quarta-feira, abril 30, 2008

não é o que se ganha é o que se produz...

Portugal vai ser ultrapassado pela Estónia e pela Eslováquia no próximo ano em riqueza produzida por habitante.

É uma história triste que, desde 2005 – quando fomos ultrapassados pela Grécia – se tornou demasiado repetitiva para surpreender.

Isto foi em tempos recentes, em que o défice já tomara o primeiro plano como palavra de ordem. E é melhor nem pensar nos idos de finais de 80 em que, absolutamente no nosso campeonato, estavam tanto os irlandeses como os espanhóis. De resto, ainda nos não tão longínquos anos 90, Portugal inchava de orgulho em quase todas as comparações com Espanha. Cà, sublinhavam-se as taxas de crescimento da economia e a convergência inédita com os vizinhos mais ricos da Europa desenvolvida. Portugal estava na moda, um caso de sucesso a todos os níveis, um dos mais brilhantes alunos nas lições de Bruxelas. Espanha agonizava com taxas de desemprego de 20%. O brilhante sorriso de superioridade que exibiamos na altura ofuscava a leitura mais séria da realidade: Portugal olhava para o manancial de subsídios mais preocupado com a execução das verbas do que com a sua valorização. O objectivo era gastar, mais do que aproveitar. Em Espanha, a dor dos desempregados mostrava uma economia em profunda mudança e modernização.

Os países que um a um nos vão hoje ultrapassando atravessaram igualmente mudanças dolorosas. Desmantelaram os regimes económicos centralizados em que viveram durante décadas. Avançaram de peito feito para reformas radicais de mercado. Revolucionaram os sistemas fiscais. Abriram-se sem preconceitos.

Portugal, mais de vinte anos depois da entrada no clube europeu, continua a tapar com pensos rápidos as erupções cutâneas que lhe vão rasgando a pele, sintomas de um organismo em lenta e dolorosa decomposição. Sem imaginação para uma terapia de choque que cure a doença.

Por isso, mais do que a descida, degrau a degrau, para o fundo das escadas da pobreza, o que verdadeiramente dói é a preocupação dos responsáveis políticos em tentarem ver raios de sol inexistentes num céu onde só existem nuvens carregadas.

Hoje precisamos de vasculhar as tabelas do Eurostat em busca de países que não envergonhem o nosso PIB por habitante – de 66% da média Europeia. Mas já não sorrimos quando em pior posição que nós apenas encontramos países como a Bulgária ou a Roménia. A Grécia vai quase nos 90%, a Espanha nos 93%. Os irlandeses, esses produzem hoje 30% mais riqueza que o europeu médio, fazendo subir a fasquia e sendo, assim, um dos principais responsáveis pelo nosso empobrecimento relativo.

Sem poder esperar grandes rasgos dos seus estadistas nem inspiração do seu sector privado na quimera da convergência com a Europa, resta a Portugal pouco mais do que esperar que parceiros mais pobres do que nós façam baixar a riqueza média dos outros.

in Pedro Marques Pereira, editorial do "Diário Económico, 29 de IV de 2008

sexta-feira, abril 25, 2008

pomba de abril

vozes de abril

25 Abril por outros

LEMBREM-SE COMO FOI
Às vezes apetece-me agarrar em certas pessoas e levá-las numa viagem no tempo. Há filmes para isso, e até séries de TV - do Conta-me como Foi aos domingos na RTP1 à Guerra, o espantoso documento de Joaquim Furtado sobre a guerra colonial que está de novo a ser transmitido pela RTP2. Mas sei que não funcionam. Nem funcionaria, sequer, uma viagem aos anos pré-1974. Se nem a memória funciona para quem os experimentou, como esperar que alguma coisa funcione?

Quando oiço ou leio elogios a Salazar e ao "outro tempo" a gente que tem idade para se lembrar, fico estupefacta. Nunca deixa de me espantar que se considere que "se vivia melhor" ou "havia mais segurança". É que não é uma questão subjectiva: não me venham com questões subjectivas. Nada há mais objectivo que os indicadores do Instituto Nacional de Estatística, e a forma como nos últimos 34 anos as provas do bem-estar dos portugueses aumentaram de modo quase milagroso. A mortalidade infantil e materna, por exemplo: passámos de um índice de país do Terceiro Mundo para um dos mais honrosos da UE. A esperança de vida. A electricidade, a água canalizada, as casas de banho dentro das casas. A quantidade de jovens que conseguem aceder ao ensino superior. Quem acha que isso não tem nada a ver com a democracia e que era inevitável deve questionar- -se, por exemplo, sobre o motivo pelo qual em quase todos os países totalitários, independentemente da sua riqueza, a maioria das pessoas vive tão mal.

Porque antes da democracia a esmagadora maioria dos portugueses vivia mal. Havia miséria como não há, nem por sombras, hoje. Havia pobreza como não há, nem por sombras, hoje. Há gente a viver mal hoje, idosos com reformas miseráveis. Mas antes da democracia não havia sequer reforma garantida para todos - lembram-se? E podia não haver carjacking - não havia sequer carros que chegassem para isso - mas havia tropa obrigatória, lembram-se? E minas nas picadas, e emboscadas na selva. Quantos portugueses morreram, obrigados, na guerra? Quantos voltaram deficientes? Quantos tiveram de fugir para não serem enviados para África? Quantos fugiam, "a salto", para tentar uma vida melhor no estrangeiro? Quantos morriam de medo de dizer alguma coisa errada que os levasse a serem considerados anti-regime, a perder o emprego, a serem presos? Era seguro, ser português? Era seguro, viver numa ditadura?

Há, claro, sonhos que se perderam e traíram. Não somos todos felizes - mas só nos cartazes das ditaduras toda a gente sorri. Os amanhãs cantaram, mas desafinados para muitos ouvidos. Desafinam ainda, e ainda bem - porque agora depende tudo de nós, e cada voz canta diferente. Sobretudo, não me digam que "há medo de falar" nem usem a palavra "fascismo" a torto e a direito. Porque é ridículo, demasiado ridículo, mas porque, sobretudo, é um insulto a todos os que realmente souberam o que era ter medo e viver num regime totalitário, todos os que no "dia inicial, inteiro e limpo" de Sophia se sentiram, enfim, inteiramente inteiros.

Fernanda Câncio, DN, 25 IV 2008

quinta-feira, abril 24, 2008

Há um ano... assim ia o Comunismo em Portugal...

Triste e vergonhoso o fado de um partido que se preocupa mais com purgas a ex-militantes do que em condenar situações de atentados a direitos humanos noutros países. Por muito que lhes custe não há grande diferença entre as condicionantes da politica externa dos EUA e a tomada de posição oficial do PCP.

JS diz que PCP vetou "Gato" por ele ter saído do partido


"Parece que o único defeito do Ricardo Araújo Pereira foi ter cometido o pecado original: ter abandonado o PCP." As palavras são do líder da Juventude Socialista (JS) - Pedro Nuno Santos acusa a Juventude Comunista Portuguesa (JCP) de ter vetado o nome de Ricardo Araújo Pereira para uma intervenção nas comemorações do 25 de Abril. É a reacção do dirigente aos argumentos do PCP invocados no direito de resposta a uma notícia publicada no DN, dando conta do conflito em torno do nome do humorista, na preparação das comemorações do 33º aniversário do 25 de Abril.

Num texto publicado no blogue Ladrões de Bicicletas (www.ladroesdebicicletas.blogspot.com), Pedro Nuno Santos contraria a versão do PCP, que diz não ter vetado Ricardo Araújo Pereira. "Esta conclusão é no mínimo espantosa. Só deixo uma pergunta: Se não foi o PCP quem foi?", questiona o dirigente. Que diz ser "falso" que a sugestão do nome do humorista (proposta pela JS e secundada pelo representante dos Jovens do BE) tenha sido avançada num momento posterior a um "suposto consenso" em torno de Pedro Frias - um jovem sindicalista, cujo nome foi avançado pela JCP e duas outras organizações próximas da Juventude Comunista. "Foi precisamente na primeira reunião entre organizações juvenis, em que estavam presentes apenas três (JS, JCP e ECOLOjovem), que a JS demonstrou o seu desacordo face à proposta da JCP e defendeu o nome de Ricardo Araújo Pereira", sustenta Pedro Nuno Santos, contrariando assim a versão do PCP.

Sublinhando que será a primeira vez que as comemorações da Revolução dos Cravos não vão contar com a intervenção de um jovem, o deputado socialista deixa críticas à JCP. "Que fique claro que se houve sempre consenso no passado foi porque a JS aceitou sempre o nome proposto pela JCP. Desta vez achávamos razoável que fosse ao contrário", refere, antes de acrescentar que "as comemorações do 25 de Abril não são propriedade do PCP ou da JCP".

Pedro Nuno Santos justifica ainda a proposta do nome de Ricardo Araújo Pereira pelo mediatismo do humorista dos Gato Fedorento : era "uma boa forma de levar o 25 de Abril aos jovens portugueses". O DN tentou ontem contactar Pedro Nuno Santos, mas tal não foi possível.

Face à falta de acordo, o tradicional "comício" do 25 de Abril, que encerra o desfile entre o Marquês de Pombal e o Rossio, em Lisboa, contará apenas com uma intervenção - a cargo do coronel Rosado da Luz, capitão de Abril.
in DN, 22 IV 2007

... só Lisboa...

Stuff of Life – The film the CIA doesn’t want you to see

A uma forte e importante mensagem politica junta-se uma cuidada atenção à forma e aspecto visual deste pequeno filme. Obrigatório ver e tomar uma posição...



A Amnistia Internacional lançou um anúncio contra a tortura da água, uma técnica usada pela CIA nos interrogatórios aos prisioneiros em Guantánamo. O anúncio, criado pela agência Drugstore, vai passar nas salas de cinema a partir de 9 de Maio, mas foi esta semana divulgado na Internet. O vídeo tem como título Stuff of Life – The film the CIA doesn’t want you to see. Esta campanha surge na sequência do lançamento do livro Torture Team, que a organização diz revelar muito do que se passa nos interrogatórios das autoridades norte-americanas em sítios como Guantánamo.

in Publico 23 IV 2008

quarta-feira, abril 23, 2008

A espiral do pesadelo...

Parece impossível mas o PSD prossegue a sua espiral descendente...

Santana - Menezes - Jardim

Porque será que o principal partido da oposição insiste em descredibilizar-se... se são mais do que necessárias as candidaturas de Ferreira Leite e Passos Coelho todas as outras são simplesmente suicidas... e claro o PS agradece.

Ars Poetica

A poem should be palpable and mute
As a globed fruit,

Dumb
As old medallions to the thumb,

Silent as the sleeve-worn stone
Of casement ledges where the moss has grown—

A poem should be wordless
As the flight of birds.

                *

A poem should be motionless in time
As the moon climbs,

Leaving, as the moon releases
Twig by twig the night-entangled trees,

Leaving, as the moon behind the winter leaves,
Memory by memory the mind—

A poem should be motionless in time
As the moon climbs.

                 *

A poem should be equal to:
Not true.

For all the history of grief
An empty doorway and a maple leaf.

For love
The leaning grasses and two lights above the sea—

A poem should not mean
But be.


Archibald MacLeish (1892-1982)

CULTURA POPULAR - APROXIMAÇÕES TÉORICAS

“O que é Cultura?” e “O que é Popular?” são dúvidas fundamentais e aspectos basilares na discussão da História e das Sociedades. A diversidade de correntes historiográficas deve-se, em grande parte, à percepção diferenciada dos seus autores sobre estes conceitos.
Os anos 60 e 70 do século XX trouxeram novas formas de abordar a história, evitando a estagnação temática dos seus investigadores, e anulando uma certa apatia historiográfica resultado do enorme peso da história nas ciências sociais, que se tornara contraproducente.
Como Roger Chartier[1] afirma na sua obra, ocorreu neste período uma descoberta de novos temas e uma valorização das mentalidades. Partindo, por vezes, de pressupostos económicos Chartier propõem uma eficaz inter-relação das diversas ciências sociais, como a Sociologia na compreensão dos fenómenos históricos. Apesar da sua visão tender para a massificação e homogenização de grupos sociais heterogéneos, os seus estudos trouxeram um maior rigor cientifico à área em contraponto com o empirismo e bairrismo de certos contemporâneos.
O facto de Chartier versar uma homogeniedade dos grupos sociais é claramente refutado por Peter Burke[2] e Edward Thompson[3]. Ambos realçam, inversamente, a heterogeniedade da classe plebeia e a importância da relação entre populares e elites. Burke realça, aliás, a importância de comportamentos e fenómenos populares adversos à cultura oficial, e não à das elites. O Carnaval surge como paradigma da inversão e negação da cultura oficial num propósito destruturante da sociedade. Realce-se, contudo, a noção popular da brevidade temporal desta festa e das suas críticas, enquanto conservadorismo das mentalidades populares. A resposta das elites a este ligeiro ataque foi, contudo, sempre evidente e é notória na Reforma, que fortalece a cultura oficial.
Um dos momentos que Thompson foca como imagem do conservadorismo plebeu é a reacção negativa destes à revolução industrial e à abertura de novos mercados. A alteração da sociedades nos seus diversos campos foi enorme neste período, podendo-se considerar nesta fase o embrião das lutas de classes e do sentimento de classe. Contudo, a maior alteração sentida na classe popular ocorre com a “criação” de necessidades e expectativas destes nas relações sociais a partir deste período.
Se tentarmos fazer uma resenha dos historiadores da Cultura Popular dois nomes surgem logo de ínicio pela sua precocidade, Jacob Burkhardt e Johan Huizinga. O primeiro estudioso do Renascimento, o segundo da Idade Média. Contudo, os seus trabalhos são hoje alvo de crítica porque generalizavam acções, e cingiam-se à descrição de padrões culturais, numa espécie de puzzle de literatura, música e outras vertentes artísticas. O período temporal, a variação regional e os contrastes sociais eram esquecidos no estudo destes historiadores, dando por isso um retrato paupérrimo da real sociedade estudada.
No período entre guerras, uma série de modelos de estudo com diverentes enfoques foram propostos, destacando-se:
  1. Modelo marxista – com um primado da economia na acção humana
  2. História das mentalidades – onde o psicológico e a absorção de informação do índividuo tem especial importância na sua acção.
  3. História das ideias – primado de pré-concepções na acção humana
  4. Tradição
  5. Processo civilizacional – modelo próximo do funcionalismo, onde há uma acção natural de evolução da sociedade com fins funcionalistas.
Com o final da II Guerra Mundial, outros modelos tiveram origem:
  1. Descoberta da cultura popular – E. Thompson é, talvez, o expoente desta visão estruturalista, onde a cultura ultrapassa as atitudes directas do povo, e onde os métodos quantitativos servem de principal ferramenta no estudo de outros fenómenos paralelos. Este modelo caracteriza-se ainda por visão de baixo para cima da acção social.
  2. Descoberta da antropologia – A aproximação das diversas ciências sociais resultou igualmente numa apropriação de certos conceitos antropológicos, como o rito, o símbolo, a comunicação. Criaram-se assim normas culturais que facilitaram alguns estudos hiostoriográficos.
  3. Descoberta da linguagem – Para Burke a linguagem expressa em obras literárias facilita a compreensão de um período. A simbologia inerente á escrita é de mor importância. Chartier aborda igualmente a leitura, enquanto objecto de estudo. De acordo com o historiador francês a razão da leitura e de que forma afecta o indíviduo, são questões extraordinariemente pertinentes. M. Foucault considera, igualmente, que ler é apropriar os discursos de outros, o que valida a opção de estudos sobre este tema.
  4. Descoberta da política – Gramsci cria um conceito fulcral neste modelo historiográfico, a hegemonia cultural. O primado da política é claro, sobretudo na década de 60 onde surge a cultura politica. A contaminação da história é fácil, e é até compreensível este modelo. Vectores como linguagem, senso-comum, religião, foclore, trabalho, e status quo são considerados por Gramsci os pilares da consciencialização social dos índividuos o que se repercute na sua acção e na politização desta. Contudo, como Burke realça há ainda aspectos pouco claros como: Esta hegemonia cultural é transversal ou localizada? É um termo descritivo, ou explicativo? Será um modelo próximo do funcionalismo? Ocorrem manifestações de resposta? Estas questões são realmente lógicas e necessitam de resposta para legitimar este modelo.
Todos estes modelos diferentes de pensar a história cultural reflectem bem a evolução do estudo desta e as suas dificuldades. Torna-se impossivel fazer uma aproximação téorica à cultura popular, sem esquecer alguns conceitos e ideias fundamentais e de extraordinária discussão.
Para P. Burke conceitos como bi-cultural e convergência de culturas são fundamentais, na compreensão da intíma ligação entre elites e povo. A ascenção social inerente ao primeiro conceito, e a coexistência dos dois estratos sociais nas feiras parisienses do século XVIII, do segundo termo explicam grande parte da simbiose dos dois grupos.
William Christian ao defender uma cultura popular local desconstroi, também, a dicotomia elite-povo, optando pela substituição pela antítese centro-periferia, e pela valorização dos fenómenos culturais autónomos aos centros de poder.
O trabalho de E. Thompson segue, ligeiramente, o mesmo trilho ao ponderar a importância dos costumes e hábitos nas criações culturais. Perante o investimento das elites na literacia foi claro o fortelecimento da oralidade nas classes populares, afastadas que estavam da opção escrita de perpetuação da memória. Os séculos XVIII e XIX trouxeram, talvez como resultado dessa situação, a legalização de costumes e prácticas populares. Foi dado um enquadramento legal a hábitos com um próposito de solidificar as hierarquias sociais. Ao encontro desta opinião vai Peter Burke, ao apontar a importância dos artefactos e da sua simbologia na cultura enquanto fenómenos conservadores da própria classe plebeia. O símbolo existe apenas aquando duma consciencialização enquanto signo, e através duma linguagem e convenções partilhadas pelos interlocutores.
As teorias da Cultura Popular são um tema tão interessante e vasto quanto os seus próprios objectos de estudo. O que este trabalho procura confirmar é a importância de ambiguidade de certos conceitos como cultura, popular, ou costumes na diversidade de estudos e dos primados das historiografias. O futuro da história da Cultura Popular passa para Peter Burke por dois caminhos, ou a sua institucionalização enquanto micro-história, ou por um alargamento do simbólico na acção humana até à sua transformação em cultura.
Pessoalmente, acredito como António Machado referiu uma vez:
O caminho faz-se caminhando.
E que a diversidade de visões e de conceitos sobre os aspectos fundamentais da Cultura Popular tem ainda muitos estudos por concretizar, até ser possivel uma conclusão definitiva, ou não fosse uma ciência social, uma ciência não exacta.

Bibliografia

BURKE, Peter, Cultura Popular na Idade Média, Companhia de Letras, São Paulo, 1989
BURKE, Peter, O mundo como teatro, estudos de antropologia histórica, Lisboa, Difel, 1992
CHARTIER, Roger, A história cultural entre prácticas e representações, Lisboa, Difel, 1988
THOMPSON, E. P., Costumes em Comum, São Paulo, Companhia das Letras, 1998


[1] CHARTIER, Roger, História Cultural entre prácticas e representações
[2] BURKE, Peter, Cultura Popular na Idade Média
[3] THOMPSON, Edward, Costumes em comum

terça-feira, abril 22, 2008

o duro caminho para o paraiso?

Um padre desapareceu no Estado brasileiro de Paraná, ao início da tarde de domingo passado, depois ter iniciado um voo suspenso em balões de gás coloridos.
Adelir António de Carli, de 41 anos, partiu nesta aventura, cerca das 13h00, após a celebração de uma missa especial. Descolou da cidade de Paranaguá para cumprir o objectivo de permanecer 20 horas consecutivas no ar.
O mau tempo que se fazia sentir acabaria, contudo, por arrastá-lo em direcção ao mar de Santa Catarina, onde chegou a ficar a mais de 50 quilómetros de distância da costa.
A meio da tarde, Adelir efectuou um pedido de ajuda às autoridades portuárias através de um telemóvel via satélite. Queria que o auxiliassem na utilização correcta do GPS, que transportava, a fim de conseguir fornecer as coordenadas exactas da sua localização para terra.
O último contacto aconteceu pouco antes das 21h00. Após oito horas sem dar sinal foram, então, desencadeadas buscas aéreas e marítimas. Com o auxílio de pescadores, prossegue a procura no local onde Adelir terá efectuado o último contacto, enquanto fiéis rezam na igreja no Paraná. Entretanto, as autoridades já localizaram alguns pedaços de balões nas praias de Santa Catarina.
Esta não foi a primeira viagem do padre. A última deslocação aconteceu a 13 de Janeiro deste ano, com partida do Paraná para a Argentina. Carli levantou voo na cidade de Ampére para quatro horas depois aterrar em Santo António, na Argentina, num percurso de cerca de cem quilómetros. Para efectuar a descida, o padre foi furando uma parte dos balões com o auxílio de uma lâmina.
Os voos do padre, que utiliza roupa térmica, capacete e um pára-quedas, destinam-se a promover acções da Pastoral Rodoviária do Paraná, que celebra missas nas estradas aos motoristas.
in Expresso, 22 IV 2008

“A quantidade é inimiga da qualidade”

1. Domingo, Antena 2, em directo do CCB (ouvida no rádio do carro). Questionada no final do seu espectáculo sobre o que achava dos Dias da Música, Olga Prats nada mais teve para dizer senão que não gostava de formato tão compacto, com pessoas a correr de um espectáculo para outro. E rematou: para mim “a quantidade é inimiga da qualidade”. Nos dias de hoje não conheço frases muito mais reaccionárias. E então usada no contexto dos Dias da Música…
Felizmente que Haydn não pôde escutar a proclamação das olgas deste mundo e, “displicentemente”, compôs 106 sinfonias, 68 quartetos de cordas, 45 trios com piano, 62 sonatas para piano e um sem número mais de obras de câmara, vocais, sacras e profanas (sem contar com mais de 400 arranjos para canções escocesas). Mozart e Schubert infelizmente morreram cedo, mas a sua “displicência” não era menor: o primeiro compôs centenas de obras de todo o tipo, entre as quais 41 sinfonias e 23 quartetos de cordas; Schubert é sobretudo conhecido e apreciado pelas mais de 700 canções que compôs em 18 anos.
Facilitistas, no fundo.

2. A frase é, sobretudo, apreciada e usada pelos defensores dos fechamentos corporativos. Não há corporação que não esteja disposta a subscrevê-la na primeira oportunidade. “A quantidade é inimiga da qualidade”: por isso, diz-se, por exemplo, que há em Portugal licenciados a mais ou até, já o ouvi pessoalmente, doutorados a mais. Dito sobretudo por quem já é licenciado ou doutorado. Nos Dias da Música haverá gente a mais, pois esse é o corolário lógico de haver espectáculos a mais.
Mais do que simples lugar-comum reaccionário, a frase remete para todo um programa ideológico elitista, nos mais variados domínios (mas em especial na educação e nas artes).

3. O estranho é ver, com demasiada frequência, o programa usado à esquerda. Em parte, por razões de “oportunidade” política. Quando a sua influência recua, há quem vá a todas, isto é, quem cavalgue todos os protestos para conter a tendência para a erosão. Ainda acabaremos, assim, por ouvir trautear um qualquer refrão do tipo “não há corporação que não faça o encanto do PC”.
Para legitimar esta queda no corporativismo, PC e companheiros de luta constroem das mais falaciosas linhas de argumentação que conheço. Uma das minhas preferidas é que associa quantidade a mercado, esquecendo: (1) que o fechamento ao mercado, e portanto à concorrência, não é conhecido por incentivar necessariamente a qualidade; (2) que o mercado tanto massifica como elitiza, pois no concreto não há mercado mas mercados, por exemplo de produtos e serviços de massas ou de produtos e serviços de luxo. No mercado, o que está em jogo não é a escolha entre quantidade e qualidade mas o desigual acesso à qualidade (e, já agora, também à quantidade). Desigualdade que, curiosamente, acaba também por acontecer quando por fechamento corporativo se desiste de promover a massificação com qualidade (a não confundir com excelência) e se troca uma pela outra.
Ainda que a pretexto da resistência ao mercado.

Rui Pena Pires in o Canhoto

segunda-feira, abril 21, 2008

Der Himmel über Berlin



recordação de uma das minhas mais importantes referências cinematográficas...

domingo, abril 20, 2008

...uma manhã qualquer no Porto...

En fin de compte, tout dépend de notre pouvoir d'hallucination volontaire.

André Breton

sábado, abril 19, 2008

Auto da Paixão

Le Bateau ivre

Comme je descendais des Fleuves impassibles,
Je ne me sentis plus guidé par les haleurs :
Des Peaux-Rouges criards les avaient pris pour cibles
Les ayant cloués nus aux poteaux de couleurs.

J'étais insoucieux de tous les équipages,
Porteur de blés flamands ou de cotons anglais.
Quand avec mes haleurs ont fini ces tapages
Les Fleuves m'ont laissé descendre où je voulais.

Dans les clapotements furieux des marées
Moi l'autre hiver plus sourd que les cerveaux d'enfants,
Je courus ! Et les Péninsules démarrées
N'ont pas subi tohu-bohus plus triomphants.

La tempête a béni mes éveils maritimes.
Plus léger qu'un bouchon j'ai dansé sur les flots
Qu'on appelle rouleurs éternels de victimes,
Dix nuits, sans regretter l'oeil niais des falots !

Plus douce qu'aux enfants la chair des pommes sures,
L'eau verte pénétra ma coque de sapin
Et des taches de vins bleus et des vomissures
Me lava, dispersant gouvernail et grappin

Et dès lors, je me suis baigné dans le Poème
De la Mer, infusé d'astres, et lactescent,
Dévorant les azurs verts ; où, flottaison blême
Et ravie, un noyé pensif parfois descend ;

Où, teignant tout à coup les bleuités, délires
Et rythmes lents sous les rutilements du jour,
Plus fortes que l'alcool, plus vastes que nos lyres,
Fermentent les rousseurs amères de l'amour !

Je sais les cieux crevant en éclairs, et les trombes
Et les ressacs et les courants : Je sais le soir,
L'aube exaltée ainsi qu'un peuple de colombes,
Et j'ai vu quelque fois ce que l'homme a cru voir !

J'ai vu le soleil bas, taché d'horreurs mystiques,
Illuminant de longs figements violets,
Pareils à des acteurs de drames très-antiques
Les flots roulant au loin leurs frissons de volets !

J'ai rêvé la nuit verte aux neiges éblouies,
Baiser montant aux yeux des mers avec lenteurs,
La circulation des sèves inouïes,
Et l'éveil jaune et bleu des phosphores chanteurs !

J'ai suivi, des mois pleins, pareille aux vacheries
Hystériques, la houle à l'assaut des récifs,
Sans songer que les pieds lumineux des Maries
Pussent forcer le mufle aux Océans poussifs !

J'ai heurté, savez-vous, d'incroyables Florides
Mêlant aux fleurs des yeux de panthères à peaux
D'hommes ! Des arcs-en-ciel tendus comme des brides
Sous l'horizon des mers, à de glauques troupeaux !

J'ai vu fermenter les marais énormes, nasses
Où pourrit dans les joncs tout un Léviathan !
Des écroulement d'eau au milieu des bonaces,
Et les lointains vers les gouffres cataractant !

Glaciers, soleils d'argent, flots nacreux, cieux de braises !
Échouages hideux au fond des golfes bruns
Où les serpents géants dévorés de punaises
Choient, des arbres tordus, avec de noirs parfums !

J'aurais voulu montrer aux enfants ces dorades
Du flot bleu, ces poissons d'or, ces poissons chantants.
- Des écumes de fleurs ont bercé mes dérades
Et d'ineffables vents m'ont ailé par instants.

Parfois, martyr lassé des pôles et des zones,
La mer dont le sanglot faisait mon roulis doux
Montait vers moi ses fleurs d'ombres aux ventouses jaunes
Et je restais, ainsi qu'une femme à genoux...

Presque île, balottant sur mes bords les querelles
Et les fientes d'oiseaux clabaudeurs aux yeux blonds
Et je voguais, lorsqu'à travers mes liens frêles
Des noyés descendaient dormir, à reculons !

Or moi, bateau perdu sous les cheveux des anses,
Jeté par l'ouragan dans l'éther sans oiseau,
Moi dont les Monitors et les voiliers des Hanses
N'auraient pas repêché la carcasse ivre d'eau ;

Libre, fumant, monté de brumes violettes,
Moi qui trouais le ciel rougeoyant comme un mur
Qui porte, confiture exquise aux bons poètes,
Des lichens de soleil et des morves d'azur,

Qui courais, taché de lunules électriques,
Planche folle, escorté des hippocampes noirs,
Quand les juillets faisaient crouler à coups de triques
Les cieux ultramarins aux ardents entonnoirs ;

Moi qui tremblais, sentant geindre à cinquante lieues
Le rut des Béhémots et les Maelstroms épais,
Fileur éternel des immobilités bleues,
Je regrette l'Europe aux anciens parapets !

J'ai vu des archipels sidéraux ! et des îles
Dont les cieux délirants sont ouverts au vogueur :
- Est-ce en ces nuits sans fond que tu dors et t'exiles,
Million d'oiseaux d'or, ô future Vigueur ? -

Mais, vrai, j'ai trop pleuré ! Les Aubes sont navrantes.
Toute lune est atroce et tout soleil amer :
L'âcre amour m'a gonflé de torpeurs enivrantes.
Ô que ma quille éclate ! Ô que j'aille à la mer !

Si je désire une eau d'Europe, c'est la flache
Noire et froide où vers le crépuscule embaumé
Un enfant accroupi plein de tristesses, lâche
Un bateau frêle comme un papillon de mai.

Je ne puis plus, baigné de vos langueurs, ô lames,
Enlever leur sillage aux porteurs de cotons,
Ni traverser l'orgueil des drapeaux et des flammes,
Ni nager sous les yeux horribles des pontons.

Arthur Rimbaud

terça-feira, abril 15, 2008

Porca Miseria!

E pela 3ª vez Berlusconi vence claramente em Itália...

domingo, abril 13, 2008

dans paris

O Captain my Captain!

O Captain my Captain! our fearful trip is done,
The ship has weathered every rack, the prize we sought is won,
The port is near, the bells I hear, the people all exulting,
While follow eyes the steady keel, the vessel grim and daring;
But O heart! heart! heart!
O the bleeding drops of red,
Where on the deck my Captain lies,
Fallen cold and dead.

O Captain! my Captain! rise up and hear the bells;
Rise up--for you the flag is flung for you the bugle trills,
For you bouquets and ribboned wreaths for you the shores a-crowding,
For you they call, the swaying mass, their eager faces turning;
Here Captain! dear father!
This arm beneath your head!
It is some dream that on the deck,
You've fallen cold and dead.

My Captain does not answer, his lips are pale and still;
My father does not feel my arm, he has no pulse nor will;
The ship is anchored safe and sound, its voyage closed and done;
From fearful trip the victor ship comes in with object won;
Exult O shores, and ring O bells!
But I, with mournful tread,
Walk the deck my Captain lies,
Fallen cold and dead.

Walt Whitman

trap

"António Lobo Antunes à Paris"

Na passada quinta-feira, 10 de Abril, o escritor António Lobo Antunes esteve em Paris a convite da Fundação Calouste Gulbenkian para dois encontros com os seus leitores, primeiramente na Sorbonne e à tarde no centro cultural da fundação.

O painel da tarde incluía Maria Alzira Seixo, Graça Abreu, Sérgio de Sousa e Paula Morão como críticos e comentadores da obra de Lobo Antunes, ainda antes da sua intervenção. Mas o que se seguiu foi mais um dos vários momentos que habitualmente marcam os colóquios e conferências aquando da presença de investigadores ou professores portugueses: o total desrespeito por horários.
O encontro até começou com o académico quarto de hora de atraso mas o que se seguiu é que foi vergonhoso... O horário previa pequenas intervenções de 10 a 15 minutos de forma a Lobo Antunes ter direito a mais tempo, mas só Sérgio de Sousa cumpriu o horário.


A intervenção de Maria Alzira Seixo focou essencialmente três eixos:
- as Ideias em Lobo Antunes e de que forma se reflecte na sua escrita as divergências entre o conflito drámatico de ideias (T. Mann), as alegorias (Kafka) e o encadeamento de palavra (Perec).
- as Frases em Lobo Antunes e como as temáticas (relações frustradas, guerra colonial, infância, dificuldade de escrita) influenciam a própria forma da escrita. Citando R. Barthes na aula inaugural no Collège de France a lingua é fascista e Lobo Antunes é também refém dos seus limites e fronteiras.
- os Mitos em Lobo Antunes e como ele os reescreve. Romeu e Julieta, D. Juan, Narciso, Bateau ivre ou mesmo mitos contemporâneos como o divórcio ou o papel do centro comercial na actualidade. Como Lobo Antunes refere no Livro de Crónicas "não faço literatura mas sim mitologia".

A intervenção teve realmente qualidade mas prolongou-se por 45 minutos, tendo ainda direito à saída do embaixador português em França, António Monteiro, ao fim de meia hora por ter outros compromissos. Confesso as minhas maiores duvidas sobre quais poderão ser os compromissos mais importantes do que a presença de um dos mais importantes escritores vivos de língua portuguesa.

Graça Abreu propunha na sua intervenção focar o papel dos objectos enquanto personagens nas crónicas de Lobo Antunes. A sua intervenção até começou bem ao referir que os objectos na sua obra são aglomerações simbólicas do quotidiano. Mas, a partir dai deu lugar a longos 30 minutos de enumeração da recolha de diferentes coisas e objectos (rato mickey, urso de peluche, símbolos religiosos, etc). Em suma, esta professora da Universidade de Lisboa com a sua dissertação inútil perdeu uma interessante possibilidade de analisar o papel das não-coisas para fazer uma mera catalogação.

Após 5 minutos de elogios de Alzira Seixo a Graça Abreu e ao livro que ambas vão publicar seguiu-se Sérgio de Sousa que arrancou palmas da audiência praticamente em estado letárgico ao afirmar que iria ser rápido porque estávamos ali para ouvir o Lobo Antunes.

Sérgio de Sousa apresentou uma análise das crónicas baseada em 4 pontos fundamentais:
- Lobo Antunes é apenas a mão que escreve as ideias. Mais, a sua inspiração é lenta, as palavras saem devagar e formam frases que são filhas do tempo e do esforço... dai que a sua leitura exija exactamente a mesma regra. Tempo e dedicação.
- Os não lugares são um aspecto fundamental na sua obra. Os passeios, os locais e espaços de acção são acima de tudo locais de afectos.
- A religiosidade metamorfoseada é outro aspecto transversal e de realce nas suas crónicas. Há sempre uma latente referência à tragicidade da morte de Jesus e ao duro fado dele resultante, mesmo e sobretudo quando nunca se o refere.
- A escrita de Lobo Antunes é correctamente incorrecta pois apesar dele trabalhar sobre a construção gramatical está não é o essencial. Se a inspiração, e voltando à imagem da mão e do monge copista que é Lobo Antunes em processo criativo, não há espaço para pensar em regras.

Tendo sido a melhor das comunicações e conseguindo referir e focar estes aspectos foi normal, além do respeito pelo tempo (13 minutos), que tenha sido a mais aplaudida, inclusive por Lobo Antunes.

Finalmente para terminar Paula Morão que se propunha dissertar sobre a "Deriva autobiográfica" em Lobo Antunes conseguiu ao longo de longos 27 minutos não defender nenhuma tese ou teoria e apenas ler excertos de diferentes obras. Mais do que isso apostou nas "traduções selvagens" para realçar a qualidade dos textos de Lobo Antunes. O encontro e as intervenções foram sempre em francês, naturalmente, mas os interessados mesmo que franceses seriam sempre leitores de português e não fazia qualquer sentido as tentativas recorrentes de traduzir excertos de obras.

Quando finalmente Lobo Antunes tomou a palavra era evidente o seu cansaço e mesmo algum desconforto por toda esta situação. Mas na meia hora que se seguiu houve tempo para apreciar o seu humor mordaz quando confrontado com a sua opinião sobre César Monteiro ("desconheço esse senhor"); traduções para francês ("uma editora francesa pagou logo 7 livros quando ainda nem os tinha escrito."); Deus ("há que ter pudor a falar sobre Ele"); crónicas ("quando o jornal me fez o convite o E. Lourenço ganhava 500 euros, a mim ofereceram 5000. Claro que aceitei.")

No final Lobo Antunes ainda teve disponibilidade e simpatia para autografar alguns livros e trocar palavras com o público no porto de honra que se seguiu.

La pratique de l'art

Des grottes d'Altamira à Picasso, en passant par Vélasquez, la peinture à toujours été abstraction. Face aux tenants inconditionnés du "realisme", j'ai dit bien des fois que la "réalite" n'est jamais dans la peinture, qu'elle ne peut se trouver que dans la tête du spectateur. L'art est un signe, un object, une suggestion de la réalité à notre esprit.
Je ne vois donc aucun antagonisme entre abstraction et figuration du moment que l'une et l'autre nous suggèrent cette idée de réalite. La réalite que rencontrent les yeux est une ombre bien pauvre de réalite. (1955)

Une tendence artistique, c'est le désir d'une autre forme d'être. Si ce désir est vital, tout en est pénétré. A travers tout il peut marquer idées et coutumes. Je ne crois pas que les changements de goût et de mode soient arbitraires, même, en leur origine, ceux de la mode vestimentaire; ils répondent à ce nouveau désir d'être. Viennent ensuite les manifestations grégaires de frivolité qu'un exploite le comerce.
Je me méfie en principe de tous les mouvements collectifs, et par conséquent des mouvements artistiques et des écoles. Nous savons qu'il est possible de créer et de mantenir artificiellement un "mouvement", sans que celui-ci représent rien, sans qu'il exerce la moindre influence sur la réalite, laquelle s'ouvre d'autres voies. (1964)

Antoni Tàpies in La pratique de l'art, Galimard, Paris, 1974

O fim da politica em portugal?

Porque parece que nada se aproveita em Portugal...

PS
Numa coisa PSD e PS são iguaizinhos: os seus especialistas de aparelho, que conhecem as técnicas todas, mostram uma imaginação sem limites para “ganhar” eleições. No PS da Guarda veio agora saber-se que entre 400 novos militantes, várias dezenas moram na Associação de Dadores de Sangue da Guarda e os que não moram lá, moram na sede do PS de Celorico da Beira, que deve ser local muito aconchegado. A não ser que se trate de um takover do PS da Guarda por um grupo de vampiros que até agora dormia sossegado numa caverna na serra da Estrela, é muito socialista dador de sangue, com tanto empenho que vive de tubo posto e até manda a correspondência para a cama da Associação. Estas maravilhas de inscrição de militantes envolvem outro militante que têm também o perfil habitual: militante do distrito - funcionário da sede do PS – assessor do Grupo Parlamentar – assessor de Sócrates, que, questionado, responde não comentar porque são “questões internas” do PS. Tudo perfeito. Onde é que eu já vi isto? in Abrupto

PSD
O que é que leva um partido como o PSD a considerar como matéria de iniciativa pública, com envolvimento parlamentar, o facto de a RTP ter feito uma encomenda em 2007 a uma produtora externa (o que é uma prática habitual de todas as televisões) de um programa sobre bairros sociais e de essa empresa ter encomendado um trabalho a uma jornalista profissional do Diário de Notícias que já tinha escrito sobre a matéria e tinha experiência de televisão? Não se percebe qual a razão de interesse público para um partido levantar a questão. Produtoras externas na televisão pública quando “deveria ter optado por um profissional da casa”? Esta foi a explicação de recuo, por quem pelos vistos nunca vê a RTP, que floresce de produtoras externas. Nunca viram os Gatos Fedorentos das Produções Fictícias? A Contra-Informação da Mandala? Tudo coisas em que se “deveria ter optado por um profissional da casa”?
Mas a “razão” percebe-se quando se está atento às palavras. Diz Branquinho: “Trata-se de uma decisão escandalosa, pornográfica até.”. Diz Rui Gomes da Silva no Congresso do PSD da Madeira que “questionou as competências profissionais da jornalista e levantou suspeitas sobre eventuais relacionamentos pessoais que terão favorecido a escolha.” (sublinhados meus)
Eu sei a “razão” e é a pior. A jornalista em causa é tida como próxima do primeiro-ministro, o tipo de matérias que floresce como bolor nas conversinhas que referi acima, entre o machismo e a maledicência. Só isso. Não há nada de interesse público no caso. Apenas uma política que voa muito, muito baixo. E é assim que se mata um partido. in Abrupto

PCP
O secretário-geral do PCP, Jerónimo de Sousa, aconselhou hoje prudência no julgamento dos incidentes que se têm registado no Tibete, afirmando que a violência dos últimos dias tem como "objectivo político comprometer os Jogos Olímpicos" na China.
À margem da inauguração de uma exposição sobre os cinco anos da guerra do Iraque, em Lisboa, o líder comunista afirmou ser necessário "não haver precipitação no julgamento dos factos" face a "notícias contraditórias". "Sempre defendemos o diálogo, o respeito pelo direito internacional, designadamente o Tibete como parte integrante da China. Está cada vez mais claro que estes incidentes têm como objectivo político comprometer os Jogos Olímpicos", defendeu o líder comunista.
O Governo de Pequim diz que os motins de Lassa fizeram 13 mortos e 325 feridos. O Governo tibetano no exílio alega que a repressão policial dos protestos, maioritariamente pacíficos, provocou pelo menos 99 mortos, a maioria em Lhasa. in Público

CDS/PP
ou Paulo Portas?

Bloco Esquerda
O Partido Socialista Revolucionário (PSR) foi extinto, de acordo com um acórdão do Tribunal Constitucional (TC)publicado esta terça-feira em Diário da República, noticia a agência Lusa. Segundo o acórdão, deu entrada no TC a 18 de Dezembro de 2007 a acta do XVI congresso do PSR, da qual consta a aprovação por unanimidade da respectiva dissolução.
A decisão de transformar o PSR em associação política foi tomada em Congresso a 12 de Dezembro de 2004, mas só agora foi formalmente apresentada ao TC. Neste Congresso, o PSR explica as razões que levaram à sua extinção como partido: «O grau de identificação do PSR com a orientação e direcção do Bloco reduz os factores autónomos de auto-referência. Existe assim uma pressão dissolvente que é inegável. Com raras excepções a militância que existe é a que se transferiu para o Bloco».
O PSR «morre» como partido depois de 35 anos de vida, já que surgiu em 1973 a partir da Liga Comunista Internacional, de inspiração trotsquista. Em 1999, o PSR formou com a UDP e a Política XXI o Bloco de Esquerda. in Portugal diário

Lisboa já está ao largo

sexta-feira, abril 11, 2008

Schism

Porque a Igreja tem realmente os seus telhados de vidro...

Para todo o fluxo há um refluxo. Depois do polémico filme anti-islâmico "Fitna", do deputado holandês Geert Wilders, chegou agora ao YouTube o vídeo da resposta: chama-se "Schism" (Cisma), mostra o “lado negro” do cristianismo e foi feito em apenas 24 horas por um “blogger” saudita - Raed Al Saeed.


O curto filme, com pouco mais de seis minutos, começa por mostrar passagens da Bíblia em que se apela à “guerra santa”, com a intenção de mostrar que os extremismos religiosos não são um exclusivo islâmico.

Durante o vídeo do "blogger" saudita, de 33 anos, são igualmente mostradas imagens dos bombardeamentos a Bagdad, em 2003, e soldados a espancarem rapazes iraquianos num vídeo que correu mundo depois de ter sido colocado na Internet.

Noutra série de imagens surge uma mãe de família evangélica a pedir a crianças para matarem em nome da religião. As próprias crianças dizem, com orgulho, que estão a ser treinadas para fazerem parte do "Exército de Deus". "A verdade está do nosso lado", diz a progenitora.

"Schism" é uma resposta ao filme-polémica “Fitna”, de 15 minutos, do político holandês Geert Wilders (de direita) que lançou o seu trabalho na Internet há cerca de um mês e que mostrava imagens dos ataques terroristas a Nova Iorque e Madrid acompanhadas de versos do Corão a apelar à violência islâmica.

Apesar do "Fitna" ter sido condenado por muitos muçulmanos e ter originado manifestações em todo o mundo – nomeadamente uma no Paquistão que conseguiu reunir mais de 25 mil pessoas no início desta semana – os analistas consideram que, ainda assim, a polémica não foi tão grave quanto, por exemplo, a que se desencadeou com a publicação de algumas caricaturas de Maomé pela imprensa europeia.

No final do documentário, Al-Saeed estabelece um paralelo entre o seu vídeo e o de Wilders. No penúltimo "frame" do vídeo, o autor dá a ver a seguinte mensagem: "É fácil mostrar excertos de um Livro Sagrado que estão fora do contexto e fazer com que pareça tratar-se do livro mais desumano alguma vez escrito. Foi isso que Geert Wilders fez para conquistar mais apoiantes para a sua ideologia odiosa. Para criar cisma".

Al-Saeed indicou ontem ao jornal saudita (em língua inglesa) "Arab News" que fez o filme em menos de 24 horas a fim de mostrar que o islão não deverá ser julgado através daquilo que é mostrado em "Fitna", que ele considera ser uma visão distorcida da sua religião. O autor considerou ainda que acredita que "Fitna" foi "baseado em ódio" e que reflecte "o racismo e o ódio" do político holandês.

O vídeo de Al-Saeed foi colocado no YouTube no dia 1 de Abril e os administradores terão, alegadamente, retirado o vídeo após a sua colocação "online". Pouco depois, o vídeo voltou a estar disponível, uma vez que Al-Saeed terá argumentado que, se o "Fitna" continuava "online", nesse caso o seu vídeo também terá que permanecer disponível. O próprio autor deixa uma mensagem ao departamento de “censura” do YouTube, na qual apela ao visionamento de ambos os filmes: "Vejam o vídeo 'Fitna', de Geert Wilders, e comparem o conteúdo...".

in Publico, 10 IV 2008

Aimé Césaire

La roue

La roue est la plus belle découverte de l'homme et la seule
il y a le soleil qui tourne
il y a la terre qui tourne
il y a ton visage qui tourne sur l'essieu de ton cou quand
tu pleures
mais vous minutes n 'enroulerez-vous pas sur la bobine à
vivre le sang lapé
l'art de souffrir aiguisé comme des moignons d'arbre par les
couteaux de l'hiver
la biche saoule de ne pas boire
qui me pose sur la margelle inattendue ton
visage de goélette démâtée
ton visage
comme un village endormi au fond d'un lac
et qui renaît au jour de l'herbe et de l'année
germe

Um breve poema de Aimé Césaire agora que parece que a sua saude está bastante frágil...

Le poète martiniquais Aimé Césaire, âgé de 94 ans, a été hospitalisé à Fort-de-France pour des examens médicaux, a annoncé jeudi le maire de la ville Serge Letchimy.
Aimé Césaire a été admis à l'hôpital mercredi, a indiqué M. Letchimy dans un communiqué, sous fournir plus de précisions.
Ancien maire de Fort-de-France, chantre de la négritude et figure tutélaire de la politique martiniquaise, Aimé Césaire a été député de Martinique pendant près de 50 ans.
Nicolas Sarkozy a fait rebaptiser l'aéroport de Fort-de-France/Le Lamentin aéroport Martinique/Aimé Césaire, alors que le poète a soutenu Ségolène Royal pendant la campagne présidentielle 2007.
in Nouvelle Observateur

quarta-feira, abril 09, 2008

...ainda o Tibete

Art poétique

Les mots, les mots
ne se laissent pas faire
comme des catafalques.

Et toute langue
est étrangère.

Eugène Guillevic

tributo a...

terça-feira, abril 08, 2008

Acordo ortográfico

Inicia-se hoje uma sondagem dedicada à discussão sobre o novo acordo ortográfico.

Admito desde já que não tive ainda possibilidade de ler a proposta de revisão, daí que a minha posição seja baseada no que ouvi dizer e li sobre as alterações ao mesmo. Nesse sentido teria todo o gosto que a vossa posição se mostrasse no vosso voto, mas também numa discussão a ter lugar nesta caixa de comentários.

Deixo ainda um artigo do Público sobre a acalorada discussão que teve lugar ontem no Parlamento.

Já se aproximavam as 18 horas quando a deputada Teresa Portugal (PS) abriu a última parte da sessão - aquela em que se iriam conhecer as posições dos representantes partidários acerca do acordo ortográfico, o tema que mobilizava desde as 10 e meia da manhã catedráticos, linguistas, editores, membros de institutos e associações da língua portuguesa, reunidos na sala do Senado da Assembleia da República, em Lisboa.

A deputada começou por historiar a "atribulada história dos múltiplos acertos e desacertos da ortografia" da língua portuguesa. Mas em breve não hesitaria em confessar-se dividida "perante uma argumentação igualmente convincente" que ouvira, ao início da tarde, quando Vasco Graça Moura e Carlos Reis esgrimiram argumentos contra e a favor do acordo ortográfico ratificado em 1990, mas que agora voltou uma vez mais ao Parlamento, como proposta de resolução apresentada pelo Governo, para resolver um imbróglio jurídico, facilitando a entrada em vigor do acordo de 1990 desde que pelo menos três dos oito países contratantes depositem os respectivos instrumentos de ratificação.

As frases-chave dos dois deputados que se lhe seguiram, do PSD e do CDS-PP, alinharam pelo mesmo tom: o PSD "manifesta abertura de espírito para valorizar todos os argumentos aqui ouvidos" (Ana Zita Gomes); "ficámos a conhecer todos os pontos de vista, nalguns casos, felizmente, antagónicos" (Pedro Mota Soares, do CDS-PP).

As múltiplas interrogações com que o deputado do PCP, João Oliveira, recheou a sua intervenção ("Será este acordo um factor de cooperação? De que serve um acordo ortográfico sem uma política da língua portuguesa no mundo?") indiciavam uma mesma reserva em desvendar o sentido de voto final, apenas revelado, na prática, pelo representante do Bloco de Esquerda (BE). Este, ficou claro, será de apoio ao acordo. Disse Luís Fazenda: "Respeitamos objecções levantadas por pessoas com competência técnica [referia-se aos linguistas que se manifestam contra aspectos do acordo]. Contudo, o que é importante é o sinal político e esse vai muito para além deste acordo de aproximação ortográfica e é o seguinte: no conjunto de Estados que se exprimem em português há uma cogestão da língua."

Graça Moura vs Carlos Reis

O carácter tão ostensivamente prudencial como os deputados se pronunciaram (alguns insistindo que falavam a título meramente pessoal) terá talvez a ver com o brilhantismo dos dois convidados especiais da audição parlamentar - Vasco Graça Moura e o catedrático de Coimbra e reitor da Universidade Aberta, Carlos Reis.

Eurodeputado do PSD, escritor ("esteta da escrita", chamou-lhe Teresa Portugal), Graça Moura não poupou palavras no ataque ao documento. A começar no título da intervenção - "Acordo ortográfico: a perspectiva do desastre". E a continuar nas intenções ocultas que nele descortina - "decerto à revelia das melhores intenções dos negociadores portugueses, o Acordo (...) serve interesses geopolíticos e empresariais brasileiros, em detrimento de interesses inalienáveis dos demais falantes de português no mundo", em especial de Portugal, e representa "uma lesão inaceitável de um capital simbólico acumulado e de projecção planetária".

Vasco Graça Moura distribuiu pelo documento críticas de carácter jurídico (para o Acordo vigorar na ordem interna portuguesa não lhe bastam a aprovação parlamentar e a ratificação do Presidente da República - necessita de "ter assegurada a sua vigência no ordenamento internacional", algo que está longe de acontecer pois foi ratificado até agora por três dos oito Estados de língua portuguesa); de carácter processual (o Governo "não consultou nenhuma Universidade, nem o Conselho de Reitores, nem a Associação Portuguesa de Escritores, nem a Sociedade de Língua Portuguesa") e, sobretudo, de carácter técnico.

Os defensores do Acordo, disse, não deram resposta até hoje "a nenhuma das críticas científicas" formuladas por linguistas. "O único objectivo real de toda a negociação do Acordo", acusa, foi o de suprimir as consoantes mudas ou não articuladas "c" e "p", o que levará a "homogeneizar integralmente a grafia portuguesa com a brasileira (...) desfigurando a escrita, a pronúncia e a língua que são as nossas".

Carlos Reis avançou logo com uma "declaração de desinteresses" seguida de outra de "interesses: "Não tenho dependências económicas nem cumplicidades políticas; a minha única preocupação é com a Língua Portuguesa como idioma dividido por oito países."

O que está em causa neste acordo ortográfico, disse, "é aproximar o modo como escrevemos do modo como falamos (...). Há alguma ofensa cultural se passo a escrever "elétrico" em vez de "eléctrico"?", perguntou, numa rajada de interrogações em que quis saber se Portugal se deve manter agarrado a uma "concepção conservadora da ortografia"; se serão os interesses das editoras "absolutamente determinantes para condicionarem decisões de amplo alcance a alargado espectro cultural"; se "podem alguns portugueses persistir em encarar o Brasil como um parceiro menor neste processo ou até como um inimigo"; e se Portugal tem o direito de colocar obstáculos, "as mais das vezes artificiais ou fundados em interesses económicos, a um entendimento que não afecta identidades nem legítimas singularidades linguísticas".


Acontecimento 2007 (conclusões)

Termina hoje e já bastante tarde aliás a sondagem de qual foi o acontecimento do ano 2007 segundo os leitores do Nem vale a pena dizer mais nada.
No total votaram 18 leitores e foi mais do que evidente a vitória do João em França (8 votos). Claro que tenho ficar lisonjeado pelo facto que a minha ausência provoca noutros saudades... espero que seja nesse sentido o vosso voto.
Mas, é também necessário realçar que Socratismo, o Caos na CML e o Diário de Bordo com 2 votos foram também segundo os meus leitores aspectos que marcaram este ano findo.
Finalmente o Nobel de Al Gore, a presidência de Sarkozy, a morte de Bergman, e o ano de Káká contaram com um singelo voto.
Resta-me agradecer a vossa votação e contar novamente com os vossos votos para a próxima sondagem sobre o novo Acordo Ortográfico.

segunda-feira, abril 07, 2008

Variação a duas vozes

Num gesto como este
Imobilizante e em perpétuo movimento
Chamemos-lhe poema e
Façamo-lo juntos
M.TIAGO PAIXÃO


Acordemos
a pétala adormecida de cinza no chão de um
dia que é noite de
quarto
crescente,
mal-me-quer onde nunca nos tocámos
porque como tu gritaste nessa noite:
“nunca nos tocamos.”
E
pensá-la agora é um mergulho
nas noites asfixiantes d’ontem.
Cai no não-passado acontecido
feito presente por acontecer.
É o peso da morte arrancada em flor
no jardim da nossa casa, e onde
a minha vontade por dizer
que a tua
consciência da perda silenciosa
é o meu
silêncio confortável
embebido num banho,
reconfortante cor de prata,
em que insistes afogar-te… e…
é a boca de uma gata que não se dá
quando nos procuramos nos perdidos-e-achados do jornal.


ps: Parabéns!

Free Tibet


Nem vale a pena dizer mais nada...

domingo, abril 06, 2008

Le Verbe Etre

Je connais le désespoir dans ses grandes lignes. Le désespoir n'a pas d'ailes, il ne se tient pas nécessairement à une table desservie sur une terrasse, le soir, au bord de la mer. C'est le désespoir et ce n'est pas le retour d'une quantité de petits faits comme des graines qui quittent à la nuit tombante un sillon pour un autre. Ce n'est pas la mousse sur une pierre ou le verre à boire. C'est un bateau criblé de neige, si vous voulez, comme les oiseaux qui tombent et leur sang n'a pas la moindre épaisseur. Je connais le désespoir dans ses grandes lignes. Une forme très petite, délimitée par un bijou de cheveux. C'est le désespoir. Un collier de perles pour lequel on ne saurait trouver de fermoir et dont l'existence ne tient pas même à un fil, voilà le désespoir. Le reste, nous n'en parlons pas. Nous n'avons pas fini de deséspérer, si nous commençons. Moi je désespère de l'abat-jour vers quatre heures, je désespère de l'éventail vers minuit, je désespère de la cigarette des condamnés. Je connais le désespoir dans ses grandes lignes. Le désespoir n'a pas de coeur, la main reste toujours au désespoir hors d'haleine, au désespoir dont les glaces ne nous disent jamais s'il est mort. Je vis de ce désespoir qui m'enchante. J'aime cette mouche bleue qui vole dans le ciel à l'heure où les étoiles chantonnent. Je connais dans ses grandes lignes le désespoir aux longs étonnements grêles, le désespoir de la fierté, le désespoir de la colère. Je me lève chaque jour comme tout le monde et je détends les bras sur un papier à fleurs, je ne me souviens de rien, et c'est toujours avec désespoir que je découvre les beaux arbres déracinés de la nuit. L'air de la chambre est beau comme des baguettes de tambour. Il fait un temps de temps. Je connais le désespoir dans ses grandes lignes. C'est comme le vent du rideau qui me tend la perche. A-t-on idée d'un désespoir pareil! Au feu! Ah! ils vont encore venir... Et les annonces de journal, et les réclames lumineuses le long du canal. Tas de sable, espèce de tas de sable! Dans ses grandes lignes le désespoir n'a pas d'importance. C'est une corvée d'arbres qui va encore faire une forêt, c'est une corvée d'étoiles qui va encore faire un jour de moins, c'est une corvée de jours de moins qui va encore faire ma vie.

André Breton in "Le révolver à cheveux blanc"

...l' Ogre à Plumes...

sábado, abril 05, 2008

Baú das memórias...

Está quase a fazer 20 anos que saiu o primeiro número d’ O Independente. Foi a 20 de Maio de 88 e logo no primeiro número foi publicada esta entrevista a Mário Cesariny feita por Miguel Esteves Cardoso e Paulo Portas:
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A CONVERSA DE CESARINY
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Mário Cesariny é um génio mas não tem culpa. Os génios fazem falta em Portugal. Cansado por causa da inauguração da sua exposição, na véspera, informa-nos que tomou um comprimido para espevitar. Deita-se ao comprido arranjando as almofadas. Está mortiço. Ri-se: «Se calhar tomei a pastilha errada». Levanta-se. Liga um Grundig gigantesco dos anos 50. Sai ópera. Deita-se. Depois levanta-se outra vez. Puxa pelo fio eléctrico e com um safanão desliga a telefonia. Passaram dois minutos. Volta a deitar-se. Olha à volta. Anima-se: «Se calhar, já posso tomar um Optalidon!» Levanta-se e vai ao tupperware onde tem os remédios. Com um sorriso de puto-da-cola mete o comprimido na boca e diz: «Agora vamos ver como é que a diligência salta!» A diligência salta.
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O Independente – Lê jornais?
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Mário Cesariny – O «Diário de Notícias» todas as manhãs. Eu acho que até é um bom jornal, mas quando a gente acaba de ler é um desânimo muito grande. Também não sei o que é que se devia ler…
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Porque é que fica desanimado?
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São só desgraças… Ardeu o poço do petróleo, mataram três à esquina da brasserie, sida aumenta, vulcão explode. Isto são as notícias em Portugal. Aliás… se os jornais dessem notícias felizes, vinha tudo para a rua, era uma revolução. Assim, as pessoas ficam em casa cheias de medo.
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Compra jornais para o fim-de-semana?
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O «Expresso» e o «Semanário». Mas é outro horror, por causa do peso – são quase trinta toneladas de papel, mas lêem-se num instante.
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Gosta da televisão?
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É raro. A televisão ainda dá piores notícias. Tenho vontade de escrever cartas, partir o aparelho.
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A televisão é má em si própria?
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É um abuso. Havendo alguém em casa é impossível não a abrir, depois é impossível não a olhar. A televisão é um narcótico: boa para os governos e para a polícia.
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Não tem utilidade?
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Só para os casais desavindos e para as discussões de família. Põem-se todos a ver e daí a dez minutos acabou.
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Porque é que os portugueses gostam de ver televisão espanhola?
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Porque sempre se percebe menos.
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É sócio do Grémio Literário?
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Fui proposto. Morreu não sei quem e o Sales Lane, com boa vontade, propôs-me. Tentei averiguar se podia lá ir comer à borla. Eu só queria aproveitar uma vez por mês… Mas não – é só para pôr um fato giro e ir como os outros. Portanto, não me interessou.
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Tem ligações à Associação Portuguesa de Escritores?
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Acho que sempre paguei quotas até que percebi que ninguém paga – e deixei de pagar. Aquilo não serve para nada… nem dado.
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Dá prémios…
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O David Mourão-Ferreira recebeu quatro no mesmo ano. Ora, quatro prémios pela mesma coisa dá uma imagem de país de imbecis e doidos varridos. Isto contado em França dava cancelamento de passaporte.
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Porque é que os escritores nacionais têm pouco conhecimento dos estrangeiros?
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Tiraram-lhes a Galiza. A mim não me faz falta; mas a eles, a isto aqui… Sempre era mais gente para ajudar.
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A Biblioteca Nacional serviu-lhe de alguma coisa?
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Gosto da gente de lá. E fiz lá um estudo obre a literatura de cordel.
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Usa dicionário?
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Consulto muitas vezes. Primeiro, porque estou um bocado desmemoriado. Segundo, porque já apanhei três reformas ortográficas. Põe acento, tira acento; e há o caso do c, que nunca se sabe onde fica, se no bolso se à cabeça.
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NOVOS ESCRITORES
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Conhece os novos escritores?
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O Dante impressiona-me muito. A história do novo para mim não funciona. O actual é um bocado perigoso.
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A sério…
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Há por aí um espanhol que jura que o Sol anda à volta da Terra. É muito interessante.
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Mários Cláudios, Saramagos, dizem-lhe alguma coisa?
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Ainda não li. Mas pergunto a pessoas de confiança. E tenho duas informações curiosas. Chega-se à oitava página do Saramago e ainda não se viu um ponto final. É a primeira. A segunda é que diz mal do D. João V. Mas a família real não era nada daquela besteira.
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Agustina é um caso.
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A gente abre uma página do livro dela e percebe que é boa em qualquer parte do mundo. Complica, mas isso não é defeito.
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Confia nos críticos literários?
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Não me costumam dizer se um livro é uma novela histórica ou uma ficção científica. Li na revista mexicana «Vuelta» que o Memorial do Convento é uma novela histórica. Aqui não dizem o que é nem se chega a saber se gostaram ou não.
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Foi sempre assim?
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O Gaspar Simões faz muita falta. Mesmo quando dizia asneiras a gente sabia onde ele estava e ele sabia quem era. Depois de ele se ter ido embora não há outra referência. O Gaspar Simões ensinou muitos escritores como se escreve. Ele dizia que isto estava bem; e aquilo, mal. O Alves Redol, no livro seguinte, emendava.
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E o Eduardo Prado Coelho?
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Aqueles artigos de três páginas que ele publicava no «Diário de Lisboa», sobre o neo-realismo, a semiótica e a metalinguagem! Depois deixou-se disso… e eu sinto falta.
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PROBLEMAS CONTEMPORÂNEOS
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Vai ao teatro em Portugal?
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Nunca. Sempre foi mau e agora exageram.
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Gosta das cidades?
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Porto e Lisboa, sim. Coimbra não me convence, não me apetece descer do comboio.
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Tem parecer sobre as amoreiras?
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Não acho mal. É uma extravagância. O monumento aos Descobrimentos em Belém é muito pior. Devia ser rapado dali.
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Prefere a Lisboa Pombalina?
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A Baixa desenhada pelo Marquês é fantástica. Tem as proporções certas – não humilha nem envergonha. A Baixa podia ser Nova Iorque no século XVIII.
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Porque é que toda a gente passa férias no Algarve?
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Não vale a pena protestar. Acho que são todos ingleses, já. O mais engraçado é que o Algarve é o único sítio do mundo onde há ingleses pobres. Electricistas e gente assim…
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O Cesariny fuma a rodos. O Estado quer proibir o tabaco…
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Cada época tem os seus puritanismos. Agora é o tabaco. Há uns dias ia de táxi e ouvi uma descompostura medonha. O condutor era um rapaz novo e começou a praguejar – porque os senhores são assassinos, prejudicam o próximo, portam-se como suicidas. Tive de o mandar parar e saí. Paguei só para não ter de o ouvir mais.
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Mas o cigarro vale a pena?
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O fumo dos cigarros é o luxo dos pobres. Quem não tem dinheiro para ir ao cinema acende um cigarrito. Alivia.
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E o 25 de Abril?
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Foi uma revolução ortodoxamente neo-realista, com Óscar Lopes em presidente de Portugal.
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Colonialismo, ainda há?
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Começou outro. Quando o Samora Machel cá veio foi ver a Sé Velha a Coimbra. Ficou encantado – isto é que é! Estava deslumbrado. Percebi, então, que os chefes africanos não querem ser chefes africanos. Sonham com o Reagan, o De Gaulle, o Salazar. Imaginem o Hegel a 60 graus à sombra! Falam de Marx. Isto é, dispensam o que é verdadeiramente negro. A verdadeira colonização começa agora.
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Quem se dá mais ao respeito: um rei ou um presidente?
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Um, outro ou nenhum. Mas esta história do Gorbachev faz-me pensar nisso. Dizem que é bem intencionado. Mas vai falhar. E se falhar é porque não tem a coragem de ir ao tesouro imperial dos czares. Ia lá, agarrava na coroa e punha-a na cabeça. Mal o fizesse, aquelas repúblicas maravilhavam-se. É como os ingleses. A rainha não serve para nada, mas há um sagrado que conta. Só não sou monárquico por não haver eleições tibetanas, em que os velhos vão aos tugúrios e escolhem uma criancinha. Às vezes, claro, também se enganam.
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PORTUGAL E A EUROPA
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Sente-se bem na Europa?
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A CEE quer dizer: tu plantas batatas, ele planta tomates, os morangos vêm de acolá, as calças de ganga fazem-se ali. Depois, todos consumimos. Isso é o lado melhor.
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Traz dinheiro.
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As massinhas que vêm, acho que já foram todas gloriosamente gastas a comprar automóveis e quintarolas. Mas a Europa não se deve zangar muito com isso. Ao menos, nós nunca faremos a bomba atómica.
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Portugal é europeu?
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As instituições são. O povo não. Mas eu gosto do atraso. Digo mal da Europa mas, apesar de tudo, é um quadrado onde nos deixam morrer à vontade. Viver é que não.
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O português não pode ser internacional?
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Eu já andei à procura do esquimó. Essa ideia da nação, no sentido mais antigo, está além-fronteiras. Quer dizer, o português pode ser alheio à coisa nacional e à coisa internacional. Não há ninguém tão português como o Teixeira de Pascoaes. Os pés e os sapatos dele são portugueses. Mas o resto dele é universal. Não tem que ver com Lisboa, Madrid ou Londres – o resto dele á com as estrelas.
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Os portugueses mudaram.
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Já não há povo que queira ser povo. Era povo, e queria sê-lo, a rapariga que aparecia de lenço, o rapaz de bigode e da patilha. O povo agora tem pena de ser povo. Quer vestir ganga ou calcinha de flanela. De fora só ficam os ciganos. Continuam a ser o que já eram. E os analfabetos. São uma reserva: De gente ainda não doutrinada. Mas também devem estar a dar cabo deles.


in O Funcionário Cansado