sábado, agosto 25, 2007

A "última crónica" de ontem...

Ai simplex!

Há momentos em que nos damos conta de que o Simplex, essa excelente e meritória iniciativa concebida por Maria Manuel Leitão Marques, está a funcionar, mas há outras em que choramos pela sua ausência, na expectativa de que um dia, não demasiado longínquo para a nossa esperança de vida, chegue. Dei-me conta disso ao acompanhar e mesmo participar no processo de legalização em Portugal de alguém que trabalha em minha casa há já algum tempo, e que, pelas suas capacidades profissionais, e sobretudo pelas suas qualidades humanas (como pude comprovar em período recente da minha existência) é pessoa de quem é fácil gostarmos: a brasileira Maria Nágila Bezerra, pessoa de permanente bom humor, que ri mesmo quando conta as mais terríveis tropelias a que possa ter sido sujeita.
Sucede que há algumas semanas atrás começou a não aparecer ou a chegar mais tarde. Não se tratava, como vim a saber, de deambulações existenciais por montes e vales, nem mesmo de acessos místicos, mas antes de razões infelizmente mais prosaicas: ia ao SEF. Rapidamente descobri que se tratava do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras. E pude compreender que o modo de funcionamento desta instituição nem sempre teria aquela perfeição que nós desejaríamos para um serviço público em área tão sensível como esta. Comprova-se que, se por vezes encontramos funcionários amáveis e colaborantes, desejosos de nos facilitar a vida, outras há em que nos confrontamos com pessoas stressadas e amarguradas pelo amarelo das paredes e os dramas conjugais para os quais quase nunca contribuímos mas de que pagamos as implacáveis consequências. Para ir ao SEF, a Nágila levantava-se antes de o Sol nascer para se deslocar de Alverca até Lisboa, onde, às portas do SEF, se organizava uma fila imensa de pessoas que esperavam cinco e seis horas para serem atendidas. E quem as atendia? Gente zangada com a vida que parecia ter uma especial volúpia em criar dificuldades: incapazes de explicarem tudo o que as pessoas precisavam de levar, incapazes de perceberem que as pessoas que atendiam tinham certas limitações na compreensão dos mecanismos burocráticos portugueses, descobriam sempre mais papéis que faltavam, o que obrigava a recomeçar tão exaltante peregrinação.
Tenho à minha frente o papel que acabou, ao cabo de porfiados esforços, por lhe ser dado e que, num português em que "há menos" se escreve "à menos", se intitula "Renovação de Autorização de Permanência Temporária para Trabalho subordinado", esclarecendo-se, para consolo das nossas almas, que é ao abrigo do art. 217, n.º 1, da Lei 23/207 de 04 de Julho. Que é preciso? Um passaporte válido, um comprovativo das condições de alojamento (contrato ou atestado da Junta de Freguesia), declaração do IRS e cópia da nota de liquidação relativa ao ano fiscal anterior, contrato de trabalho e declaração actualizada da entidade patronal a atestar o vínculo laboral, declaração da Segurança Social regularizada a confirmar os descontos efectuados, requerimento em impresso de modelo próprio (www.sef.pt) e duas fotografias. Com todas estas tarefas, por sucessivos dias, a Nágila deixou de aparecer. Andava por Alverca e Lisboa à procura de papéis - belo ideal de vida. Única vantagem: aprimorei a minha capacidade de fazer camas. E vou melhorando noutras tarefas domésticas.

Eduardo Prado Coelho in Público, 26 Agosto

quinta-feira, agosto 09, 2007

sexta-feira, agosto 03, 2007

composição de areia e mar



















Santiago Cacém, 2003

no sofá...

A loiça acumulava-se no lavatório. Estava sem paciência para a lavar agora. Nem na véspera, aliás. A música tocava baixo no computador, barato, comprado a prestações na loja do centro da vila. Lá fora passavam pessoas pela porta da rua e deixavam frases de fugida. Procurava, por vezes, juntar as suas ideias e pensar nelas como um conjunto, mas invariavelmente perdia-se nos seus pensamentos e despertava apenas com uma ou outra mosca mais chata e metediça.
Estendia e prolongava-se pelo sofá, feito gato velho que ronrona ao sol. A fresta da janela iluminava apenas o suficiente para ver os livros da biblioteca, e pensar em qual iria ler a seguir. Quase de certeza um russo, gostava deles. Também lera um francês há uns tempos que adorara. E havia também aquele japonês novo. Se calhar ficava-se mesmo por um português. Assim como assim.
Estava com alguma fome… já fazia algumas horas que não comia. Ou se calhar não. Agora que pensava devia ter sido há pouco tempo. Deveria de uma vez por todas comprar uma pilha nova para o relógio, assim já saberia há quanto tempo comera pela última vez. Mas devia mesmo ter sido há pouco tempo. Uma hora. No máximo. Talvez mais.
O jornal no chão, aberto nas primeiras páginas, com uma crónica avassaladora sobre algo que já não se lembrava bem. Mas que citaria nessa noite no café e faria furor. Como sempre.
Diziam que era uma voz respeitada na vila. Pudera! Fazia anos que vivia ali. E sempre estivera presente quando necessário, excepto na discussão sobre a localização da nova capela. Era um pouco avesso a isso das religiões. Mas também não o julgaram muito por isso. Havia coisas piores. Ai, isso havia de certeza, diziam as velhas entre dentes.
Agora já se fazia tarde. O sol já mal entrava na sala. Devia mesmo ver aquilo da pilha. É que chateava. Mas não muito.
Levantara-se, devagar, não fosse ter uma daquelas tonturas que a Dona Luzia lhe contara quando viera limpar o pó à casa. Na verdade, viera apenas conversar porque o pó, esse, ainda cá estava.
O CD no computador já terminara. E o silêncio estava a fazer-lhe cócegas nos dedos mindinhos, e mesmo alguma azia ali no estômago. Era por isso impreterível ouvir alguns ruídos de fundo e pensar noutras coisas menos escatológicas.
E voltar para o sofá. Que só assim o tempo passava… como sempre… ao ritmo das frases soltas das pessoas lá de fora… e assim… o tempo passava… como sempre.

quarta-feira, agosto 01, 2007

desporto & cinema

«MUNDOS PARALELOS»: OUTRO LADO DO FUTEBOL

Juliette Binoche. A importância de ser o centro do Mundo

Juliette Binoche. A importância de ser o centro do Mundo

Conta a actriz francesa Juliette Binoche que uma das raras vezes em que discutiu com um realizador foi quando, durante a rodagem de um filme, alguém lhe pediu, numa cena, para se deslocar um pouco para o lado de forma a poder ver-se um jarro que estava atrás. “Era só o que faltava comparares-me a um jarro. Se quiseres que ele se veja, levanta-te, pega nele e muda-o de lugar!”.
Não sei o que terá feito o realizador, mas com essa simples resposta, Binoche colocava, afinal, as coisas no seu devido lugar. Quem faz o filme é o actor, não a disposição dos adereços, por mais valiosos que estes sejam. Até os figurantes o entendem.
No futebol há muitos realizadores, isto é, muitos treinadores, que confundem o essencial e o acessório. Move-te antes para aquele espaço, para que o trinco possa entrar melhor pelo meio. Cuidado, porque ai eles tem um lateral durinho. Joga antes por dentro. Indicações e mais indicações. O jogador, em geral, até aceita, mas, no fundo, está suceder-lhe o mesmo que à bela Juliette. Dão-lhe a mesma importância de um objecto, quando, pelo contrário, devia ser ele, protagonista essencial, a ditar onde as outras peças, entenda-se jogadores, se deviam colocar. Não é só coreografia. São questões de personalidade.
Milla Jovovich. O segredo para fazer um «casting» de génios

Milla Jovovich. O segredo para fazer um «casting» de génios

Quando o realizador francês Luc Besson montou o seu filme de ficção científica «O quinto elemento», o anúncio para o casting dizia procurar «Mulher de beleza supraterrena e aparência cósmica» no horizonte de encontrar o ente humano perfeito e redentor.
A eleita acabou por ser uma ninfa de beleza perturbante com antepassados eslavos, nascida em Kiev da união entre uma actriz russa e um pediatra jugoslavo. Durante o tempo em que durou o simples abrir e fechar dos seus hipnóticos olhos azuis, Milla Jovovich descobriu as chaves do paraíso. Passou a desfilar felinamente a colecção Versace e no filme seguinte incorporou a vida de Joana D’Arc, a heroína francesa que ardeu na fogueira.
Com apenas duas décadas de vida, bastou outra forma de olhar para sentir o mundo a seus pés. Muitos são os que dizem que os povos apenas se limitam a construir heróis para, logo depois, os derrubar.
O Mundo do futebol também fica mais feliz quando descobre novos talentos. A pressa de descobrir novos heróis supra-terrenos e de aparência cósmica é enorme. Uma obsessão. Todas as grandes competições deviam ter no seu lançamento o mesmo anúncio que o filme de Besson. O problema é entender que, nos relvados, raramente esse «casting» de génios encontra um protagonista ideal para os modernos filmes de futebol.
«Poderosa Afrodite». Os momentos certos para sentir receio

«Poderosa Afrodite». Os momentos certos para sentir receio

No filme “Poderosa Afrodite” existe, a certa altura, uma cena em que a personagem de Woody Allen se assusta e foge de uma briga a toda a velocidade. A sua companheira, Mira Sovino, diz-lhe espantada: “Não quero acreditar que afinal sejas um cobarde!”.
Woody Allen fica embaraçado, mas responde-lhe: “Sim, bem, mas, na realidade, só em casos concretos…”
Durante um jogo de futebol é legitimo que qualquer equipa passe também por diferentes situações. Mesmo as mais poderosas. Numas cheias de confiança, noutras mais receosas. É normal. Numa pessoa, como num colectivo. O importante mesmo é definir bem quais os momentos concretos em que deve colocar o receio como catalizador das suas atitudes.
Em várias Ligas europeias desta época, questionou-se se o campeão deveu-se mais ao mérito próprio do que ao demérito do adversário. Existe a ideia de que a superioridade moral de um campeão só é possível jogando sempre bem, deslumbrando, sem medos. Não é verdade. Também há tempo para sentir medo. Faltam poucos minutos para o fim e ganha só por 1-0. Em vez de adornar com a bola, sai um chutão para a bancada.
“Não posso acreditar que aches bem teres feito isso”, dirão alguns.
“Bem, na verdade, só faço e casos concretos”, ouve-se como resposta.
O futebol tem, de facto, muitos rostos.
A construção de uma personagem, missão criativa

A construção de uma personagem, missão criativa

Leio uma entrevista de Penélope Cruz onde ela fala de como construir uma personagem, dar-lhe alma e captar bem a sua essência. Como o papel era de uma mulher de aspecto vulgar. Teve de construir a sua forma de andar. Como se trata uma emigrante albanesa em Itália, teve de estudar o idioma e o sotaque. Para o captar melhor, gravava tudo numa fita e ouvia, ouvia, repetia, repetia.
É uma construção conjunta com o realizador, mas tem muito de trabalho isolado. Solitário. Só buscando interpretações mais complexas e extremas é possível evoluir.
Um jogador de futebol também passa por processos semelhantes na construção da personagem que representa em campo. Trabalha com o treinador, mas depois há o trabalho solitário. Como ficar, após o treino, sozinho, a ensaiar remates. Livres, em arco ou no ângulo. Robert de Niro também dizia que na construção de qualquer personagem, primeiro era selvagem e excessivo. Só depois, preciso e controlado. O futebolista cada vez mais se afasta destes princípios. Altera-os, mesmo. E, com isso, deixa de fazer sentido, quer o papel que representa em campo, quer a sua essência individual.
Em ambos os casos, fala-se em criar hábitos sem os tornar mecânicos. Fala-se em colocar a criatividade na tarefa que se tem de cumprir. O treinador ou o realizador definem o guião. O jogador ou o actor descobrem o caminho.
Luís Freitas Lobo in Planeta do Futebol

Definindo moral...

"Numa operação de razia política, o ministro Bagão Félix (governo Durão Barroso) demitiu de uma assentada todos os dirigentes distritais da segurança social. A justiça determinou agora o direito à indemnização dos "saneados", com base em (discutível) falta de fundamentação das demissões.
Entretanto, os autores da façanha e seus correligionários continuam a debitar bitaites de moralidade política sobre as supostas perseguições políticas alheias. Assim se faz política entre nós..."

Vital Moreira in Causa Nossa

uma certa ideia de cinema


"Os deuses, já se sabe, podem ser muito cruéis. Ou muito irónicos. Primeiro houve o dia 5 de Março de 1953, aquele que juntou na morte Stallin e Prokofiev, o déspota perseguidor e o artista perseguido. Depois aconteceu esse bizarro 11 de Outubro de 1963, quando a notícia do desaparecimento de Édith Piaf provocou um ataque cardíaco fatal a Jean Cocteau (seu velho amigo), lançando a França num "luto duplo". E agora há o 30 de Julho de 2007, o dia em que o cinema do século XX (ou pelo menos uma certa ideia de cinema) chegou ao fim, com a morte sucessiva de Ingmar Bergman e Michelangelo Antonioni."

in DN, 1 Agosto 07