sexta-feira, fevereiro 27, 2009

Irréversible


7 anos depois de ter visto este filme com o André, tive a oportunidade de o rever tranquilamente em minha casa. Violento. Hoje como então.
Mas, é também verdade que as primeiras cenas (ou últimas se assim o entendermos) perdem um pouco a sua "potência" pela falta de um sistema de som que reproduza aquela sensação incómoda provocada pelos graves da OST. Era este um dos pormenores que tornava o filme ainda mais angustiante, tal como a falta de diálogos ou a forma como estes se escondiam atrás de uma barulheira infernal na discoteca. A cena da violação continua a ser um dos momentos mais crus e violentos do cinema contemporâneo e nem precisa de efeitos especiais à americana para o ser. Apenas de uma Monica Belluci fascinante. Realce ainda para o papel de Vincent Cassel. Muito bom. Muito intenso.
7 anos depois de ter visto este filme com o André, este filme continua qualquer coisa. Qualquer coisa de estranho. Qualquer coisa que ainda não percebi se gosto se não... Qualquer coisa.

cache-cache

vou escondendo
os meus silêncios
nas frases feitas de todos
e nos mexericos de outros.

vou escondendo
os meus silêncios
nos sorrisos emprestados
a futilidades de quem fala
do que não vive.

vou escondendo
os meus silêncios
nas palavras que copio de outros.

que admiro. que odeio. que invejo. que ignoro.

como os silêncios. os meus silêncios.
escondidos nos silêncios dos outros.

Prophesy


Brian Eno & Nitin Sawhney

quarta-feira, fevereiro 25, 2009

momentos sós

Agora.
Sou um vazio,
de dentro para fora.

Tenho o incómodo
como continuação de cada respirar. E sei que é perene. O seu ardor.

Olho nos olhos as formas e figuras
que desenhas,
em cada movimento espaçado,
e sei que estás momentaneamente ausente dos meus momentos.

Vazio, o bater do coração
que insiste em levar cor-de-tristeza
a cada canto meu. E não deixar troco.
Nenhum.
Quando quero deixar-te um pouco. Algo.
Por onde nos possa agarrar.

Susceptível, como as palavras que deixas lascadas
no telemóvel novo. Comprado em promoção.
Mas hoje, agora e aqui
não há promoções
que me encham o vazio
de dentro para fora.
Como eu.
Como uma melodia-em-forma-de-loop.

terça-feira, fevereiro 24, 2009

fim do carnaval...

...e dispa-se a máscara e voltemos à vida normal.
raio de vida esta onde somos apenas fantoches e marionetas de obrigações sentidas à priori.
raio de vida onde sinto coisas que não estão escritas no guião.
um guião feito de momentos e vidas de outros.
desculpa.
sou apenas aquele que está de passagem.
a caminho de outro-algures.

segunda-feira, fevereiro 23, 2009

speechless

O administrador da Bragaparques, Domingos Névoa, foi condenado hoje ao pagamento de uma multa de cinco mil euros por corrupção activa para acto ilícito. Em causa está uma tentativa de suborno ao vereador da Câmara de Lisboa José Sá Fernandes, para que desistisse de uma acção penal por contestação do negócio de permuta dos terrenos do Parque Mayer, pertencentes à Bragaparques.
in Público, 23 Fevereiro 2009

obs: Decididamente não compensa tentar corromper neste país! A sentença é sempre terrivelmente pesada!
Sinceramente não acho uma vergonha esta sentença, ela é apenas um exemplo de uma cultura que está profundamente enraizada nos hábitos lusitanos. Não vamos culpar os políticos, desta vez , porque estes hábitos e costumes são bem mais latos e atingem empresários, bancários e até o cidadão comum que acha que pode-se sempre dar um jeito para algo que está "encravado".
Com esta sentença quem é atingido profundamente é o sector da justiça... a crise não é só dos tribunais sem condições é também dos juízes ou processos sem qualidade...

...razões...

by Bandeira in DN, 23 Fevereiro 2009

Sem surpresas (de maior)

Foi uma cerimónia dos Oscares sem surpresas em relação aos principais vencedores, mas com algumas mudanças em relação às edições mais recentes: um apresentador não-cómico que foi bem divertido, menos tempo de partes mortas e um vencedor que não-é-uma-grande-produção-à-americana.

O melhor da noite foi evidentemente o discurso de Sean Penn. Se nos últimos momentos achei que o Mickey Rourke também merecia o Oscar a verdade é com Penn havia a garantia de um discurso mais incisivo e politicamente engajado. Foi o caso.



Referência ainda para os merecidos Oscares de Kate Winslet, Wall-e e Penelope Cruz. Também não houve surpresas no caso de Heath Ledger, embora fique com o amargo de boca em relação ao merecido segundo Oscar de Philip Seymour Hoffman. Paciência.

A única grande surpresa e sobretudo desilusão prende-se com o melhor filme estrangeiro... A derrota inesperada da Waltz with Bashir... pode ser, no entanto, que com este Oscar o filme japonês que não tinha distribuição em Portugal seja adquirido e passe no circuito comercial.

Oscares 2009 já eram... venham os próximos...

sexta-feira, fevereiro 20, 2009

quinta-feira, fevereiro 19, 2009

"algumas definições pertinazes"

Pertinaz: característico de um pertiz; infantil.

Sobrevivente: aquele cujo vizinho de baixo ainda vive.

Estonofonia: conjunto dos habitantes da Estónia que falam a língua nacional, dos representantes do país no estrangeiro e dos três estrangeiros que falam a língua por se terem enganado na sala do curso de inglês.

Importante: 1. diz-se daquele que importa; o oposto de exportante. 2. não me lembro, não devia ser importante.

Receptivo: o oposto de contraceptivo. Ninguém sabe onde se usa.

Sibilina: que traz à lembrança a música de Sibelius.

Galante: um galão com adoçante.

Hortografia: escrita de índole florida.

Escritório: local onde as pessoas satisfazem as suas necessidades de escrita (mas há quem seja capaz de as satisfazer em qualquer lugar).

Burocrata: aquele que, para abrir uma porta, entende que se deve desaparafusar as dobradiças, passar o vão e aparafusá-las de novo. Não confundir com o séptico.

Séptico: o que preferiria desaparafusar as dobradiças de uma porta a ter que usar o puxador.

Milagre: algo que se pode ver ou sentir, mas não provar, como costeletas de novilho na brasa num restaurante vegetariano.

Caça: uma aeronave capaz de perseguir, atacar e abater perdizes, lebres e outros pequenos animais.

by Bandeira

é melhor não pregar em casinos

No Casino da Figueira, o cardeal Saraiva Martins disse que a homossexualidade "não é normal". E justificou, assim: "Não é normal no sentido de que a Bíblia diz que quando Deus criou o ser humano, criou o homem e a mulher. É o texto literal da Bíblia, portanto esse é o princípio sempre professado pela Igreja" - fim de citação. A Igreja a que se referia o cardeal Saraiva Martins é a Católica e esta habituou-nos a não interpretar a Bíblia à letra como certos evangélicos. Mas, anteontem, no casino, o cardeal preferiu apostar numa Bíblia à Corão dos radicais (se está escrito no livro sagrado é assim e acabou). Foi aposta arriscada. A Bíblia, mais do que apontar o dedo a anormalidades, é um belo e inspirador livro gabando-as: ele é o ecologista com barbas que enche um barco com animais em extinção, ele é o abrir as águas do mar com um gesto... E, sobretudo, citar as páginas iniciais da Bíblia como doutrinárias em sexualidade, se afasta os homossexuais do início do mundo (de facto, nada consta nessa matéria em relação a Adão e Eva) já nos desarma, sobre o incesto. Se a leitura for literal.

Ferreira Fernandes in DN, 19 Fev 2009

terça-feira, fevereiro 17, 2009

agora também no twitter

...a web 2.0 é cada vez uma realidade mais presente e asfixiante na minha vida: 1 blog individual, 1 blog colectivo, 1 blog privado, hi5, myspace, facebook, flickr, msn... está-me a faltar alguma coisa para ser 2.0 moderno?

uma boa ideia para o Carnaval

23 de Fevereiro
IRMÃOS CATITA & ENA PÁ 2000 - ESPECIAL CARNAVAL @ MAXIME

à nora...

...é como me sinto! Enquanto espero a resposta positiva do centro de emprego em relação ao estágio de investigação em Carnide, recebi uma proposta do mesmo para trabalhar como animador sócio-cultural na Amadora. E agora? Terei que escolher? E se tiver? Não sei qual escolher! Conselhos aceitam-se...

segunda-feira, fevereiro 09, 2009

num momento

encurraladas, as palavras,
entre sons que hesitam em sair ao mundo.

presas, as palavras,
que não é hora nem momento.

agarradas, as palavras,
por braços do Ontem.

asfixiadas, as palavras,
pelos beijos dados em hábitos permanentes.

e assim entram as palavras em mais um daqueles recantos esquecidos,
para mais tarde recordar.

A carta que não foi mandada

Paris, outono de 73
Estou no nosso bar mais uma vez
E escrevo pra dizer
Que é a mesma taça e a mesma luz
Brilhando no champanhe em vários tons azuis
No espelho em frente eu sou mais um freguês
Um homem que já foi feliz, talvez
E vejo que em seu rosto correm lágrimas de dor
Saudades, certamente, de algum grande amor

Mas ao vê-lo assim tão triste e só
Sou eu que estou chorando
Lágrimas iguais
E, a vida é assim, o tempo passa
E fica relembrando
Canções do amor demais
Sim, será mais um, mais um qualquer
Que vem de vez em quando
E olha para trás
É, existe sempre uma mulher
Pra se ficar pensando
Nem sei... nem lembro mais


Vinicius de Moraes in "Cancioneiro"

futebolada

Pedro Proença não fez jus ao seu antigo cartão de sócio do Benfica e menos ainda ao estatuto de membro de restrito grupo de árbitros portugueses de elite. Castigou o francês Yebda com um penálti falso como Judas (foi ludibriado por Lisandro) e que permitiu ao FC Porto empatar o clássico do Dragão (1-1) e manter-se na frente do campeonato. Um prémio demasiado alto para uma equipa portista em crise de identidade e com escassez de jogo, frente a um Benfica que chegou a ter uma facilidade insultante para controlar muitas fases do jogo.

Os ecrãs gigantes do Dragão mostraram durante todo o encontro um símbolo do Benfica demasiado pequeno e desproporcionado. Uma provocação escusada e que não teve correspondência no que se passou no campo.

in Público, 08 Fev 2009

obs: não tenho memória recente de tal roubo... deve ser de me chamar Jesus...

sábado, fevereiro 07, 2009

entre-letras

A chuva cai
incessante
as letras, essas, vão passando entre
olhares e olhares.
olhares-meio-perdidos-na-janela-da-chuva-que-cai-incessante.

o frio. que já foi menos.
enrijece-me os membros.
e a caneta presa
já não segue folha abaixo.

pelas palavras dos outros,
nas cores e letras dos outros,
há tons, aromas, e vidas
de outros. que não eu.

que resto aqui.
vendo a chuva lá fora. que cai.
incessante.

PSD anoréctico

"Os telejornais são a verdadeira angústia para o jantar com notícias da crise, cada uma delas pior que a anterior”

Os dias andam cinzento-chumbo, com frio e chuva, como determinam os invernos à séria. Os telejornais são a verdadeira angústia para o jantar com notícias da crise, cada uma delas pior que a anterior. Despedimentos em massa, fecho de fábricas, senhores importantes amputados de sorriso a debitar sobre as medidas para esta tormenta mundial que não poupou ninguém, nem as terras do Papalaguí. É neste microcosmos que os meninos do PSD resolveram fazer graça, experimentando em Setúbal a adesão a um cartaz de Sócrates com um nariz de metro e meio (à Pinóquio) sobre a falta de cumprimento de uma promessa, feita há três anos, de criação de 150 mil postos de trabalho. O ‘Pinócrates’ – chamam-lhe os rapazes bem-humorados do PSD.

Manuela Ferreira Leite, chamada a pronunciar-se sobre se concordava com o cartaz, disse, sem reticências, que era obra perfeita, bem ao estilo irreverente da JSD. Perfeito. Nesta noite, pensando no jeito hermaniano de "nós, os jovens… somos muito irreverentes", achei que a iniciativa tinha mérito e podia ser um meio eficaz de afastar os espíritos maus para tornar as campanhas eleitorais que aí vêm numa coisa menos tristonha. Acharia divertidíssimo, por exemplo, se a JS criasse um cartaz da líder do PSD vestida de bruxa, a bruxa da Branca de Neve, de chapéu cónico e uma enorme verruga preta no nariz.

Ao lado, com letras garrafais, "A BRUXA ENSANDUICHADA". Por cima, o PS a comer--lhe fatias grandes do seu eleitorado. Por baixo, o CDS a roer-lhe as migalhas do mesmo bolo. Outro exemplo, o Paulinho das Feiras, travestido de bardo, a personagem da lira do Astérix que num dia canta aos reformados, noutro aos contribuintes, noutro ainda aos deficientes das Forças Armadas. Em letras gordas, "CANTAS BEM MAS NÃO ME ALEGRAS", por entre muitas vaias de toda a aldeia que já não aguenta os "violinos" do bardo.

A Jerónimo de Sousa assentava-lhe como uma luva, nestas eleições carnavalescas, o traje do ‘Metralha’. Uns óculos de massa dura, grossa e preta, e o ‘Metralha’ a disparar contra todos os capitalistas. A legenda a preceito só podia ser "NEM MAIS UM EURO PARA OS BANCOS". E para o querido Louçã? Em verdade vos digo que o vejo bem no papel de seminarista. Mas a banda desenhada acaba sempre antes da sacristia. Como quer que seja, Louçã é um actor para muitos papéis. Já viram Louçã com as vestes do Zé do Telhado? "ROUBAR AOS RICOS PARA DAR AOS POBRES" podia bem ser o lema da homilia trotskista.

Emídio Rangel in Correio da Manhã

mínimas dos outros

Era tempo de deixares de ser parvo e armares-te em romancista russo!

in Quem Espera por Sapatos de Defunto Morre Descalço

quinta-feira, fevereiro 05, 2009

Vindicação

Em 16 de Setembro de 2004, a Ana Gomes escrevia aqui no Causa Nossa o seguinte:
«Mas a hipocrisia [do Governo no combate ao aborto] assumiu agora novos delírios, com a negação da entrada ao barco da Associação Women on Waves, pela qual o Governo português - o Governo deixado em Portugal pelo Senhor Barroso - procurou impedir a informação e o debate sobre o planeamento familiar, numa clara violação dos direitos fundamentais, do direito internacional e do direito comunitário. E afectou a isso meios totalmente desproporcionados, meios policiais e até militares, não hesitando em empregar navios de guerra. Meios desviados, assim, uma vez mais, do combate central: o combate contra o terrorismo internacional e a criminalidade organizada - por exemplo, desviando-os da vigilância de embarcações usadas no tráfego de droga que sulcam águas portuguesas para penetrar em toda a Europa.» [sublinhado acrescentado]
É bom saber que passados estes anos o Tribunal Europeu de Direitos Humanos deu inteira razão a este ponto de vista e condenou Portugal por violação da Convenção Europeia de Direitos Humanos no "caso Bornediep", incluindo o pagamento de uma indemnização às organizações prejudicadas.
É assim, o País é que paga quando a Direita instrumentaliza o Estado para defesa dos seus preconceitos ideológicos.

Vital Moreira in Causa Nossa

terça-feira, fevereiro 03, 2009

A primeira-ministra da Islândia é lésbica, assumidamente. E isso interessa?

Toca o telefone. Atendo. É o Aires, companheiro e fundador do Bobina e Desbobina, aconselhando-me o Público de hoje. O suplemento P2.

Logo na capa, olhando-me do alto do cabeçalho, a referência a "Santa Joana" promete um momento único na história deste blog. Nas páginas 6 e 7, do suplemento P2, encontra-se o artigo "A primeira-ministra da Islândia é lésbica, assumidamente. E isso interessa?", de Maria João Guimarães, e ainda a procissão vai no adro e já temos a referência a um post antigo (link) deste mesmo blog.

O tema pode ser polémico e o mero facto de se dar a notícia de ser a primeira vez que um político assumidamente homossexual chega à chefia de um Executivo de um país deu azo a discussão.
Por exemplo: mal o PÚBLICO colocou on-line a notícia sobre a possibilidade de Sigurdardottir ser a próxima primeira-ministra da Islândia e de ser esta a primeira vez que um político assumidamente gay ocuparia esta função, houve logo um bloguista que criticou o jornal, questionando a menção da vida privada da política (o blogue chama-se Nem vale a pena dizer mais nada).
Um comentador contrapôs, em resposta ao comentário do blogue, que o facto de uma mulher assumidamente homossexual chegar pela primeira vez à chefia de um Governo era notícia, tal como o foi o facto de um negro chegar pela primeira vez à presidência dos EUA.

O que este artigo traz de novo, e sem dúvida de mais interessante, em relação ao anterior é a forma como ele é articulado em torno da história política das lutas dos homossexuais pelos seus direitos, e não tanto da referência a apenas uma pessoa.

Para se ter noção do que isto representa, pode olhar-se para o panorama europeu de políticos abertamente gays: desde 2001, há três presidentes de câmara, dois na Alemanha (os presidentes das câmaras de Berlim, Klaus Wowereit, e de Hamburgo, Ole von Beust), e um em França (Bertrand Delanoë, presidente da Câmara de Paris).
Delanoë - que é agora considerado um possível candidato às presidenciais de 2012 - foi atacado em 2002 por um homem que disse odiar "políticos, o Partido Socialista e homossexuais".

Apoiando-se noutros casos como o de Bertrand Delanoë - o qual tive a oportunidade de acompanhar o trabalho municipal enquanto estive em Paris no último ano - e na biografia possível da reservada primeira-ministra Sigurdardottir é nos apresentado um retrato apoiado em exemplos desta luta política pela verdadeira igualdade de oportunidades.

Mas, este artigo tem outro aspecto que é fundamental realçar: a forma como os blogs têm cada vez um lugar de maior destaque na imprensa escrita. Chegando mesmo a promover ou direccionar, mesmo que indirectamente, linhas editoriais. Elogie-se, por exemplo, o facto do jornal o Público ter uma pequena secção Blogues em Papel, onde são retiradas ideias-chave de blogosfera portuguesa.

Em suma, como Maria João Guimarães realçou logo no início do artigo este assunto pode ser polémico... E é... E continuará a sê-lo muito depois da tomada de mil e um primeiros-ministros homossexuais, porque Portugal continuará religiosamente a ser um país homófobico, onde se escondem conservadorismos por detrás da eterna justificação "a nossa cultura é assim/a nossa cultura não é assim" (riscar a que não interessa).

obs: no espaço de uma semana o jornal Público soube mostrar que tanto se pode fazer jornalismo de referência como o oposto... basta escolher o ângulo correcto para uma notícia.

sobre o velho senhor

domingo, fevereiro 01, 2009

still freeport...

O gajo está mesmo metido, não está?

Isto deve ser genético. Já quando foi da II Guerra Mundial não entrámos. Agora, temos a II Crise Mundial (depois da de 1929) e continuamos de fora. Isto digo eu, que leio os jornais. Os lá de fora e os cá de dentro. Os lá de fora, é a crise, a crise e a crise. Ontem, o Guardian tinha na primeira página a foto cinzenta com umas caras cinzentas como já não se viam na Europa desde os anos 30. Proletas britânicos, com cartazes britânicos: "Empregos britânicos para trabalhadores britânicos!" Solidariedade é palavra que já de si se soletra mal, com medo não dá de todo.

Já em Portugal, as capas, é sobre a telenovela: "A Carta". Argumento escrito por cá, em 2005, de autor anónimo, mandado para Inglaterra para lhe dar patine internacional, e reimportado em episódios. Como veio com a chancela Serious Fraud Office (SFD), que tomamos por departamento da BBC, é um sucesso. Desde aí, o País está suspenso como só esteve há muito, quando apareceu a "Gabriela". A questão que atravessa o País é: "ele" está mesmo metido? O nosso nível de julgamento foi moldado por Tonico Bastos. Desde essa primeira telenovela, continuamos gente simples.

Reparem, a nossa, essa de negar a crise, é uma forma como outra qualquer de reagir. O americanos, embalados pela esperança de Obama, readaptam a doutrina Monroe: "Os projectos americanos para as empresas americanas." O Governo espanhol deixa os seus cidadãos mais necessitados resgatar os fundos de pensões. A Rússia de Putin, herdeira dos planos quinquenais da URSS, traça um plano trienal de crise. Os povos, assustados pelo estrebuchar dos líderes, regressam à luta de massas: greve geral em França e esse chauvinismo já referido dos trabalhadores das refinarias britânicas... Quem podia ainda ter dúvida sobre a vastidão da crise convenceu-se com a notícia da semana: Bono, por estar a preparar um novo álbum, não foi a Davos. Quando o próprio messias faz pela vidinha, isto está mesmo, mesmo, mal.

Só nós nos opomos à crise. Não, não é opormo-nos dessa forma vulgar dos outros, que procuram soluções ou, pelos menos, se assustam. Nós combatemo-la da forma mais radical: negamo-la. Não venham cá com as vossas estatísticas, que nós temos a nossa curiosidade: o gajo está mesmo metido, não está?

Eu acho piada à táctica e consolam-me sempre provas de que somos um pouco originais. Um povo que já deu mundos ao Mundo há de ter alguma peculiaridade. Se alguns bascos pensam que são únicos por causa de um sangue RH negativo especial, talvez nós sejamos, como mais ninguém, imunes às crises, sei lá.

O meu problema é ler jornais lá de fora. Peço desculpa, mas a crise é mais do que universal, é também portuguesa. Por isso, peço: mesmo que o gajo não esteja metido, metam-no. Não podemos é estar mais tempo nesta telenovela.

Ferreira Fernandes in DN, 1 Fev 2009