quinta-feira, julho 31, 2008

desenhando Julho XXXI

Ana Ventura

de amor, 2 poemas separados por alguns kms e 15 dias

suor na minha cara ou então pensamentos que escorrem talvez

uma ou as duas coisas o que quer que seja

acordei assim e não posso culpar ninguém por acordar sozinho ne sequer a empregada

deste café que sorri para mim em cada passo de dança imaginado

imagino demais ou penso demais? sangro demais.

pelos menos isso é certo. incorrecto.

se pudesse controlar o que penso quando fecho os olhos e isto não é um desabafo.

nunca foi.

tanto pior se não entendes para ti. uma espécie de dislexia às vezes coloca uma pedra

no meio do caminho da palavra tropeçar na palavra pode

ferir penso. (um bafo)

fingimos todos pelo menos isso é verdade fingimos os dois e caímos queremos

mais porque quero porque não estás aqui para escrever em mim ou comigo. o nome

deste café interessa-me mais garanto. se eu te disser podes voltar e sorrir para mim?

se são os pensamentos que sangram não há razão para esta folha original e reciclada

estar suja de um líquido vivo que se perde nas palavras ou há?

volto atrás suor para escrever. penso no teu e não devia escrever o teu nome

a minha casa.

escrevo amor sem arrependimento misturado

M. Tiago Paixão

desenhando Julho XXX

Eduardo Recife

de amor, 2 poemas separados por alguns kms e 15 dias

já não há amor

temos sexo hoje e amanhã amanhã

já não. mesmo os teus olhos quando olhas os mendigos não o desmentem

em cartões roubados embrulhados ao lixo ao luxo das nossas

vidas cada vez mais mecânicas como aquela noite quando

já não há amor. e depois

falas-me de liberdade sem saberes o que queres dizer a seguir com isso

nem bem nem mal e repetes

aquilo que te dizem que te mentem quando te mostram aquela única cena

que parece ter um final feliz talvez. na televisão. e digo cena

com plena consciência da cara que fazes quando a lês mesmo depois de teres sido

tu a trazer a liberdade para este poema

e amanhã amanhã.

já não há amor porque não entendes a palavra que escolheste porque não

procuras no dicionário porque ela te fugiria mesmo se a encontrasses lá

e depois depois

já não há o quê?

há sexo sexo e há isso

(não corres o risco e eu dois ou três riscos depois digo-te és o amor da minha vida)

M. Tiago Paixão

desenhando Julho XXIX

Brendan Monroe

terça-feira, julho 29, 2008

Cartaz Cultural

A Sombra do Amor - edições convida:


Sessão de leitura e apresentação dos 50 envelopes de "O Amor"

por M. Tiago Paixão,
Rui Alberto
Hugo Milhanas Machado.

1 de Agosto, pelas 22h na Livraria Trama, Rua São Nery, 25B - 1250-225 Lisboa.

Uma organização Sombra do Amor - Edições, «Biblioteca Máquinas Líricas».

desenhando Julho XXVIII

David Prosser

Uma viagem memorável

1 . A viagem de Barack Obama pelos cenários da guerra do Médio Oriente (Afeganistão, Iraque e Israel) e pela Europa (Alemanha, França, Reino Unido) foi uma volta triunfal digna de um chefe de Estado em exercício. Assim foi vista pelos presidentes e primeiros-ministros que o receberam e por 200 mil entusiásticos apoiantes, em Berlim, onde pronunciou um discurso histórico, dirigido especialmente aos europeus. Fez lembrar o célebre discurso de John Kennedy, nas portas de Brandeburgo, junto do Muro de Berlim, quando disse: "Somos todos berlinenses..."

Obama fez bem em começar a sua viagem pelo Afeganistão, a que chamou, sem rigor, quanto a mim, "guerra certa". Fez bem porquê? Porque é a guerra mais perigosa, cuja retirada é mais complexa, visto ter tido o aval das Nações Unidas (infelizmente, do meu ponto de vista) e ter contado com o envolvimento da NATO, indevidamente, como escrevi, na altura própria, num artigo intitulado "Um precedente perigoso". Tão perigoso que poderá conduzir, se as coisas se complicarem, como receio, ao descrédito e à implosão da própria NATO.

Dali seguiu para o Iraque, a "guerra errada", como disse - e bem. Voltou a falar em 16 meses para a retirada das tropas americanas e a prometer a paz na região. Tarefa difícil.

Obama não tem, como alguns americanos têm sublinhado, grande experiência nas relações internacionais. Mas tem uma visão do mundo de hoje e da América, no contexto global, que o situa nos antípodas da política seguida pelo Presidente Bush. No discurso de Berlim, pediu aos aliados europeus para "ajudar a América" num "mundo multilateral, sujeito a enormes desafios", pretendendo retomar, como disse, a missão pioneira da América, com humildade, reforçando o papel das Nações Unidas, como instância necessária à paz, e as "relações transatlânticas", sem impor nada, mas, pelo contrário, negociando os consensos alargados necessários. Apelou em favor de um mundo "desprovido de armas nucleares", tendo aproveitado as cinco horas que esteve em Paris para fazer uma séria advertência ao Irão. E, finalmente, não se esqueceu de insistir nos problemas ecológicos, na questão das perigosas alterações climáticas e na necessidade de ir além dos Acordos de Quioto, que Washington não subscreveu até agora. Uma aproximação significativa das posições do seu correligionário democrata Al Gore, que pode ter um sentido político, em termos da escolha do seu vice-presidente...

Com alguns acentos religiosos, caros aos americanos médios, Obama citou Franklin D. Roosevelt, falando da necessidade "de combater os demónios imediatos e da promoção do bem definitivo". A desilusão dos europeus em relação à política externa americana actual resulta, segundo ele (cito), "das altas expectativas em relação a nós". O actual Presidente - disse - "ocupou, nos últimos sete anos, a Casa Branca, mas o posto do líder do mundo livre esteve desocupado".

A maneira como Barack Obama foi recebido - e falou - no Médio Oriente e na Europa, nesta sua viagem memorável, não pode deixar de ter impressionado os eleitores americanos.

Revelou ter por toda a parte redes de apoiantes, espontaneamente recrutados, como na América, capazes de criar um movimento altamente dinâmico que não vai parar de crescer até ao dia das eleições e que não deixarão de o condicionar - espero - depois delas.

2.Nelson Mandela celebrou 90 anos, perante os aplausos unânimes do mundo inteiro. Antigo "terrorista" - assim considerado pelos sul-africanos brancos - na luta anti-apartheid, pelo que sofreu 27 anos de prisão, é hoje uma referência ética e ideológica em todas as latitudes. Pela sua vida, pelo seu idealismo, pelas suas profundas convicções humanistas e pelo seu carácter e personalidade. Tive o privilégio de o conhecer pessoalmente. Assisti à sua posse como presidente e visitei-o depois, longamente, nessa qualidade. Sempre o admirei e admiro. Bem como a sua mulher, Graça, uma pessoa superior. Felicito ambos. Fazem falta neste mundo tão conturbado e egoísta.

3.Reuniu-se em Lisboa a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), no final da semana passada, sem que os portugueses dessem muito por isso. A comunicação social, ao referir e comentar o acontecimento, ocupou-se, como de costume, do acessório, deixando escapar o essencial. E o essencial é a importância que tem para Portugal - e para o seu futuro como país membro da União Europeia - uma organização de defesa da língua portuguesa que conta mais de 240 milhões de falantes portugueses espalhados por cinco continentes.

Mas não só pela língua - o que, em si mesmo, é importantíssimo - como instrumento de comunicação, em grande expansão. Mas também por ser uma Comunidade de afectos, e solidariedade - no domínio cultural, político e económico - e de paz, no plano estadual internacional.

Trata-se de uma organização entre Estados soberanos - e, portanto, dos respectivos governos -, mas também, a meu ver, das respectivas sociedades civis, nos planos da cooperação cultural, científica, tecnológica, energética, alimentar, ambiental e da luta contra as grandes pandemias, como a sida, a malária e a tuberculose.

A Cimeira de Lisboa inicia a presidência portuguesa por dois anos, que espero sejam fecundos para o desenvolvimento de um melhor conhecimento entre as populações e no domínio da cooperação entre todos os Estados membros, o que inclui uma protecção especial aos emigrantes que habitam noutros Estados membros, designadamente em Portugal.

À cimeira faltaram, lamentavelmente, os chefes de Estado dos dois maiores Estados membros africanos: Angola e Moçambique. Foi pena, sobretudo quando Angola, que se prepara para realizar eleições em breve - as primeiras, depois de um longo período de guerra - de que, por sinal, a imprensa portuguesa, estranhamente, tem falado muito pouco. E são importantíssimas, se forem livres, como esperam os observadores internacionais e como sublinhou, recentemente, o grande escritor angolano Pepetela.

Na cimeira esteve, felizmente, muito empenhado e activo, em grande destaque, o Brasil (e o seu tão prestigiado Presidente, Lula da Silva): o maior país da CPLP, tanto em potencial demográfico e extensão, como quanto à criatividade das suas elites culturais e científicas e ao seu actual dinamismo económico, como grande potência emergente nos nossos dias. Esperemos que a CPLP, seja, para a presidência portuguesa, uma das grandes prioridades da nossa política externa e siga o exemplo do Brasil, nomeando junto da CPLP um dos seus mais competentes e empenhados embaixadores.

Mário Soares in DN, 29 Julho 2008

desenhando Julho XXVII

Sara Fanelli
A IMAGINAÇÃO É UMA ARMA DE CONSTRUÇÃO MASSIVA!

desenhando Julho XXVI

Ana Juan

Untitled

j’ouvre et je referme la fermeture de mon petit sac de manucure
et elle m’appelle de nouveau
pour me réclamer la lime au manche d’écaille.
jamais je ne la lui donnerai
pas à cause de la lime elle-même
mais à cause de l’histoire sentimentale
de tant de larmes qui sont devenues
de la boue avec la fine poussière de mes ongles
serrant l’écaille, pour éviter une autre larme
et regarder fixement l’ongle limé, pour
ne pas lui montrer que je pleure.
elle sait.
c’est pourquoi elle m’appelle
et la réclame.
elle veut cette lime
elle veut ma lime.
elle veut que je cesse d’en regarder le manche
d’écaille
elle veut que je la regarde elle
mais je ne vais pas la regarder.
cette lime de merde, me dit-elle
cette lime de merde ne vaut rien.
je sais.
je sais.
je ne vais pas lui donner cette lime de merde
à celle qui était mon amie
et qui maintenant m’appelle
en réclamant
cette lime de merde
au manche d’écaille
qui ne vaut même pas un clou
et qui est à moi
parce qu’elle me l’a offerte
parce qu’elle l’a achetée pour moi.
pour mon anniversaire
elle n’imagine pas ce que c’est d’avoir 23 ans !
Maintenant je pars en courant
publier ce poème
dans la revue de mode
pour que toutes mes amies
sachent qu’elle me réclame la lime
d’écaille.

Maria Medrano

sábado, julho 26, 2008

desenhando Julho XXV


Madalena Matoso

on these occasions...

But our particular friends were the rats, that dwelt by the stream. They were long and black. We brought them such tidbits from our ordinary as rinds of cheese, and morsels of gristle, and we brought them also birds’ eggs, and frogs, and fledgelings. Sensible of these attentions, they would come flocking round us at our approach, with every sign of confidence and affection, and glide up our trouserlegs, and hang upon our breasts. And then we would sit down in the midst of them, and give them to eat, out of our hands, of a nice fat frog, or a baby thrush. Or seizing suddenly a plump young rat, resting in our bosom after its repast, we would feed it to its mother, or its father, or its brother, or its sister, or to some less fortunate relative.
It was on these occasions, we agreed, after an exchange of views, that we came nearest to God.


Samuel Beckett in Watt

sexta-feira, julho 25, 2008

desenhando Julho XXIV

Manuela Bacelar

estado away

...tenho andando demasiado ausente com o regresso a Portugal e os reencontros com os amigos, com o final da Saga e a entrega do relatório final da Susana e sobretudo com os primeiros passos da nova empresa Fadas, Duendes e Companhia... Novidades para breve são certas!
Quanto ao ultimo capitulo do diário de bordo confesso que anda guardado num caderno sem forças para ser passado a limpo... ele virá... mas a seu tempo...

desenhando Julho XXIII

Maurice Sendak

RIEN NE M'EST HAISSABLE COMME...

Rien ne m'est haïssable

comme la neige

lorsqu'elle tombe en plein été,

je hais la mort, la visiteuse à l’œil rapace,

et non moins que la mort

ceux qui démoliraient votre demeure

parce qu 'il leur faut une poutre,

ceux qui pour s'emparer de quelques pommes sures

massacreraient tous vos pommiers,

ceux qui célèbrent l'eau commune

en barbotant dans leurs piscines...


Je hais en outre l'obéissance passive,

les masques, les doublures,

et les gibbosités dues aux plafonds trop bas...


Je déteste de même les chaussures

trop étroites qui littéralement

vous tenaillent l'âme autant que les pieds...

Et ce travail qui n'est pas un travail

mais bel et bien un châtiment,

je le hais, ce sale boulot

qui vous torture la cervelle,

ce vaste complot criminel,

cette persécution mentale qui produit

tout bonnement d'insupportables maux de tête...

Je hais l'obscurité, j'exècre

la nuit lorsqu'elle ne donne le jour à rien,

mais la lumière aussi m'est haïssable,

même la plus limpide,

lorsqu'elle ne suscite aucune ombre, aucun signe...

En vérité, que peut dire un manuscrit ? rien,

puisqu'il est fait pour être lu,

non pour être entendu.

Que dire? que faire ?... sinon

plaindre le manuscrit, lui, le proscrit,

non point dépositaire

mais créateur de sens...

le plaindre ou le haïr?

lui qui ne cesse d'exister

dans sa terre natale...


Est-il donc rien dans cette vie

qui ne soit haïssable? ...


Barouïr SEVAK (1924 - 1971)

terça-feira, julho 22, 2008

desenhando Julho XXII

Natascha Rosenberg

"Se podes olhar vê. Se podes ver, repara"



Maestro Jorge Salgueiro e Orquestra Nacional do Porto interpretando um Requiem do mesmo para a peça Ensaio sobre a Cegueira.

segunda-feira, julho 21, 2008

desenhando Julho XXI


Geraldo Valério

Morto cobrido de amor

Pensava que uma das poucas qualidades que tinha era a ausência de inveja. Não é verdade. Invejo os poetas. O que eu queria mesmo, o que mais queria neste mundo, o que mais desejava mas não tenho talento, era ser poeta. Até aos dezanove, vinte anos, só escrevi poemas. Descobri que eram maus, que não era capaz, que me faltava o dom. Foi um achado tremendo para mim, a certeza que a minha vida perdera o sentido. E então, aflito, desesperado, a medo, comecei a tentar outra coisa, porque não me concebia sem uma caneta na mão.

Nunca fiz contos, nem diários, nem teatro, nem ensaios e contar lérias não me interessava. Interessava-me transferir o mundo inteiro para o interior das capas de um livro. E cheio de hesitações, recuos, influências, a certeza que ainda não era aquilo, ainda não era aquilo, dei início a este fadário.

Resignado com a minha ausência de talento para me exprimir em verso. Nos primeiros tempos ainda experimentei, ocasionalmente, redigi uns poemas: eram horríveis. Então conformei-me. O projecto de mudar o mundo através dos meus livros ajudava-me, romper com os cânones, a tradição, o passado, dizer o que nunca havia sido dito. A este sonho me amparo e com este sonho continuo. No entanto a secreta inveja dos poetas permanece. Tento contorná-la ao exigir de mim o impossível: a quadratura do círculo das emoções. Conseguir uma obra que contenha tudo dentro. Tudo dentro. E assim ando. Claro que gostava de ter composto o Branco e Vermelho de Pessanha. A Toada de Portalegre de Régio. As canções de Camões. A Pavorosa Ilusão da Eternidade de Bocage.

Certas estrofes, certos sonetos de Sá Miranda, tanta coisa mais. Mesmo nos

vivos: invejo Vasco Graça Moura, António Franco Alexandre, Pedro Tamen, etc., que a lista é longa e toda a omissão é uma exclusão injusta. João Cabral de Melo Neto, Drummond: o Desaparecimento de Luísa Porto, por exemplo, é uma obra-prima. E eu aqui amarrado em busca do infinito, palavra a palavra, lento como um boi, a emendar, a voltar ao princípio, a emendar de novo, a voltar ao princípio de novo, a lograr uma linha, duas linhas, uma página por fim. Trabalho de oficina, excepto em momentos privilegiados em que a mão anda por si, e o texto encontra, como por milagre, o seu caminho.

No resto do tempo sinto-me como os velhos nas escadas, conquistando duramente cada degrau. Não me estou a queixar: tenho o que escolhi, faço o que quero, não trocava a minha vida por nada deste mundo. No ano passado achei-me de repente diante da minha finitude, num imenso assombro.

Considerava-me imortal; soube, com horrível violência, que o não era. Ter passado o que passei alterou-me por completo a existência e suponho que modificou também o que produzo. Os médicos não tratam: tornam a dar-nos a eternidade sob a forma de um infinito futuro, isto é uma porção limitada de dias que apesar de tudo acreditamos, contra a evidência, não terminar nunca.

Agora tenho essa eternidade. Por quanto tempo não sei; o silêncio rodeia-nos por toda a parte, quer dizer, a ameaça dele. Não podemos deixar que ele nos assuste. Gastei meses a encostar o ouvido à terra do meu corpo, tenso, à espera. Agora não: fico de pé na minha teimosa precariedade. Os exames afirmam que o meu corpo está bom: há alturas em que me apetece despi-lo, vogar sem ele, à deriva no meu lago de emoções, esperanças, desânimo ocasional, amor. Sou muito mais capaz de amar agora. Não. Sou finalmente capaz de amar agora. Não me sinto apenas feito para escrever como um danado, sinto-me feito para amar como um danado, numa doce ferocidade. De engolir o universo. Cristovam Pavia, poeta que estimo imenso e se abraçou a um comboio aos trinta e cinco anos, publicou um único livro de poemas antes desse abraço.

O último verso do livro ficou para sempre na minha cabeça. Diz: Só há saída pelo fundo. De maneira mais ou menos obscura sempre achei isto verdade. Agora faz parte da minha carne: só há saída pelo fundo, realmente, mas há uma saída. E basta-me a certeza disso. Acabarei o livro que escrevo agora, escreverei mais livros. Até me tornar, não sei quando, um morto cobrido de amor, como na morna que o Vitorino me cantou um dia. Eugénio, neste momento lembrei-me de si, do seu repouso no coração do lume. Éramos tão amigos, gaita, teve para comigo tão delicadas atenções enquanto as palmeiras da Foz esbracejavam lá fora. Ou Alexandre O'Neill, a única pessoa que conheci que não gostava de ninguém. Nem de si mesmo, acho eu. Mau como as cobras, a rir um riso torto, devastador. Era uma época em que os escritores me fascinavam porque os olhava como mesas de espíritas, capazes de comunicarem com outra dimensão. Uma espécie de demiurgos, de feiticeiros.

Qualquer bom artista é uma mesa de espírita a receber mensagens do além, o que os torna, em certo sentido, quase irresistíveis: a quantidade de mulheres que sempre rodearam um monstro físico e moral como Sartre; Simenon gabava-se de ter dormido com quinze mil. Faz-me lembrar Billy The Kid afirmando haver morto dezoito homens. Acrescentava Não contando os mexicanos e esse tipo de proezas acabou para mim.

Deixou de interessar-me. Uma única mulher basta: ela é todas. Nem sequer é uma questão de maturidade, é uma questão de não ser parvo. Acabando esta crónica regresso ao livro: ali está ele à minha espera, fazendo negaças. Não tem sorte nenhuma: vou ganhar. Nem que a pele fique pelo caminho vou ganhar.

Mudá-lo-ei dúzias de vezes mas ganho. Só há saída pelo fundo. Eu encontro-a.

De onde me virá esta teimosia, esta firmeza? Não sei. Julgo que fui assim desde o início. As partes gelatinosas que tive vão-se tornando de pedra.

Cheio de ferro por dentro. Acabo de comer a torrada, vou-me embora.

Atravesso a rua para o sítio onde trabalho, pego na caneta, espero. Chamo caneta a uma esferográfica vulgar, qualquer que risque me serve. Terá sido a esferográfica que me riscou a testa com o tempo? Porque não voltas atrás e vês o que ficou escrito nela? Retratos, livros, papéis, eu a começar. O telefone soluça como um bebé e, dentro de mim, o teu nome. Vozes de crianças por trás e tudo de súbito fácil, perfeito. Não sei bem o que digo, não sei bem o que oiço. Limito-mo a afogar-me em ti como no mar.

António Lobo Antunes in Visão, 21 Julho 2008

domingo, julho 20, 2008

desenhando Julho XX


Aldechi Galloni

Nem vale a pena dizer mais nada...

Aos emails da União das Misericórdias Portuguesas (UMP) chegam todas as semanas dezenas de pedidos de ajuda alimentar. Pessoas que evitam revelar o menos possível sobre si próprios e pedem ajuda para atravessar o período difícil que se vive e matar a fome.

Quem o diz é Manuel de Lemos, presidente da UMP, que alerta para este novo padrão de pobreza que foge ao típico retrato dos pobres conhecido em Portugal. "São pessoas com um perfil diferente, que não vivem na miséria, mas estão à beira de entrar na pobreza", explicou ao DN, acrescentando que este é um fenómeno que se veio a sentir desde o início do ano, quando se intensificaram os problemas económicos.

"Não estamos a falar de idosos, dos típicos desempregados, mas de pessoas com menos de 40 ou 45 anos que se calhar não deixam de pagar a netcabo nem desmarcam as férias na agência de viagens mas passam fome", conta Manuel de Lemos, que diz que ao seu próprio email já chegaram dezenas de pedidos de ajuda. Estas solicitações que chegam às instituições são acompanhadas pelos serviços sociais que depois encaminham os casos para as misericórdias locais.

Manuel de Lemos explica ainda que as misericórdias estão a sentir o impacto do aumento do preço dos alimentos e dos combustíveis, e da chamada crise, de duas formas. Por um lado, crescem os pedidos deste tipo e, por outro, o número de pessoas que tomam as suas refeições nas instituições. Idosos que vinham almoçar uma vez por semana e agora aparecem todos os dias, crianças e jovens. "Estas pessoas novas quando chegam para comer, põem-se a um canto, comem rápido e vão-se embora, pois sentem alguma vergonha. A situação é completamente diferente das outras que regularmente ali tomam as suas refeições", adianta Manuel de Lemos.

Recentemente, a responsável pela Federação dos Bancos Alimentares Contra a Fome veio alertar também para o surgimento de uma nova camada de pobres.

Isabel Jonett falou ao DN sobre estas famílias da classe média, algumas habituadas até a um certo nível de vida, e que que viram nos últimos meses à beira de uma situação de pobreza.

Em geral, explicou a responsável pela Federação dos Bancos Alimentares Contra a Fome, são pessoas que viveram durante algum tempo acima das suas possibilidades, se endividaram em grande escala e estão agora aflitas com a subida das taxas de juro, do preço dos combustíveis e do custo dos alimentos.

in DN, 20 Julho 2008

sexta-feira, julho 18, 2008

L sur L

Imagens

A crueza das imagens televisivas dos confrontos no bairro da Quinta da Fonte impele a que confundamos tudo.

Nestes momentos importa não ceder às primeiras impressões (como, por exemplo, a de tentar ligar os acontecimentos à "imigração", numa leitura precipitada e infundada...) e saber distinguir as manifestações exteriores e as causas dos acontecimentos.

Tratou-se de um grave problema de violação da ordem pública. Os seus responsáveis têm de ser identificados e punidos, independentemente da motivação dos confrontos. Quem viola a lei tem de ser responsabilizado.

A violência prende-se com a existência de um tráfico de armas. Há que prosseguir na aplicação da lei de recuperação e apreensão de armas, tendo sido confiscadas cerca de duas mil entre Janeiro e Abril deste ano, mais de 170 das quais na zona de Loures. Isso significa que esta é uma área prioritária de intervenção.

As causas dos confrontos prendem-se com a existência de grupos organizados ligados a formas de delinquência. Pois é então necessário reforçar o policiamento de proximidade para isolar os radicais e delinquentes (sempre uma minoria numa comunidade que na sua esmagadora maioria é respeitadora da lei e quer viver em tranquilidade e segurança) e prevenir estes actos actuando sobre as suas actividades criminosas.

Há questões de índole social que estão na base destes incidentes, sem dúvida. Mas a exclusão social não constitui causa de desculpa da violação da lei.

Tanto mais que a autarquia de Loures tem um vasto trabalho de combate à exclusão social há vários anos e muito especificamente junto das minorias religiosas e étnicas do concelho. Silenciar o mérito deste trabalho só por causa daquelas imagens de violência é acima de tudo uma grande injustiça e um desincentivo ao trabalho daqueles serviços sociais, da câmara e do Estado, que actuam no concelho.

Durante muito tempo pensámos que a sociedade, por si só, cuidaria da integração e do combate a fenómenos de exclusão relacionados com a diversidade étnica e cultural. É esse défice de anos que estamos agora a pagar. Tal como a pouca atenção dispensada a estas dimensões culturais nos planos de realojamento.

A aceitação das diferenças exige pedagogia cívica e mecanismos eficazes de integração social. As reacções racistas e xenófobas não estão indexadas a nenhuma cor de pele em especial. Os conflitos recentes na África do Sul falam, a este propósito, de forma eloquente.

Mas não se pode pedir às polícias que façam aquilo que não compete às polícias. Tem de ser o Estado no seu conjunto e também a sociedade civil, com a colaboração das associações representativas das comunidades em presença, a enfrentar o problema e a encontrar para ele soluções.

A mediação pública é, pois, um factor de apaziguamento das tensões e de incentivo ao diálogo e à concertação. Esse é o exemplo que merecia ser também traduzido em imagens televisivas.

António Vitorino in DN, 18 Julho 2008

reportagem exclusiva

Num esforço único e inarrável na história deste blog foi possível após uma operação de investigação com uma "toupeira" alcançar imagens exclusivas do gabinete da presidência do Manchester United. As imagens que se seguem atingem níveis de violência que podem mesmo afectar os mais sensíveis... pede-se, portanto, redobrada compreensão.



ps: Um grande obrigado ao Alex que esteve incansável nesta investigação.

eu também sou fóssil

NOTÍCIAS VINDAS DO JURÁSSICO
Esta semana, o editorial do Avante! chamou "fóssil" a um cronista do DN que escreveu sobre a libertação de Ingrid Betancourt. Como o cronista só está referido por escrever "aos domingos" e por ser aquele o tema, fóssil posso ser eu ou Alberto Gonçalves. Não interessa muito quem é, mas a ironia: sobre as FARC e Ingrid Betancourt, o Avante! chamou fóssil a alguém. Para o PCP de Miguel Urbano Rodrigues, o bardo das FARC, fóssil é o outro - o cronista domingueiro do DN. Não receando dizer corda em casa de enforcado, o PCP ousou, no seu Avante!, escrever "fóssil." O partido que ainda não sabe que a URSS acabou chamou "fóssil" a alguém. O partido que gaba a Coreia do Norte apontou o dedo: "Fóssil!" Mas talvez não tenha havido intenção de maldizer, para o Avante! ser fóssil é uma segunda natureza. Não sei o que dirá Alberto Gonçalves disto, eu suspiro de alívio. O PCP chamar-me "fóssil"? Com a mesma lógica, mas pior, seria a Scarlett Johansson ter dito que eu tenho umas belas mamas.

Ferreira Fernandes in DN, 17 Julho 2008

desenhando Julho XVIII

Quino

PERMIT ME VOYAGE

Take these who will as may be: I
Am careless now of what they fail:
My heart and mind discharted lie
And surely as the nerved nail
Appoints all quarters on the north
So now it designates him forth
My sovereign God my princely soul
Whereon my flesh is priestly stole:
Whence forth shall my heart and mind
To God through soul entirely bow,
Therein such strong increase to find
In truth as is my fate to know:
Small though that be great God I know
I know in this gigantic day
What God is ruined and I know
How labors with Godhead this day:
How from the porches of our sky
The crested glory is declined:
And hear with what translated cry
The stridden soul is overshined:
And how this world of wildness through
True poets shall walk who herald you:
Of whom God grant me of your grace
To be, that shall preserve this race.
Permit me voyage, Love, into your hands.

James Agee in From the Third Voyage of Hart Crane

desenhando Julho XVII

Carla Pott

desenhando Julho XVI

Anne Herbauts

desenhando Julho XV

Rebecca Dautremer

segunda-feira, julho 14, 2008

Saga - Ópera Extravagante


És tu primavera que eu esperava,
a vida multiplicada e brilhante,
em que é pleno e perfeito cada instante.

Pudesse eu não ter laços nem limites
ó vida de mil faces transbordantes
pra poder responder aos teus convites
suspensos na surpresa dos instantes.

in Saga - Histórias da Terra e do Mar de Sophia de Mello Breyner Andresen
fotografia de Susana Chicó

desenhando Julho XIV

Dirceu Veiga

domingo, julho 13, 2008

desenhando Julho XIII

Célio Braga

desenhando Julho XII


Carson Ellis

à morte

a morte que esteve aqui ao lado
não é a dama negra
que leste em contos, poemas e farsas.
é uma máscara de mil faces
que se esconde nos receios doutros.

a morte que esteve aqui ao lado
sob a forma de um velho cadavérico
insistia em sorrir para mim
e chamar-me
de lá. d'ontem.

a morte que estará aqui ao lado
tem os truques
na manga
dum mágico que não revela os segredos.
um mágico.
que todos queremos ver o seu último truque...
a morte.

sábado, julho 12, 2008

desenhando Julho XI

Susie Ghahremani

desenhando Julho X

Pablo Amargo

Mais um ano

Ele tinha um lugar guardado
no seu canto,
mais intenso e puro,
para aquela pessoa,
que insistia em não fazer tocar o telefone.
Ele tinha ainda um amor,
imenso,
para quem o quisesse de peito aberto.
Porque ele tinha tanto querer,
e uma ausência difícil de viver
e de compreender para todos os outros
que lhe olhavam de soslaio, enquanto
pedia o seu café e se sentava, só, numa mesa
no fundo.
Agora,
o seu amor virara ódio
em cada desilusão, que não o tornara mais forte,
apenas mais igual aos outros.
Aqueles que o magoavam.
Agora,
ele já não contava os dias
que se acumulavam
num ano.
Agora,
ele sorria para muitos, outros,
mas o seu sorriso chorava, forte,
para quem o conhecia.
Agora,
ele estava rodeado de muitos outros, que de sangue,
tinham o vermelho de quem pega em armas
mas
não
tinham
o
vermelho de coração que bate por amor.
E ele sorria... simples e sincero como sempre. Mas só... como sempre.
Até que uma carta perdida na mesa desarrumada de contas, contratos e desenhos abandonos precoces lhe disse simplesmente:
"acredita no vermelho".
E ele sorriu. Sorria sempre. Porque percebeu que o amor existe em todo o lado. Só que às vezes esquecemo-nos.
E ele sorriu. Sorria sempre. Porque tinha amigos. Mesmo que eles por vezes se esquecessem como se escreve amizade.
E ele sorriu. Sorria sempre. Porque ódio nunca seria uma palavra escrita no seu dicionário. Ele não a merecia...

parabéns...
um grande abraço...
Paris, 06 VII 08

desenhando Julho IX


Charlotta Sandberg

regresso...

08/07/08
21h16
pôr do sol
e fecha o ciclo...
triste ou contente?
feliz por ter conseguído algo... mas com uma certeza acima de tudo...
não vivo sem raizes plantadas junto aos rios onde cresci, sob o sol que me alimentou, ao vento que me moldou. e estou...
prestes a chegar...
a fazer mil coisas de novo,
a tentar até ao fim com uma energia reforçada.
um querer, de certezas, um querer, com certeza que basta querer.
o avião já vira,
já vejo Lisboa, entre nuvens, lá em baixo.
está quase...
até já...

terça-feira, julho 08, 2008

desenhando Julho VIII


Marta Torrão

ainda a entrevista de M. Ferreira Leite...

APONTAR NA AGENDA: NÃO DIZER PRO-CRI-A-ÇÃO

Cara Manuela Ferreira Leite, apesar da sua idade e da sua experiência, deixe-me dar-lhe um conselho: nunca - mas nunca - utilize a palavra "procriação". Ninguém, a não ser padres e freiras, pode usar a palavra "procriação" e sair de mansinho de uma conversa, como se não fosse nada. Procriação cheira a incenso. Procriação cheira a naftalina. A rebuçados do dr. Bayard. A Farinha 33. Aos tempos em que só havia a A1 e a A2. Para sua informação, cara Manuela, Portugal já vai na A44. Portanto, ponha um post-it no porta-moedas: "procriação, não." Se de repente estiver no meio de uma entrevista à TVI e começar a pensar "ah, e tal, a procriação" - shut, ponha logo a mão na boca. Procriação, não.

Se começar por arrecadar esta palavra numa prateleira da cabeça onde só chegue de escadote, evitará dizer barbaridades como aquela da família "ter por objectivo a procriação", mais os comentários destrambelhados sobre os homossexuais. O que me assusta em si, cara Manuela Ferreira Leite, é o seguinte. Pegue num rapaz como eu, que já votou em vários partidos, mas que tudo somado terá votado mais vezes no PSD do que nos outros. Este rapaz tem, à partida, boa impressão sua: senhora séria, que demonstrou tenacidade enquanto ministra das Finanças, avessa às alucinações do PSD, enfim, alguém capaz de ficar com o seu voto. Mas depois, a Manuela ou está calada ou começa a falar e diz isto: 1) Que o Estado tem de se preocupar mais com os pobres do que com o TGV, e 2) que os homossexuais não podem procriar, logo não podem ter uma família, logo não podem casar. E é neste ponto que o meu coração começa a bater pum, pum, pum, pum.

É que para um rapaz como eu, que está mais para a direita do que para a esquerda nas políticas mas que é liberal nos costumes, a Manuela Ferreira Leite está a defender o reforço de um estado social e da subsidiodependência, que é coisa de PCP, para depois se mostrar altamente conservadora em matérias individuais, que é coisa de CDS-PP. E assim, de repente, olho para si e vejo-me no pior de dois mundos. Estamos trocados, eu e você. Por um lado, quando se mostra muito preocupada com o estado do país, parece que se lhe poderia aplicar, com o devido twist, a blague de Nani Moretti: "Uma coisa de direita, por favor, diz uma coisa de direita." Por outro, quando fala de família e homossexuais, levo com um uppercut do punho destro que me deixa estendido no tapete.

E é no tapete que me encontro neste momento, a ver "procriações" a rodar à volta da minha cabeça e à espera que alguém me estenda a mão. Este país anda a ficar esquisito. Eu ouço Sócrates, eu vejo-a a si, e, muito francamente, é demasiada confusão ideológica para a minha camioneta. Eu sei que esquerda e direita são categoriais movediças - mas também não vale a pena exagerar. Como costumam dizer os colunistas inteligentes: voltaremos a este assunto.

João Miguel Tavares in DN, 8 Julho 2008

obs: partilho em grande parte esta visão... excepto a parte do voto à direita... mas como Schopenhauer dizia: para ter sempre razão convém saber pegar no que outro diz...só na parte que nos interessa...

segunda-feira, julho 07, 2008

domingo, julho 06, 2008

dificuldades de avançar nos tempos...

... A vida pós-PREC, a "famosa" queda do muro, a impossibilidade de tornar real uma verdadeira experiência comunista, a necessidade adiada de reformar os partidos comunistas num tempo que naturalmente mudou e com ele os seus paradigmas... tudo isto são demasiadas coisas para o Partido comunista encaixar... e isso nota-se...
Nota-se cada vez que tem que tomar uma posição em relação ao contexto internacional. A critica à politica externa dos EUA é constante nos comunistas e sobretudo o facto de optarem sempre por ser "amigos dos que são inimigos dos seus inimigos", mas é impressão minha ou a postura do PCP é a mesma?
Deixemo-nos de perguntas retóricas e assumamos que é óbvio que o partido comunista português sabe bem que as FARC são um grupo para-militar que há muito que esqueceu a sua índole comunista e que ganha dinheiro com o narcotrafico e com o rapto de pessoas.
Deixemo-nos de perguntas retóricas e hipocrisias gritantes... se queremos que o mundo se aperceba dos erros e crimes que Uribe e outros governantes façam não é apoiando terroristas ou soluções violentas... em democracia é nas eleições e na acção de movimentos sociais que se ganha a guerra... por muito difícil que seja de compreender ao PCP.

Ela está com bom aspecto!
Está com bom aspecto, Ingrid Betancourt. Fico contente por a ver assim. Mas há também quem diga: "Está com bom aspecto, Ingrid Betancourt." Não é esta frase igual à minha? De regozijo? Não. É dita exactamente com sentido contrário, em forma de acusação: "Esta gaja, que ainda em Outubro do ano passado parecia uma tuberculosa olheirenta, aparece agora toda lampeira, de olhos brilhantes e até gorda, com duplo queixo…" Sim, há quem diga isso. E há quem responda: "Eh pá, também me dei conta! Isto é muito estranho…" São diálogos da blogosfera.

A blogosfera é o inferno para Jean-Jacques Rousseau: atirou a mentira deste ("os homens são naturalmente bons") definitivamente para o caixote do lixo da História. Pelas formas tradicionais de comunicação - conversas, jornais, moções parlamentares do PCP - os homens aprenderam a não dizer o indizível. Se têm de engolir um sapo - o fim da prisão de Ingrid Betancourt é um sapo para muita gente -, metem uns "mas" no discurso mas engolem-no. Ninguém diz: "Estou chateado com a libertação dessa agente do imperialismo." Só na blogosfera essa sinceridade insana acontece. Enfim, talvez Miguel Urbano Rodrigues seja capaz de dizer o mesmo, mas Miguel Urbano Rodrigues não é exactamente uma forma tradicional de comunicação. É mais uma forma do Paleozóico.

Já a blogosfera é moderníssima. Gosto dela porque nela muita gente escreve bem e também porque me garante: sim, os pulhas existem e até se exibem. A blogosfera acreditou para si uma tal forma de impunidade que chega a ser enternecedor ir lá para ver o que as pessoas dizem. Sobretudo nesse superlativo absoluto simples da blogosfera (onde já não se escreve tão bem mas a sinceridade é ainda mais crua) que são as caixas de comentários dos blogues. Como o anonimato é quase a regra, as pessoas expõem-se até ao mais recôndito bocado de si, sendo este, a mais das vezes, o intestino grosso.

É aí que tenho encontrado "Luísa", em várias caixas de comentários, geralmente a defender a Cuba de Castro e os narcotraficantes das colombianas FARC. Foi ela quem me alertou, agora, para a célebre fotografia de Ingrid Betancourt, de Outubro de 2007, magríssima e olhos desalentados, e a comparou com a esfuziante mulher destes dias. Desde Outubro, sabe-se, houve várias possibilidades de entrega da prisioneira e é natural que a engordassem para as FARC não ficarem muito mal na fotografia (delas, as FARC). Mas "Luísa" prefere sugerir: a prisão de Ingrid Betancourt foi uma farsa e a prova é que ela aparece como quem vem de um spa.

Não vou insultar ninguém lembrando o que Ingrid Betancourt perdeu nestes seis anos - quem quer, sabe. E fico muito agradecido à blogosfera por me lembrar que há gente como "Luísa".

Ferreira Fernandes in DN, 6 Julho 2008

desenhando Julho VI


Eva Armisen

Portugal continua a ser um exemplo

Portugal tem sido nos últimos anos um exemplo na área da imigração para outros países da UE, convém por isso manter os apoios e ajudas à integração dos mesmos a bem da paz social e da diminuição das dissimetrias sociais. E deixemo-nos de hipocrisias... é possível estar na UE, respeitar as suas leis e mesmo assim ter algumas singularidades legislativas que permitam o tal apoio à integração imigrante.

Portugal manterá política "amiga do imigrante" apesar da directiva, assegura Sócrates
O primeiro-ministro, José Sócrates, assegurou hoje que Portugal manterá a sua política de imigração, que se destaca por ser a segunda mais "amiga do imigrante" na União Europeia, apesar da nova "directiva do retorno".

No final da X Cimeira Luso-Marroquina, José Sócrates foi questionado sobre a controversa "directiva do retorno" aprovada em Junho pelo Parlamento Europeu, que entrará em vigor em 2010 e harmonizará ao nível comunitário as regras para o repatriamento de imigrantes ilegais.

José Sócrates referiu que a política de imigração portuguesa "visa a boa integração dos imigrantes, visa combater toda a imigração clandestina, que é um crime contra a humanidade, que é o tráfico de seres humanos, e finalmente visa também ajudar ao desenvolvimento de todos os países de origem".

Por sua vez, o primeiro-ministro marroquino, Abbas El Fassi, que esteve com José Sócrates na conferência de imprensa, comentou a questão afirmando-se contra a imigração clandestina e a favor do retorno dos imigrantes – referindo os casos de marroquinos que vão estudar para países europeus e ficam na Europa. "Marrocos é vítima da imigração clandestina", disse Abbas El Fassi, salientando os milhares de africanos que chegam da África sub-sariana ao seu país e o investimento do governo marroquino em "scanners" e meios marítimos para combater a imigração ilegal.


in Publico, 6 Julho 2008

sábado, julho 05, 2008

pequenas obras em casa

...através do simpático comentário de A. A. Barroso sobre a qualidade do meu blog fiquei a saber que o meu blog é linkado a partir do blog Banco Corrido, estando mesmo ao lado de blogs muito conhecidos como o Abrupto. Atingir este reconhecimento encheu-me o ego, confesso, mas sobretudo obriga-me a melhorar a qualidade deste blog. Nesse sentido comecei a fazer umas pequenas obras em casa de forma a dar-lhe um aspecto ainda mais simpático e user friendly...
Obrigado a todos os que me têm feito tantos elogios! e até já...

desenhando Julho V

Toshiyuki Fukuda

sexta-feira, julho 04, 2008

desenhando Julho IV



Camilla Engman

MEMBRO DA CLASSE POLÍTICA DOMINANTE

O site resistir.info faz propaganda do PCP. Ontem, resistir.info comentava a libertação de Ingrid Betancourt como a de "um membro da classe política dominante." O resistir.info não gostou da libertação de Ingrid Betancourt. E é com todo o direito que o diz - a liberdade de expressão não foi inventada só para a gente de bem. Eu apresentaria Ingrid Betancourt de outra forma: uma democrata. Uma democrata com provas dadas que não devem nada às de nenhum, nenhum, dos 230 deputados portugueses. Cada um destes 230 "membros da classe política dominante" portuguesa, do CDS ao Bloco de Esquerda, deveria perguntar a todos os colegas: "Merece algum de nós passar 2323 dias preso, no mato e acorrentado, só por ser democrata ?" Depois de ler resistir.info suspeito que haja políticos que diriam que sim. Cada deputado português merece saber que colegas pensam assim. Pelo menos para não lhes sorrir da próxima vez que beberem um bica na cafetaria do parlamento.

Ferreira Fernandes in DN, 5 Julho 2008

quarta-feira, julho 02, 2008

desenhando Julho III

Chiara Carrer

16 valores

Na minha opinião a entrevista ao primeiro-ministro desta noite na RTP mereceu nota 16 pela qualidade das perguntas e dos entrevistadores e pela forma clara como Sócrates respondeu sempre. Mostrando-se bem preparado, documentado e prevendo as principais perguntas que lhe seriam colocadas o primeiro-ministro terá marcado pontos em comparação com a entrevista de Manuela Ferreira Leite. E agora, que nota dará o supra sumo das classificações nacionais no próximo domingo?

Livre!


Ingrid Betancourt, aqui em foto da bbc, foi libertada hoje...

Manias no teatro...

1. mania de que é preciso gostar do texto que se encena.
2. mania de que a encenação é a arte da coerência.
3. mania de que o palco é um lugar assim chamado.
4. mania de que se a marcação existe é para se ver.
5. mania de que não há razão nenhuma para que o corpo dos actores e os cenários não sejam mentirosos.
6. mania das coisas praticáveis.
7. mania das coisas significativas.

Luís Miguel Cintra in Anfitrião de António José da Silva pelo Grupo de Teatro da Faculdade de Letras, Março de 1969

obs: roubado do blog Fábrica Sombria

Bloco Central

O potencial Bloco Central lido noutros blogs... neste caso por Pedro Sales no Zero de conduta.

à direita...
A United Airlines anunciou o despedimento de 950 pilotos, dizendo que tem que reduzir a frota devido ao aumento dos combustíveis. A TAP pondera suspender várias ligações aéreas pelos mesmos motivos. Perante o aumento dos combustíveis, que tudo indica ter vindo para ficar, quais são os investimentos públicos em novas infra-estruturas que preocupam o PSD? O aeroporto? As auto-estradas? Nada disso. A ligação ferroviária à rede europeia de alta velocidade. Pois...

e à esquerda...
As inabaláveis convicções do sr. ministroEm mais uma lamentável intervenção, o ministro da Agricultura acusou as confederações de agricultores de terem ligações politicas à “extrema-esquerda e à direita mais conservadora, que pensam que os problemas se resolvem com mais subsídios”. Estas declarações tiveram lugar à entrada para o Conselho de Ministros da Agricultura. Terminada a reunião, o ministro voltou a falar aos jornalistas para anunciar uma linha de apoio de 40 milhões de euros aos pescadores.

desenhando Julho II


Matthieu Maudet

Os milagres pagam-se

Em Novembro, o País soube que Ana Maria, de 44 anos, tinha uma cervicalgia degenerativa. Não sei bem o que é mas pareceu- -me grave na foto. Sim, Ana Maria teve foto nacional: com colar cervical e cinta lombar. Pois apesar disso, a Caixa Geral de Aposentações obrigou- -a a voltar ao trabalho - ela era funcionária de uma Junta de Freguesia, em Ponte de Lima - onde não ia há três anos. Uma daquelas histórias que nos fazem abanar a cabeça: só neste País! Agora, ficámos a saber que esta história era ainda mais deste País do que temíamos. Tendo de passar por uma junta médica, que devia pôr a coisa a limpo, Ana Maria foi antes ao Bom Jesus, em Braga. E aí sentiu um daqueles formigueiros que precedem os milagres. É, ficou boa. A Junta de Freguesia deveria convidar Ana Maria a devolver, em dobro, os três anos de salário que recebeu sem trabalhar. Não para repor a justiça, isso temo que Ana Maria não compreenda. Mas, em linguagem que ela entenderia, para pagar uma promessa.

Ferreira Fernandes in DN, 2 Julho 2008

terça-feira, julho 01, 2008