segunda-feira, outubro 27, 2008

Leilão!

Este é um leilão pouco vulgar, pelo que se justifica esta breve apresentação.
O João (João Manuel Barreto Pereira Gomes, de seu nome completo) deixou-nos no passado mês de Junho, após mais de uma década de luta corajosa contra a doença que acabou por o vitimar.

Ocupou-se, nas últimas semanas de vida, a preparar – com uma notável tranquilidade e lucidez – o destino a dar aos seus haveres. Decidiu-se por designar quatro instituições (a AMI, a Médicos do Mundo, a Acreditar e a Casa Sol) como suas herdeiras, determinando que os seus bens deveriam ser vendidos em hasta pública, revertendo o seu produto para aquelas instituições sob a forma de donativo.
Esta a razão de ser deste leilão, a cuja organização se associam as associações, familiares e amigos do João.
O que está em causa são objectos de um professor de artes visuais, que cultivava o gosto pelas artes e pela música. Nenhuma fortuna, portanto. O que nos propôs é esta forma de ajudar os outros através de donativos às associações por ele escolhidas.
O valor das peças é muito variável. Ajusta-se, por isso, a todas as bolsas. Especialmente nesta época de Natal.
Contamos com todos para divulgar esta iniciativa!

As regras simples para o decorrer do leilão são as seguintes:
1. Qualquer pessoa pode participar no leilão, fazendo as suas ofertas e indicando nome e contacto.
2. As peças a leiloar estão organizadas por lotes, identificados por um número de referência, com um preço base de licitação e lance estabelecidos.
3. As peças estão em exposição na morada R. Conselheiro Martins Carvalho, nº 7 – 3.º Esq., em Lisboa (a casa do João), onde podem ser vistos no seguinte horário:
- 3ª a 6ª feiras, das 17 às 20 horas - Sábados, das 15 às 20 horas
4. As ofertas podem ser efectuadas entre os dias 4 e 15 de Novembro, no local de exposição (nos horários definidos) ou por email leilaojoaogomes@gmail.com
5. Diariamente, são actualizadas em lista disponível na morada referida e no blog http://leilaojoaogomes.blogspot.com/ as melhores ofertas. Assim cada um pode acompanhar a situação da suas ofertas, verificando se se mantém ou se foram ultrapassadas.
6. Qualquer pessoa pode licitar quantas vezes quiser, até às 20 horas da data limite (o dia 15 de Novembro).
7. Após a hora marcada para o encerramento do período de licitação, será comunicado a todos os interessados o resultado do leilão.
8. As pessoas que fizeram as melhores ofertas assumem a responsabilidade de, no prazo de uma semana, procederem aos pagamentos e levantamentos respectivos, sendo de sua inteira responsabilidade as eventuais despesas com o seu transporte. Caso não o faça no prazo definido, o bem será atribuído a quem fizer a oferta imediatamente inferior.
9. Para este efeito, mantém-se o horário definido no ponto 3.
10. Os pagamentos serão preferencialmente efectuados em cheque (à ordem de João Manuel Barreto Gomes) ou, em alternativa, em dinheiro.

O balanço final do leilão e as suas contas serão apresentados no blog http://leilaojoaogomes.blogspot.com/, bem como às associações beneficiárias.

quinta-feira, outubro 16, 2008

going up... and you?

FANNY'S FIRST PLAY

The end of a saloon in an old-fashioned country house (Florence
Towers, the property of Count O'Dowda) has been curtained off to form
a stage for a private theatrical performance. A footman in grandiose
Spanish livery enters before the curtain, on its O.P. side._

FOOTMAN. [announcing] Mr Cecil Savoyard. [Cecil Savoyard comes
in: a middle-aged man in evening dress and a fur-lined overcoat. He
is surprised to find nobody to receive him. So is the Footman]. Oh,
beg pardon, sir: I thought the Count was here. He was when I took up
your name. He must have gone through the stage into the library.
This way, sir. [He moves towards the division in the middle of the
curtains].

SAVOYARD. Half a mo. [The Footman stops]. When does the play
begin? Half-past eight?

FOOTMAN. Nine, sir.

SAVOYARD. Oh, good. Well, will you telephone to my wife at the
George that it's not until nine?

FOOTMAN. Right, sir. Mrs Cecil Savoyard, sir?

SAVOYARD. No: Mrs William Tinkler. Dont forget.

THE FOOTMAN. Mrs Tinkler, sir. Right, sir. [The Count comes in
through the curtains]. Here is the Count, sir. [Announcing] Mr
Cecil Savoyard, sir. [He withdraws].

COUNT O'DOWDA. [A handsome man of fifty, dressed with studied
elegance a hundred years out of date, advancing cordially to shake
hands with his visitor] Pray excuse me, Mr Savoyard. I suddenly
recollected that all the bookcases in the library were locked--in fact
theyve never been opened since we came from Venice--and as our
literary guests will probably use the library a good deal, I just ran
in to unlock everything.

SAVOYARD. Oh, you mean the dramatic critics. M'yes. I suppose
theres a smoking room?

THE COUNT. My study is available. An old-fashioned house, you
understand. Wont you sit down, Mr Savoyard?

SAVOYARD. Thanks. [They sit. Savoyard, looking at his host's
obsolete costume, continues] I had no idea you were going to appear
in the piece yourself.

THE COUNT. I am not. I wear this costume because--well, perhaps I
had better explain the position, if it interests you.

SAVOYARD. Certainly.

THE COUNT. Well, you see, Mr Savoyard, I'm rather a stranger in your
world. I am not, I hope, a modern man in any sense of the word. I'm
not really an Englishman: my family is Irish: Ive lived all my life
in Italy--in Venice mostly--my very title is a foreign one: I am a
Count of the Holy Roman Empire.

SAVOYARD. Where's that?

THE COUNT. At present, nowhere, except as a memory and an ideal.
[Savoyard inclines his head respectfully to the ideal]. But I am by
no means an idealogue. I am not content with beautiful dreams: I
want beautiful realities.

SAVOYARD. Hear, hear! I'm all with you there--when you can get them.

THE COUNT. Why not get them? The difficulty is not that there are no
beautiful realities, Mr Savoyard: the difficulty is that so few of us
know them when we see them. We have inherited from the past a vast
treasure of beauty--of imperishable masterpieces of poetry, of
painting, of sculpture, of architecture, of music, of exquisite
fashions in dress, in furniture, in domestic decoration. We can
contemplate these treasures. We can reproduce many of them. We can
buy a few inimitable originals. We can shut out the nineteenth
century--

SAVOYARD. [correcting him] The twentieth.

THE COUNT. To me the century I shut out will always be the nineteenth
century, just as your national anthem will always be God Save the
Queen, no matter how many kings may succeed. I found England befouled
with industrialism: well, I did what Byron did: I simply refused to
live in it. You remember Byron's words: "I am sure my bones would
not rest in an English grave, or my clay mix with the earth of that
country. I believe the thought would drive me mad on my deathbed
could I suppose that any of my friends would be base enough to convey
my carcase back to her soil. I would not even feed her worms if I
could help it."

SAVOYARD. Did Byron say that?

THE COUNT. He did, sir.

SAVOYARD. It dont sound like him. I saw a good deal of him at one
time.

THE COUNT. You! But how is that possible? You are too young.

SAVOYARD. I was quite a lad, of course. But I had a job in the
original production of Our Boys.

THE COUNT. My dear sir, not that Byron. Lord Byron, the poet.



Bernard Shaw in Fanny's first play

Pourquoi les chauves-souris préfèrent sortir la nuit

by Kris DiGiacomo

untitled

por uma rua
direita,
esse caminho torto.

eu que não encontro o jeito
de saber onde deixei a entrada.

de muralha fora.
de muralha dentro.

estou tão perdido. como ausente.

por uma rua direita
que tem nome de outra que não essa.
não percebo o sentido.
e estou perdido.

uma rua.

baralho e desbaralho. volto a dar. cubro e chamo.

a jogada foi de mestre. e eu fico a ver.

baralho e volto a baralhar estas frases soltas.
que a cabeça está perdida em mil anseios...

não percebo.
ou percebo.
no mail. no hope.

nota: angustias lá para as bandas de Óbidos

sexta-feira, outubro 10, 2008

quinta-feira, outubro 09, 2008

Nobel 2008

Le désert

Il n’a pas de plus grande émotion que d’entrer dans le désert. Aucun désert ne ressemble à un autre, et pourtant, chaque fois le cœur bat plus fort.

Ensemble nous avons fréquenté quelques déserts, en Amérique particulièrement.0 Les étendues de White Sands, au Nouveau-Mexique, et surtout le désert du Sonora, entre Mexicali et Sonoita, le désert lunaire de la Basse-Californie, ou la zone du Silence, dans le désert de Mapimi, près de Jimenez, où le sol est jonché de débris de météorites.
À partir du Draa, on entre vraiment dans le Sahara. La rive sud du grand fleuve est un escarpement qui fait changer de monde. D’un côté la vallée brumeuse, qui porte les traces de l’occupation humaine ; de l’autre, un socle dur, semé de pierres noires aiguës. Étrange voyage que celui de Vieuchange, qui donna sa vie sur cette route pour atteindre la ville de Smara, pour être, comme il l’écrit dans ses carnets, « le premier de sa race » à y entrer. Pourtant, malgré tout ce qui nous sépare –et d’abord la facilité de notre voyage) nous partageons son émotion, son impatience.
Le plateau de la Gadda est bien tel qu’il l’a vu, sans fin, monotone, presque sépulcral, d’une beauté hors de la mesure humaine. Minéral : au fur et à mesure qu’on avance vers le Sud, la végétation rase des abords du Draa s’amenuise, se fait plus chétive, plus noire, jusqu’à être réduite à néant. La route suit des sortes de couloirs, des stries, des rainures. Au loin, les collines de pierres sont bleues, irréelles : des cuestas, des dunes, des glacis de sable. À certains endroits, la terre brille comme s’il y avait une gloire sous le ciel gris. Nulle part ailleurs nous ne nous sommes sentis aussi près du socle du monde, aussi proches de la dureté éternelle dont on dit qu’elle prendra un jour la forme d’un immense aérolithe de fer. Et pourtant aussi touchés par la lumière, par le soleil. Comme si nous étions des insectes collés à une gigantesque vitre, pris entre les deux plaques abrasives de la terre et du ciel.
Paysage du vent, du vide.
Pays usé dont l’eau s’est retirée un jour, laissant à nu les fonds, les anciennes plages, les chenaux, les traces de coup des vagues cognant contre les falaises.
L’eau est partout : tandis que nous roulons sur cette route rectiligne, elle apparaît dans le lointain, elle brille. De grands lacs tranquilles, légers, couleur de ciel, de longs bras transparents qui s’ouvrent devant nous et se referment après nous. C’est l’eau de nos rêves. Nous croyons voir des échassiers, ou bien des maisons, des silhouettes au bord de ces oasis.
Les légendes des Gens des nuages parlent de ces pluies (confirmées par les études géologiques) qui ravagèrent la terre il y a des milliers d’années, alors que l’homme n’était encore qu’une frêle silhouette fugitive dans ce paysage. Des pluies si violentes qu’elles arrachèrent des blocs aux montagnes, ouvrirent des vallées, et poussèrent jusqu’à la mer des rochers de silex grands comme des immeubles.
C’est bien de ce paysage que rêvait Jémia. Ce pays qu’elle porte sans doute dans sa mémoire génétique, et qu’elle a cru reconnaître la première fois qu’elle est allée au Nouveau-Mexique, dans la vallée du Rio Grande ou du Rio Puerco, l’immensité aux couleurs de sable et d’ocre, les mesas bleues des Indiens, et le ciel sans limites, semés de nuages mousseux. Maintenant elle le retrouve, elle le prend en elle, elle l’interroge.
À chaque instant, sur cette terre plate, il y a du nouveau. Des plaques d’argile blanche, des coulées de sable blond, rose, gris, des cendres, des barres noires fossiles. Les rochers usés par un vent vieux de milliers d’années. J émia s’est tue toute cette journée : c’est son pays, le pays le plus ancien, et en même temps le plus jeune, une terre que l’âge des hommes n’a pas marquée.
La Gadda est un passage vers la mémoire, un seuil, un goulet pour entrer dans l’autre monde.
Ici, le temps n’est plus le même. Il faut se dépouiller, se laver pour entrer dans le domaine de la mémoire. Nous faisons ce voyage ensemble, mais, pour Jémia, il s’agit d’un tout autre parcours. Elle n’avance pas seulement sur cette route, vers Smara et la Saguia el Hamra. Elle remonte aussi le courant de l’histoire, de sa propre histoire, afin de trouver la trace de sa famille qui a quitté cette terre pour émigrer vers les pays du Nord, vers les villes.


Gens des nuages, JMG LE CLÉZIO, Éditions Stock, Paris, 1997.

segunda-feira, outubro 06, 2008

crise 2008

...não pretendo, de forma alguma, ter aquele discurso de que "o mundo acabou como o conhecemos" ou de que estamos numa situação em tudo semelhante à crise de 29. Não vou servir nenhuma visão à Fukuyama nem à Delgado... o que acredito e queria deixar vincado é que infelizmente...

- o mundo ocidental vivia há muitos anos bem acima das suas possibilidades e recursos;
- o imaginário americano e europeu virado para o consumismo desenfreado não era saudável;
- o sistema financeiro baseado na especulação estava sobrevalorizado;
- o abuso dos créditos para individuais, empresas ou estados fragilizava o crescimento sustentado dos mesmos;
- o sector privado pode sempre correr riscos pois teve sempre uma "rede de segurança";
- as preocupações ambientais e climáticas foram sempre apenas e só uma operação de marketing político;
- o poderio económico de uma potência derivava do seu poderio/influência militar;
- o uso e abuso do petróleo e derivados foi a base e sustento do crescimento mundial;
- etc...

Não trago um único argumento novo... não é essa a ideia aliás... o objectivo é sobretudo mostrar que tudo o que aconteceu era previsível e natural pela forma como o mundo se desenvolveu desde a revolução industrial..

O que prevejo e isso sim me parece grave é que nada vai mudar! Ou seja, de uma maneira geral, após a crise:
- o mundo ocidental continuará a viver acima dos recursos;
- os créditos ao consumo e o endividamento não vão acabar;
- o sector privado prosseguirá com as suas trapalhadas e sem avaliação de riscos e de consequências;
- o petróleo continuará a "subjugar" as economias mais frágeis e dependentes;
- o poder militar continuará a ser o essencial suporte das principais potências económicas;
- a especulação bolsista vai continuar;
- a ecologia e ambiente continuarão a ser um belo tema de conversa para conferências e não para a prática governativa...

Em suma, esta crise dificilmente trará algo de novo... procuram-se respostas... que vão mais além da culpa ser deste partido ou daquele, deste país ou de outro... a responsabilidade é de todos! Temos mesmo que... Pensar global. Agir local.

Ankara - Lisboa

Portugal e Turquia estão cada vez mais perto... desde este mês que conto nos meus links com o photoblog do meu amigo M. Tiago Paixão que se encontrará nos próximos anos em Ankara como leitor do Instituto Camões... Garante-se em cada foto um pingo de cultura, de lazer e em quem sabe de um exotismo q.b.
Acima de tudo fica a certeza de um olhar que tão belas fotos tirou em Paris e Amsterdão...
Até breve, Mário!

ao virar do pano

Paris
Março 2008

Personalidades e Feitios

Só cá faltava mais esta demonstração do carácter do Dr. Durão Barroso.
O Presidente que há quatro anos está à frente da Comissão Europeia e, qual avestruz de cabeça enterrada na areia (vd meu post de 22.9 "CE - avestruz de cabeca enterrada no ... casino"), não a fez mexer nem um dedinho – apesar de instado/a há mais de um ano pelo Parlamento Europeu e, pelo menos, pela Senhora Merkel - para regular, supervisar, disciplinar o funcionamento da banca europeia e os produtos e métodos altamente “tóxicos” em que esta negociava e lhe grangeavam lucros faraónicos (sobretudo para os gestores de topo).
Pois o Dr. Durão Barroso, que tem estado caladinho desde que esta crise financeira global estalou, veio agora finalmente dar um ar de sua graca: não para reconhecer responsabilidades e prometer acção reparadora e disciplinadora a nível europeu (e não apenas de cada Estado Membro individualmente), relativamente os agentes e mercados financeiros.
Não, nada disso – o Presidente Barroso veio admoestar os EUA para resolverem sem demora a crise financeira mundial que criaram.
A lata é inesgotável! Já a vimos no Dr. Barroso a propósito da invasão do Iraque, de Guantanamo, da tortura e das prisões secretas: primeiro atira-se de cabeça, irreprimivel e acriticamente, atrás da mais reaccionária e demente Administração americana. Depois, quando as coisas ostensivamente dão para o torto, faz de lucas, nada era com ele: a responsabilidade é de outros, a eles cabe apanhar os cacos!....
Ninguém evidentemente contesta que cabem aos EUA, desde as teses da era Reagan, principais responsabilidades pela crise financeira global que agora estoirou.
Mas na Europa os principais reponsáveis políticos e económicos, aqueles que foram governo (incluindo gente que se dizia socialista) e foram atrás das teses neo-liberais que pregavam contra o Estado, a favor da desregulação e praticavam a supervisão ficcionada, não podem agora tirar o cavalinho da chuva e mandar as culpas só para os americanos.
Se há desregulação, comportamentos gananciosos aventureiros e criminosos da banca e de fundos de investimento europeus, a culpa não é dos americanos – mas sim dos governantes e reguladores europeus que desregularam ou deixaram desregular e que afrouxaram a supervisão, incentivando o abuso e o excesso.
O Dr. Durão Barroso, por exemplo, não só foi Primeiro Ministro de Portugal num período de privatização por tuta-e-meia de bens, serviços e empresas públicas (as OGMA, por exemplo), e de vê-se-te-avias para a desregulação e para o relaxamento da supervisao. Há quatro anos que é Presidente da Comissão Europeia e nada fez para antecipar e prevenir os perigos da ganância e da roda livre no mundo da banca e das finanças europeias e mundiais, para travar o processo de desregulação a nível europeu, para afastar as ameaças resultantes do descontrole e opacidade de “private equities”, “hedge funds”, “sovereign funds” e dos famigerados “off-shores”.
Estão enganados aqueles que pensam que o Dr. Barroso e outros com idênticas ou ainda mais responsabilidades vão escapar sem que lhes sejam pedidas contas na Europa. Além das que têm de ser pedidas aos governos que continuarem inertes a ver a crise afundar a economia europeia.

Ana Gomes in Causa Nossa