quarta-feira, dezembro 31, 2008

the end

...sem frança, sem alunos, sem emprego, sem sol, sem muita coisa, haja esperança por onde pegar...

Banksy XXXI

Col du Télégraphe

Perguntava-lhe como cabiam tantos beijos
numa canção, se esta a montanha mais breve
e ainda cá estamos em baixo, aparando
o que aqui vai de memórias e são tantas
e escutamos na rádio
parece que vem mexido o pelotão,
o camisola amarela vem em perda
mas pinto agora mesmo o seu nome no asfalto
e quando passe empurro o seu nome bem alto
beijar não posso porque tombarias da bicicleta,
deves vir cansado e a canção não tarda acaba.

Hugo Milhenas Machado in It's Just a Café Solo

terça-feira, dezembro 30, 2008

Banksy XXX

listas de fim de ano...

Adoro listas de fim de ano. Parte do meu subsídio de Natal vai para a aquisição de revistas gordas de balanços, seja o melhor de 2008, the best of 2008 ou le meilleur de 2008: avalio gostos e diversidades culturais, recupero títulos que me esqueci de comprar, descubro nomes de que nunca ouvi falar. É uma forma de combater o peso excessivo dos "clássicos", que sempre dominou a cultura da crítica - aquela tese perversa de que o melhor é sempre o que já foi feito há muito tempo, numa espécie de alergia à excitação do presente. Ora, eu sempre gostei do presente, que bom ou mau é aquele que nos foi dado habitar, e as listas de cada ano têm sempre essa virtude de sublinhar a ideia de que o génio humano nunca nos abandona. É uma forma de conforto existencial, se quiserem. Por isso, em homenagem a 2008, resolvi verter para aqui o meu best of pessoal, nas três áreas mais importantes da cultura pop contemporânea: os filmes, os livros e a música.

Filmes. Se escolhesse o filme da minha vida, o eleito teria de ser Magnólia, de Paul Thomas Anderson, porque, por muito que admire Hawks, Ford, Lang, Sirk e tantos outros, existe uma diferença substancial entre ir ver uma obra-prima à Cinemateca e descobrir uma obra-prima no cinema. O mesmo PT Anderson ofereceu-nos agora Haverá Sangue, épico de uma ambição gigantesca, só à altura de dois reclusos com egos desmesurados: o próprio Anderson e Daniel Day-Lewis. O resultado é um retrato assombroso da América e da sua fractura original - a luta eterna entre o amor que é devido a Deus e a paixão arrebatadora pelo dinheiro. No entanto, para quem preferir não descer aos abismos da alma humana, há uma empresa que continua a ser o sol cinematográfico das nossas vidas: a californiana Pixar. Este ano saiu o maravilhoso Wall.E, e a verdade é que nem nos seus tempos de glória a Disney conseguiu produzir em carreiro tantos filmes extraordinários. É mais um elogio ao nosso presente.

Livros. E agora, um elogio ao passado. O tempo tem sido de vacas gordas quanto à edição de clássicos, mas ainda assim foi um prazer ver chegar às livrarias tantos títulos de Machado de Assis. Depois da Cotovia, foi a vez de a Relógio d'Água apostar no génio brasileiro, permitindo-nos ter Dom Casmurro, Quincas Borba ou Memórias Póstumas de Brás Cubas ao alcance da mão. Disse "elogio do passado"? Errei: poucos escritores são tão contemporâneos, pelo estilo e pela avassaladora ironia, quanto o mulato oitocentista Machado de Assis.

Música. A boa surpresa: voltaram a aparecer portugueses com gosto de se exprimirem em português. Mesmo para quem o colectivo FlorCaveira possa soar demasiado atrevido, existe sempre o (justo) fenómeno Deolinda e a descoberta - ainda que tardia - de um cantor de excepção: António Zambujo, cuja música parece nascida de um affaire do fado com a bossa nova numa pensão de Beja. Ouçam Outro Sentido, que faz sentido. E tenham um óptimo 2009.

João Miguel Tavares in DN, 30 XII 2008

segunda-feira, dezembro 29, 2008

Banksy XXIX

Diário de um mau ano

Na próxima semana haverá eleições federais no Canadá e a tendência é para que ganhem os conservadores. Fico desorientado com a deriva direitista dos países ocidentais. Os eleitorados têm diante de si o espectáculo, nos Estados Unidos, daquilo a que a direita os levará se lhe derem a mais pequena hipótese, e contudo votam na direita.
O papão Osama Bin Laden alcançou um êxito que excedeu os seus sonhos mais ousados. Armados apenas de Kalashinikovs e explosivos plásticos, ele e o seus sequazes aterrorizaram e desmoralizaram o Ocidente, semeando o pânico indiscriminado nas nações. Para o elemento mais tirânico, autoritário e militarista da vida política do Ocidente, Osama foi uma dádiva dos deuses.

J. M. Coetzee

sábado, dezembro 27, 2008

Banksy XXVII

eldorado - uma comédia do minho

A partir de excertos de Vídeos do Youtube e do universo de Steven Berkoff

"Deve ser um paraíso não ter pânico_um lugar onde não se está sempre a tremer_um Eldorado_já chega disto_já estou pelos cabelos_como um tambor a bater sempre ao mesmo ritmo na cabeça_bum bumbum_"

Encenação e Adaptação: Pedro Penim
Assistência de Encenação: José Nunes
Interpretação: Gonçalo Fonseca, Luís Filipe Silva, Mónica Tavares, Rui Mendonça e Tânia Almeida
Operação Luz e Som: Vasco Ferreira
Produção: Comédias do Minho

Classificação: M16
Duração do espectáculo: 90 min.aprox

Apresentações
6, 7, 8 Janeiro - 21h30 - teatro Taborda

Vivemos todos sob a ameaça da bomba - cancro - carcinógeneos - doença - desemprego - impotência - pânico do pânico - pretos - brancos - polícias - multas de estacionamento - esquecer as nossas deixas - perder dinheiro - ganhar demasiado dinheiro - perder cabelo - engordar - ficar feio - não ter graça - ser tímido - ser tonto - aprender piano - pânico de falhar - de não causar boa impressão - pânico da força dos outros - pânico da fraqueza - pânico de ficar exposto - de não chegar a horas ao emprego - de não ter reforma - de morrer - guerra - aleijado num acidente de automóvel - de não entender a piada - pânico de correr riscos - de mergulhar de uma prancha - pânico obsessivo de aranhas - pânico de pessoas - festas - multidões - pessoas espertas - pânico de dizer o que se pensa - pânico das mulheres - pânico dos homens - pânico da ansiedade –

Por isso este espectáculo é dedicado a todos os que entram em pânico.

sexta-feira, dezembro 26, 2008

Banksy XXVI

Problemas no horizonte...

A lei que aprovou a revisão do Estatuto dos Açores, que tinha sido por mim vetada, foi, no passado dia 19, confirmada pela Assembleia da República sem qualquer alteração.
Isto é, não foram acolhidas, pela maioria dos deputados, as duas objecções que por mim tinham sido suscitadas.
É muito importante que os portugueses compreendam o que está em causa neste processo.
Este não é um problema do actual Presidente da República.
Não é tão-pouco uma questão de maior ou menor relevo da autonomia regional.
O que está em causa é o superior interesse do Estado português.
O Estatuto agora aprovado pela Assembleia da República introduz um precedente muito grave: restringe, por lei ordinária, o exercício das competências políticas do Presidente da República previstas na Constituição.
De acordo com uma norma introduzida no Estatuto, o Presidente da República passa a estar sujeito a mais exigências no que toca à dissolução da Assembleia Legislativa dos Açores do que para a dissolução da Assembleia da República.
Nos termos da Constituição, a Assembleia da República pode ser dissolvida pelo Presidente da República ouvidos os partidos nela representados e o Conselho de Estado.
Para dissolver a Assembleia Legislativa dos Açores, o Presidente da República terá que ouvir, para além dos partidos nela representados e o Conselho de Estado, o Governo Regional dos Açores e a própria Assembleia da Região.
Trata-se de uma solução absurda, como foi sublinhado por eminentes juristas.
Mas o absurdo não se fica por aqui.
A situação agora criada não mais poderá ser corrigida pelos deputados.
Uma outra Assembleia da República que seja chamada, no futuro, a uma nova revisão do Estatuto vai estar impedida de corrigir o que agora se fez.
Isto porque foi acrescentada ao Estatuto uma disposição que proíbe a Assembleia da República de alterar as normas que não tenham sido objecto de proposta feita pelo parlamento dos Açores.
Quer isto dizer que a actual Assembleia da República aprovou uma disposição segundo a qual os deputados do parlamento nacional, que venham a ser eleitos no futuro, só poderão alterar aquelas normas que os deputados regionais pretendam que sejam alteradas.
Os poderes dos deputados da Assembleia da República nesta matéria foram hipotecados para sempre.
Como disse, não está em causa qualquer problema do actual Presidente da República.
A Assembleia Legislativa dos Açores, em 30 anos de autonomia, nunca foi dissolvida e não prevejo que surjam razões para o fazer no futuro.
O que está em causa é uma questão de princípio e de salvaguarda dos fundamentos essenciais que alicerçam o nosso sistema político.
E não se trata apenas de uma questão jurídico-constitucional. É muito mais do que isso.
Está também em causa uma questão de lealdade no relacionamento entre órgãos de soberania.
Será normal e correcto que um órgão de soberania imponha ao Presidente da República a forma como ele deve exercer os poderes que a Constituição lhe confere?
Será normal e correcto que a Assembleia da República imponha uma certa interpretação da Constituição para o exercício dos poderes presidenciais?
É por isso que o precedente agora aberto, de limitar o exercício dos poderes do Presidente da República por lei ordinária, abala o equilíbrio de poderes e afecta o normal funcionamento das instituições da República.
O exercício dos poderes do Presidente da República constantes da Constituição não pode ficar à mercê da contingência da legislação ordinária aprovada pelas maiorias existentes a cada momento.
Por que é que a Assembleia da República não alterou o Estatuto apesar de vozes, vindas dos mais variados quadrantes, terem apelado para que o fizesse, considerando que as objecções do Presidente da República tinham toda a razão de ser?
Principalmente, quando a atenção dos agentes políticos devia estar concentrada na resolução dos graves problemas que afectam a vida das pessoas?
Foram várias as vozes que apontaram razões meramente partidárias para a decisão da Assembleia da República.
Pela análise dos comportamentos e das afirmações feitas ao longo do processo e pelas informações que em privado recolhi, restam poucas dúvidas quanto a isso.
A ser assim, a qualidade da nossa democracia sofreu um sério revés.
Nos termos da Constituição, se a Assembleia da República confirmar um diploma vetado pelo Presidente da República, este deverá promulgá-lo no prazo de 8 dias.
Assim, promulguei hoje o Estatuto Político-Administrativo dos Açores.
Assumi o compromisso de cumprir a Constituição e eu cumpro aquilo que digo.
Mas nunca ninguém poderá alguma vez dizer que, confrontado com o grave precedente criado pelo Estatuto dos Açores, não fiz tudo o que estava ao meu alcance para defender os superiores interesses do Estado.
Nunca ninguém poderá dizer que não fiz tudo o que estava ao meu alcance para impedir que interesses partidários de ocasião se sobrepusessem aos superiores interesses nacionais.
Como Presidente da República fiz, em consciência, o que devia fazer.

Cavaco Silva via Presidência da República

Banksy XXV

Harold Pinter (1930-2008)

Posso dizer a frase? Outros terão falado melhor que Pinter sobre o Mal, mas não conheço ninguém que tenha tratado, tão metódica e brilhantemente, a maldade.

(Humana, claro. Há outra?)

Alguns dos diálogos mais navalhados do século XX são deste senhor que, à semelhança de Borges (e vá lá saber-se porquê), gostava de se imaginar de remota origem portuguesa.

A notícia, triste, da morte de Pinter dá-nos a primeira boa notícia de 2009: vamos poder rever peças dele.

Rui Zink

quarta-feira, dezembro 24, 2008

Banksy XXIV

Parece que este ano já não há Natal...

Tristes rosas de vegetais gastos

No canal de Navigli
sinto as cores e cheiros de um outro Amsterdam...

Nele os berros roucos,
duma juventude que ignora os que distante,
lá longe,
se agarram às suas singularidades.

Rapariga loura e rapaz de olhos azuis.
Mas há também os morenos de olhos verdes.
E se restam a um canto,
de cerveja na mão,
os que de castanhos, encantos tamanhos, fazem a sua noite é porque...

Há uma Milão dos Sforza
e dos jardins penetrados pelas lojas dos aristocratas modernos.

Há uma cidade onde as ruas têm passadeiras
sob a forma de infindáveis desfiles

Há um espaço para já não haver mais espaço
para aquele pobre velho que esculpe.

Tristes rosas de vegetais gastos.

Já não há tempo
senão para armanis, guccis e zegnas
e...
Já não há mapa
que palmilhe todas as ruas
da forma que a minha critica o fez.

Fria e Dura.
Como aquelas tristes rosas de vegetais gastos
que choram das mãos do velho.

terça-feira, dezembro 23, 2008

Banksy XXIII

espírito natalício nos mínimos...

...num aviso claro a toda a navegação próxima... este ano tenho o espírito natalício nos mínimos... não sei se é do trabalho, da procura dum emprego sério, de estar a ficar "velho", só sei que não tenho tido prazer nas compras de natal...

Banksy XXII

Assim vai o jornalismo lá fora..

O diário norte-americano “The New York Times” (NYT) admitiu ter publicado uma carta falsa em que o "maire" (equivalente ao presidente de câmara municipal) de Paris, Bertrand Delanoe, supostamente criticava a candidatura de Caroline Kennedy à substituição de Hillary Clinton como senadora.

O “NYT” reconheceu, na sua edição digital, não ter efectuado comprovação suficiente da autenticidade da carta em que alegadamente o presidente da câmara de Paris manifestaria a opinião de que as intenções de Caroline eram “surpreendentes e no mínimo pouco democráticas”.

Caroline Kennedy, filha do Presidente assassinado John Fitzgerald Kenney, manifestou a sua intenção de substituir Hillary Clinton como senadora de Nova Iorque, quando a antiga primeira-dama tomar posse como secretária de Estado.

“Com todo o respeito e admiração que tenho pelo pai da senhora Kennedy, acho a sua pretensão de muito mau gosto e (...) em minha opinião, não está em absoluto qualificada para o lugar da senadora Clinton”, dizia a carta apócrifa.

“Esta carta era falsa e não deveria ter sido publicada”, indica o “NYT” na sua página web, explicando que o documento chegara por correio electrónico e que não se fizeram esforços suficientes para comprovar a sua autenticidade.

in Público, 23 XII 2008

Banksy XXI

Delírio Intermédio

Quem és tu agora?

Apareces sem chegar sem aviso
A mesma luz noutro corpo
Nitidez que se perde

Conheço-te sem saber que és
Desde que abri a janela

Agora és tu de novo…

Já te vi noutras caras noutras vidas
A mesma luz que me cega
Sombra que se ganha

Sei quem és sem te conhecer
Demasiado forte demasiado quente

M.Tiago Paixão

Banksy XX

The image, as in a Hexagram

The image, as in a Hexagram:

The hermit locks his door against the blizzard.
He keeps the cabin warm.

All winter long he sorts out all he has.
What was well started shall be finished.
What was not, should be thrown away.

In spring he emerges with one garment
and a single book.

The cabin is very clean.

Except for that, you'd never guess
anyone lived there.

Lew Welch

Banksy XIX

sexta-feira, dezembro 19, 2008

Milano via...

Estimados ouvintes - Bem vindos a mais uma noite que se espera repleta de emoções!! O mítico estádio de San Siro engalanou-se para receber as duas formações:
De um lado, com o habitual equipamento vermelho e preto, a equipa do HOLMES PLACE - um grupo caracterizada pelo poderio fisico e por um espírito que se sente quando vemos as suas movimentações em campo. O HOLMES PLACE apresenta esta noite um onze bastante ofensivo com Sónia Araújo, Francisco Menezes, Cláudia Raia, Herman José, Sílvia Pfeifer, Joaquim de Almeida, Jorge Gabriel, Pedro Paixão , Eveline Pereira, Ricardo Carriço e Ricardo Costa. Vamos esperar pelo desenrolar da partida para ver como se colocam em campo estas peças, sabendo que o losango tem sido a opção para o meio campo nero-rubro.
Do outro lado, envergando o tradicional calção preto e camisa amarela, a BWIN uma squadra recheada de estrelas que aposta tudo neste jogo e vai procurar fazer valer a sua experiência ao mais alto nível neste encontro de luxo. O onze escalonado pelo treinador da equipa BWIN surge sem alterações, nem surpresas e na máxima força com Thiery Omeyer, Jonny Wilkinson, Cristiano Ronaldo, Rafael Nadal, Lewis Hamilton, Kobe Bryant, Giba, Derek Jeter, Chad Johnson, Niklas Persson e Doyle Brunson. Um provável 4-3-3 que tem nas transições rápidas e na pressão alta os seus grandes trunfos.
Ambiente extraordinário em Milão, os tifosi que esgotam as bancadas vibram nesta noite que podia ser uma final europeia! A "hola" varre todo o estádio e as emoções estão ao rubro. Está tudo a postos, ouve-se o apito incial e rola a bola no bem tratado tapete verde de San Siro......

Banksy XVIII

quarta-feira, dezembro 17, 2008

assim se faz jornalismo de qualidade...

Robert Fisk... O seu nome quase que diz tudo.
O mais conhecido repórter britânico no Médio Oriente foi o convidado de Carlos Vaz Marques no programa Pessoal e Transmissível, e o que se pode ouvir durante quase uma hora é uma lição de geo-política actual e relações internacionais em tudo superior à maior parte dos seminários que se assistem no nosso país. Deixo o link para se deliciarem com a experiência e conhecimentos de Robert Fisk.

aos pés da multidão

Sociedade e cultura no século XIX – a Paris de Balzac a partir de Père Goriot

O realismo é provavelmente uma das estéticas literárias mais importantes na história contemporânea pela forma como retratou e reflectiu o seu tempo em termos sociais, mas também as novas concepções politicas, científicas e culturais. Nesse sentido, as obras de escritores como Balzac, Flaubert ou Zola têm o maior relevo pois espelhavam hábitos e costumes da sociedade francesa, sobretudo das classes mais desfavorecidas.

Père Goriot que foi escrito em 1834 e publicado um ano depois, é parte integrante da vasta obra Comédia Humana, e retrata com pormenor a Casa Vauquer e os seus locatários, sendo através destas pormenorizadas discrições que o leitor toma conhecimento de alguns quartiers parisienses mais populares no inicio do século XIX.
Nas cuidadas e extensas descrições da casa da Sra. Vauquer e do quartier envolvente fica patente a arquitectura e decoração típica destas pensões que recebiam estrangeiros como o marquês d’Ajuda-Pinto, franceses de outras regiões como Eugéne de Rastignac, pobres e delinquentes como Maxime de Trailles, ou os próprios trabalhadores da casa como a cozinheira Sílvia ou o moço dos recados Sebastião.

Esta obra atinge igualmente um valor significativo enquanto material histórico pelas abundantes descrições dos diferentes personagens. Nestas vemos reflectidos os diversos meios sociais e as diferentes origens das pessoas que em 1819 se deslocavam para Paris para trabalhar, estudar ou passear.

A titulo de exemplo, uma reflexão sobre o personagem do “tio” Goriot mostra-nos um antigo fabricante de aletria, massas e amido que pouco mais tinha para dar do que sessenta francos por mês para alimentação e alojamento , assim como muitos outros reformados que se instalavam nos bairros mais pobres de Paris. E tal como os outros moradores da pensão a sua indumentária mostrava as suas graves debilidades económicas com “sobrecasacas cuja cor se tornava indistinta, o calçado era igual ao que é abandonado às esquinas dos bairros elegantes, roupa branca no fio, o vestuário coçado.”

Também os trabalhadores fabris que no início do século XIX chegavam em grande número de outras zonas de França às zonas periféricas de Paris se encontram aqui fielmente representados pelo Sr. Poiret. Este mecânico com “a cabeça coberta com um boné quebrado, (…) deixando flutuar as abas amarrotadas da sobrecasaca, a qual mal ocultava um calção adejante, as meias azuis calçando pernas que vacilavam como as de ébrio, mostrando o colete branco-sujo e as pregas da grosseira musselina enrugada (…) é igualmente um excepcional retrato dessa massa amorfa que enchia as fábricas durante a jornada de trabalho e que posteriormente se perdia nas tabernas.

Outra das personagens que é importante destacar é de Eugéne de Rastignac, porque será um personagem que se encontra em outras obras de Balzac e porque é um exemplo da presença e comportamentos da aristocracia. Filho de um barão de Charente, Eugéne é ainda um jovem estudante que chegado à grande cidade, como tantos outros, se deslumbra por tudo o que o rodeia. Destaca-se a sua amizade com Vautrin, um antigo comerciante, e a sua paixão por Delphine de Nucingen, filha do “tio” Goriot. A sua caracterização física demonstra desde logo diferenças substanciais em relação aos outros personagens populares pois ele tinha “um rosto perfeitamente meridional: tez branca, cabelo preto, olhos azuis.” Mais do que isso o seu comportamento e maneiras eram de alguém de boas famílias e cuidada educação, e se o seu fato e casaca não eram por vezes novos a postura que tinha e a companhia de Vautrin davam-lhe um ar fino.

A referência a estes três personagens está longe de ser casual, eles testemunham e representam os indivíduos que neste período de alguma instabilidade politica com a segunda Restauração se deslocavam para a capital, porque esta era apesar disso um local mais apetecível em termos de trabalho e dinheiro do que o interior. Mas reflectem também as dificuldades económicas que se podiam sentir enquanto trabalhadores em sectores emergentes como a industria como o Sr. Poiret ou reformados como o “tio” Goriot. Através das diversas caracterizações e descrições presentes neste excerto fica também visível o pouco engajamento político dos personagens, o que leva a concluir que apesar da crise e instabilidade da época o interesse pela política em qualquer extracto social não era significativo.

Mais do que isso, não há quaisquer referências históricas aos acontecimentos políticos que varriam a França, como a inclusão na Santa-Aliança ou o congresso de Aix-la-Chapelle, o que parece apontar que Balzac, como outros realistas, procurava sobretudo representar a vida social e cultural dos personagens fazendo as suas criticas politicas através da descrição mais crua e real possível.

bibliografia: BALZAC, Honoré, Papá Goriot, Lisboa, edição Amigos do Livro, s/d

Banksy XVII

terça-feira, dezembro 16, 2008

outra boa notícia do outro lado do mar...

O Presidente eleito norte-americano Barack Obama anunciou ontem à noite que escolheu o Prémio Nobel da Física Steven Chu, um defensor das energias renováveis e alternativas, para ocupar o lugar de secretário de Estado da Energia.

Steven Chu, 60 anos, filho de imigrantes chineses que frequentou a Universidade de Stanford na Califórnia, foi homenageado com o Nobel da Física em 1997 pelos seus trabalhos sobre os “métodos de arrefecimento e captura de átomos por laser”.

É director do Laboratório Nacional Lawrence Berkeley desde 2004 e especializou-se no estudo das alterações climáticas. O site do laboratório descreve-o como “um defensor de longa data da investigação sobre soluções científicas para as alterações climáticas”.

“Nos próximos anos, as escolhas que faremos vão ajudar-nos a determinar que tipo de país e de mundo vamos deixar aos nossos filhos e netos”, declarou Obama, insistindo no facto de que os problemas estão “ligados à nossa dependência do petróleo”.

“Para controlar o seu destino, a América deve desenvolver novas fontes de energia e novas maneiras” de consumir essa energia, acrescentou. “Este não é apenas um desafio para o Governo, mas sim um desafio para todos nós”.

in Público, 15 XII 2008

Banksy XVI

segunda-feira, dezembro 15, 2008

O PAÍS ONDE COM 700 EUROS SE COMPRAM 2100 PEDRAS

Imaginemos um pequeno país da Europa do Sul, com pouco mais de dez milhões de habitantes. Um país com uma história admirável que, aliada ao clima solarengo e à beleza da sua costa, atrai todos os anos milhões de turistas. Um país onde apesar dessas generosas divisas trazidas pelo turismo (que se somam às remessas da emigração), a economia é ainda frágil. E que, antes do grande alargamento a Leste em 2004, fazia parte do habitual trio dos mais pobres da União Europeia.

Imaginemos um país onde a Igreja tem uma tradição de grande influência, que só se libertou da ditadura em 1974 e que viu o seu processo de democratização legitimado pela integração europeia na década seguinte. Um país onde subsistem as desigualdades sociais, em que se calcula que um quinto da população seja pobre e onde os jovens, mesmo com estudos superiores, têm pela frente a ameaça do desemprego ou do trabalho precário com os famosos salários na casa dos 700 euros.

Imaginemos um país que se habituou a ser admirado pelas glórias do passado, mas que, num esforço de transmitir uma ideia de modernidade, organizou em 2004 uma grande competição desportiva internacional. Um país que nos últimos anos, graças em boa parte a um seleccionador estrangeiro, causou surpresa no mundo futebolístico e que exporta agora estrelas - a mais conhecida joga num clube que veste de vermelho.

Imaginemos um país membro da NATO, onde duas forças políticas (uma socialista, a outra conservadora) alternam há três décadas no Governo, mas que continua a ter um partido comunista que resistiu à queda do Muro de Berlim e obtém votações de 8%.

Se já respondeu Portugal, errou, mas não se desiluda. Podia perfeitamente ser. Na realidade trata-se da Grécia, um país que nos últimos dias tem sido assolado por uma vaga de violência que está a chocar a Europa. Depois de um grupo de jovens lançar pedras à polícia, e na resposta um agente ter matado um rapaz de 15 anos, a revolta saiu à rua em Atenas. E na contestação, com destruição de lojas e bancos e carros, juntaram-se todos os descontentes, desde os anarquistas aos sindicatos, passando por muita gente nova que não vê perspectivas de emprego e aqueles que culpam o Governo conservador pela crise. No caos, houve até quem usasse a imaginação para ganhar dinheiro: há jornalistas que viram jovens a vender pedras (três a um euro).

A Grécia, apesar das óbvias semelhanças, não é Portugal, e nada indica que exista um efeito de contágio de Atenas para Lisboa. Mas convém estar atento. Sobretudo aos tais 700 euros que se pagam hoje em muitos empregos para licenciados (para os outros ainda é pior, basta ver os classificados dos jornais). É que 700 euros não dão para nada em Portugal. Mas na Grécia já pagam 2100 pedras.

Leonídio Paulo Ferreira in DN, 15 Dezembro 2008

Banksy XV

domingo, dezembro 14, 2008

Mais do que uma lágrima furtiva

Sal de substância, esta
que arde nos poros
da barba desta manhã.

Escorrem certeiras pelo riacho abaixo
em direcção
a algo um pouco mais
sob a forma de Coração.

Ao nome de rocha não responde.
Ainda.
Embora, não tarda.
A não compreender os sinais que varrem o seu mundo.

Não há projectos de uma assinatura só.
Há só uma assinatura
num projecto a longo prazo.

E se a dúvida se instala
a cada socalco
que frio escorre a cara.
Pensa, lembra, age…
Hoje já é o amanhã de ontem.
E cada dia um dia mais. Uma vitória mais.

Não há lágrima furtiva que venha por bem.
Elas vêm sempre com fantasmas e medos por trás. Trazem memórias dolorosas. Recordações angustiantes.
E nem as tuas palavras, quase-meigas, as controlam.

Hoje não há sono
pela frente. Desculpa.
Há toda uma hora de horas para pensar na última hora.
E repensar.
Há reconquistar e reconstruir
os castelos feitos lembranças.

Espero um toque do outro lado
porque deste,
há,
apenas um só...

Banksy XIV

sábado, dezembro 13, 2008

Maio 68 e Atenas 2008 - pontos de contacto?

Parar um país, queimar carros e atacar as lojas, 'bora' dar cabo da Grécia é capaz de ser uma boa ideia. Conheço pouco do país, só lá estive num momento de festa (Jogos Olímpicos) e não sei se aquilo merece ou não ser derrubado. À partida não me parece. Melhor nível de vida que Portugal, eleições, há décadas, nos prazos previstos, não me parece exactamente o Zimbabwe... Mas posso acreditar que sim, talvez haja um Mugabe em Atenas - é tanta a convicção dos jovens e dos sindicatos nas ruas que só pode. Esse é um pressuposto justo para luta: um tirano, um governo iníquo, muito Esparta e pouco Atenas. Mas se é assim, diga-se. Ninguém o diz. Agora, ver os sindicatos gregos com bandeirolas "contra o assassínio a sangue-frio do jovem Alexander" e daí exigirem o fim dos despedimentos e mais dinheiro do Governo para a Saúde e Educação, dá para perguntar: o que tem o cu a ver com as calças? Um polícia atirou para o ar, a bala fez ricochete e matou um jovem é uma situação que merece que o polícia seja julgado. É o que está acontecer. A justiça grega tranquiliza-me. Assim me tranquilizasse a polícia grega acabando com a bandalheira nas ruas.

Ferreira Fernandes in DN, 11 Dezembro 2008

Chronologiquement, les premiers à s'être mobilisés ont été les "anarchistes". Une heure et demie seulement après la mort d'Alexandre Grigoropoulos, 15 ans, tué par un policier le 6 décembre, ils ont démarré les premières violences. Le drame a eu lieu dans leur fief, le quartier d'Exarchia. Cagoulés, habillés en noir, ce sont eux, pour l'essentiel, chaque jour, les chefs d'État-major de la guérilla urbaine dans les rues de la capitale. Leur QG est à l'université polytechnique (Le Monde du 10 décembre).

Le Monde, 11 Setembro 2008

Mercredi soir à Barcelone, près de 400 jeunes, dont un grand nombre d'origine grecque, ont défilé à partir de 21 heures avec des pancartes afin de protester contre la mort du jeune Grec, certains brûlant du mobilier urbain ou attaquant des agences bancaires. A la suite d'affrontements avec la police, deux manifestants, dont une jeune fille d'origine grecque, ont été arrêtés et deux policiers légèrement blessés. La tension a été plus vive à Madrid, où quelque 200 jeunes ont attaqué un commissariat du centre-ville, près de la Gran Via, brisant les vitres aux cris de "police assassine !", selon le quotidien El Mundo. Plusieurs policiers auraient été blessés. La police anti-émeute est intervenue, arrêtant cinq manifestants, avant de poursuivre les protestataires dans les rues alentour et d'en arrêter quatre autres après que des conteneurs ont été brûlés et une agence bancaire criblée de pierres dans le centre-ville, selon un responsable de la police.

Des incidents similaires se sont par ailleurs produits en Italie, lors de manifestations à Rome et à Bologne. A Sofia, en Bulgarie, des manifestants se sont aussi rassemblés devant l'ambassade de Grèce en signe de protestation. En France, deux véhicules ont été incendiés dans la nuit devant le consulat de Grèce, à Bordeaux, dont la porte a été endommagée. Les inscriptions "soutien aux incendies en Grèce" et "insurrection à venir" ont été retrouvées sur la porte d'un garage attenant.

Le Monde, 11 Dezembro 2008

Haverá mesmo coincidências? No ano em que se comemoram os 40 anos do Maio de 68 eis que surgem dos mais violentos confrontos sociais numa democracia europeia das ultimas décadas. Mais do que isso eles alastraram-se a vários sectores da sociedade e mesmo a outros países contíguos. Será que tal como na Paris de 1968 estaremos perante um novo momento de consciencialização social de jovens e outras franjas da sociedade?
Se fizermos uma análise com maior atenção e pormenor apercebemo-nos desde logo que existem diferentes motivos por detrás destas manifestações e movimentações sociais, e que alguns deles são muito pouco inocentes.
Se por um lado, parece evidente que os jovens atenienses e gregos sofrem o mesmo que portugueses, franceses ou espanhóis... são as já famosas gerações 1000 euros e afins... os que vivem até mais tarde em casa dos pais e sobrevivem com empregos precários em call-centers... Por outro lado, parece mais que óbvio que não serão estes jovens que vão para a rua atacar policias com a cara tapada e armas brancas.
Ou seja, tal como nos encontros dos Fóruns Sociais Mundiais, há um aproveitamento politico de alguns movimentos de extrema esquerda militarizada e anarquistas deste descontentamento para ganharem força e adeptos nas ruas.
A acreditar que a crise mundial na politica, economia e finanças é real e está a mexer com a sociedade, não nos devemos por isso agarrar às manifestações violentas de Atenas mas sim à emergência de movimentos artísticos engajados politicamente, à difusão de blogs e sites com criticas e alternativas politicas, à massiva participação de jovens na eleição do ultimo presidente dos EUA... Porque a politica está aí fora... em todo o lado... nas paredes de Banksy e no teu próprio "jardim".

Banksy XIII

sexta-feira, dezembro 12, 2008

@ work

Epígrafe

A sala do castelo é deserta e espelhada.

Tenho medo de Mim. Quem sou? De onde cheguei?...
Aqui, tudo já foi... Em sombra estilizada,
A cor morreu - e até o ar é uma ruína...
Vem de Outro tempo a luz que me ilumina -
Um som opaco me dilui em Rei...

Mário de Sá-Carneiro

Banksy XII

mais achas para a fogueira...

Olhem que não, stôres

Como toda a gente com um mail público, recebo ultimamente muitos mails assinados por professores. Um dos últimos que recebi, "o professor do ano não é o da ministra", é uma espécie de elegia, com frases como "Professor do ano foi aquele que, com depressão profunda, persistiu em ensinar o melhor que sabia e conseguia os seus 80 alunos"; "aquela que tinha cancro e deu as suas aulas até morrer". Ou estas: "aquela que teve 5 turmas e 3 níveis diferentes"; "aquele que fez mestrado suportando todos os custos e sacrificando todos os fins-de-semana com a família"; "aquele que sacrificou os intervalos e as horas de refeição para tirar mais umas dúvidas". E ainda estas: "aquele que encontrou forças para motivar os alunos depois de ser indignamente tratado pelos seus superiores do ME"; "aquele que se manifestou ao sábado sacrificando um direito para preservar os seus alunos".

A mistura entre situações tão diversas e desconexas como um martírio relacionado com uma doença (que, a existir, só pode ser tratado como excepcional), ocorrências normalíssimas (que terá de especial ter cinco turmas de três níveis? Ou fazer um mestrado do seu bolso e no seu tempo livre?) e a obrigação de não prejudicar os alunos devido à exasperação com o ministério ou a decisão de escolher um sábado para uma manifestação é muito eloquente quanto à visão que muitos professores terão de si e do que a sociedade lhes deve. Lêem-se estas frases e fica-se com a sensação de que os que as escreveram e os que nelas se revêem se acham incrivelmente sacrificados e maltratados, e se encaram como missionários sem par no mundo do trabalho. Esta trapalhada, que não chega a ser um argumento, é o caldo de cultura do conflito que opõe a classe (se se pode falar de uma oposição da classe) ao ministério. Um caldo que ignora factos como o de que a comparação entre o tempo total de trabalho, o ratio professor/aluno e o nível salarial dos professores portugueses com os seus congéneres europeus (e não só) é, de acordo com um recente relatório da OCDE sobre educação (Setembro de 2008), muito favorável.

A nível do ensino básico, o ratio professor/estudante é de um para 11, abaixo da média da OCDE (16); e no secundário é o mesmo, também abaixo da média (13) - com a curiosidade de no privado haver um ratio superior. Sendo um dos países da OCDE com menor PIB per capita, Portugal está, nesse grupo, entre os que melhor paga aos professores. Por outro lado, se os professores portugueses em início de carreira estão entre os mais mal pagos da OCDE (em termos de poder de compra comparativo), a partir de 15 anos de carreira sobem na escala, ultrapassando a Suécia, a Itália e a Noruega, e no topo estão ao nível dos salários dos seus congéneres alemães e finlandeses, acima da Dinamarca, do Reino Unido e da França. Por fim, o tempo total de trabalho exigido aos professores portugueses (1440 horas/ano) está mais de 250 horas abaixo da média da OCDE. Dificilmente o retrato de uma classe mártir e explorada. Antes pelo contrário.

Fernanda Câncio in DN, 12 Dezembro 2008

Banksy XI

quarta-feira, dezembro 10, 2008

boas ideias na net

...encontra-se online há já alguns dias um novo blog (link)cheio de dicas úteis... porque ser "jovem não é um posto". Aqui fica O manifesto dos Borlistas!

Tudo surgiu numa tarde de outono. Estava frio. Casacos, cachecóis, galochas(oh nádia não choveu!), três jovens estudantes vêem-se confrontados com a crise actual, minto, na realidade não é algo que confrontam apenas na actualidade, consideram-se pioneiros da pobreza estudantil. Revoltam-se contra o capitalismo do mundo actual, no momento em que vêem, cada vez mais fechadas as portas da exploração, por entraves económicos,do conhecimento intelectual, cultural, histórico, enfim, o conhecimento de qualquer arte/ciência/informação existente e pronta a ser descoberta e explorada, que sentimos ser algo de carácter público, aberto a tudo e todos de forma gratuita, mas que não o é. É nessa tarde que nasce o movimento Reclama de Borla, um movimento na cidade de Lisboa, com o intuito de frequentar instituições públicas ou privadas de BORLA, museus, espectáculos, etc. Inaugurações repletas de comida e bebida completamente de BORLA. Festas de BORLA. Eventos de BORLA. Da cultura ao lazer tudo de BORLA. Se o máximo que nos oferecem é 15% de desconto, então vamos buscar a algum lado os restantes 85%. Não há um dia gratuito anualmente, aberto a todos? então vamos reclamar e torna-lo uma realidade futura. Se nos fecham a porta principal, então entramos pela porta das traseiras. SE NÃO É DE BORLA, e sentes de alguma forma que assim o deveria ser, então pede o livro de reclamações e RECLAMA!

Vamos eliminar os entraves ao conhecimento em Lisboa. Este é o teu guia de Lisboa, onde encontrarás tudo e mais alguma coisa que seja gratuita, de BORLA.

"Se é visível, então é público"

Banksy X

terça-feira, dezembro 09, 2008

as outras palavras por dizer

tenta ver nos silêncios algo mais do que não-palavras...
sou um mudo de escolha,
não de desistência, abandono ou desespero.

tenta ver que há tempos partilhados que valem mais do que parecem no ecrã...
mesmo quando este tem sempre o mesmo toque de telemóvel,
ou o mesmo ambiente de trabalho.

tenta ver em cada gesto simples...
uma história de três anos escrita num braille privado e intimo
que só nós conhecemos o fim.

tenta ver que sorrir...
ainda é a cor mais bonita nas manhãs deste tão difícil Inverno.

tenta ver...
que estou aqui
como ontem,
há um mês,
há um ano...
há tanto mais do que nos conhecemos...

Banksy IX

our day

0.1 0.2 0.3 0.4 0.5 0.6 0.7 0.8 0.9 0.10 0.11 1.0 1.1 1.2 1.3 1.4 1.5 1.6 1.7 1.8 1.9 1.10 1.11 2.0 2.1 2.2 2.3 2.4 2.5 2.6 2.7 2.8 2.9 2.10 2.11 3.0 3.1

Banksy VIII

Isto é um partido ou um filme de terror?

Se o PSD fosse um filme de terror seria daqueles tão implausíveis que passaríamos o tempo todo a ridicularizar o realizador: "Mas como é possível que ele queira que nós acreditemos nisto?" Por mim, mais depressa me convencia de que metade da humanidade era composta por marcianos disfarçados do que julgava crível que o maior partido de oposição fosse capaz de acumular tantas asneiras em tão curto espaço de tempo, ao ponto de desbaratar a única verdadeira oportunidade que tinha frente a José Sócrates - a interminável guerra com os professores.

É tal a balbúrdia e o amadorismo que uma pessoa nem sabe sobre que matéria é mais premente verter as lágrimas. Ora vejamos. Hei-de deprimir-me com um partido cujos deputados passam o tempo todo a fazer figura de corpo presente nas votações e logo na única vez em que podiam ser relevantes não aparecem no hemiciclo? Hei-de deprimir-me com o facto de a organização do PSD estar ao nível de um grupo recreativo de junta de freguesia? Hei- -de deprimir-me com o desprestígio dos nossos tristes tribunos, cuja dedicação à causa pública é tanta que numa altura de crise entendem que se os portugueses têm direito a um fim-de-semana prolongado então eles têm direito a um fim-de-semana prolongadíssimo? Hei-de deprimir-me com Manuela Ferreira Leite, por a coisa estar a chegar a um ponto em que até Jesus Cristo se deve ter divertido mais na via sacra? Ou hei-de antes deprimir-me com aqueles que acham que este é um caso revelador da sua falta de autoridade no partido, como se a função de um líder do PSD fosse de mestre-escola, sublinhando às 75 criancinhas que amestra no Parlamento a importância de fazerem o trabalho de casa?

Uma pessoa sente-se como um daqueles acidentados que têm tantos ossos partidos que já nem sabem onde lhes dói. O que eu sei, de ciência certa, é que não pode ser nada bom estarmos enfiados numa das maiores crises mundiais, termos uma das mais importantes classes do País com vontade de esganar o primeiro-ministro, vermos os sindicatos a ganharem uma força que já não tinham há 20 anos, e cada sondagem que vem para a rua continuar a colocar o Partido Socialista à beira da maioria absoluta. Quando José Sócrates se torna numa inevitabilidade nacional, o único timoneiro capaz de manobrar o barco, ó meus amigos: mais vale apagar a luz e fechar a porta. E escusam de me perguntar por soluções, OK? Eu também já tenho um torcicolo de tanto girar a cabeça sem vislumbrar alternativa. Bem vistas as coisas, talvez o melhor seja mesmo chorar por causa disto. Alguém me alcance os lenços de papel, se faz favor.

João Miguel Tavares in DN, 9 Dezembro 2008

segunda-feira, dezembro 08, 2008

Banksy VII

óbito

O escritor e jornalista António Alçada Baptista morreu esta tarde, em Lisboa, aos 81 anos. O "escritor de afectos", "com uma sensibilidade feminina", como um dia disse de si próprio, deixa uma vasta obra na área da ficção e ensaio e uma imagem de defensor da liberdade e dos direitos do homem, como frisaram hoje a escritora Inês Pedrosa ou o deputado socialista Manuel Alegre.
Nasceu em 1927 na Covilhã. Licenciado em Direito pela Universidade de Lisboa, Alçada Baptista, que apenas exerceu advocacia entre 1950 e 1957, tem uma vasta obra literária publicada. Esteve também ligado ao jornalismo e à edição. Foi ainda cronista.

in Público, 7 Dezembro 2008

sábado, dezembro 06, 2008

Banksy VI

No-good blues

I tried to hide in Proust,
Mallarme, & Camus,
but the no-good blues
come looking for me. Yeah,
come sliding in like good love
on a tongue of grease & sham,
built up from the ground.

…I rhyme Baudelaire
with Appolonaire, hurting
to get beyond crossroads & goofer
dust, outrunning a twelve-bar
pulse-beat. But I pick up
a hitchhiker outside Jackson.
Tasseled boots & skin-tight
jeans. You know the rest.


Yusef Komunyakaa

sexta-feira, dezembro 05, 2008

Banksy V

Golegã - uma viagem a outro Portugal

Antes de mais, refira-se que a Golegã é um pequeno concelho com 76,49 km² e 5 589 habitantes (segundo INE 2006), implantado em plena lezíria ribatejana, fazendo fronteira com o concelho da Chamusca, Santarém, Vila Nova da Barquinha, Torres Novas e Entrocamento. Visto deste prisma parece um pequeno e pacato concelho ribatejano, mas há um facto que lhe confere uma especificidade: auto-intitula-se a Capital do Cavalo.

E a verdade é que tudo gira em volta do dito animal, como uma verdadeira "Equus Polis". Há vias reservadas aos ditos animais, há imensos dejectos de cavalo pelo chão, há cudelarias e boutiques de roupas do género, toda a sinaléctica da vila tem um cavalo embutido, os mitras [gunas para quem nos ler do Porto e arredores/xavelhas para quem nos ler da Madeira] mesmo tendo as habituais Nike até usam o bonézinho à campino, existem inclusivé uma espécie de "skate park" que aqui adquire o nome de "equus park"...

A vilazinha pese todas estas especificidades, vive na sua pacatez, até meados de Novembro, altura em que se realiza a tradicional Feira de S. Martinho [segundo sítio da câmara local, já se realiza desde o séc. XVI], à qual se juntou nos últimos anos a realização da Feira Nacional do Cavalo Lusitano e a Feira Internacional do Cavalo Lusitano. Por estas alturas, a Golegã enche-se, numa feira onde as ruas ficam pejadas de cavalos, pessoas e bosta...muita bosta!
É uma semana onde só se ouve cascos de cavalo pelas ruas, onde os cavalos entram pelas lojas [p.e. ver cavalos a ter prioridade na entrada de bares em vez de pessoas foi das coisas mais surreais que assisti], onde as pessoas que lá se deslocam vibram mesmo com os cavalos e com o horseball, com muita água-pé a sair dos barris das garagens locais...

Até aqui tudo bem e facilmente digerível por uma pessoa de espírito aberto, como penso ser. O pior são as diferenças existentes entre este Portugal marialva que julgava ser uma caricatura distante e o Portugal das metrópoles ao qual estamos habituados. É que meus amigos, as diferenças são imensas e os códigos também o são.

(to be continued...)

Aires via Bobina e Desbobina

quinta-feira, dezembro 04, 2008

Jimmy

Acabo de descobrir os Moriarty, grupo franco-americano, com este seu single Jimmy... eles que até tiveram em Sines este ano...

Banksy IV

A mão escreve na mente: a flecha

a mão escreve na mente: a flecha
que viaja no papel a rosa dos ventos:
a clave do sol; la clef des jardins;

a chave como um comboio de criança
passando num pátio com palmeira, entre
o crepúsculo branco e a manhã vermelha;

a cidade crescera como os arcos das ondas
ao encontro das aéreas construções das nuvens;
a meio caminho triângulos acesos ondeavam

e a terra recordava-se murmurante
das raízes das árvores eléctricas
em cujos ramos brilhavam os peixes
profundos.

Nem com setas habitarias tal pátria
e por isso as pões na pintura que delira
e desenhas uma fairy queen: um canto

árabe uma princesa árabe escrita em sarapilheira
e aureolada pelo napalm; a floresta em construção
multiplica a lua cheia pelas paliçadas lacustres;

os barcos navegam uma noite branca
que se ergue como um monte iluminado
por monstruosas flores irregulares

em cruz e em espiral à tua espera

Manuel Gusmão

quarta-feira, dezembro 03, 2008

É oficial: Obama é americano!

Na noite das presidenciais, o humorista Steve Colbert virou- -se para um antigo professor, em Harvard, de Barack Obama e perguntou-lhe: "Então, como vai ser o socialismo?" Colbert é humorista, pode fingir ingenuidades tolas. Mais a sério, mas menos avisado, houve por cá um espanto por Obama ter escolhido, para a segurança e política externa, uma equipa musculada. Hillary Clinton, na Secretaria de Estado, Robert Gates, que passa do governo de Bush para o mesmo posto na Defesa, e o general Jim Jones, que foi comandante supremo da OTAN, para conselheiro principal de Segurança... Colbert perguntaria: "Então, não era o Dalai Lama para a Segurança? E o Michael Moore não ia ser promovido a general, para filmar a retirada das tropas do Iraque? E o Bono?..." Mas não, é oficial: o Presidente eleito vai tentar a todo o custo defender a América. Que coisa mais surpreendente! Querem ver que quando Obama dizia que queria matar (ele disse: matar) o Ben Laden era mesmo a sério?! Olha, esta era uma piada de outro humorista, Jon Stewart, na noite das presidenciais. Os humoristas americanos estão várias semanas à frente de alguns comentadores portugueses.

Ferreira Fernandes in DN, 3 Dezembro 2008

obs: A partir deste artigo e do post "E se Obama fosse africano?" no Raizes com Letras acho importante reafirmar que fui dos que achou desde o primeiro momento que Obama teria muito a dar à América e ao Mundo através da sua imagem, das suas raízes, até das suas propostas políticas... mas é aí que a questão se torna mais interessante... como Ferreira Fernandes aponta neste artigo e como já havia sido afirmado por diversos nomes da intelectualidade "direitista" portuguesa, Obama apesar de tudo é americano e como tal obedece a um imaginário onde os EUA continuam a ser o centro do Mundo... para o bem e para o mal... vamos deixa-lo trabalhar em calma nos próximos anos... mas nunca esquecendo que primeiro que tudo ele vai-se preocupar com a América. É que só depende de cada pessoa, estado ou continente limpar o seu próprio quintal... e como Mia Couto afirma "Só há um modo verdadeiro de celebrar Obama nos países africanos: é lutar para que mais bandeiras de esperança possam nascer aqui, no nosso continente."

sentemo-nos um pouco...

as excepções imunitárias

Imunidade bancária

A crise financeira internacional decretou uma excepção na lei das falências: os bancos ficam excluídos. Em nome da protecção dos depositantes e da estabilidade sistémica (ou até do "bom nome financeiro do País", como alguém disse entre nós a propósito do BPP...), os Governos garantiram a estabilidade bancária, seja pela injecção de dinheiro público nos bancos ou por meio de garantias públicas. Assim salvaram não somente o dinheiro dos depositantes (que sempre teriam o seguro de depósitos, embora limitado), mas também o dos acccionistas, que o perderiam em caso de falência.
Doravante, portanto, os investimentos em bancos deixaram de estar expostos ao mais importante risco de uma economia de marcado, o risco do negócio. Quando as coisas correrem mal, o Estado vem salvar. Há assim um seguro implícito contra a falência na actividade bancária. Ao menos não seria justo que esse valioso seguro fosse compensado através de mais estrita supervisão e de maiores impostos sobre os lucros e os dividendos, do que as actividades económicas que não gozam de tal privilégio?

Vital Moreira in Causa Nossa

...do exercício 1

E um ecfonema depois daquele
ósculo que trocámos no metro,
no fluxo diário dum vai-vém próximo...

Eu era um áulico duma
carniçaria que faz
medrar a
Quaresma em cada um dos velhos da praceta.

Eu era um sifilítico duma duença de Amor que se propaga
nos sonhos duns e na morte doutros.

Eu era um homónimo do pintor, professor, calceteiro
e florista do bairro.

Eu era um malho,
daqueles,
dos duelos antigos.
Dos que ainda passam na tua TV a preto-e-branco.

E se pela bruma afora me dizes que o beijo foi lá atrás.

Que a cinética de hoje é outra.
Que o beijo flutuante daquela viagem ficou guardado no fechar das portas.
Então,
desculpa,
que passivo, não fico.
Que não deixo desta vez
o salva-vidas encostado à parede.
Que hoje tenho ganas de ser o teu único
convocado.

Obrigado, Miguel

Caro Miguel (não sei se é assim que te chamas),

Não me conheces e por isso não sabes que no dia 1 de Dezembro também estive no Estádio da Luz, no sector 23. Não saberás também que nesse dia levei pedagogicamente comigo a Caetana. Não interessa o sentido exacto do advérbio, importa apenas que a levei e que a levei pedagogicamente, porque há prelecções que, de tão grandes, passam por cima de muros, ainda que estes sejam muito altos e cravejados de vidros cortantes, como é o caso. Mas disto, de ensinar, saberás tu, não é, Miguel? Era um jogo importante, um jogo para o primeiro lugar. Os outros chamavam-se Vitória, mas a águia que voou no início com esse nome era nossa, tal como a vitória no final do jogo não podia senão ser nossa também, tal como aliás o primeiro lugar deveria ser também nosso, se houvesse justiça. Não há, e tu, do alto dos teus oito anos, não sabes que não há, e ainda bem que ainda não sabes, porque assim as derrotas e os empates são só derrotas e empates, não são derrotas e empates com sabor a outra coisa que não a superioridade do adversário.
Estávamos gelados, naquele sector 23, lembras-te? Ainda assim, lá fui batendo palmas, que é a único som não desafinado que consigo fazer. Se me tivesses conseguido ouvir, terias percebido como isto é verdade, e eu escusaria a explicação. Não ouviste, fica dada a explicação. Na primeira parte, o nosso Benfica foi fraquito, Miguel, mas suponho que não devas ter passado muito tempo sentado, porque a primeira vez que te vi estavas de pé, a tapar elegantemente a vista a quem estava atrás de ti, e a tua mãe (era a tua mãe?) puxava-te vigorosamente para baixo, para te sentares. Tu ignoravas a tua mãe e gesticulavas para dentro do campo, como se fossem aqueles os teus pupilos (e talvez não estivesses longe da verdade). Eu levei uma pupila também, e ainda assim não consegui gesticular para ela com essa expressiva harmonia.
E agora peço-te desculpa, Miguel, por me ter lembrado do jogo com o Penafiel a propósito do que estavas a fazer. Nesse jogo da Taça, havia na minha fila um puto, mais ou menos da tua idade, a quem deram um apito. Tu não saberás, mas um puto com um apito na boca consegue ser mais irritante que os adeptos benfiquistas com tendência crónica para a maledicência (do género daqueles que virão vociferar com caps lock para a caixinha dos comentários deste post). O puto sentava-se e levantava-se aleatoriamente, nem estava a prestar atenção ao jogo, mas não largava o apito. Então, num momento de silêncio, sentou-se e esqueceu-se de que a cadeira recolhe automaticamente, e a única coisa que se ouviu fui o ruído seco do puto a cair no chão. Rimos de satisfação e o apito não se voltou a ouvir, porque, além de ter caído no chão, o puto ainda apanhou dois tabefes da mãe. Peço-te desculpa, mas eu quis que isto te acontecesse, sobretudo porque tu tinhas a mania de te voltares para nós (mas não aleatoriamente, o que só percebi depois) e gesticulares também. Quando foi do golo dos outros, visto do meu lugar, foste insuportável. Bateste palmas, gesticulaste, saltaste, tiraste o gorro e a tua mãe teve se levantar para te sentares durante dois segundos. E foi então que te viraste para nós e pediste claramente apoio para o Benfica. Nitidamente. Como saberás, não compreendi exactamente o que estavas a querer dizer. Mas há gestos e expressões, como as tuas naquele dia, que as palavras só atrapalham, e por isso não precisei de te escutar. E só então é que percebi que, ao longo de todo aquele tempo, estiveste sempre a pedir apoio para o Benfica. Sempre, sempre. E isso tornou-te um pouco menos irritante, Miguel. Quando começou a segunda parte, lá estavas tu a gesticular, enquanto toda a bancada estava sentada, gelada e amuada. Que irritante, Miguel, só faltou teres um apito na boca! A equipa estava a jogar mal, caramba! E o teu apoio frenético começava a chatear-me, porque me parecia deslocado, excessivo.
A distância a que estava, com a histeria que é para mim um golo do Benfica e com a celebração com a Caetana, não te consegui ver depois de o Katsouranis ter marcado o golo. Mas, depois da euforia, com uma face confiante, lá estavas tu virado para trás, quase ignorando o jogo, a pedir apoio freneticamente. Como fizeste, pelo menos, desde que te vi a primeira vez (apercebo-me agora). Veio o segundo golo, ficaste eufórico, a tua mãe continuava a puxar-te para baixo e tu só te querias voltar para trás para bater palmas para nós. Para bater palmas para nós?
Foi só então que percebi que eras surdo-mudo. Fiquei mudo, claro, e não soube o que fazer com as mãos, como me acontece ordinariamente quando alguém me reconcilia com a minha vida. Apresentei-te, a distância, à Caetana, e a partir daí cantámos ambos horrivelmente (nisso eu e a Caetana somos parecidos, ainda que eu não a tenha ouvido porque estava a gritar por mim e por ti), batemos palmas, levantámo-nos, gritámos Benfica, apoiámos com todas as desarranjadas cordas vocais que temos, desafinámos, devemos ter feito uma figura ridícula. Mas como podíamos nós fazer outra coisa que não aquela? Como podíamos nós responder de outro modo ao teu apelo? O que podíamos nós fazer diante da tua grandeza? Não foste irritante, Miguel, desculpa. Apenas nos pediste que fizéssemos o que tu não podes, infelizmente, fazer: apoiar o teu clube gritando. Deves ter pensado, com razão, “Dá Deus voz…”.
Peço-te desculpa, Miguel, porque, quando te voltaste para trás desesperado (e é dessa expressão que eu não me hei-de esquecer nunca) a pedir apoio depois de os outros terem marcado o golo do empate, eu estava incrédulo com o Quim e a Caetana desanimada, e não, Miguel, nesse momento não apoiámos. Mas apoiámos depois, naqueles três minutos quase não nos sentámos. Por nós e por ti.
Quando acabou o jogo, Miguel, a tua mãe levou-te. Alguns adeptos já se tinham ido embora. Mas quero que saibas que eu e a Caetana ficámos os dois de pé – os únicos na nossa fila – a aplaudir os jogadores, ainda que à nossa volta se vaiasse a equipa. O Luís de Sttau Monteiro escreveu um dia que “Há homens que obrigam todos os outros homens a reverem-se por dentro”. Tu és daqueles benfiquistas honestamente hiperbólicos que nos obrigam a revermo-nos por dentro. Comigo e com a Caetana foi isso que aconteceu.
Naquele dia, podia ter chegado a casa e ter escrito um comentário a crucificar o Quim. Não fui capaz, Miguel, porque não consegui sentir-me revoltado. Triste sim, mas não revoltado. E a culpa foi tua – não podias ser um puto banal, um puto chato, um puto que não me tivesse tirado o protagonismo pedagógico junto da Caetana? Depois de ti, que lhe posso eu ensinar? Não podias ser um puto mimado, daqueles que ao intervalo precisam de coca-cola e gelados e cachorros e doces, em vez de seres um puto surdo-mudo de óculos e gorro a gesticular para o relvado da Luz? É que assim não vinha eu para casa com a certeza de que nada se ouviu mais alto naquele estádio naquela noite do que o teu silêncio, nem ninguém, por mais que tenha gritado e vociferado (mesmo aqueles que espumavam ofensas ao Quim) ensinou melhor a Caetana. As palmas no final, caro Miguel, as minhas e as da Caetana, que tu já não viste, eram para ti e para os jogadores, porque ao contrário daquele adepto que me perguntou por que razão estava eu a bater palmas (de uma maneira rude, com cuspo e espuma na boca à mistura) eu tenho sempre de aplaudir aqueles senhores, ainda que joguem mal, porque estão ao serviço de um clube que será sempre maior que eles, e, é verdade, não consegui esquecer-me de ti e da mestria da tua lição de apoio ao Benfica: façamos nós, os que lá vamos, pelo menos o pouco que muitos não podem fazer – apoiar. E voltámos para casa, a Caetana um pouco maior, eu indescritivelmente pequeno.
Obrigado, Miguel.
Pedro Valente in Tertúlia Benfiquista

obs: por vezes no meio do desporto, da paixão louca do futebol e dos blogs fanáticos que a rodeiam encontram-se pérolas como esta...

Banksy III

terça-feira, dezembro 02, 2008

Acordo ortográfico e Educação

... vários meses depois de a ter colocado... penso que está mais do que na hora de terminar com a sondagem sobre o acordo ortográfico... e a vitória do Não foi mais do que significativa. Num total de 47 votantes foram 33 os que deram resposta negativa, numa percentagem que se cifrou nos 70%. Por outro lado apenas 14, ou seja 30%, consideraram que poderá haver algo de vantajoso com o novo acordo ortográfico. Infelizmente, não houve discussão nem comentários como gostaria... paciência... fica para a próxima...

Nesta nova sondagem o tema é simples... Educação em Portugal - quem tem razão? A Ministra da Educação? Os professores? Os sindicatos? Ninguém?
Num país onde regularmente encontramos péssimos resultados em termos de ensino apesar de ter um valor de investimento em percentagem superior a outros países, algo tem sido feito erradamente. São por isso necessárias reformas... ou não? Ou o atraso era tão grande que é por isso necessário ainda mais investimento?
Num país onde os professores trabalham mais horas em actividades burocráticas e de escritório do que noutros, os alunos têm que ficar a perder... ou não? Ou há professores que escondem a sua inércia atrás de outros que trabalham a dobrar?
Num país onde os sindicatos têm um poder de adesão incomparavelmente superior ao de outros sectores é porque os dirigentes são bons e conseguem resultados. Ou são apenas indivíduos acomodados ás suas posições e regalias que não trabalham como professores há anos e já não conhecem a realidade de trabalho dos professores por este país fora?
Ou será que a culpa não é de ninguém, e temos é que assobiar para o lado e esperar que tudo melhore por um mero acaso?

Banksy II

segunda-feira, dezembro 01, 2008

La Stanza Del Figlio


Brian Eno - By this river

...mínimas contemporâneas...

Quando o banqueiro é pedinte é porque se espalhou no PSI-20...

Banksy I

quinta-feira, novembro 27, 2008

Callema - 05


















Sob o título A FENDA DO TEMPO E DO TEXTO, o novíssimo número da revista Callema, a editar em Novembro próximo, deita mãos ao corpo e escangalha o penteado. Como no disco do Paulo Praça: sempre à cabeceira, matando devagarinho o que se vai fazendo do tempo. Edição e revistas literárias em conversa franca.

Com colaboração de Rodrigo Miragaia, José Carlos Marques, Paulo Serra, Silvina Rodrigues Lopes, Gastão Cruz, Luís Filipe Cristovão, Sónia Lopes, João Carlos Silva, Nuno Quintas, Marta Tomé, Silvia Otto, Pedro Lopes, Catarina Coelho, Paulo José Miranda, Styliani Voutsa, Hilarino Carlos Rodrigues da Luz, David de Medeiros Leite, Alexandre Morais, Mariana Ianelli, David Portales Moralejo, Fernando Cabral Martins, Pedro Marques, Nuno Seabra Lopes e Jorge Almeida. Editam Emília Pinto de Almeida, Pedro Relógio Fernandes, Rui Alberto, Ilídio J.B. Vasco, Nuno Guedes Silva e Hugo Milhanas Machado, com direcção de M. Tiago Paixão.

terça-feira, novembro 25, 2008

hoje passei no paraíso...

obs: Obrigado pela companhia nesta viagem e o apoio na entrevista, Alex!

Outubro em Novembro

Este mês veio a lume um novo blog... Outubro.

Outubro define-se como um blogue de reflexão política no campo do socialismo democrático, do trabalhismo e da social-democracia. Valorizando o confronto crítico, não se esgota nele, pelo que procurará contribuir para o desenvolvimento da reflexão sobre o desenho e a aplicação de novas e mais eficazes políticas públicas. Será, por isso, um espaço de discussão de ideias, de confronto de argumentos e de pensamento político. Com uma orientação cosmopolita, terá em conta os debates políticos noutros países e participará na internacionalização desses debates. Reconhecendo os ganhos que resultam de uma participação cívica alargada, estará aberto à participação dos leitores que enviem (para OutubroResPublica@gmail.com) comentários e textos que contribuam para os objectivos que nos propomos.

...Promete!

UM EXORCISTA PARA A SEDE DO PSD, POR FAVOR

Manuela Ferreira Leite, 2 de Julho de 2008: "A família tem por objectivo a procriação." Manuela Ferreira Leite, 1 de Novembro de 2008: "As grandes obras públicas só ajudam a combater o desemprego de Cabo Verde e da Ucrânia." Manuela Ferreira Leite, 12 de Novembro de 2008: "Não pode ser a comunicação social a seleccionar aquilo que transmite." Manuela Ferreira Leite, 17 de Novembro de 2008: "Não sei se a certa altura não é bom haver seis meses sem democracia, mete-se tudo na ordem e depois então venha a democracia."

Como diria o engenheiro Guterres, é fazer as contas: só nos últimos 15 dias, Manuela Ferreira Leite proferiu três frases incompatíveis com um mínimo de sentido de Estado, já para não dizer de flagrante incómodo com as mais elementares regras democráticas. Sobre todos esses temas, o PSD veio depois esclarecer que aquilo que foi dito não era aquilo que Manuela Ferreira Leite queria dizer. Donde se conclui que Manuela Ferreira Leite teria grandes vantagens em se fazer acompanhar por um tradutor, de forma a solucionar o irritante desfasamento entre o seu cérebro e as suas cordas vocais. Manifestamente - atrever-me-ia mesmo a dizer "felizmente" -, o seu pensamento não coincide com as palavras que lhe saem da boca.

Dir-me-ão: mas onde está o seu sentido de humor, meu caro? Já não se pode ser irónico nesta terra? Poder, pode. Mas eu acho tão natural em Manuela Ferreira Leite o uso da ironia quanto o uso da minissaia. Não, aquilo não foi bem ironia. Aliás, aquilo nem sequer foi uma gafe. A gafe, por definição, é uma ocorrência rara. Quando deixa de ser rara, deixa de ser gafe. O que Manuela Ferreira Leite tem, afinal, é uma segunda natureza com uma inesperada propensão para o desastre, o que é tanto mais surpreendente quanto a sua imagem pública era de rigor, ascetismo, medição calculada das intervenções.

É por isso que a actual líder do PSD está a atingir níveis olímpicos de desilusão: a diferença entre aquilo que dela se esperava e aquilo que dela se está a ter é gigantesca. De Pedro Santana Lopes, nunca ninguém esperou muito. De Luís Filipe Menezes, ninguém espera nada. Mas Manuela Ferreira Leite era um caso diferente: vinha alcandorada de referência moral do PSD, de regeneradora da seriedade perdida, de férrea combatente do caos. Pacheco Pereira jurou pela biblioteca da Marmeleira que ela é que era. E, vai-se a ver, Manuela Ferreira Leite não só sucumbe ao velho cálculo político (a tentativa de moralização das listas iniciada por Marques Mendes já é uma miragem) como é um susto cada vez que abre a boca. Pobre PSD. Alguém envie um exorcista para a São Caetano à Lapa, se faz favor.

João Miguel Tavares in DN, 25 Novembro 2008