terça-feira, junho 30, 2009

arquitecturando Junho XXX

Richard Riff
Hôtel de Ville - Combs-la-Ville, 2005
photograph Isabel Tabellion

Pina Baush (1940-2009)

Há pouco mais de uma semana, Pina Bausch ainda subiu ao palco do Teatro de Wuppertal, cuja companhia de dança dirigia desde 1973. Há cinco dias tinha sabido que sofria de cancro. Morreu hoje, aos 68 anos. Poucas obras terão alargado tanto os horizontes da dança...

in Público, 30 Junho 09

arquitecturando Junho XXIX

Frank Lloyd Wright
Guggenheim museum - NY, 1959
photograph University of Helsinki

segunda-feira, junho 29, 2009

Flowers competing for the sun...


Tori Amos - Winter
...as a flower in a rainy day...

arquitecturando Junho XXVIII

Wiel Arets
University Library - Utrecht, 2005
photograph Andrea Preda

em busca da esquerda perdida

Na sua última crónica, José António Saraiva confessava a dificuldade em perceber o que se passou nas últimas eleições europeias, esperando que o tempo o ajudasse a encontrar uma explicação para o enigma. De facto, como entender que «numa altura em que a sociedade se abriga à sombra do Estado para se proteger da crise, os eleitores votem em partidos que são relapsos à intervenção estatal?» E «como é que, com o desemprego a aumentar, a direita ganha em quase 75% dos países da União, incluindo Portugal, Espanha, França, Itália, Reino Unido, Irlanda, Alemanha, Polónia, etc.?».

Partilho largamente a perplexidade de Saraiva, no momento em que, como ele recorda, a América «salta da direita para a esquerda» transportada pelo ‘efeito Obama’. Mas talvez valha a pena retomar algumas reflexões que tenho feito sobre a questão.

Desde logo, não era plausível que o ‘efeito Obama’ pudesse contagiar uma esquerda europeia inerte, dividida, em profunda crise de identidade ideológica e, sobretudo, sem vontade para enfrentar tempos de mudança.

Obama chega à Casa Branca depois da calamitosa presidência de Bush, que conduzira a América a um beco sem saída. Ora, quando isso ocorre, já a esquerda europeia estava em contraciclo, na sequência do refluxo que a afastou do poder em grande número de países, incluindo os dois com maior peso económico e político: a Alemanha e a França.

A esquerda não soube reinventar-se após a queda do Muro de Berlim, quando a doutrina neoliberal se afirmou em força como única via supostamente pragmática para assegurar a prosperidade económica (o trabalhista Blair, no Reino Unido, e o social-democrata Schroeder, na Alemanha, limitaram-se, no fundo, a prosseguir o legado da era Thatcher-Reagan). Apesar das fórmulas retóricas – «sim à economia de mercado, não à sociedade de mercado», declarava Jospin, em França –, a verdade é que a esquerda se foi convertendo, nuns casos a contragosto, noutros de forma ostensiva, à nova doutrina triunfante.

Ora, a diluição da esquerda na grande vaga neoliberal dos anos 90 acabou por inibi-la de repensar-se e antecipar alternativas consequentes à actual crise internacional. Com a excepção mais notória de Gordon Brown – fortemente penalizado, nas eleições para o Parlamento Europeu, pelos recentes escândalos na Câmara dos Comuns –, foram os principais dirigentes da direita europeia que protagonizaram a intervenção estatal no combate à crise, recorrendo a meios tradicionalmente identificados com a esquerda e o modelo keynesiano.

Nada que se compare, é certo, à panóplia de medidas adoptadas pela Administração Obama, mas ainda assim com uma carga simbólica indiscutível: a direita aplicava, sem estados de alma, receitas de esquerda, e alguns dos seus líderes, como Sarkozy, não mostravam nenhum pejo em denunciar, com grande fervor moralista, os delírios neoliberais do capitalismo financeiro. A esquerda bem podia clamar contra o roubo dos seus ‘direitos de autor’, mas o que ficava no ar era o eco de uma retórica impotente.



Ironicamente – mas exemplificando a confusão em que mergulhou a esquerda europeia –, um dos políticos mais avessos às medidas de inspiração keynesiana foi o ministro das Finanças alemão, Frank-Walter Steinmeier, actual presidente do SPD e membro da coligação presidida por Angela Merkel. Recorde-se que os sociais-democratas alemães registaram, a 7 de Junho, o seu pior resultado eleitoral de sempre e todas as sondagens os dão como grandes derrotados nas legislativas deste ano.

Mas Steinmeier está longe de ser um caso original entre os sociais-democratas europeus: o nevoeiro da crise tende a apagar outros traços que distinguiam a social-democracia da direita conservadora. Na Holanda ou em alguns países nórdicos, responsáveis sociais-democratas não hesitam sequer em fazer declarações xenófobas contra a concorrência dos trabalhadores imigrantes para confortar parte do seu eleitorado ameaçado pelo desemprego.

E que dizer do Partido Democrático italiano, nascido da fusão entre os ex-comunistas e os democratas-cristãos afectos ao já reformado Romano Prodi? O esforço laboratorial para diluir, num centrismo asséptico, as matrizes de origem e os anticorpos ideológicos, levou o maior partido da esquerda italiana a tornar-se politicamente irreconhecível – e tão anónimo como o seu actual presidente, Dario Franceshini.

Asocial-democracia está órfã de verdadeiros protagonistas, como aqueles que marcaram a paisagem política continental e se reconheciam no espírito europeu (como Mitterrand, González, Soares, ou, recuando mais no tempo, Willy Brandt ou Olaf Palme). A essa geração seguiu-se uma outra de actores secundários ou simples figurantes, destituídos de pensamento político e irradiação europeia, meros produtos dos artifícios do marketing (como Sócrates ou Zapatero). É uma nova geração que foi incapaz de propor uma estratégia, um programa político e um candidato à presidência da Comissão, rendendo-se ao camaleonismo político de Durão Barroso.

O eleitorado popular desertou das urnas – ou preferiu mudar o seu sentido de voto – porque essa social-democracia sem norte não lhe inspirava confiança e merecia ser castigada. Com efeito, a actual esquerda europeia voga entre a nostalgia dos valores perdidos, um regresso ao passado glorioso do Estado Providência, e a incapacidade de produzir um paradigma político inovador, que corresponda à emergência da crise internacional e aos seus múltiplos desafios (nomeadamente, ecológicos, civilizacionais, da relação do Estado com o mercado).

É evidente que tudo isto não responde cabalmente à perplexidade de Saraiva nem à minha. Será apenas um princípio de resposta. Mas se a esquerda perde quando, supostamente, deveria ganhar, é talvez porque, entretanto, se perdeu pelo caminho.

Vicente Jorge Silva in Sol, 26 Junho 09

arquitecturando Junho XXVII

Mazharul Islam
Bangladesh National Archive - Bangladesh, 1979
photograph www.muzharulislam.com

Gripe A(mericana)?

Autoridades de saúde dos Estados Unidos estimam que pelo menos um milhão de americanos foram infectados com o vírus da gripe suína.

O número divulgado neste sábado é bem maior do que os casos que foram reportados para as autoridades.
O Centro para Controle e Prevenção de Doenças (CDC, na sigla em inglês) disse que muitos dos casos são leves, apesar de 127 pessoas terem morrido. O centro baseia sua estimativa em pesquisas, ao invés de resultados de exames de laboratórios.
"Nós estamos dizendo que houve pelo menos um milhão de casos do novo vírus H1N1 até agora neste ano nos Estados Unidos", disse Anne Schuchat, do CDC. "Os casos reportados são apenas a ponta do icebergue."
Caso seja correto, o número sugere que o índice de mortalidade pela doença é menor do que se pensava.
Schuchat alerta, no entanto, que a gripe suína pode ser mais contagiosa do que a gripe comum e que o vírus pode voltar com uma variante mais forte no outono do hemisfério norte.
De acordo com o CDC, há 27.717 casos prováveis ou confirmados, com três mil pessoas tendo sido hospitalizadas. A média de idade das 127 vítimas fatais no país é de 37 anos.
O vírus da gripe suína continua afectando principalmente pessoas com menos de 50 anos, e os pacientes com problemas como asma e diabetes são os mais vulneráveis à doença.
As autoridades do CDC e da Organização Mundial da Saúde (OMS) estão monitorizando a disseminação da doença no hemisfério sul, em particular na Argentina, Chile e Austrália, para avaliar como o vírus se espalha durante os meses de inverno.
O ministério da Saúde da Argentina registou 26 mortes atribuídas à gripe suína, e 1.587 casos da doença. Autoridades estão orientando as pessoas a deixarem espaços entre si nas filas para a votação nas eleições legislativas argentinas, neste domingo.
No Chile, foram registados 6.211 casos, com 12 mortes. Já na Austrália, o número de mortes pela gripe suína é de cinco, com 3.677 casos.
O vírus da gripe suína apareceu pela primeira vez em Abril, no México, onde 116 pessoas morreram e 8.279 casos foram registados.
No dia 11 de Junho, a OMS declarou uma pandemia da doença. Segundo a organização, já foram registados quase 60 mil casos em 100 países, com 263 mortes.

in BBC Brasil, 27 Junho 09

nota: A terminologia gripe mexicana já passou há muito, mas com estes números não seria melhor renomear-se novamente a pandemia para gripe americana? Veja-se que alguns dos 13 casos portugueses são de pessoas vindas dos EUA e não do México. Destaque ainda para a estranheza que estes potencias números avassaladores podem provocar, afinal estamos a falar da que é considera potência número 1 do mundo em termos económicos, militares mas também médicos... algo bate mal nesta história...

sexta-feira, junho 26, 2009

arquitecturando Junho XXVI

Johann Otto von Spreckelsen
Le Grand Arche - Paris, 1989
photograph Atoma

cá te espero...

Uma extravagância digital de 50 minutos concebida por Peter Greenaway a partir da tela "As Bodas de Canaã", de Paolo Veronese, está a dividir opiniões na 53ª edição da Bienal de Veneza. Na parede do refeitório do mosteiro beneditino da ilha veneziana de San Giorgio Maggiore, os visitantes podem ver uma réplica digital da imensa tela de Veronese, precisamente com as mesmas dimensões do original, que mede quase 67 metros quadrados, sobre a qual é projectado o filme de Greenaway, que abarca também o espaço ao redor da pintura.

A obra de Greenaway tanto se aproxima de uma lição sobre pintura servida por sofisticados meios tecnológicos, mostrando detalhes dos rostos ou servindo-se de diagramas para atestar a centralidade da figura de Cristo, como desliza para a ficção, assinalando com legendas os diálogos sussurrados entre as personagens da tela. Como nas filacteras da banda desenhada, linhas vermelhas unem cada deixa à respectiva personagem.

A tela de Veronese, concluída em 1562, retrata o primeiro milagre de Cristo - a transformação da água em vinho -, mas os diálogos que Greenaway escreveu (atribuídos a 126 figuras diferentes) tanto remetem para o tempo de Cristo como para a Veneza do século XVI. Muitas das falas são provocatoriamente banais e anacrónicas, como a de um conviva que, comentando o vinho milagrosamente produzido, diz: "Não há dúvida de que é encorpado; sabe a uvas plantadas numa encosta voltada a sul."

Antes deste trabalho, o realizador, em cuja filmografia a pintura sempre desempenhou um papel fundamental, já tinha criado obras equivalentes para "A Ronda Nocturna", de Rembrandt, e para "A Última Ceia de Leonardo". E o seu intento é prosseguir a série. "As Meninas", de Velásquez, e "Guernica", de Picasso, são algumas das obras que já anunciou que gostaria de acrescentar ao seu projecto.

in Público, 26 Junho 09

still the Jackson

Morreu Michael Jackson - os meus pêsames, a morte nunca tem grande graça. De um ataque de coração dizem, mas a mim parece-me história mal contada. Ou melhor, solução de mau narrador: não sabendo o que fazer à personagem, para onde pode ela ir depois de tantas e tantas peripécias, exausta a imaginação (e compreende-se: ele foi o jovem prodígio na Motown, os telediscos de luxo, o casamento com a filha do Elvis, a mansão da Terra-do-Nunca, as operações ao nariz e ao pigmento, as confusões com miúdos, a fortuna feita e desfeita, etc., etc.), o Supremo Arquitecto opta pela solução mais fácil.
Para Ele, claro. Se Jesus, em vez de aprender carpintaria, tivesse tirado um curso maneirinho de escrita criativa, estaríamos talvez melhor servidos.

Rui Zink

arquitecturando Junho XXV

Peter Zumthor
Capela rural Bruder Klaus - Wachendorf, 2007
photograph Thomas Mayer

a morte de Deus

O senhor Juarroz pensou num Deus que, em vez de nunca aparecer, aparecesse, pelo contrário, todos os dias, a toda a hora, a tocar à campainha.
Depois de muito meditar sobre esta hipótese, o senhor Juarroz decidiu desligar o quadro da electricidade.

Gonçalo M. Tavares in O senhor Juarroz

arquitecturando Junho XXIV

Atsushi Kitagawara
Jomon Forest - Kagoshima, 2007
photograph directório arco

Ray Lema

A Incubadora d’artes desafiou O cantor Ray Lema para um concerto de homenagem a Ali Farka Touré. A resposta foi simples: claro… vão assistir ao melhor concerto do mundo!!! in CCB

Não foi o melhor concerto de mundo. Não foi o melhor concerto de sempre. Mas foi muito bom. Muito bom. Uma personalidade fascinante, um brilho impressionante, um músico brilhante! A forma como agarrou e contagiou o público-tipo do CCB, que não é por norma muito fácil. Houve momentos deliciosos no concerto desta noite. Uma recordação em estado puro.
Infelizmente três aspectos negativos: o público que insiste em chegar atrasado (quase 40 minutos), os maus fotógrafos que não têm a atenção de escolher uma maquina silenciosa, e uma Ana Sousa Dias que se atrapalhou toda na tradução das palavras de Ray Lema.
De resto os meus parabéns à incubadora d'artes. Venham mais Ray Lemas...

arquitecturando Junho XXIII

Kees Christiaanse
Habitação colectiva 3ªidade - Delft
photograph Vitruvius

Cavaco, sondagens e Jorge Jesus

Os portugueses estão escaldados com as soldagens, mas o Presidente confessa que as ouve: "(...) sondagens que terão sido feitas manifestam uma preferência por eleições simultâneas...", disse. Cavaco fez bem em ser dubitativo: "terão sido feitas..." De facto, sondagens recentes sobre o assunto, não se conhecem. Antigas, há uma, do Expresso, de de Janeiro (em matéria de sondagem, pré-História). E mesmo essa diz o contrário do que Cavaco sugeriu: a maioria queria eleições separadas; e a minoria que as queria juntas falava das europeias e legislativas. Então, onde foi Cavaco desencantar a tal sondagem que prefere legislativas e autárquicas no mesmo dia? Só se fala daqueles inquéritos on-line que os jornais fazem. Ontem mesmo, o Correio da Manhã tinha um, onde se apontava para aquela leve ideia de Cavaco: sim, o povo quer eleições juntas... Mas se o Presidente dá ouvidos aos inquiridos do CM, posso adivinhar também o pensamento presidencial sobre outros temas tratados nos inquéritos do jornal. Lembro perguntas recentes: "CR é melhor que Messi?", "Sporting perde com saída de Derlei?", "Jesus vale indemnização de 700 mil?"

Ferreira Fernandes in DN, 25 Junho 09

arquitecturando Junho XXII

Lawrence Scarpa
Solar Umbrella House - California, 2006
photograph Calder Oliver

pop is dead

confesso que nunca gostei da sua música. nunca gostei muito de pop. mas uma coisa é certa... era um dos mais importantes nomes da música no século passado. jackson is dead. pop is dead.

segunda-feira, junho 22, 2009

arquitecturando Junho XXI

Renzo Piano
Centre Georges Pompidou - Paris, 1977
photograph Carlos Restrepo

o erro do ayatollah Khamenei...

Mohsen Sazegara, chercheur et président du Research Institute for Contemporary Iran, basé à Washington, a été un des fondateurs des Gardiens de la révolution et a occupé des fonctions ministérielles dans les années 1980, avant de prendre ses distances avec le gouvernement révolutionnaire en 1989.

Assistons-nous à un tournant dans la révolution iranienne ?

Depuis le discours de vendredi de Khamenei, la donne a changé. En soutenant l'élection truquée de Mahmoud Ahmadinejad et en menaçant le peuple iranien, il a clairement annoncé qu'il était derrière le coup d'Etat. Maintenant, la nation est face au Guide. Ahmadinejad n'est qu'une marionnette. Le dirigeant de la résistance n'est plus seulement Moussavi. C'est une chaîne verte de la démocratie, qui part de chaque ville en Iran.

Samedi a eu lieu la première confrontation entre ces deux fronts. La chaîne de la démocratie a gagné, car Khamenei avait mobilisé 40 000 hommes pour réprimer les manifestants, mais ils sont quand même descendus dans la rue et ont prouvé qu'ils étaient prêts à sacrifier leur vie. Moussavi a dit au peuple qu'il était prêt à mourir. Il a appelé à poursuivre la résistance et à organiser une grève générale, ce mardi. Il a prouvé qu'il était un grand dirigeant.

L'opinion se retourne-t-elle contre l'ayatollah Khamenei ?

Absolument. La semaine dernière, les manifestants criaient "mort au dictateur". Samedi, ils ont crié "mort à Khamenei". Il a commis la plus grave erreur de sa vie. L'ayatollah Khomeyni n'aurait jamais fait une telle erreur. Il était suffisamment intelligent pour être du côté de la nation. Khamenei a fait un mauvais calcul. Il a pensé qu'avec quelques Gardiens de la révolution et le ministère du renseignement, il pouvait conquérir une nation.

Est-il soutenu par les religieux ?

Non. Les principales figures religieuses ne l'ont pas encore soutenu. Certains l'ont même critiqué. Ce qui est important et nouveau dans ce mouvement c'est que, pour la première fois depuis 120ans, les Iraniens se mobilisent en masse sans soutien des religieux et sans motivation religieuse.

Les manifestants s'en prennent-ils à la révolution islamique ?

Ils sont pour la démocratie. Si l'on veut définir la révolution islamique comme contraire à la démocratie, alors ce mouvement sera contre. Mais beaucoup croient encore dans la révolution. Les membres des Gardiens de la révolution et les bassidji [miliciens islamiques] croient dans la révolution. Ils sont aussi les bienvenus dans ce mouvement.

Les Gardiens de la révolution ne répriment pas les manifestations.

C'est la façon dont Khamenei a organisé sa machine répressive. Il veut faire croire que ce sont des gens ordinaires, les bassidji, qui le soutiennent. Mais en fait, ceux qui tuent les manifestants, ceux qu'on appelle les "chemises blanches", sont des Gardiens de la révolution, qui appartiennent à une brigade spéciale de la division du renseignement. Ils ressemblent à des civils, mais ils ont des couteaux, des barres de fer et des armes à feu. Ils sont trop peu nombreux pour attaquer les foules, mais pourchassent et tuent les gens qui chantent des slogans par petits groupes.

L'ayatollah Khamenei contrôle-t-il les Gardiens de la révolution ?

Ils sont, avec le ministère du renseignement, son principal instrument d'oppression. Les quelque 120 000 gardiens de la révolution sont la partie la plus puissante du régime. Ils sont à la fois une armée, un service de renseignement et une énorme entreprise. Khamenei a marginalisé certains des fondateurs et des héros de la guerre et a placé des gens qui lui sont asservis. Il contrôle plusieurs niveaux au-dessous de lui, jusqu'au grade de commandant. Mais j'ignore quelle est sa popularité réelle parmi ceux qu'il a nommés.

Il est trop tôt pour parler de divisions dans leurs rangs. Mais j'ai entendu des rumeurs selon lesquelles sept généraux ont été arrêtés. Beaucoup ne sont pas d'accord avec Khamenei. Un de mes vieux amis, un général, héros de la guerre, m'a dit que la majorité des Gardiens de la révolution n'étaient pas d'accord avec le coup.

Et les bassidji ?

C'est un groupe mal organisé et peu discipliné. Le régime dit qu'ils sont 20 millions, je pense qu'ils ne sont pas plus de 500 000. Certains se sont enrôlés pour avoir accès à des privilèges, tels qu'une exemption du service militaire. Ils sont comme le reste du peuple. Leurs frères, leurs amis sont de l'autre côté.

Va-t-on vers une dérive militaire ?

Khamenei a atteint un point de non-retour. Son régime est déjà sécuritaire et militarisé. Il n'y a pas de marche en arrière pour un régime si brutal. Pour la prière de vendredi, il a mobilisé ses supporters dans tout le pays. Je m'attendais à voir 500 000 personnes, mais selon nos amis, ils n'étaient que 50 000. Beaucoup de ses partisans restent neutres et ont honte. S'il parvient à réprimer le peuple iranien, il deviendra un dictateur militaire à la Saddam Hussein. Il sera le roi d'un cimetière.

Propos recueillis par Philippe Bolopion in Le Monde, 22 Junho 09

arquitecturando Junho XX

John Pawson
Church - Novy Dvur, 2004
photograph John Pawson

um "insulto" que é uma lição para a vida

A África do Sul está a organizar a Taça das Confederações com equipas de todos os continentes. Pelo que já se viu, as oito selecções não darão grandes lições de futebol. Mas os jornalistas presentes, vindos de todo o mundo, tiveram direito a um curso intensivo sobre jornalismo. Ou, melhor, receberam esta lição básica para qualquer homem que queira entender o que o rodeia: não saber, é mau; mas não saber e julgar saber é muito pior.

Tudo começou no jogo de abertura, África do Sul-Iraque. As atenções centravam-se na equipa da casa, que vai ser hospedeira do próximo Campeonato Mundial, já para o ano. Não foi bonito de se ver, a África do Sul não é no futebol o que é na produção de ouro ou no râguebi - uma potência mundial. Sem estrelas e sem fio de jogo, foi uma desilusão.

Como não havia táctica de losango digna de estudo nem médio ala que encantasse, começou a perfurar pelos jornalistas fora aquilo que dorme no interior de todos eles: o sociólogo. O que os jornalistas viram e ouviram, no relvado e nas bancadas, levou-os a uma conclusão dolorosa.

Entre os bafana bafana, os futebolistas da selecção sul-africana, entre aquela maré negra, destacava-se o defesa central Matthew Booth. Além do seu 1,98m (o mais alto da equipa) e da sua cabeça brilhante de rapada, era o único branco da equipa. Os olhos dos jornalistas notaram também que, nas bancadas, a supremacia dos negros sobre os brancos ultrapassava a relação de oito para um, que existe no país. Na África do Sul, o râguebi é a paixão dos brancos e o futebol, a dos negros.

Ora a esses dados visuais juntava-se um som: buuuuuuuuuuuu! De cada vez que os jornalistas viam o defesa central branco tocar na bola, viam também os espectadores alarmarem-se e deles vinha aquele som intenso que em todos os estádios é considerado insulto, vitupério, xingadela. O claro desaforo de que o pobre atleta branco era alvo por parte da multidão negra era sublinhado pelo uso barulhento dos vuvuzela, as trompetas feitas de corno dos veados kudus.

Booth estava a ser sujeito à mesma receita racista, com troca das cores, que certos estádios espanhóis reservam a Eto'o, o avançado camaronês. No dia seguinte ao jogo, os jornalistas europeus assinalaram o intolerável gesto. Anteontem, a questão foi posta ao próprio: deve custar-lhe muito ouvir aquele "buuuuuuu!" da multidão... Mas, para espanto de todos, Matthew Boot deu um gargalhada: "Mas que insulto?!" E explicou: buuuuuu! é o grito que prolonga o seu nome, Booth. Não é insulto, é incentivo. Ele, que foi capitão da selecção de esperanças e dos sub-21, é o mais popular e querido jogador dos bafana bafana.

E a esta confusão negra e branca os jornalistas acrescentaram um sorriso amarelo.

Ferreira Fernandes in DN, 21 Junho 09

arquitecturando Junho XIX

Frei Otto
Stadium - Munich, 1972
photograph kabukin0

sexta-feira, junho 19, 2009

o deus das moscas mortas

Bandeira in Bandeira ao Vento

Moscas Mortas
Obama está a dar uma entrevista de TV na sala oval - se não é na sala oval faz de conta - quando aparece uma mosca gorducha. Ninguém quer aparecer na TV com uma mosca, bzzz-bzzz, às voltas. E, zás, Obama dá-lhe uma palmada. E gaba-se, com um sorriso feliz: "Foi bastante impressionante, não foi? Matei a sacaninha." Apontando para o bicho de pernas para o ar na alcatifa, acrescenta: "Querem filmar? Está ali."

E filmam mesmo. E mais, passam mesmo a cena na TV. A coisa vai parar ao YouTube num piscar de olhos - o tempo que leva a matar uma mosca. O mundo fica extasiado com a pinta do Presidente - a matar uma mosca. Os pivots dos principais canais americanos descrevem o gesto como "fixe", "felino", "ninja", em suma, qualquer coisa de fantástico. Uma pessoa olha para aquilo e pensa: por que carga de água estou a olhar para isto? Por que raio alguém passa isto na TV e - não despiciendo, em nome de quê (liberdade de aparvalhação?) o Presidente aceitou que isto fosse para o ar? Há alguma coisa de relevante no facto de o Presidente dos EUA, como qualquer pessoa não budista nem fanática dos direitos dos animais, dar um piparote numa chata duma mosca? É o facto de o fazer ele próprio em vez de chamar um segurança para lhe dar um tiro? É porque o faz com grande à-vontade e se ri? É porque é bizarro e inédito ver-se tal coisa na TV, e o que é bizarro e inédito, por mais destituído de interesse, tem de passar na TV?

Bom, imagine-se a cena com o presidente não se sabe se reeleito do Irão, aquela simpatia de pessoa. Está Ahmadinejad a dar uma entrevista, por exemplo a propósito do que se passa nas ruas do Irão, onde gente é perseguida, espancada e morta por protestar contra ele, e esborracha uma mosca. Dir-se-ia "ele mata aquela mosca com a indiferença com que manda atirar sobre as multidões", ou coisa parecida. Um torcionário a executar uma mosca durante uma entrevista: todo um programa. E Bush? Bush, o bronco, o homem que invadiu o Iraque, que fez Guantánamo e Abu Ghraib, a matar uma mosca e a rir-se da proeza? E Palin, a tonta evangélica caçadora de alces? E Clinton, o cínico aldrabão adúltero de queixo tremeluzente e voz rouca? E Obama daqui a uns anitos? Pois.

Esta coisa do amor do povo é tramada - como o amor em geral, de resto. No período de enamoramento, nada há que o ser amado faça que não deslumbre - até matar uma varejeira com a mão. Uns tempos depois e aparecem os defeitos: "Viram como ele matou a mosca com a mão e nem sequer a foi lavar, ficou ali sentado? Que nojo." Ou: "Que pessoa insensível e casca grossa, olhem o exemplo que dá às crianças, matar assim um animal e rir-se por cima." E no fim: "Quer tanto saber daquela mosca como de nós. Só pensa nele"; "É mesmo típico, mata uma mosca e pensa que fez uma grande coisa"; "Aposto que fez questão de que aquilo passasse na TV para mostrar ao povo que é uma pessoa normal, mata ele as suas próprias moscas, pffff." Isto tudo com a mesma mosca morta. E talvez a mesma pessoa.

Fernanda Câncio in DN, 19 Junho 09

quinta-feira, junho 18, 2009

just a perfect day...

hoje é o lançamento do meu primeiro conto... hoje cheguei às 10 mil visitas... dois pequenos pormenores que são pormaiores... obrigado a todos os leitores!

adenda: obrigado a todos que lá passaram hoje: susana, ana, alex, aires, andré, mariana, martim, vasco, márcia, hugo, joana, andreia, ricardo, madalena, ana. obrigado a todos.
obrigado a ti Mário! mesmo no meio dos turcos e afins hoje agradeço-te por esta possibilidade. obrigado, amigo!

arquitecturando Junho XVIII

Jean Nouvel
Institute Monde Arabe - Paris, 1987
photograph pixelmap

professores e alunos

No inquérito com mais votantes... talvez porque seja o que esteve mais tempo disponível... os resultados foram evidentes e claros: ninguém ganha esta guerra. Exactamente porque a educação não é uma guerra nem pode ser vista como tal.
A ministra e o professores levaram 6 votos cada, e a resposta do ninguém levou 10. Evidente... Tal como os 0 votos dos sindicatos também significa alguma coisa.
Acima de tudo são os alunos que sofrem atrasos e contrariedades. Mas também os professores trabalhadores que não têm medo de avaliações mas que são julgados como iguais a todos aqueles que prepararam as aulas há 10 anos e mais nada fizeram. Também perdem. O sindicatos que são apenas peões políticos de lideres que acima de tudo só querem o seu tacho nas listas do PCP das próximas legislativas. E perde... a ministra que era uma boa professora no ISCTE e se perdeu completamente nos meandros do pré-universitário. Mas, claro que poderia ser pior... é só pensar no paupérrimo trabalho que Ferreira Leite fez como ministra da educação.
Em suma, esta foi uma derrota para todos. Uma derrota muito provavelmente para o futuro de jovens cada vez mais abandonados a si e maravilhados com a web2.0 e afins.

Neste novo inquérito questiona-se quem será o próximo grande vencedor das legislativas...

Callema 06 - 18 Junho

Após dois números de incidência monográfica (“Reescrever a Juventude” e “A Fenda do Tempo e do Texto”, respectivamente), a revista Callema volta a convocar uma chamada nominal de capa, desta vez dedicada ao universo sonoro de Paulo Praça, intérprete de um notável percurso dentro das linguagens pop-rock vindas da década de 90, agora aventurado numa carreira em solitário estreada em 2007 com a edição de Disco de Cabeceira. Entre o estúdio e a volta do correio, o autor de “(Diz) A Verdade” comparte com o leitor impressões decorrentes da composição e audição deste disco e, desde uma perspectiva performativa, do íntimo toar da canção de língua portuguesa. Colaboram neste sexto número de Callema: David Soares, Ana Cláudia Santos, Lucy Pepper, Samuel Costa Velho, Rui Almeida (Prémio Manuel Alegre 2008, com o poemário “Lábio cortado”), Fernando Machado Silva, João Tibério, Jorge Silva, Hilarino Carlos Rodrigues da Luz e Álvaro N. Marques. Entre outros lugares de interesse, a primeira tradução para língua portuguesa do poeta turco Orhan Veli.
A apresentação do sexto número da revista literária Callema decorrerá no dia 18 de Junho, pelas 16h30, na Livraria Trama, em Lisboa. Como diz a hora, estamos ante uma verdadeira "merenda" de apresentação. Mais tarde temos uma tertúlia pública e degustação de textos no Café Mar Adentro, às 21h .

O convite é para todos. e para mais alguns. apareçam quando for... leiam... e comprem... a nova Callema. com um cheirinho a mim... SOBREoREAL...

quarta-feira, junho 17, 2009

arquitecturando Junho XVII

Eduardo Souto Moura
Casa do Cinema Manoel de Oliveira - Porto, 1998
photograph z.z.

"Rangel, campeão do flique-flaque "

Uns dias de repouso isentaram-me de seguir em detalhe o noticiário nacional. Por isso só ontem me apercebi de que o país havia assistido, na semana passada, a mais uma demonstração da maleabilidade política que caracteriza o deputado Paulo Rangel.
Mais uma, depois da oposição oportunista e do contorcionismo subsequente em relação ao "imposto europeu"...
Desta feita, a propósito da revisão da lei do financiamento partidário.
O grupo parlamentar do PSD - por Rangel ainda liderado - votou a favor da novo projecto de lei. Mas, na sequência do veto presidencial, o deputado Rangel explicou que "já tinha antecipado a possibilidade de reponderar a lei se fossem detectados determinados efeitos perversos".
Então porque é que votou a favor da lei naqueles termos?
“O PSD nunca pretendeu que estas alterações que motivaram o veto do senhor Presidente da República fossem avante”, acrescentou Rangel, sublinhando que o partido “aceitou apenas isso em última instância, para garantir um consenso unânime, que achou que era uma coisa positiva, mas nunca foi a favor, pelo contrário, até foi contra isso”. [http://ultimahora.publico.clix.pt/noticia.aspx?id=1385872].
Para quando um “sketch” Fedorento ou de outros felinos atentos ao atletismo político, incidindo sobre estas proezas do flique-flaque rangélico, na linha do que nos fez gargalhar marcélicamente durante a campanha pela despenalização da IVG: "É a favor da lei? Sou. Vai votar a favor? Vou. Concorda com o que ela diz? Não. Então vai fazer o quê? Vou esperar que o Presidente nos puxe as orelhas."

Ana Gomes in Causa Nossa

terça-feira, junho 16, 2009

arquitecturando Junho XVI

Oscar Niemeyer
Brasilia, 1958
photograph Robson Corrêa de Araújo

segunda-feira, junho 15, 2009

um grande futuro

Portugal vai finalmente entrar nos eixos. Acabaram-se as malfeitorias de Sócrates e iremos voltar a ter calma e tranquilidade. Para começar, em resultado das eleições e tal como exigiu Paulo Rangel, o Governo não deve fazer mais nada. Deve parar totalmente a sua actividade, pelo menos, até final do ano. Parece-me bem.

Pode ser que entretanto a crise passe e lá para o Natal os portugueses acordem cheios de prendas na respectiva árvore. Se não for assim, logo se verá.

Nessa lógica, e dado o notável crescimento do Bloco, fica também desde já proibido qualquer despedimento, sendo que a empresa que o faça será imediatamente encerrada pela polícia.

Na mesma linha doutrinária bloquista, os desempregados deverão ser admitidos, compulsivamente, pelas empresas com grandes lucros, mesmo que não tenham nada para fazer ou sem aptidões. Esta medida irá diminuir drasticamente a taxa de desemprego e salvar a segurança social. As empresas que se recusarem a fazê-lo serão igualmente encerradas.

As pequenas e médias empresas, principalmente as falidas e obsoletas, serão altamente financiadas pelo Estado. Pouco importando se o dinheiro vai para a modernização ou para comprar BMW's. Todos os economistas do PSD, PCP, Bloco e CDS garantem que é assim que se estimula a economia.

Serão distribuídos avultados subsídios aos pescadores, os quais poderão doravante pescar tudo o que quiserem sem qualquer restrição. Quando o peixe acabar logo se vê. A agricultura será também totalmente subsidiada protegendo-se assim os produtos nacionais, mesmo os de baixa qualidade ou sem consumidores. Esta medida será acompanhada da proibição da venda de produtos agrícolas e piscícolas oriundos de outros países.

Considerando também a expressiva votação nos partidos contra a Europa - Bloco, PCP e CDS -, e dada a pouca convicção do PSD actual sobre o assunto, deverá dar-se início às negociações para abandonarmos a Comunidade Europeia. Portugal ganhará deste modo a plena soberania, o que, entre tanta coisa extraordinária, dará toda a legitimidade para se reclamar o importante território de Olivença que nos foi vilmente roubado pelos espanhóis.

Todos os programas "na hora" e de desburocratização serão abandonados para se regressar às velhas e serenas rotinas. Pedir uma qualquer certidão terá forçosamente que demorar no mínimo três meses.

Os professores deixarão de ser avaliados. A progressão na carreira voltará a ser rigorosamente automática não distinguindo, sob nenhuma forma, a prestação individual que será sempre excelente. De forma a repor a autoridade dos docentes na sala de aula voltarão as reguadas.

Medida urgente será a apreensão de todos os computadores Magalhães e, em vez deles, distribuídos lápis e borrachas, o que muito estimulará estas importantes indústrias. A Internet será fortemente censurada e só poderá ser usada entre as 16 e as 18 horas aos sábados, sob estrito controlo parental, já que aos domingos as televisões passarão todo o dia futebol.

A ASAE será extinta.

Todos os projectos, como o TGV e o aeroporto, serão cancelados. Não será construído nem mais um centímetro de estradas. Isto trará de volta o famoso "orgulhosamente sós" de tão boa memória para muitos portugueses. As corridas com touros de morte serão legalizadas em todo o território nacional. Esta medida terá um enorme impacto no crescimento do turismo, atraindo bárbaros de todo o mundo para Portugal.

Os polícias terão ordem para disparar à vontade, bater nos presos e forjar provas, desde que garantam condenações. Será encomendado um estudo, ao grupo parlamentar do CDS, para reintrodução da pena de morte em Portugal.

Marinho Pinto será imediatamente destituído. Será também terminantemente proibida qualquer crítica às decisões de juízes e magistrados, considerando-se uma forma de pressão intolerável e fortemente punível, tudo o que não seja vénia e subserviência. Todos os estrangeiros serão expulsos do País, repondo-se deste modo a pureza da raça latina.

Só serão permitidos casais de um homem e uma mulher, os quais tendo em vista a doutrina desenvolvida por Manuela Ferreira Leite, terão obrigatoriamente que procriar. Também nesta linha de promoção da ordem na família os maridos poderão voltar a bater nas mulheres.

Por fim dada a consonância de posições entre os quatro partidos da actual oposição, PCP, Bloco, PSD e CDS irão juntos formar o próximo governo de Portugal. Assim temos futuro.

Leonel Moura in Jornal de Negócios, 12 Junho 09
via Vasco Mendonça

arquitecturando Junho XV

Álvaro Siza Vieira
Pavilhão de Portugal -Lisboa, 1998
photograph Osvaldo Gago

Banksy versus Bristol Museum

Banksy é, como uma certa cerveja, provavelmente o mais conhecido writer de graffiti do mundo. É, pelo menos, aquele cujo nome de guerra é bem conhecido no mainstream, fora do circuito da arte de rua. E agora, numa montagem quase de guerrilha, feita em segredo e sempre no anonimato, Banksy tem a sua maior exposição de sempre no Reino Unido. É na sua alegada terra natal, Bristol, no museu municipal da cidade – a mesma que, há décadas, o persegue nas ruas e paga para as limpar do seu trabalho.

O título é sugestivo e espelha a dualidade dos critérios, da aceitação da arte de rua, da sua natureza anti-establishment e do seu lugar (ou não) dentro de um museu: "Banksy versus Bristol Museum".

“Esta é a primeira exposição que alguma vez fiz em que o dinheiro dos contribuintes está a ser usado para pendurar as minhas imagens em vez de ser para as limpar”, comentou Banksy em declarações à BBC. Sempre sem revelar a sua verdadeira identidade, por óbvias questões legais para quem pinta (n)a rua.

A mostra hoje inaugurada, de entrada gratuita e que estará no City Museum and Art Gallery até ao final de Agosto, contém cerca de cem peças do artista, 70 das quais inéditos. Pinturas, instalações, espaços com animatronics (marionetas e bonecos animados por robótica) e peças sensoriais. Esta é a primeira mostra de Banksy num espaço fechado desde 2000.

Além das mensagens e afirmações políticas (mais ou menos evidentes) de Banksy em cada peça – a carrinha de gelados incinerada, coberta de graffiti e com um polícia de motins com uma identificação em que “Police” é substituído por “Peace”, a galinha e seus pintos vigiados por câmaras de circuito fechado, a estátua do leão que devorou o seu domador – "Banksy v Bristol Museum" tem uma história própria. Kate Brindley, a directora do museu, uma das pouquíssimas pessoas que sabia (desde Outubro) qual a mostra que iria ocupar o seu Verão, nunca conheceu Banksy. “Ele esteve aqui, conhece bastante bem o museu”, mas “nunca o conhecemos”, explicou à BBC. “E isso é parte do charme da exposição”.

“Penso que se calhar os obrigámos a descer ao nosso nível ao invés de termos sido elevados ao nível deles”, ironizou Bansky, referindo-se aos métodos de montagem da exposição, mas talvez também à própria duplicidade que envolve a presença da street art no circuito tradicional dos museus. Nos últimos dias, sempre com a autarquia às escuras quanto à exposição que iria estar no museu que financia, a vasta equipa de Banksy ocupou as salas do museu. Aos empregados e aos visitantes dizia-se apenas que decorriam filmagens no local.

Banksy deixa então lastro pelas salas do museu municipal, com obras suas a espreitar entre as do espólio mais convencional. Faz lembrar um dos seus actos mais famosos: em 2003 introduziu um trabalho seu nas paredes da galeria Tate Britain, em Londres. Ficou lá durante horas, sem que se estranhasse a sua presença. No Louvre, em Paris, colocou uma Mona Lisa “Banksy” nas imediações do original.

Kate Brindley assume que a escolha de Banksy e da sua cultura street para o Verão do City Museum pode ser “controversa”. “Mas a arte é isso”. E também é buzz. Desde sexta-feira, quando foi revelada a presença de Banksy no museu de Bristol, a atenção dos media foi grande. “Toda a gente presumia que [a nova exposição de Banksy] seria em Los Angeles, em Nova Iorque, em Londres, mas ele insistiu que viesse para Bristol... é só ele a voltar a casa”, comentou o vereador de Cultura de Bristol, Simon Cook, à Reuters. Mas a verdade é que, não se sabendo a identidade do street artist, não se pode estar seguro de que ele é, de facto, natural de Bristol...

Banksy começou a trabalhar no início da década de 1990 e diz que esta exposição é a sua visão do futuro. Com o seu trabalho cobiçado pelas estrelas (Pitt, Jolie, Aguilera) e a render centenas de milhares de euros em leilão depois de ter sido “salvo” das ruas e das equipas de limpeza de graffiti, um dos seus statements mais conhecidos (para além das ratazanas stencil) foi a introdução de uma figura insuflável, em tamanho real, de um detido de Guantánamo na Disneylândia.

in Público, 13 Junho 09
via Hugo Sousa

adenda

via Mariana Vilela

domingo, junho 14, 2009

Lamb. Gorecki.


Lamb. Gorecki. Comecemos pelo meio. Da música e de toda a história.

...2:44...

A passagem de uma longa intro melodiosa para um ritmo mais próximo do trip hop que os popularizou e tornou uma banda de referência entre a comunidade alternativa mais electrónica.
A minha passagem do grunge, que me acompanhou nos primeiros anos da adolescência, para outras sonoridades mais dançáveis.
Da voz dificilmente definível como perfeita e límpida de Lou Rhodes para os sons dificilmente consideráveis como fáceis e convencionais (para os meados dos anos 90) de Andy Barlow.
Das minhas calças rasgadas, calções de pano e cabelos compridos despenteados para o equivalente com um pouco mais de barba mal semeada.
Dos amigos de liceu que me fizeram conhecer Lamb, num vinil acabado de chegar de London – the city, para quase os mesmos tantos anos depois.

Lamb. Gorecki. Nesta banda – que palavra pirosa – estão mil e uma recordações que fermentaram nos últimos anos de uma maneira deliciosa. Foram ao forno e cresceram. Chegaram hoje. Aqui. Ao prazer de relembrar o que já significou esta música. Naquele concerto mágico do Sudoeste, em 2000, ela com aquele vestido branco e ele com aquele ar “musician-next-door” que nos levou ao rubro. E estas memórias que não conseguem ser apagadas nem mesmo por um concerto bem mais “pop” uns anos mais tarde no Coliseu de Lisboa – naquela sala cheia de “wanna-bes” anjinhos Gabriel.

Lamb. Gorecki.

E o pós-Lamb? É um trajecto de diferentes ruas. As deles e as minhas. Beloved One e Bloom para Lou Rhodes – naquela onda muito neo-folk que vende sempre mas não deslumbra, e Andy Barlow com Hoof, e mais recentemente com Luna Seeds – onde se encontram facilmente similitudes com os Lamb. E eu... que cá continuo entre grunge, drum, world music e tudo o mais que me arranque um sorriso...

arquitecturando Junho XIV

Rafael Moneo
Palacio Kursaal - San Sebastian,
photograph Jaime Gomez

santos 2009

non stop. estar do outro lado é non stop.
non stop. agora percebo a figura que se faz.
non stop. bêbedos.
non stop. só querem álcool.
non stop. até cerveja quente serve.
non stop. divertimento e entreajuda.
non stop. bica.
ponto final. stop.

arquitecturando Junho XIII

Konstantin Melnikov
Svoboda Factory Club - Moscow, 1926
photograph NVO

os dedos

os dedos
que se tocam entre exclamações,
que se vergam entre discussões,
que se contorcem entre altercações.

são dedos
de pianista,
de pintor,
da singela princesa e da puta gasta,
de uma velha menina
que envelheceu bem antes da sua hora.

os dedos que não têm figura.
são dedos que escorrem mãos a fora.
até à ponta delas.
em forma de chorões de carne. pele. e osso.

os dedos
são dedos. de mão. da mão. de uma demão.

os dedos que não têm fim. continuam folha fora. como uma nota de piano.

arquitecturando Junho XII

Denys Lasdun
Royal National Theatre - London, 1976
photograph London se1

a mão

a mão
que no fundo da noite chama,

num sopro mais ligeiro
que o desejo

ou o cheiro
do feno quente ainda
da última gota de água,

a mão
esquece a árvore onde fez o ninho

e vai pousar
entre o frio dos joelhos

devagar.

Eugénio de Andrade

sexta-feira, junho 12, 2009

arquitecturando Junho XI

Jan Kaplický
Bull Ring - Birmingham, 2003
photograph G-Man

12 Maradonas ou 235 Cruyffs... eu diria que não...

O português Cristiano Ronaldo vai passar a liderar o "ranking" das transferências mais caras da história do futebol, ao trocar o Manchester United pelo Real Madrid por um valor que compraria 12 "Maradonas" ou 235 "Cruyffs".

Numa lista elaborada, pelo jornal Marca, desde 1973, ano em que o FC Barcelona pagou a "brutalidade" de 360.000 euros (então setenta milhões de pesetas) ao Ajax para ter Johan Cruyff, Ronaldo entra para o primeiro posto com um valor a rondar os 94 milhões de euros.

Na liderança, há oito anos, estava o francês Zinedine Zidane, que o mesmo presidente do Real Madrid, Florentino Perez, havia contratado à Juventus por 71,6 milhões, um ano depois de já ter pago 61,4 ao FC Barcelona por outro português, Luís Figo.

Cristiano Ronaldo é, assim, o segundo português de uma lista que começou a ganhar "ritmo" à custa de Diego Armando Maradona, provavelmente o melhor jogador da história, que em 1984 trocou o Boca Juniors pelo FC Barcelona por 7.2 milhões de euros.

Apenas dois anos depois, o Nápoles pagou 7,32 milhões pelo "mago" argentino, o que lhe valeu a conquista de dois campeonatos transalpinos (os únicos da sua história) e a Taça UEFA.

Os números das transferências de Maradona só foram quebrados em 1987, quando o AC Milan pagou 10,9 milhões de euros ao PSV Eindhoven por Ruud Gullit.

As quantias foram continuando a subir, com as transferências de Roberto Baggio, Jean-Pierre Papin, Gianluca Vialli, Alan Shearer e Ronaldo, passando, depois, por Denilson, jogador pelo qual o Bétis pagou ao São Paulo 30 milhões, em 1998. Um fiasco.

Após a "loucura" Denilson, os números passaram de 30 para 46,5 milhões, o valor pago pelo Inter à Lázio por Christian Vieiri. Antes de Figo, o "cliente" foi Hernan Crespo, que saiu do Parma para o clube romano por 56,2. Depois, só "deu" Florentino.

in Público, 11 Junho 09

arquitecturando Junho X

Philip Johnson
Puerta de Europa - Madrid,
photograph Luciapensache

terça-feira, junho 09, 2009

esta frase valeu um convite duplo...

Porque gostaria de ir assistir à peça "Menina Else"?

A vergonha da nudez. A vergonha de ser jovem aos olhos de velho. A vergonha de ser pobre. A vergonha está de rastos. Usada para tudo. Desculpa para tudo. Uma vergonha. É uma vergonha perder "Menina Else" naquela que é uma das melhores e mais premiadas companhias portuguesas.

arquitecturando Junho IX

Arata Isozaki
Milo Art Tower - Mito, 2005
photograph Korall

...pobre nossa sra do caravaggio

O ex-seleccionador da Selecção Portuguesa e do Chelsea mudou-se para o Uzbequistão onde vai treinar o Bunyodkor, vencedor do campeonato e da taça daquele país asiático.

O convite surgiu através do compatriota Rivaldo, jogador do clube uzbeque, que mostrou a "Felipão" o novo projecto do clube. O Bunyodkor tem sido notícia por estar a tentar contratar grandes nomes do futebol.

in DN, 09 Junho 09

arquitecturando Junho VIII

John Hedjuk
Wall House - Amsterdam, 2001
photograph Liao Yusheng

Nem vale a pena dizer mais nada...

A senhora Cheng Feng, Secondary Announcer de uma tal “Huangshi Dongbei Electrical Appliance Co., Ltd.”, informa-me por correio electrónico de que ganhei o segundo lugar das suas promoções anuais, tendo direito a um Range Rover e a 970 mil dólares americanos.

Existe algo de profundamente deprimente nisto. Não tanto no facto de se tratar de um esquema para me sacar dinheiro; mas em saber que, num esquema para me sacar dinheiro, fiquei em segundo lugar.

Bandeira in Bandeira ao Vento

domingo, junho 07, 2009

arquitecturando Junho VII

Frank Ghery
Hotel Marqués de Riscal - Espanha
photograph in miragestudio7

várias ideias sobre eleições...

1. a primeira sondagem, às 19h, dá um elevado valor de abstenção. a roçar o valor mais alto de sempre, em 1994.

2. imagino que os votos brancos também aumentem. faz sentido. conheço muitos jovens como eu que tomaram essa posição.

3. a campanha foi má de mais: o Vital esteve muito mal e não resistiu a descer à temática nacional; Rangel fez propostas ridículas e mentirosas (Erasmus para primeiro emprego é como o existente Leonardo e seria bastante complicado coordenar com os diferentes privados, e quanto à ideia de que Portugal está acima das famílias politicas todos sabemos que o PSD votou sempre na linha do PP europeu); Bloco e PCP têm o mesmo discurso ou não fossem ambos para o mesmo lado da barricada no PE; quanto ao PP está demasiado partido-da-bicicleta.

4. em França o partido / movimento ecologista de Cohn-Bendit tornou-se a terceira força politica. como seria bom haver algo assim em Portugal...

5. acho que a minha ideia faz cada fez mais sentido... votar-se directamente na família politica europeia tornaria o discurso igual em todos os países, evitaria a tendência para o discurso para o "mercado interno" e sobretudo levava a que de uma ponta da Europa a outra se pudesse votar e escolher os mesmos... desculpem... foi apenas um sonho sonhado...

adenda: 6. psd e bloco são claramente os grandes vencedores. pequena vitória para o pp. sabor a derrota para o pcp que não capitaliza o suposto descontentamento. enorme derrota do ps...

adenda2: destaque para o valor dos votos brancos, em lisboa e aveiro, ultrapassam os 5% sendo já a 6ª "força politica". espero ansiosamente por uma declaração do candidato folha-de-papel. ao mesmo tempo em França os verdes empatam em número de deputados (14)com o PS Francês.

adenda3: destaque para o discurso de Sócrates a aceitar a derrota. franco e realista. destaque ainda para o discurso de Rangel que até às conclusões estava a ser positivo mas depois perdeu-se novamente numa lógica de ataques vagos e não definidos em relação a forças ocultas contrárias. a justificação de que houve governos do PPE que ganharam eleições é no mínimo ridícula. se a crise está instalada em todos os países europeus significa que esses governos têm tanta responsabilidade como o português logo se os franceses, alemães, polacos ou italianos não votaram contra os partidos dos seus governos não foi porque acham que estão todos a fazer bom trabalho e que o socialismo é assim tão execrável.

sábado, junho 06, 2009

arquitecturando Junho VI

Sverre Fehnhe
Norwegian Glacier Museum - Fjaerland, 1991
photograph Frode Inge Helland

just a perfect day...

1. Vai Tu - manhã
2. Família - almoço
3. Benfica - tarde
4. Amigos - pela noite fora
5. Falta alguma coisa?

adenda:
6. Cacilhas - pequeno-almoço... só para os resistentes... ehehehe

arquitecturando Junho V

Aldo van Eyck
Nieuwmarkt - Amsterdam -1975
photograph Adrian Welch

Norberto Lobo


A música de Norberto Lobo tem-nos a todos dentro, mas é integralmente sua. Com "Pata Lenta", o aguardado segundo álbum, apresentado amanhã na Casa do Alentejo, em Lisboa, já não há espaço para duvidar.

Há dois anos foi editado "Mudar de Bina", o álbum de estreia de Norberto Lobo, e maravilhámo-nos. Havia a dedicatória a Carlos Paredes e havia Paredes lá dentro, mas não reprodução de uma sonoridade, era coisa de alma, algo de intangível. 
Não podia ser de outra forma, que Norberto Lobo toca guitarra clássica, não portuguesa. Não podia ser de outra forma porque Norberto Lobo, que passa o dia com uma guitarra às costas, tem a cabeça cheia de música. Música dali e de ontem, música de aqui e de agora. John Fahey e as revoluções do mago da guitarra na Americana. Os sons da cítara de Ravi Shankar e do mandolim de Mandolin U. Shrinivas. E Robert Wyatt e Thelonius Monk e, acima de toda a gente, o multifacetado Jim O'Rourke de quem fala com incontido entusiasmo.

Quando ouvimos "Mudar de Bina" há dois anos, onde cabia uma versão de Carlos Paredes, duas do cancioneiro tradicional português, andámos a vasculhar nele algo que explicasse em som isto que vemos e vivemos aqui. Nada mais natural: estamos sempre a procurar no outro algo que nos explique a nós próprios. Nada mais errado: a música de Norberto Lobo tem-nos a nós todos dentro, acolhe-nos a todos, mas é única e integralmente sua. 

Agora que chega "Pata Lenta", o muito aguardado segundo álbum, que tem festa de lançamento marcada para sexta-feira, na Casa do Alentejo, em Lisboa, às 22h, já não há espaço para duvidar que assim é.
Se encontrarem por aí o cartaz que anuncia o concerto desta noite, repararão num pormenor curioso: na colagem que o ilustra, a cabeça de Norberto é um lâmpada iluminada. Coisa bem-humorada, efeito com espírito de BD que lhe denuncia a actividade constante. E, se tivessem acompanhado ao vivo a entrevista do Ípsilon, tê-lo-iam visto chegar à Avenida de Roma, onde conversámos, onde agora vive, "armado" de t-shirt improvável. 

Eis Norberto Lobo, autor de música que dispensa palavras, guitarrista de uma expressividade tocante. Ei-lo estendendo a mão para nos cumprimentar e eis-nos comentando a peça de roupa que lhe decora o tronco: "Manowar?!" Sim, Norberto acha piada aos ícones mais icónicos do heavy-metal americano, a todos os seus excessos de som e imagem, e conta-nos que um amigo ganhou recentemente a possibilidade de os acompanhar nos bastidores de um concerto espanhol (e ele está entusiasmado porque há espaço para ele).

Conhecemos o humor de Norberto Lobo, do seu gosto por Buster Keaton e por versões do genérico do MacGyver (tocava-as há dois anos), e o humor não é certamente alheio à tal t-shirt. Essa, porém, é mero pormenor. 
Aquilo a que queremos chegar é uma outra coisa. Isto é o que nos dirá quando a conversa se aproxima do final. Falávamos das suas viagens, dos seus concertos Europa fora, daquilo que ia descobrindo de único em cada um desses países e cidades que vai conhecendo. Diz-nos, então, Norberto: "Cada local tem a sua especificidade, mas ao mesmo tempo vê-se que isto é tudo uma grande aldeia. Existem fadistas japoneses, não é? E bandas como os Extra Golden [formados por americanos e quenianos, simbiose de funk e benga], que são um óptimo exemplo de como já não faz sentido falar do que é ou não é de onde. Não sou a favor da conversa globalização versus qualquer coisa, até porque a antropologia já provou que não existe tal coisa como identidade cultural. Fala-se disso há 150 anos, é um tema ultrapassado e a internet ainda vem suportar mais isso." A culpa, portanto, é toda dele.

Culpa, expliquemo-nos, desta música ter uma limpidez emotiva que nos trespassa, de ser um diálogo de si para si que, generosa, faz questão de nos acolher nesse movimento. 
"Mudar de Bina", como dissemos, tinha uma versão de Paredes, duas do cancioneiro português, e isso ajudou-nos a focar o olhar em determinada direcção. "Pata Lenta" tem uma versão de "Unravel", de Björk, e títulos como "Ayrton Senna", "Vento em polpa" ou "Zumbido azedo", mas o olhar não se desvia. Norberto Lobo prossegue viagem e seguimos com ele. "Aquilo [a versão de "Mudar de vida" e do cancioneiro] não eram âncoras", explica. "Pelo contrário, eram desafios, pontos de partida." E ele, saltimbanco da guitarra, músico em viagem, não aprecia regressos: "Quero sentir-me em permanente desafio comigo próprio. Caso contrário, não tem piada." Mais: "Não acho que tenha uma linguagem definida. Sinto que todos os caminhos são ainda possíveis e sinto que sei cada vez menos. Quanto mais me debruço sobre a música, mais vejo o que ainda tenho para fazer."
Todos os contrastes

Norberto Lobo até tinha tudo preparado para "Pata Lenta". As canções, o estúdio, o dia em que o gravaria. Depois, atravessou-se-lhe a realidade: "Funcionou quase como um documentário: quando chegas ao local e começas a gravar, descobres outra coisa." 
Em "Pata Lenta", Norberto quis recriar uma "experiência de concerto". Não lhe interessava a perfeição, interessava-lhe a pureza e intuição da interpretação. "O disco é uma fotografia à música, naquele dia e naquele momento." 

Para compreender a sua vitalidade importa perceber isto que Norberto nos diz: "Na música que quero fazer o erro é tão importante quanto o resto. Eu não edito, incluo a história sem cortes. Não quero fazer um 'take' perfeito que em concerto não vai existir." Mas, como faz questão de assinalar, "isto não é nada de novo": "Tens outros músicos, como por exemplo o [Thelonius] Monk, em que a maneira como toca é tão importante quanto aquilo que toca." Pormenor importante, este. Porque Norberto é alguém que se diz contra a ideia de que "já tudo foi feito" - pelo contrário, "tudo pode ser feito": "cada pessoa tem a sua expressão individual e fará a sua própria fusão" (di-lo e pede desculpa: "fusão é uma expressão horrível"). 

Porque Norberto se lembra daquilo que, certo dia, afirmou John Fahey quando lhe perguntaram o que era aquilo que fazia quando subia a um palco. Muito simples: "Vou para lá e hipnotizo as pessoas." Com um pormenor adicional: "Acho que o que ele queria também dizer é que se hipnotizava a si mesmo. Que se hipnotizava a si mesmo, logo, hipnotizava os outros."

Então, compreendemos perfeitamente que nos fale do seu fascínio pela ideia de mantra, de "loop": "gosto muito de descobrir uma linha que possa ser navegável durante muito tempo, com diferenças mínimas de bloco para bloco". E reconhecemos que referir "O Caminho Estreito Para o Longínquo Norte", do japonês Matsuo Bashô, e "A Invenção de Morel", do argentino Adolfo Bioy Casares, como importantes para a música que lhe ouvimos ajuda a explicar a misteriosa luminosidade de "Pata Lenta": "O universo do realismo fantástico, na sua expressão mais lata, interessa-me na música, no cinema, na literatura, em qualquer outro lado."
Aqui chegados, reformulemos. Norberto Lobo é um músico curioso que se apaixonou recentemente pela tambura, instrumento indiano, ao ponto de já ter uma banda onde a toca em exclusivo (chamam-se Tigrala e partilha-os com Guilherme Canhão, dos Lobster, e com o percussionista mexicano Ian Carlo Mendoza). 

Norberto Lobo editará nos próximos meses o álbum de estreia dos Norman, banda de rocks e jazzs e experimentalismos que tem há dez anos e onde encontramos o irmão Manuel e o baterista João Lobo. Norberto fala-nos da pintura de Michael Biberstein, que ele adora e que ilustra a capa de "Pata Lenta", fala-nos da sua saudável obsessão por xadrez (se o encontrarem num bar, noite alta, a jogar uma partida, não estranhem, é ritual), fala-nos de música e do resto com igual entusiasmo.
E depois, algures entre isso de que nos fala, diz isto assim: "Não sei o que é isso de haver música triste e alegre. A vida não é feita de preto e branco, é feita de cinzentos. Ouço Coltrane e aquilo é de uma pungência... Nem passa por ser triste ou alegre, está acima disso. São as emoções toda numa só canção, como acontece com o [Carlos] Paredes. Isso é o que eu vejo neles." Acto contínuo, acrescenta: "Mas não sei o que as pessoas vêem na minha música."

Pois bem, na música de Norberto Lobo vemos tudo isso. A ele e a nós próprios. Isto aqui e aquilo lá fora. Os contrastes todos.

Mário Lopes in Ípsilon

arquitecturando Junho IV

Filipe Oliveira Dias
Teatro Municipal Bragança, 2003
photograph Rodrigo Paradinha

Bom vento de Espanha

O Instituto Cervantes lançou uma campanha para escolher, a 20 de Junho, as palavras mais bonitas em espanhol. Além delas, pede contributos de palavras que precisam de ser inventadas. Eis um concurso mais útil e prudente que o das maravilhas portuguesas no mundo. Mais útil porque o espanhol é o principal instrumento da presença de Espanha no mundo, como o português o é para Portugal. Mais prudente porque a língua já foi apossada por cada um dos povos por onde passou, não é controversa, enquanto as pedras dos monumentos lembram que alguém as carregou contrafeito (já há protestos por as maravilhas portuguesas não terem sido construídas por pedreiros com subsídio de férias). Infelizmente, não nos podemos adiantar à brilhante ideia do Instituto Cervantes e, já a 10 de Junho, elegermos as nossas palavras mais belas e também as que precisam de ser inventadas. Lamento ainda não ter, nas próximas eleições municipais, a palavra justa - alcaide? maior? camarão?... - que me livre do demasiado longo "presidente da Câmara" que não cabe nos títulos dos jornais. Fica para o ano?

Ferreira Fernandes in DN, 6 Junho 09

arquitecturando Junho III

Santiago Calatrava
Puente del Alamillo - Seville, 1992
photograph by Andrew Dunn

terça-feira, junho 02, 2009

que orgulho no meu ISCTE...

ISCTE paga mestrados executivos a desempregados
A Business School do Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa (ISCTE) vai financiar na totalidade mestrados executivos a pessoas licenciadas que se encontrem desempregadas.

As bolsas para o programa de pós-graduação da escola de gestão do ISCTE irão abranger um máximo de cinco por cento das vagas – cerca de 50 a 70 – de cada um dos 23 mestrados executivos no próximo ano lectivo de 2009/2010.

Este financiamento aplica-se a pessoas que se encontrem no desemprego há pelo menos seis meses e que tenham três anos de experiência profissional, para se encontrarem numa posição equivalente aos restantes frequentadores dos mestrados executivos.

Qualquer pessoa licenciada pode candidatar-se ao programa de pós-graduação do ISCTE, mas será sujeita a uma selecção em função da sua formação e experiência profissional, à semelhança do que acontece para os restantes candidatos.

A ISCTE Business School conta com 23 programas de pós-graduação, ou mestrados executivos, nas áreas da gestão, finanças, marketing, direcção comercial, contabilidade, fiscalidades e controlo de gestão.

in Público, 02 Junho 09

arquitecturando Junho II

Pietro Belluschi
Central Lutheran Church - Portland, 1950-51
Photograph by born1945@flickr

Coming Close

Take this quiet woman, she has been
standing before a polishing wheel
for over three hours, and she lacks
twenty minutes before she can take
a lunch break. Is she a woman?
Consider the arms as they press
the long brass tube against the buffer,
they are striated along the triceps,
the three heads of which clearly show.
Consider the fine dusting of dark down
above the upper lip, and the beads
of sweat that run from under the red
kerchief across the brow and are wiped
away with a blackening wrist band
in one odd motion a child might make
to say No! No! You must come closer
to find out, you must hang your tie
and jacket in one of the lockers
in favor of a black smock, you must
be prepared to spend shift after shift
hauling off the metal trays of stock,
bowing first, knees bent for a purchase,
then lifting with a gasp, the first word
of tenderness between the two of you,
then you must bring new trays of dull
unpolished tubes. You must feed her,
as they say in the language of the place.
Make no mistake, the place has a language,
and if by some luck the power were cut,
the wheel slowed to a stop so that you
suddenly saw it was not a solid object
but so many separate bristles forming
in motion a perfect circle, she would turn
to you and say, "Why?" Not the old why
of why must I spend five nights a week?
Just, "Why?" Even if by some magic
you knew, you wouldn't dare speak
for fear of her laughter, which now
you have anyway as she places the five
tapering fingers of her filthy hand
on the arm of your white shirt to mark
you for your own, now and forever.


Philip Levine

segunda-feira, junho 01, 2009

arquitecturando Junho I

Alvar Aalto
Mount Angel Abbey Library, 1964-70
Photograph by Strode Eckert