terça-feira, agosto 19, 2008

recordações bretãs

JO 2008

Não fico desalentado com aqueles que, nos grandes palcos, não conseguem lutar pelas medalhas. Nem todos podem ser Vanessas, Évoras ou Naides. Mas, de uma vez por todas, os atletas portugueses deviam perceber que a única coisa que se lhes exige é que compitam dentro das suas possibilidades; que façam o expectável. É só isso que o País pede.

Já chega de ver gente que se intimida "por estar pouco habituada a correr com tantas adversárias"; que se assusta "com o Estádio cheio"; que assume "não ter queda para as grandes competições"; que sorri e manda beijos para as câmaras depois de falhar um exercício ou que considera que "de manhã só é bom ...dormir". Os Jogos são uma festa única que todos os atletas devem poder desfrutar mas, na altura de competir, têm de ser exigentes consigo próprios. Caso contrário, estão apenas a enganar-se. A perder tempo.

Nos Jogos de Barcelona'92, onde estive a trabalhar, fiquei traumatizado com a indiferença com que alguns atletas aceitavam os maus resultados. Quase 20 anos volvidos pensava que essa mentalidade tinha acabado. Enganei-me. Mas, felizmente, nem todos são assim. Francis Obikwelu, por exemplo, foi um gigante na hora da derrota. Ninguém o viu a rir ou a fazer declarações absurdas. Ele sabe bem que há diferenças entre ganhar e perder.

Luís Avelãs in Record, 19 Agosto 2008

obs: Portugal vai muito provavelmente ter um resultado pior que em 2004... é necessário reflectir sobre essa situação...

quarta-feira, agosto 06, 2008

ainda o Ruanda

A noticia do Publico sobre as afirmações dos lideres ruandeses em relação à conivência e mesmo participação francesa no massacre de 1994 pouca surpresa me provoca. Quando em 2005 escrevi a minha tese de final de curso sobre casos de ingerência internacional e quando foquei num dos capítulos o caso ruandês era já evidente na bibliografia consultada e na leitura de periódicos que a participação francesa havia sido bem mais intensa na preparação do massacre, através da venda de catanas, do que no apoio após o mesmo. A surpresa neste caso seria se o governo francês e outros governos ocidentais assumissem o seu papel indirecto neste massacre. Cito de seguida o artigo do jornal e posteriormente o meu capitulo sobre o caso ruandês.

O Ruanda acusou as autoridades francesas de terem participado activamente no genocídio de 1994, quando foram executados perto de 800 mil pessoas, na sua maioria de etnia tutsi. Kigali pede, por isso, que o tribunal internacional acuse 20 comandantes militares gauleses e 13 altos dirigentes, entre eles o antigo primeiro-ministro, Dominique de Villepin.
Durante dois anos, uma comissão de inquérito ruandesa investigou o alegado envolvimento de políticos e militares franceses nos massacres da última década, uma suspeita há muito veiculada pelo Governo de Kigali, mas sempre negada pelas autoridades parisienses. O relatório final da comissão – que ouviu sobreviventes, jornalistas e investigadores – foi apresentado em Novembro ao executivo, que só agora tornou públicas as 500 páginas do documento.
Segundo o relatório, o Governo francês da altura estaria “ao corrente dos preparativos” dos radicais hutus para o massacre de milhares de tutsis, etnia minoritária mas que durante décadas liderou as instituições do país. A comissão conclui ainda que Paris “participou nas principais iniciativas” de preparação do plano de extermínio e “da sua execução”.
“A persistência, a determinação, o carácter maciço do apoio francês à política ruandesa de massacres mostram a cumplicidade dos responsáveis políticos e militares franceses na preparação e a execução do genocídio”, adianta o Ministério da Justiça, na apresentação do relatório.
Entre os 13 dirigentes implicados no relatório contam-se os principais dirigentes políticos franceses à data do genocídio, incluindo o Presidente François Mitterrand, falecido em Janeiro de 1996, o primeiro-ministro, Edouard Balladur, o ministro dos Negócios Estrangeiros, Alain Juppé, e o seu chefe de gabinete, Dominique de Villepin, mais tarde primeiro-ministro.
A comissão de inquérito apresenta ainda duras acusações contra o contingente que Paris mantinha no Ruanda, sustentando que os militares franceses ajudaram a treinar as milícias hutus e “cometeram eles mesmo assassinatos de tutsis e hutus acusados de esconder tutsis”.
“Tendo em conta a gravidade dos factos, o Governo ruandês pediu às instâncias habilitadas para que adoptem as acções necessárias para levar os responsáveis políticos e militares franceses acusados a responder pelos seus actos perante a justiça”, conclui o comunicado.
Há muito que o Governo ruandês acusa França de ter tido um papel activo no genocídio, através do contingente militar que Paris então mantinha no país, suspeito de nada fazer para impedir as milícias hutus de executarem, no prazo de semanas, centenas de milhares de pessoas. Contudo, esta é a primeira vez que Kigali fala no envolvimento directo dos franceses no massacre.
No início deste ano, o chefe da diplomacia francesa, Bernard Kouchner, voltou a negar qualquer intervenção no genocídio, apesar de admitir que foram cometidos “erros políticos”. Hoje, a diplomacia francesa escusou-se a comentar as novas acusações, dizendo não ter ainda acesso ao relatório da comissão ruandesa, cuja legitimidade Paris nunca reconheceu.
As relações entre os dois países foram suspensas em Novembro de 2006, depois de um magistrado francês ter acusado o actual Presidente ruandês, Paul Kagame, de envolvimento no atentado contra o avião em que seguia Juvénal Habyarimana, o então chefe de Estado, de etnia hutu, cuja morte acabaria por desencadear o genocídio.
Segundo as Nações Unidas, mais de 800 mil pessoas, na sua maioria tutsis, mas também hutus moderados, foram mortas em apenas cem dias pelas milícias Interahamwe. Os massacres só terminaram depois de os rebeldes liderados por Kagame terem tomado o poder em Kigali. Os responsáveis pelos crimes cometidos em 1994 estão a ser julgados por um tribunal internacional, patrocinado pela ONU.

Publico, 6 Agosto 2008

Ruanda 1994

Um relatório americano, de 1995, sobre o genocídio do ano anterior no Ruanda assinala que este poderia ter sido evitado se estivessem presentes no terreno o triplo das forças da ONU. Isto prova alguma apatia das Nações Unidas perante a potencial bomba que era o pais.
O Ruanda é um pais de herança colonial alemã, e posteriormente belga e é uma decisão destes últimos que está na origem do genocídio. Em 1933, a administração belga cria a Carta de Identidade para diferenciar o grau de riqueza da população. A esta divisão foi acrescentada uma origem étnica para legitimação. Assim os Hutus, que representavam 80% da população e eram os pobres camponeses com menos de dez vacas, poderiam tornar-se Tutsis caso enriquecessem e receber a Carta de Identidade. Esta divisão social vai ser extraordinariamente bem assimilada e os sentimentos de pertença dos grupos intensos. Com o intuito de evitar o lobby politico dos Tutsis ocorre uma revolução em 1959, que altera todas as elites decisórias e expulsa do pais a etnia minoritária. A ONU refere num relatório de 1961 que a situação no Ruanda tende a agravar-se.
Em 1973, um golpe de estado liderado por Huvenal Habyarimana certifica a vitória Hutu e o degredo dos Tutsis. O Ruanda apesar de ser um país com solos férteis, tem a segunda maior taxa de densidade populacional, e a expulsão de habitantes do país era também um factor agrícola positivo.
A situação agrava-se entre as duas etnias, e em 1990 é formado no exílio o exército dos Tutsis, o RPF, para defender a causa, e de seguida são proclamados os 10 mandamentos Hutus. Atendendo a essa situação a ONU promove missões de vigilância e apoio aos refugiados e à zona de conflito, na fronteira com o Uganda, como a UNOMUR e UNOMIR.
A 6 de Abril de 1994 o avião do presidente Habyarimana é abatido pelos próprios Hutus, mas o crime é apontado aos Hutsis. Para os responsáveis, os Interahamwe, um grupo extremista o Presidente tornara-se um traidor ao assinar um acordo de paz, em Agosto do ano anterior. O que se seguiu é um dos maiores massacres étnicos da história contemporânea, com a eliminação de 1 milhão de Tutsis em três meses, a um ritmo diário cinco vezes superior ao extermínio nazi.
Ao fim de três meses a situação parece acalmar e as forças das Nações Unidas e França regressam ao país. O mais preocupante no massacre do Ruanda é a despreocupação internacional perante fenómenos curiosos que antecederam o massacre, como a compra por um individuo de 50 mil catanas. Outra prova da preparação estudada do golpe é visível pelo apoio prestado pela Rádio Nacional durante o genocídio ao divulgar nomes e moradas de Tutsis.
A comunidade internacional enjeitou um mea culpa ao avançar rapidamente no sentido da criação de um Tribunal Internacional para julgar estes crimes, mas actuações como a francesa com a recusa dos seus militares de testemunharem nos tribunais, ou apoio dado por Miterrand aos Hutus fragilizam-na.
O preocupante para a ONU como Koffi Annan afirmou posteriormente foi o fracasso desta no evitar do genocídio, pela falta de forças militares no terreno.


Julho 2005

segunda-feira, agosto 04, 2008

Madrigal Melancólico

O que eu adoro em ti,
Não é a tua beleza.
A beleza, é em nós que ela existe.

A beleza é um conceito.
E a beleza é triste.
Não é triste em si,
Mas pelo que há nela de fragilidade e de incerteza.

O que eu adoro em ti,
Não é a inteligência.
Não é o teu espírito sutil,
Tão ágil, tão luminoso,
- Ave solta no céu matinal da montanha.
Nem é a tua ciência
Do coração dos homens e dos coisas.

O que eu adoro em ti,
Não é a mãe que já perdi.
Não é a irmã que já perdi.
E meu pai.

O que eu adoro em tua natureza,
Não é o profundo instinto maternal
Em teu flanco aberto como uma ferida,
Nem a tua pureza. Nem a tua impureza.
O que adoro em ti - lastima-me e consola-me!
O que eu adoro em ti, é a vida.

11-07-1920

Manuel Bandeira

ps: por estes doces dias de verão...

domingo, agosto 03, 2008

... das intermitências...

há que assumir... este mês vai ser de ausência...
há que assumir... algum Alentejo e talvez um pouco de Minho...
há que assumir... pouca internet... mas muitos sorrisos neste regresso a casa...
há que assumir... que a intermitência aqui será um doce prazer...

sábado, agosto 02, 2008

O vento de Norte. Da praia agreste. De areia grossa.

Ela estava lá longe na praia.

Rodeando a areia em passos circulares

Não saindo nunca do mesmo lugar.

Que só podia ser o seu. Aliás.

Ela ficava lá longe na praia.

Longe das crianças que felizes irradiavam gritos e sorrisos estridentes.

Ela que não dava um passo sem contar os que restavam para percorrer toda a sua praia.

Ela que fitava o mar. As mesmas ondas que lhe levaram alguma família, algum amor e alguns dos seus últimos dias felizes. Naquela praia.

Ela restava lá longe na praia.

Como se por um momento pudesse ficar mesmo longe de todos os problemas que lhe

Desmontavam

O presente.

Vivido

Alguns quilómetros depois.

Ela já não sobrava. Lá longe na praia.

E o vento de Norte. Da praia agreste. De areia grossa.

Já não lhe batia nas pernas cansadas.

Ela encolhia-se. E descansava.

Só.

Com um cheiro àquele sorriso passado.


2 Agosto 2008

ps: Mais um ano entre as árvores e as brincadeiras de Santiago... Parabéns!

sexta-feira, agosto 01, 2008

O jornalismo de JPP

Pergunta: "Escreve num jornal onde há uma cruzada declarada contra José Sócrates?" Resposta: "Sim, com que eu na maioria dos casos estou de acordo." As frases entre aspas fazem parte de uma entrevista a José Pacheco Pereira conduzida por João Céu e Silva e publicada esta semana no DN.

O entrevistado escreve e opina em muitos meios - e sobre um deles, o seu blogue Abrupto, diz na mesma entrevista que lhe dá "mais poder" que "uma secretaria de Estado" - mas o único jornal da sua carteira pessoal de intervenções é o diário Público. Assim, ficamos a saber que Pacheco Pereira não só admite existir "uma cruzada declarada contra José Sócrates" por parte do Público, como está "na maioria dos casos de acordo".

Este, não haja confusões, é o mesmo Pacheco Pereira que escreveu uma inteira e indignada coluna no mesmíssimo Público sobre a forma como a sua candidata à liderança do PSD, Manuela Ferreira Leite, foi enquadrada na entrevista que deu a Judite de Sousa na RTP, sustentando a tese de que ela, ao contrário do que se passou com os outros candidatos, fora sempre filmada em grande plano com o intuito de, subliminarmente, lhe causar dano (para mostrar a idade, as rugas, etc.). É o mesmo Pacheco Pereira que dia sim dia sim se insurge contra "a governamentalização da RTP", o mesmo Pacheco Pereira que está sempre vigilante em relação a qualquer coisa que possa parecer-lhe, em qualquer meio de comunicação social, favorável ao Governo em funções - ou não suficientemente desfavorável? - e que quando o Público lançou dúvidas sobre o currículo académico do primeiro- -ministro vergastou os órgãos de comunicação social que não seguiram logo "a pista" (ou seja, na linguagem de Pacheco Pereira, "a cruzada").

O mesmo Pacheco Pereira que, comentador na SIC Notícias, colunista na Sábado e no Público e de um modo geral ouvido por tudo e todos sobre todos e tudo, fala de "silenciamento das opiniões contrárias", insinuando a existência de uma conspiração para calar os que, como ele, "não se calam", o mesmo Pacheco Pereira que quando o seu blogue foi alvo do ataque de um hacker divisava já no facto uma perseguição política. O mesmo Pacheco Pereira que passa a vida a arremeter contra "o jornalismo de causas" que, não se cansa de repetir, "não é jornalismo". É este Pacheco Pereira, o impoluto defensor do jornalismo "imparcial" e "objectivo", que afinal alinha em "cruzadas declaradas" por jornais - e, fazendo-lhe a justiça de não o considerar néscio nem sequer distraído, não se coloca a hipótese de ele ignorar que "cruzada" equivale, em qualquer dicionário, a guerra santa, assim a modos que o contrário de imparcialidade e busca da verdade.

Parece no entanto que a afirmação passou sem grandes comentários ou ondas. No Público, não houve, até ver, desmentidos nem respostas àquele que foi, muito recentemente, seu director por um dia. O Conselho de Redacção do jornal não reagiu nem se ouviram pedidos de apreciação/intervenção por parte da Entidade Reguladora. Deve ser pois pacífico: o Público, cujo director não se coíbe de escrever sobre as "agendas políticas" de outros jornalistas e ministrar pretensas lições de deontologia, faz cruzadas declaradas contra pessoas. E um dos intelectuais mais reputados do regime, o tal que abjura "o jornalismo de causas", aprova. Peço que me perdoem, mas a falta de vergonha às vezes ainda me espanta. Coisas de jornalista.

Fernanda Câncio in DN, 1 Agosto 2008