecções, a necessidade de apoio de que o olho humano não pode prescindir procura ansiosamente um ponto sólido onde possa descansar e contemplar.
Não conheço na arquitectura moderna uma expressão plástica em que o primórdio da parede seja tão importante como na obra de Siza Vieira. Esses muros longos e fechados surgem, à primeira vista, como inimigos inconciliáveis da luz, e, ao deixarem-se finalmente perfurar, fazem-no como se obedecessem contrariados às inadiáveis exigências da funcionalidade do edifício. A verdade, porém, segundo entendo, é outra. A parede, em Siza Vieira, não é um obstáculo à luz, mas sim um espaço de contemplação em que a claridade exterior não se detém na superfície. Temos a ilusão de que os materiais se tornaram porosos à luz, de que o olhar vai penetrar a parede maciça e reunir, em uma mesma consciência estética e emocional, o que está fora e o que está dentro. Aqui, a opacidade torna--se transparência. Só um génio seria capaz de fundir tão harmoniosamente estes dois irredutíveis contrários. Siza Vieira é esse taumaturgo.


José Saramago in DN, 15 Julho 2009

pensamentos mindinhos

se em vez de caminhada chamares trekking podes cobrar mais... custos de tradução

sexta-feira, julho 17, 2009

untitled

Escarpa abaixo
Por entre pedras cortadas
Desce
O gato Simão
- louro, de olhos azuis e longos bigodes.
Um gato como as crianças felinas
De quatro patas mexidas.
Um herdeiro real dos mais belos gatos d’ontem.
E se a arriba levanta a cada momento
Uma pedreira ingreme, vigoroso e esguio cria o seu caminho descendente.
Ao fim, de patas presas na areia não é mais do que uma marioneta sem cordas num mar sem remorsos. Um cruel assassino.
Vai já longe, perdido, afogado o gato Simão.
Soubesse ele, o agora, e não teria
Desbravado tão insuspeita escarpa.

domingo, julho 12, 2009

dizem que podia ter sido um clássico...


Não sei se gosto mais:
- do nome "Duo São Lindas"? - há que ver que beleza não é um dos primeiros conceitos em que penso;
- se do título "Poesia"? - bem que procuro mas não encontro poesia aqui;
- se das bailarinas? - que supostamente dançam?
- ou do beijo do namorado? - no comments...
Sinceramente acho que o TODO é sem qualquer dúvida uma pérola perdida... algures na bela terra de Toronto..

uma escolha sob a forma de desabafo

Talvez não sejamos muitos e muitas… mas existimos. Somos as pessoas que, no espectro político-partidário, tal como ele se apresenta (e não o que idealizaríamos), se colocam entre o PS e o Bloco. Não gostamos do PS-centrão, com políticas neo-liberais no trabalho e na economia, e com um séquito de pessoas predispostas ao tráfico de influências. Gostamos do PS quando se apresenta do lado da igualdade, da liberdade, da modernidade. Não gostamos do Bloco quando descai para a demagogia, quando arrebanha as pulsões populistas, ou quando aposta no “correr por fora” desresponsabilizando-se do governo da coisa pública. Gostamos do Bloco quando se apresenta … do lado da igualdade, da liberdade, da modernidade. Alguns e algumas de nós circulam em espaços criados para suprir esse ponto intermédio: em torno de Alegre, em torno de Roseta. Não é o meu caso. Porque acho que sem máquina e sem diversidade de composição social não há transformação política. Mas estejamos lá ou não, estejamos no PS ou não, estejamos no Bloco ou não, partilhamos uma série de preocupações: sentimos que o sistema político português está prisioneiro de uma lógica de grande centro que cedeu demasiado ao neo-liberalismo e que um sintoma disso são as ligações ao poder económico e o tráfico de influências; cortámos há muito com a esquerda revolucionária, mas recusámos a terceira via, acreditando que é possível uma social-democracia que aposte no papel do estado e dos serviços públicos na garantia de igualdade de oportunidades no quadro de uma economia de mercado regulada e com espaço e incentivo para formas de economia solidária e cooperativa; defendemos acima de tudo a liberdade, e esta mede-se na capacidade de garantir opções e escolhas, diversidade, reconhecimento e direitos. Somos pela escolha na interrupção voluntária da gravidez, somos pela diversidade cultural no país e pelo acolhimento dos imigrantes, somos pela plena igualdade no acesso ao casamento civil por parte de casais do mesmo sexo, somos pela despenalização do consumo de drogas, pela laicidade o estado e pela liberdade religiosa, pela efectiva igualdade de género; somos reformistas, no sentido em que queremos transformações concretas na segurança social, na saúde, na justiça, na educação que, com base na valorização dos serviços públicos e na dignificação dos profissionais, melhorem as chances de boa vida para o maior número possível de pessoas, no tempo da sua vida, sem fazer a mudança depender do agudizar de contradições que possam levar, num futuro distante, a uma sociedade perfeita – em que não acreditamos. Não desejamos que as coisas estejam mal para podermos justificar as lutas, desejamos que elas melhorem mesmo e quanto mais cedo melhor; somos pela inovação, pelo conhecimento, pela capacidade inventiva e criadora, pela sustentabilidade energética, pela ecologia – e achamos que estas áreas oferecem o melhor potencial para o futuro económico do país, ao mesmo tempo promovendo o conhecimento, gerador de liberdade; somos por um país que mede o seu valor pelo que faz agora pelos seus cidadãos e pelas suas cidadãs, nascidos ou não aqui, falantes ou não de português, e não pelos mitos do passado, recusando o medo, o atavismo e a violência simbólica das nostalgias do salazarismo ou das utopias revolucionárias. Somos por uma União Europeia assente numa verdadeira representação democrática dos seus cidadãos, com uma verdadeira Constituição e com políticas que ajudem os países mais pobres a aproximarem-se da média comunitária. Somos pela dignificação do sistema político, trazendo para ele novas pessoas, abrindo espaços e diversidades de opiniões, exigindo accountability, e não somos pelo corte definitivo entre a cidadania e a representação ou por alternativas caudilhistas, presidencialistas ou que se deixem seduzir por suspensões da democracia. Em finais de Setembro vamos ter de decidir em quem votamos. Sabemos que não votamos num PSD cuja líder simboliza praticamente tudo o que de negativo foi aqui elencado – uma política que aposta na negatividade e apela aos piores instintos de receio, fechamento, e honrada pobreza. E muitos e muitas de nós estamos tentad@s a votar à esquerda do PS para punir políticas concretas – laborais ou educativas, nomeadamente. Mas mais do que esses argumentos, racionais, espanta-me a onda emotiva que se instalou, para lá das queixas justas, através da repugnância em relação à figura de Sócrates, pintada com as cores da arrogância e do autoritarismo. Ela assenta, a meu ver, num equívoco de percepção: a ideia de que um líder de esquerda deveria ser ou uma figura de bonomia (Alegre?) ou de inflamação revolucionária (Louçã?) – mas nunca uma figura que governa no seu estilo próprio e sem obedecer a um guião estético ou a um folclore de referências específico. Nesse sentido, Sócrates não “bate certo” com o guião cultural português (daí as acusações, como as de autoritarismo e arrogância, que não conseguem, a meu ver, acertar no alvo). Neste momento de crise (que obriga o PS a pensar os erros da deriva neo-liberal da terceira via e do centrão), de desgaste do governo, de acumulação de asneiras por muitos ministros; neste momento de criação de um clima de “derrota” (estabelecida pelos mecanismos retóricos e publicitários de uma comunicação social que em Portugal, ao contrário do resto da Europa, é estruturalmente conservadora); neste momento em que o PS pode (e deve) ver-se obrigado a pensar à esquerda e a pensar em diálogos com muitos cidadãos e cidadãs das várias esquerdas, é o momento de escolher por onde passa a linha divisória entre esquerda e direita. Pessoalmente não acredito que ela passe entre o PS e o Bloco. Acredito que ela passa entre o PSD e o PS. Não quero o regresso do PSD, muito menos do PSD personificado por Manuela Ferreira Leite ou Santana Lopes. Não concordo com várias das políticas deste governo PS que agora termina. Não vi, ainda, o Bloco sair da lógica do “quanto mais dificuldades e tensões sociais melhor”, que o leva a apostar mais no “correr por fora” do que a valorizar as ideias e modos de uma das suas correntes fundadores (a que pertenci), a Política XXI. Mas vejo pela primeira vez, no PS e sobretudo em Sócrates, sinais de um projecto de modernização para o país que se diferencia quer da tentação miserabilista da maior parte da direita, quer da tentação revolucionária da maior parte da esquerda. Justamente num dos piores momentos por que aquele partido passa, e sem qualquer intenção de aderir de novo, enquanto filiado, a um partido, votarei pela primeira vez na vida no PS.

Miguel Vale de Almeida in os Tempos que Correm

e mais uma vez a esquerda vai separada...

Decididamente a esquerda insiste em não aprender...
...depois queixem-se quando o PSL for novamente presidente da câmara de Lisboa e voltar a enterra-la em dívidas, em túneis, em revistas no parque mayer, afaste o arraial gay do centro e menospreze os eventos culturais que voltaram a colocar Lisboa no panorama internacional. Depois queixem-se...

Não foi por falta de esforço como se prova hoje no Público:

António Costa assinou esta tarde um acordo com o vereador José Sá Fernandes, eleito pelo Bloco de Esquerda (BE), e apresenta amanhã a sua candidatura à Câmara de Lisboa. Mas a verdade é que até há poucas semanas fez uma tentativa de última hora para ainda conseguir um acordo do PS com PCP e BE para o município da capital.

O PÚBLICO apurou que um dos derradeiros esforços foram feitos com o BE, já depois das eleições europeias, em que o PSD venceu e os socialistas saíram derrotados. Com o PCP, os contactos são mais antigos.

Em ambos os casos, tudo acabou em nada, a exemplo do que já tinha acontecido antes. Até porque tanto os comunistas, com Ruben de Carvalho, como os bloquistas, com Luís Fazenda, já tinham lançado os seus candidatos à maior câmara do país.

Hoje, depois da assinatura do acordo que permitirá a Sá Fernandes um lugar elegível nas listas do PS, António Costa deixou em aberto a hipótese de novos entendimentos para “o alargamento da base de apoio” da sua candidatura, mas não disse com quem. No limite, “com os lisboetas”.

Contente com os apoios recebidos nos últimos dias — entre eles o do escritor comunista e Nobel da Literatura José Saramago —, Costa anunciou também que o seu mandatário financeiro será António Pina Pereira, que tivera a mesma função na candidatura presidencial de Manuel Alegre.

Já José Sá Fernandes, com uma agenda verde, garantiu que continuará a “virar a página” da política ambiental sem pensar muito na transferência dos votos do partido que o elegeu, o BE, para o PS. “Ninguém é dono dos votos de ninguém”, afirmou, parafraseando Alegre.

chuva de luz

a queda da máscara

António Chora foi a um almoço de homenagem a Manuel Pinho. Perguntado sobre o que achava da presença do seu camarada de partido no evento, Francisco Louçã disse que era uma coisa da vida pessoal do sindicalista. O extraordinário é que o conseguiu dizer sem que um traiçoeiro pequeno sorriso lhe aflorasse a cara.
Quem conhece, por muito pouco que seja, a história da extrema-esquerda sabe que esse luxo pequeno burguês de ter amizades com os inimigos de classe ou até vida privada não é tolerável.
Isto seria mais que suficiente para que António Chora tivesse o seu destino traçado, mas, para piorar as coisas, ainda teve a irresponsável ideia de pensar pela sua cabeça, assinar um acordo com a administração da Autoeuropa e elogiar a acção do ex-ministro.
Num toque de humor ou ingenuidade, o líder da comissão de trabalhadores da Autoeuropa ainda afirmou que no Bloco de Esquerda os militantes têm a máxima liberdade. Das duas, uma: ou está enganado no partido ou ainda não percebeu onde está metido. Mas de uma coisa pode estar certo: não tarda em perceber.
A sua sessão de autocrítica deve estar já agendada e o resultado terá a marca registada do Bloco: um afastamento suave e gradual mas definitivo.
Alguns dos seus camaradas farão umas críticas veladas sobre alguns aspectos da sua personalidade e das suas amizades; apesar da sua notoriedade não constará das listas de deputados a apresentar pelo Bloco de Esquerda - ou entrará num lugar que tornará impossível a sua eleição - com a desculpa de que não se pode distrair da sua acção sindical em tão importante momento; no próximo congresso desaparecerá da Mesa Nacional do partido.
Pouco importa que o operário da Autoeuropa seja a única figura sindical relevante ligada ao Bloco, que a sua acção responsável seja elogiada por todos, que muito pela sua actividade os trabalhadores desta empresa tenham das melhores condições laborais que se podem encontrar em Portugal. Nada disso tem importância para o Bloco de Esquerda. O importante é ser contra e não colaborar. Uma atitude construtiva é algo tão desprezível para esta agremiação como um pedaço de presunto para um muçulmano.
Mais do que ir ao jantar organizado em honra de alguém que aprecia, António Chora tem uma característica imperdoável: faz e aparentemente gosta de pessoas que façam.
Isto de fazer é muito perigoso: corre-se o risco de ser avaliado.
O Bloco de Esquerda receia o poder, não por o não querer mas porque não acredita na democracia liberal. O exercício do poder com as regras desta levariam à aceitação de um conjunto de princípios que o Bloco rejeita e que o transformariam num partido como os outros.
A semelhança com o Partido Comunista é evidente. Também este sabe o custo que acarretaria o exercício do poder: o fim ou a condenação à irrelevância.
Logo, a estratégia é óbvia: quanto pior, melhor. Quanto mais ingovernabilidade, mais instabilidade, mais perturbação, mais o sistema estará em causa e a revolução mais próxima. Nada de procurar soluções, nada de pactos, nada de colaborações com pessoas ou instituições do sistema democrático.
E é isso que certos sectores do Bloco não percebem ou fingem não perceber.
A verdade é que o combate entre os bloquistas que acreditam na democracia liberal e os outros foi apenas aparente. Aqueles foram uma espécie de idiotas úteis a quem foi dado o papel de construir uma imagem de respeitabilidade e modernidade.
Bem preparados e dominando o espaço mediático, cavalgaram as chamadas causas fracturantes através das quais seduziram o eleitorado jovem e urbano e, muito por força do seu trabalho, construíram a actual base eleitoral do partido.
Enquanto lhes eram tolerados devaneios como opiniões próprias e discordâncias pontuais, os verdadeiros ideólogos e donos da máquina partidária esperavam pelo momento em que se podiam ver livres destes traidores de classe.
O papel destes está cumprido. A revolução já não precisa deles. Uns - os afortunados - foram remetidos para a Europa e os outros serão oportunamente afastados.

Pedro Marques Lopes in DN, 12 Julho 09

obs: há melhor prova disto do que o afastamento de Joana Amaral Dias da actual direcção do Bloco?

quarta-feira, julho 08, 2009

por entre as grades

Fecham os portões em volta. Metálicos. Castanhos. Imóveis. Incondicionalmente obrigatórios. Procuram fechar algo mais do que pessoas. As pessoas que não se fecham entre quatro paredes. As pessoas que não se fecham. Mas saltam, espremem-se, encolhem-se, passam. Furtivas. Feitas snippers do dia-a-dia. O que se fecha por detrás daquelas portas, grades, barras são os desejos, sonhos e ambições daqueles que pensam que não há espaço para haver espaços abertos. O que se fecha por detrás daquelas portas é o nosso mundo ao lá de fora. Fecha-se o portão em volta da universidade mas fecha-se sobretudo a universidade ao mundo. Que o mundo há muito que passou por ali.

dizem que é um clássico...


Cyndi Lauper - Time after time

...clássico? eu acho que é apenas piroso... que mulher desgostosa se deita numa cama com um cão de porcelana? aceito respostas válidas!

sexta-feira, julho 03, 2009

sleepless heart

Depois de cantar o Mundo em 2006, apresenta-nos Mãe, em 2009, numa sentida homenagem à sua própria mãe falecida há pouco tempo. Rodrigo Leão, músico de primeiríssima qualidade, mostra mais uma vez a sua versatilidade e originalidade quando convida músicos como Stuart Staples (Tindersticks), Neil Hanon (Divine Comedy) ou Daniel Melingo para participarem no seu trabalho, contribuindo assim para um conjunto de canções melancólicas, cinematográficas e multi-culturais. É a primeira vez que Rodrigo Leão compõe para vozes masculinas, num registo onde encontramos canções cantadas em português, inglês, espanhol e até russo. E o resultado não desilude: sereno, introspectivo e altamente recomendado para alturas de maior capacidade filosófica e de auto-análise!



Mariana Vilela in Xukebox

culturando em 2009

...não vá a memória falhar fica já aqui o post-it dos momentos culturais por onde já passei este ano...

Cinema

Benjamin Button
Revolutionary Road
Patti Smith
Choke
Gran Torino
Singularidades de uma rapariga loira

Exposições
nova colecção Berardo
Raul Perez
prémios EDP
Bethan Huws
Guy Tillin
de Rato Mickey a Andy Warhol

Música
Michael Strauss
Ray Lema

Teatro
Eldorado
Esta noite improvisa-se
A mãe
A noite
Os tambores na noite
Menina Júlia
Chuva pasmada
Amanhã
Querida professora Helena Sergueiévna
Menina Else

o aparte o ministro e os cornos

Não é verdade que o incidente tenha sido com o ministro da Economia. Foi com o ministro da Economia e da Inovação. O pormenor não é para desprezar. Foi nessa qualidade de ministro da Inovação que lhe deu, a Manuel Pinho, para se expressar de forma nova. Ele, que tem tentado manter em funcionamento as minas de Aljustrel, custou-lhe ouvir um aparte jocoso do deputado comunista Bernardino Soares. Daí Pinho ter feito um gesto lembrando Ápis. O boi Ápis era adorado no Antigo Egipto e era símbolo da fecundidade. Provavelmente o ministro queria dizer, com o seu gesto, que ele, Manuel Pinho, fecundou, fez, arranjou trabalho para os mineiros. Mas o país, pouco dado à mitologia egípcia, não entendeu. Não entendeu apesar de o ministro ter feito corninhos que mais pareciam antenas da Abelha Maia - numa alusão evidente ao touro Ápis, pois ápis também quer dizer abelha. Ora é essa frouxidão na linguagem gestual - esses cornos parecidos com antenas - que eu mais critico em Manuel Pinho. Mais valia ele ter feito um grande manguito ao aparte jocoso. No Parlamento há certas coisas que não se fazem, mas, em fazendo, que seja com garra. E, depois, claro, pedia demissão.

Ferreira Fernandes in DN, 3 Julho 09

quinta-feira, julho 02, 2009

Dans Une Outre Vie Misérable

...no dia da confirmação de Foge Foge Bandido no festival de Paredes de Coura aqui fica uma excelente música do mais recente projecto de Manuel Cruz. Perfeita a fusão entre português e francês. Perfeita a forma como a musicalidade de Manuel Cruz conseguiu evoluir dos Ornatos para este projecto sem perder o seu toque e sonoridades tão especiais. Perfeito o facto de o seu mais recente álbum/livro O amor dá-me tesão ter esgotado tão rapidamente. Perfeito saber-se que já estar a ser reeditado... A mais recente pequena pérola da música portuguesa? Provavelmente...!

obs: Infelizmente não há imagem... e pior que tudo o vídeo consiste na segunda metade do álbum toda de seguida... É da forma que a música ganha lugar de destaque.Pessoalmente aconselho logo a primeira música Dans Une Outre Vie Misérable (0:00-3:46).

quarta-feira, julho 01, 2009

futebolices de papel...

Bandeira in bandeira ao vento

política de verdade?

O porta-voz do PS afirmou hoje que a presidente do PSD sofreu um "forte abalo na sua política de verdade" ao recusar-se a assumir a responsabilidade pela venda da rede fixa à Portugal Telecom (PT).

A posição de João Tiago Silveira foi transmitida em conferência de imprensa, depois de Manuela Ferreira Leite ter contrariado na terça-feira afirmações do presidente do Conselho de Administração da PT, Henrique Granadeiro.

Ao contrário do que afirmara Henrique Granadeiro ao jornal "I", a líder social-democrata disse que a venda da rede fixa foi decidida pelo Governo socialista de António Guterres e não pelo seu, de coligação PSD/CDS-PP, liderado por Durão Barroso.

O negócio já tinha sido contemplado no Orçamento de Estado para 2001 mas, como lembra hoje o Diário Económico, António Guterres tinha apresentado a demissão pelos maus resultados do Partido Socialista nas Autárquicas. Guilherme d'Oliveira Martins, então ministro das Finanças, assumia apenas a gestão das Finanças, não tendo tomado a decisão do negócio da venda da rede fixa à PT.

Essa decisão só foi tomada na legislatura seguinte, liderada por Durão Barroso, com Manuela Ferreira Leite na pasta das Finanças. No entanto, a líder do PSD disse ontem que "o negócio da venda da rede fixa estava feito pelo PS quando eu cheguei ao Ministério das Finanças".

O diário "I" também acrescenta que a venda aprovada pela antiga ministra das Finanças foi feita por um valor muito inferior àquele em que a rede estava avaliada: valia 2 mil milhões de euros, mas a PT pagou 365 milhões.

Para contestar esta posição de Manuela Ferreira Leite, o porta-voz do PS fez distribuir pelos jornalistas fotocópias da resolução do Conselho de Ministros em que o executivo de Durão Barroso aprovou a venda da rede fixa à PT, assim como fotocópias do Diário da Assembleia da República em que a então ministra de Estado e das Finanças assumiu que iria negociar essa operação com a PT.

"A dr.ª Manuela Ferreira Leite teve aqui um forte abalo na sua política de verdade - e este não foi um abanãozinho", declarou o porta-voz do PS.

Segundo o porta-voz socialista, "a dr.ª Manuela Ferreira Leite afirmou terça-feira que a decisão da venda da rede fixa à PT não era da sua responsabilidade política, mas os factos provam o contrário".

"A resolução do Conselho de Ministros 147/2002, de 11 de Dezembro de 2002, aprovada pelo Governo PSD/CDS-PP, do qual a drª Manuela Ferreira Leite era número dois, estipulou as condições de venda e o preço de venda da rede fixa à PT", começou por apontar João Tiago Silveira, que sublinhou o teor dos artigos números um e três dessa mesma resolução.

"No número um dessa resolução do Conselho de Ministros, refere-se o seguinte: aprovar a minuta do contrato de compra e venda da rede básica de telecomunicações e da rede de telex a celebrar entre o Estado Português e a PT Comunicações SA. Mais do que isso, essa resolução, no número três, delega na ministra de Estado e das Finanças, Maria Manuela Dias Ferreira Leite, os poderes para outorgar em nome do Governo o contrato de compra e venda da rede básica de telecomunicações e da rede de telex", declarou João Tiago Silveira enquanto lia o teor do diploma aprovado pelo executivo PSD/CDS-PP.

Para o porta-voz do PS, "os factos não mentem" e "a resolução do Conselho de Ministros 147/2002, oito meses depois do Governo PSD/CDS-PP estar em funções, onde a drª Manuela Ferreira Leite era a número dois, é que constitui a decisão política de venda da rede fixa à PT".

João Tiago Silveira referiu-se ainda a um debate na Assembleia da República, em que o tema da venda da rede fixa pelo Estado Português à PT foi objecto de discussão.

"No dia 23 de Outubro de 2002, quando se discutiu na Assembleia da República o Orçamento do Estado para 2003, a drª Manuela Ferreira Leite disse muito claramente aos deputados que era dela que dependia a negociação, o preço e a venda da rede fixa à PT", sustentou o porta-voz do PS, socorrendo-se depois da acta dessa sessão plenária no Parlamento pata tentar provar a sua tese.

"Numa passagem, Manuela Ferreira Leite diz que não negava e que estava a negociar a venda da rede fixa. Mas disse ainda mais: se o preço não for compatível com a avaliação, não venderemos. Isto significa que a decisão de venda ainda não estava tomada nesta altura e significa que o preço ainda não estava negociado. Isto passou-se a 23 de Outubro de 2002, mais de seis meses depois de o Governo PSD/CDS ter entrado em funções", declarou João Tiago Silveira.

De acordo com o porta-voz do PS, "os factos provam que a decisão política sobre a decisão da venda da rede fixa à PT e fixação e negociação do preço foram da responsabilidade da drª Manuela Ferreira Leite e do Governo PSD/CDS-PP".

"A dr.ª Manuela Ferreira Leite podia não ter vendido a rede fixa à PT, mas quis vendê-la; podia ter escolhido vender por outro preço, mas optou por vender pelo preço que é hoje conhecido", acrescentou.


DN, 1 Julho 09

Madoff merecia lei de Talião

Bernard Madoff fez investidores perder 30 mil milhões de dólares, a maior fraude financeira de todos os tempos. Bernard Madoff, aos 70 anos, apanha 150 anos de prisão. Sempre um exagerado com os números, este Madoff. A lei de Talião (de onde vêm a portuguesa retaliação) costuma adequar a pena com o crime e os Estados Unidos têm uma tradição, nem sempre oficial, do olho por olho. Por exemplo, o assassino Jesse James encontrou um Bob Ford que o baleou, o pistoleiro Wild Bill Hickok caiu sob as balas de Jack McCall e Lee Oswald foi morto por Jack Ruby. Nos actos de Ford, McCall e Ruby (cada um deles julgando-se justiceiro) houve a intenção de reconhecimento social, uma das características da aplicação das leis - é bom que o povo sinta a sentença como sua. É aí que falha mandar Madoff para uma cela. Ele vai, e até 150 anos, mas não me sinto vingado. Era preciso encontrar um esquema em que ele fosse constantemente burlado. Ele devia ser obrigado a comprar carros com motor martelado e casas sem licença de habitação, obrigado a jogar na vermelhinha e a casar com noiva que não aparecia no altar... E, já agora, deviam obrigá-lo a votar em Portugal.

Ferreira Fernandes in DN, 1 Julho 09